O Militar e a Política

(FOTO: MARCOS CORRÊA/PR)

Por Carlos Alberto dos Santos Cruz*

Todos os militares são eleitores, do soldado/marinheiro ao general-de-exército/brigadeiro/almirante. E todos votam com total liberdade de escolha nos seus candidatos e partidos de preferência. É o exercício da cidadania, na mais absoluta liberdade. É um dos pontos altos da democracia. É quando cada cidadão, em seu voto e por seu voto, vale o mesmo, independente de qualquer consideração de classe social, credo, etnia, etc. Mas a democracia é mais que isso. É também o funcionamento harmônico das instituições. É também a liberdade de imprensa e de associação. É também um processo coletivo de construção, a partir da diversidade da nossa sociedade, de um País mais justo, próspero e tolerante.

Na cultura militar, não existe propaganda nem discussão política sobre preferência de candidatos e partidos dentro dos quartéis. Quando o cidadão coloca a farda e representa a instituição, ele tem compromisso institucional e constitucional. Seu compromisso é com a Nação.

As Forças Armadas são instituições permanentes do Estado brasileiro e não participam nem se confundem com governos, que são passageiros, com projetos de poder, com disputas partidárias, com discussões e disputas entre Poderes ou autoridades, que naturalmente buscam definir seus espaços e limites. No jogo político, muitas vezes os atores são levados por interesses de curto prazo, influenciados por emoções, limitados por suas convicções. Isso é normal no ambiente democrático.

O militar da reserva, seja qual for a função que ocupa, não representa a instituição militar.  O desempenho de qualquer função, quando o militar está na reserva, é de responsabilidade pessoal. As instituições militares são representadas pelos seus comandantes, que são pessoas de longa vida militar e passaram por inúmeras avaliações durante a vida profissional, seguramente escolhidos entre os melhores do seu universo de escolha. O processo seletivo acontece em todos os níveis, desde a escolha de soldados para o Curso de Formação de Cabo até a promoção para general-de-exército. A estrutura hierárquica e a conduta disciplinar são baseadas no exemplo, no respeito, na liberdade de expressão e na união de todos. A união é que realmente faz a força. Mesmo com orçamento reduzido, basta entrar em qualquer instalação para ver a educação, a dedicação e o zelo com que o patrimônio público é mantido e administrado.

As Forças Armadas estão presentes na história do Brasil, na defesa da pátria, na pacificação do país, na educação, na ciência, na construção, no desenvolvimento, etc, e até mesmo na política, em tempos passados, com todos os riscos, responsabilidades e desgastes inerentes a isso. Não por acaso, foi justamente no regime militar que as FA decidiram, acertadamente, sair da política e ater-se ao profissionalismo de suas funções constitucionais. As FA também são responsáveis por terem contribuído para o Brasil, com todos os problemas que temos, ser um dos dez maiores países do mundo. O país evoluiu e as Forças Armadas continuam presentes na defesa da pátria, nas diversas  situações em que são chamadas para auxiliar a população em emergências e em apoio a algumas políticas de governo. Suas tarefas estão estabelecidas na Constituição – defender a pátria e garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem. O prestígio e a admiração que a sociedade lhes dedica foram construídos com sacrifício, trabalho e profissionalismo.

Nesse período, a democracia brasileira evoluiu e se consolidou. Temos um governo e um Congresso legitimamente eleitos, e as instituições funcionando. Os Poderes não são perfeitos, como é normal. Nunca serão, já que são feitos de homens, não de anjos. Democracia se faz com instituições fortes, buscando permanentemente o seu aperfeiçoamento. No Brasil, existe legislação que permite o aperfeiçoamento das instituições e práticas políticas. As discordâncias e conflitos não estão impedindo o funcionamento das instituições. A busca da harmonia é obrigatória aos três Poderes. É uma obrigação constitucional. As diferenças, o jogo de pressões e as tensões são normais na democracia e as disputas precisam ocorrer em regime de liberdade, de respeito e dentro da lei. Por isso mesmo, a Constituição Federal se sobrepõe aos três Poderes da República para limitar seu emprego, para disciplinar seu exercício. É nesse processo que os três Poderes moderam sua atuação, encontram seus limites e definem as condições de emprego dos demais instrumentos do Estado, inclusive as Forças Armadas, na implementação de políticas públicas.

As Forças Armadas, por serem instituições de Estado, não devem fazer parte da dinâmica de assuntos de rotina política. A dinâmica de governo não é compatível com as características da vida militar. Os militares são unidos, os comandantes são preparados, esclarecidos e mantêm o foco na sua missão constitucional.

As FA são instituições que não participam de disputas partidárias, de assuntos de rotina de governo, de assuntos do “varejo”.

Nas últimas décadas, as FA cruzaram momentos de hiperinflação, impeachment de presidentes, escândalos de corrupção, revezamento de governos com características diversas, sempre com posicionamento profissional, auxiliando a população, atentas à sua destinação constitucional, contribuindo para o prestígio internacional do País. É um histórico de orgulho do povo brasileiro e das próprias instituições. Por isso mesmo, creio que não se deixarão tragar e atrair por disputas políticas nem por objetivos pessoais, de grupos ou partidários.

Acenos políticos não arranham esse bloco monolítico que é formado por pessoas esclarecidas e idealistas, comprometidas com o Estado e com a Nação, que integram uma das instituições mais admiradas pelo povo brasileiro.

* É ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência

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O bolsonarismo é muito mais do que uma máquina de notícias falsas

Por Ronaldo Pagotto*

É preciso chamar as coisas pelo seu nome. Mas só nominar não basta. É preciso compreender como funcionam e suas bases de estruturação, especialmente se queremos (precisamos) derrotá-las.

A ascensão de forças neofascistas tem sido um dos aspectos mais assustadores da conjuntura brasileira e da profunda crise de múltiplas dimensões que estamos vivendo. No centro a crise do capitalismo é geradora de um quadro em que as forças mais atrasadas se lançam para disputar a sociedade.

A designação como neofascista é um tema recorrente, mas não é demais abordar. É uma designação que considera parte das forças políticas da direita com os mesmos métodos daquelas experiências fascistas nascidas nas crises no século XX. Mas não só isso. É distinta. Ainda está em desenvolvimento e não alcança os contornos das experiências do passado, especialmente a presença de um forte movimento ultraconservador de massas. E isso ainda não há.

A superação da etapa de como chamar essa força e fenômeno político em curso exige passar para o tema de compreender o seu modus operandi. E não basta resumir a uma máquina de notícias falsas. Isso é uma parte da engenharia do caos bolsonarista em uma referência do italiano Giuliano da Empoli.

A arquitetura da força bolsonarista é muito sofisticada. Científica. Combina, como na realidade, caos e ordem e sem compreender isso o nosso diagnóstico nos levará a erros graves. Uma advertência precisa ser feita: sofisticada não significa impecável ou uma fórmula imbatível. Significa só que precisamos superar as visões de que se trata de um método baseado nas notícias falsas circulando em grande amplitude. Não é essa “Brastemp”, mas é eficiente para disputar e por isso é importante compreender sua sofisticação.

Sobre essa engenharia complexa e sofisticada, apresentamos doze principais pilares para sua sustentação:

Primeiro: a democracia brasileira tem sido incapaz de enfrentar os graves problemas brasileiros. Um país com a maior desigualdade social do mundo e uma das maiores concentrações de renda e riqueza. Dentre muitos outros. A crise econômica atual é um aditivo importante para que essa democracia seja objeto de questionamento, desconfiança, crítica e até mesmo desprezo. Para grande parte do Brasil as conquistas advindas dos governos liderados pelo PT foram fruto do trabalho ou de graça divina. Nem quando ela cumpre um papel na vida real a percepção é distinta. Há um desapego a essa conquista e promessa de meio para enfrentar os grandes problemas e o bolsonarismo usa isso.

Segundo: a utilidade do ceticismo. Pessoas estimuladas a não acreditarem em nada e a contestar notícias, grande imprensa, estado e demais instituições. Não sem auxílio dos desacreditados, com destaque para a grande imprensa, que é useira e vezeira em desinformar e manipular a opinião pública. Isso facilita a construção do ceticismo. E essa pessoa que não acredita em nada é um perfil muito útil para ser manipulado pelas emoções, pelo medo, pelos estímulos direcionados a partir dos grupos são os caminhos para manipular as pessoas. Para isso o estímulo permanente a descrença, descrédito das instituições e até mesmo da ciência. Tem bases aparentemente irracionais, mas são claramente um método útil para manipular a população.

Terceiro: não te convenço de uma ideia, mas te mostro que as outras são falsas saídas , assim como as lideranças e organizações. Não há apresentação de uma proposta de conjunto para o Brasil e os graves problemas, mas sim um apanhado de proposições costuradas com linha frágil e em grande medida são medidas reativas: menos estado na economia, contra o politicamente correto, contra os ataques a família, Deus, as tradições e outros. A força da mensagem é um aspecto importante da capacidade da disputa política. E as organizações políticas expressam a mensagem por ações e sobretudo por suas lideranças. Atacar e destruir a imagem de figuras públicas e as organizações políticas é parte desse método. Antes de conquistar a simpatia para propostas concretas apresenta contra o quê se luta e quem deve ser destruído. Cotidianamente figuras como Lula, Dilma, Haddad, Ciro e Boulos são atacados para alavancar a rejeição a eles. Por ela se alcança a rejeição das propostas vinda deles e de suas organizações. É uma estratégia muito mais eficaz do que silenciar os opositores porque tira da mensagem qualquer sentido em razão da rejeição racional e irracional construída sobre as pessoas e organizações políticas.

Quarto: a velha manipulação de massas. De Marx a Willian Reich as ideias hegemônicas da sociedade são sempre as ideias das classes dominantes. A manipulação é um estágio mais agudo dessa dominação e no quadro atual alcança níveis impressionantes. Por óbvio que isso não é sem esforços para contestação e contraditório, mas todos os esforços são muito inferiores ao necessário para enfrentar essa hegemonia conservadora. E a manipulação conjuga sempre emoção e razão e isso é parte da mensagem do bolsonarismo sempre. Não é um apelo a racionalidade, mas sim busca dialogar com as emoções e sentimentos. Isso é uma das lições da experiência de comunicação fascista e se baseia na comunicação buscando o emocional como caminho para o subconsciente para a alimentar ideias, sonhos, o desejo, medos, impulsos ou comportamentos.

O papel é chamar a atenção das pessoas para algo e não informar ou educar.

Quinto: alimentar fantasmas e medos. Uma sociedade é mais vulnerável politicamente se guia sua ação e ideias pelo medo, pela premência do fim, da morte etc. O medo é útil por induzir as pessoas a aceitarem coisas absurdas em nome de um combate a essa ameaça. A revolução, o comunismo e o sistema são os alvos corriqueiros e diariamente circulam pelos dutos da agitação e propaganda bolsonaristas.

A comunicação sempre contém a informação de um risco eminente, uma ameaça. Isso é mobilizador de paixões, do desespero e da permissividade. Esse “lugar” induzido pelo medo pode aceitar execuções sumárias, repressão, golpes e genocídios.

Sexto: demagogia com o “uso” dos quatro temas populares: pátria, família, corrupção e Deus. Esses temas são parte da adaptação do tema ao Brasil do século XXI. Diante dos grandes dilemas e em meio a uma crise de dimensões inédita nos últimos 100 anos pelo menos o olhar para o futuro pode ser inquietante e até mesmo perturbador. Essa inquietude e perturbação pode ser a base de uma indignação e revolta e indignação. Por isso precisa capturar temas centrais para as amplas massas, especialmente as camadas mais populares, para usar na disputa. E são quatro pontos para isso: a suposta defesa do Brasil contras os inimigos externos (que contam com a conivência de traidores internos), a defesa da família e das tradições, da obediência a Deus e do combate a política para enriquecimento pessoal e não para fazer “o bem”.

Os temas são capturados para, inclusive, dar conteúdo contraditório a sua defesa. Defendem a pátria com propostas de entrega das riquezas, a família com medidas puramente demagógicas, a Deus como um amparo onipresente ao projeto e contra os ateístas comunistas e religiões profanadores da fé, ou seja, definem o que é ser fiel e o tema da corrupção como a demagogia em estado puro.

A projeção do futuro é um olhar saudoso do passado, das velhas tradições, costumes e formas de pensar. Essa utopia de retrovisor funciona como um antídoto para não lidar com os problemas atuais e permite um horizonte futuro como uma continuidade do presente e suas mazelas. É a utopia sem conteúdo utópico ou, como queiramos, é a naturalização dos grandes problemas nacionais.

Setimo: a lógica do inimigo interno e a dinâmica da guerra. A mensagem tem um eixo padrão nesses dois temas e sempre apresenta inimigos internos e externos e governar seria conduzir uma guerra. Na mensagem os inimigos externos são o “Sistema” para tratar de maneira imprecisa das instituições multilaterais e de sustentação do capitalismo. E os internos são os de sempre: ameaça comunista, ameaça da guerra civil, centralmente os movimentos populares do MST, MTST e CUT. A dinâmica da guerra é muito nítida nas comunicações oficiais. Todo dia tem uma ameaça de golpe, de controle do governo, de derrubar e outros. Não passa um dia sem mensagens mobilizando a turma diante desse pilar muito consistente para garantir engajamentos e sacrifícios para defender o governo eleito.

Oitavo: o inimigo luta com regras, o neofascismo não. O padrão da luta de classes no Brasil e nos países de origem colonial é distinto. Por essas paragens a luta sempre foi uma combinação de força e convencimento, mas sempre com desequilíbrio para maior peso da força. Mas os padrões do neofascismo é totalmente diferente. Não respeita regras, existentes até mesmo para guerras, e subverte tudo. É uma força que combina a iniciativa por dentro e por fora das instituições. Governa e negocia com os partidos e organiza manifestações pedindo intervenção militar e o AI-5.

A dinâmica da luta é distinta em razão da natureza da força. O neofascismo é um projeto totalitário e não respeita limites, pactos sociais, políticos e jurídicos. É a lógica da subversão de tudo e usando todos os meios e caminhos. A lógica é uma só: vencer o que chamam de guerra.

A produção e veiculação de noticias falsas é uma das demonstrações mais cabais da ausência de limites e desrespeito a qualquer regras. São verdadeiros vertedouros de notícias falsas e isso está na base da ascensão do neofascismo, mas, o que esse artigo pretende demonstrar, as notícias falsas são parte do sistema e não o centro dele. O centro é a engenharia de organização, agitação e propaganda.

Nono: uma rede eficaz de organização, agitação e propaganda. A rede bolsonarista vem sendo construída desde os impasses de junho de 2013 e as eleições turbulentas de 2014. Com uma divisão clara de papeis essa rede é capaz de organizar a ação de milhares de pessoas todos os dias. É uma imensa capacidade de engajamento e organização.

As redes abertas como FB, YouTube e Instagram são espaços para propaganda de ideias. Figuras são destacadas e dezenas de pequenas organizações cuidam de amplificar essas ações. Sempre simplificando tudo, tratando o governo sempre sob ameaça e os inimigos sempre operando para derrubá-lo. A máquina é muito potente e alcança milhões de espectadores com mensagens para o engajamento político. Não é para que as pessoas pensem como o presidente, mas sejam capazes de defendê-lo com argumentos.

As redes fechadas são o Telegram e o WhatsApp e cuidam da orientação prática, da linha de ação e orientar concretamente a ação. São milhares de grupos com dezenas de milhares de pessoas sempre com mensagens dentro dos eixos aqui apresentados. Sempre adaptando os grupos a partir do público, com muita vigilância para conter ações que eles chamam de esquerdistas (todo e qualquer pergunta ou mísera crítica é tratada assim), para blindar os grupos de qualquer disputa. Nesse terreno secreto e só possível de participar por meio das iniciativas deles, que sempre conta com o apoio da vaidade em que os administradores (que é uma função política) apresentam uma coleção de grupos e sua imensa base. Para ampliar isso divulgam os convites e constroem os grupos amplamente, permitindo a entrada para observar e, quando muito, explorar algumas contradições internas.

E o Twitter é o campo de organização da ação, a linha de comando e o esforço para disputar a presença via iniciativas diárias desde antes das eleições de 2018 e ininterruptas. Com muita automação (robôs) para amplificar o alcance das ações e dar uma percepção de maior presença nas redes. Essas ações combinando a rede orgânica de militantes e os rôbos é algo muito potente e numa crescente.

Décimo: lições da educação popular: partir dos problemas reais para soluções falsas. A rede não discute projeto nacional, grandes problemas abstratos, debates intensos ou tem mensagens muito sofisticadas. Toda a ação de agitação e propaganda parte dos problemas simples e comezinhos e as propostas e soluções são igualmente simples. Não tem formulação de fôlego, muito menos teses, livros ou simpatia pelo método científico. Os livros mais populares são os de síntese e quase em formato de um agrupado de tuitadas.

Nesse tema o bolsonarismo se diferencia da esquerda, da direita tradicional e da grande mídia. Esses campos debatem grandes temas, ainda que com diferenças, mas tem debates mais profundos e formuladores. A direita se construiu com grandes referencias de formulação, mas estão fora de uso. São coisas do passado. O que seria uma figura de maior formulação é o astrólogo Olavo e uma meninada de “influencers” sempre com mensagens com a profundidade de um pires. Tudo é do simples para o simples. Com raciocínios breves e muito compreensíveis, com referências as lições da comunicação de massas: a agitação e propaganda deve ser feita a partir do nível de compreensão, abstração e intelectual da base da sociedade.

Décimo primeiro: os políticos escondem os interesses em fraseologia social. Nós falamos o simples e o direto, mesmo que isso seja duro. Isso é um antídoto para a rudeza dessas figuras, destoando do padrão de debates mais polidos e mesmo duros com algum decoro. Essa turma não tem isso. E acusam os “políticos” de usarem a fraseologia para esconder os reais interesses e passam uma ideia de que a mensagem simples das referencias do bolsonarismo como demonstração de que são do povo, são simples, não mentem e não mudaram com a política. Há um esforço de parecer verdadeiro com essa mensagem e isso é forte na própria figura do Jair Bolsonaro.

Há inclusive uma mensagem que encoraja o público e os engajados a se colocarem sem medo e que o desconhecimento, o uso de palavreado chulo, os preconceitos, a discriminação, etc não são problemas ou motivos para qualquer inibição. Que a vulgaridade floresça sem freios e controles dos padrões que seriam de uma elite política corrupta e só preocupada consigo.

Décimo segundo: as redes sociais e a dinâmica estímulo – resposta – estímulo novo…A política da atualidade se estrutura na análise de meta dados e isso precisa ser muito considerado. O bolsonarismo não entra em conflito com o que o povo pensa e o senso comum. Ele parte desse quadro e dialoga com esse pensamento. E o faz com amparo em um trabalho de redes e análises de dados que permitem mensurar a reação de milhões de pessoas diante dos problemas e de estímulos. Com essas informações o bolsonarismo constrói mensagens diárias, algumas incompreensíveis, já que aos olhos de quem busca compreendê-las utilizando o referencial do passado essa comunicação é incompreensível. Por que falar em tomada de três pinos no meio de uma reunião tensa? Ou falar de assuntos como aborto ou os pontos da carteira de habilitação em meio a uma pandemia?

A resposta está no formato de comunicação do guru Steve Bannon e da Cambridge Analytics. Nessa elaboração a sociedade é mapeada, as interações públicas são medidas, a reação a estímulos são mensurados tudo para organizar um padrão de comunicação para grandes grupos de perfis. A mensagem é submetida ao público, os resultados são observados e isso serve para o aprimoramento dos temas e propostas.

Esse quadro é um aditivo importante para a política. O que há pouco mais de uma década só seria conhecido com caríssimas e demoradas pesquisas de opinião ou no trabalho popular agora são produzidas em formatos simples e diários. É como se a sociedade estivesse sendo medida e monitorada o tempo todo. E está. E esses dados são a base para a criação de ações de propaganda, para a mensagem ser enraizada nos problemas do povo e guiadas por certeiros indicadores de opinião. Há aqui uma certa matemática ou ciência exata dentro da política e das ações. Novos tempos.

É importante repisar: não estamos tratando desse sofisticado sistema para passar uma idéia do que ele não é. Não estamos falando de um sistema indestrutível. Mas também não é mais um campo político dentro da fauna brasileira e a vitória em 2018 como parte de uma normal alternância de projetos e representantes. É muito mais do que isso. Se hoje esse sistema já se apresenta com esse grau de complexidade a cada dia ele se torna mais forte. E só será desmontado se for derrotado, isolado e suas frações radicais neutralizadas. É um projeto de poder para décadas. Com fascismo não se brinca, nem se menospreza. Se derrota.

*É advogado, integra a Consulta Popular e o Projeto Brasil Popular.

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Quem Quer as Hemorroidas do Povo?

Bolsonaro aposta da ilusão de que defende anseios populares (Foto: Joedson Alves/gência EFE Brasil)

Por Marcelo Zero

Em sua característica linguagem castiça, o presidente Bolsonaro afirmou, na latrina de caserna em que se transformou o Palácio do Planalto, que “eles querem nossas hemorroidas”.

O, por assim dizer, pensamento do presidente é tortuoso e de difícil exegese. Porém, no contexto das miasmas externadas na surreal reunião tornada pública, é razoável supor que por “eles” o supremo capitão estivesse se referindo aos “comunistas”, que, após mais de três décadas da queda do Muro de Berlin e mais de seis décadas depois do macartismo, ainda teimam em conspirar para implantar uma ditadura nestas paragens tropicais.

Afinal, no mundo delirante e submerso em fake news do fascismo bolsonarista tudo é possível. Conspirações comunistas, marxismo cultural, globalismo maléfico, mamadeiras de pênis, terra plana e drogas miraculosas não cientificamente testadas para outros usos, como a cloroquina. O astrólogo da Virgínia, maravilha da intelectualidade tupiniquim, atesta.

Nesse mundo de delirantes fantasias ideológicas, avulta a fantasia singular de que o governo Bolsonaro apoia os interesses populares contra as elites e os políticos corruptos.

Com efeito, em toda a reunião o presidente e ministros reservaram a si mesmos o surpreendente papel de “defensores do povo”.

Nós somos “diferentes”, chegou afirmar o ministro Guedes, egresso das fileiras de organizações populares que defendem o rentismo do proletariado e do campesinato.

Bolsonaro, povero capitão que ingressou com toda sua família no mundo da política, se viu obrigado a fazer “rachadinhas” e a ingressar no doce mundo achocolatado das milícias, já que seus parcos vencimentos de deputado federal não conseguiam satisfazer seu apetite voraz de “atleta”. Uma tragédia popular, sem dúvida.

Weintraub, nosso fulgurante Gene Kelly, disse, confundindo cidade com relações políticas, como muitos, que odeia a Brasília afastada do povo (como se a cidade não tivesse povo) e que colocaria todos esses “vagabundos” na cadeia, a começar pelos ministros do STF. Um homem do povo, semelhante

àqueles que habitavam os subúrbios da Alemanha, nas décadas de 1920 e 1930. Só falta o uniforme das Sturmabteilung (SA).

Contudo, apesar dessa fantasia coletiva de serem gente “diferente”, que defende os interesses do povo brasileiro, o que dizem e, sobretudo, o que fazem indicam o oposto.

Na realidade, para ficar no mesmo nível argumentativo dos “diferenciados” da latrina palaciana, Bolsonaro e sua “coproequipe” de anões desbocados e incompetentes querem mesmo é ir com tudo nas doloridas hemorroidas do povo do Brasil.

De preferência, armados. Armados contra a população, que não tem dinheiro para comprar armas e pode apenas vender sua força de trabalho para os “diferentes”. Querem armas para formar milícias e escravizar o povo. Só faltam as vistosas camisas negras de Mussolini, que poderão ser eventualmente substituídas por camisetas da CBF.

O capitão protervo e sua turma de boçais foram colocados lá para isso mesmo. Essa é a missão política que justifica sua malcheirosa existência e sua presença hedionda no poder.

Guedes, que leu Keynes três vezes sem conseguir entender uma vírgula sequer, façanha intelectual de vulto, considerando-se a clareza de pensamento do Lorde do King`s College, resumiu bem os objetivos.

O negócio é reduzir substancialmente o papel do Estado, aniquilar direitos sociais, sucatear serviços públicos e aumentar as desigualdades, a pobreza e a precariedade laboral.

O negócio é colocar os custos da crise, que se arrastra há anos, nas costas, ou nas hemorroidas, dos trabalhadores, dos aposentados, dos funcionários públicos e da população que necessita de serviços públicos.

Agora mesmo, vão tentar ampliar a redução dos direitos trabalhistas com o projeto da carteira verde e amarela, cheio de cores, mas vazia de direitos. Ademais, Guedes confessou, na reunião, que colocou uma bomba no bolso dos funcionários públicos, seus “inimigos”.

Ante essa sociopatia econômica e política, entende-se a indiferença com relação à tragédia da saúde humana criada pela pandemia, ignorada na reunião, e o desprezo pela saúde do meio ambiente, a ser atropelada pela “boiada” proposta pelo ministro Salles, atitude que vais nos custar muito caro, em termos comerciais e econômicos e políticos.

Outra atitude que vai nos custar muito caro foram as absurdas agressões à China, nosso principal parceiro comercial, com o qual estabelecemos frutíferas relações bilaterais desde 1974, no governo “comunista” do general Geisel.

Mas afinal, nada, nem mesmo a vida dos brasileiros pobres, pode atrapalhar o “ambiente de negócios”. Dado o evidente corte social, racial e etário dos afetados pelo Covid-19, é melhor deixar a seleção natural seguir seu curso, de forma a promover salutar eugenia da raça e conveniente eliminação de gente inativa e inútil.

No entanto, se o povo e o planeta merecem indiferença, o destino da família palaciana merece a irrestrita solidariedade de máquina governamental.

Aliás, a reunião foi convocada para esse exato propósito: fazer com que não apenas a Política Federal, mas todo o aparelho de Estado proteja o capitão, filho, sobrinhos e demais das investigações sobre “rachadinhas”, lavagem de dinheiro, articulação com criminosos agrupamentos milicianos, interferências na Polícia Federal etc.

A reunião demonstrou claramente que o capitão está, por assim dizer, com as “hemorroidas na mão”, crescentemente isolado e com a popularidade em queda. Nessas circunstâncias, o capitão, encurralado, ataca. Tudo e todos. Ataca a razão, a ciência, a Constituição, o STF, o Congresso, a democracia, a vida etc. Tudo para tentar permanecer politicamente vivo, com o apoio daqueles que querem reabrir a economia a qualquer custo. A morte (dos outros) lhe cai bem.

O capitão está se tornando, cada vez mais, um inconveniente para os poderosos interesses nacionais e internacionais que o colocaram lá. Sua incompetência monumental e a sujeira que arrastra atrás de si o tornaram disfuncional.

É ingênuo pensar, porém, que tais interesses estão realmente preocupados com a restauração da democracia brasileira e com o destino do povo do Brasil.

A bem da verdade, eles desejam que a agenda antipopular e autoritária continue, porém de forma mais discreta e eficiente.

Nesse sentido, o bolsonarismo é o perigoso inimigo tático imediato da democracia e dos interesses populares, mas o ultraneoliberalismo é o grande adversário estratégico.

Ambos querem, talvez com métodos distintos, as hemorroidas do povo.

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Apelo internacional em defesa dos povos indígenas

RN tem comunidades indígenas (foto: web/autor não identificado)

Por Jean Paul Prates*

A intolerância do governo Bolsonaro ameaça a sobrevivência das 13 comunidades indígenas presentes no Rio Grande do Norte.

Habitadas pelas etnias Tapuia e Potiguara, essas comunidades estão entre as 724 que, Brasil afora, aguardam a demarcação de seu território, sob a pressão constante de madeireiros, ruralistas, garimpeiros, jagunços, milicianos e outras expressões da violência que, há 520 anos, ameaçam os primeiros donos do nosso território.

É uma realidade ainda mais perversa do que a enfrentada nas 487 terras indígenas homologadas e reservadas, que não estão livres do assédio, mas ao menos dispõem de um instrumento legal para tentar proteger seu território.

No Rio Grande do Norte não temos terras indígenas demarcadas e apenas a comunidade de Sagi/Trabandaem, em Baía Formosa, conta com um processo de reconhecimento e demarcação nas mãos da Funai, ainda em estágio muito inicial.

No nosso estado, é particularmente preocupante a situação das comunidades indígenas Tapará, no município de Macaíba, e Katu, em Canguaretama, que vêm sendo sistematicamente acossadas por usineiros de cana de açúcar que tentam desalojá-las à força, promovendo queimadas no entorno das aldeias.

É em favor dessas comunidades que venho articulando entidades da sociedade civil, antropólogos, indigenistas e democratas para formalizar um apelo aos organismos das Nações Unidas que acompanham e arbitram sobre a causa indígena.

Na nossa primeira reunião, em fevereiro deste ano, fiquei particularmente tocado ao ouvir do Cacique Luiz, da Comunidade Katu, que ele esperava há 20 anos por uma iniciativa como essa.

Tomamos a decisão de apelar aos organismos da ONU ainda antes de esgotar as tentativas de solução interna por falta de respostas aos esforços das duas comunidades para obter respostas das autoridades brasileiras.
A política indigenista do Estado Brasileiro está desmontada. A FUNAI sofre com cortes orçamentários e ingerência política — não esqueçamos que um dos primeiros atos deste governo, ainda no dia da posse, foi tentar transferir esse organismo para o Ministério da Agricultura, submetendo-o aos interesses do agronegócio.

Levar a denúncia e apelo para os organismos internacionais é o recurso do qual dispomos neste instante. Vivemos hoje no Brasil uma situação especialmente ameaçadora às comunidades tradicionais.
Desde a campanha eleitoral, Bolsonaro vem assegurando que “não haverá um centímetro de terra demarcada” nem para os indígenas, nem para os quilombolas.
Essas comunidades já são especialmente vulneráveis por viverem uma cultura diversa da dominante. Exercitam — e têm este direito — outros modos de estar no mundo, de produzir, de se relacionar com o ambiente. São donas de seus próprios saberes e fazeres.

Sob um governo Bolsonaro, o risco a esses grupos sociais é potencializado ao limite da pura e simples extinção física. Não apenas das comunidades, frequentemente ameaçadas de desalojamento e dispersão, mas dos próprios indivíduos, permanentemente submetidos ao cerco, à violência, à agressão e ao assassinato.

Explicar à ignorância, à intolerância e ao fanatismo eurocêntrico que há outros modos de viver que não o da sociedade dominante é uma tarefa cada vez mais difícil.

O Estado Brasileiro, que um dia gestou um Rondon, hoje está controlado pelos que advogam a passagem do trator, aparando todas as expressões de diversidade cultural.

Nunca é demais lembrar que, ainda candidato, Bolsonaro clamava pela “obrigação das minorias se submeterem à maioria” — uma maioria que ele define qual seja, por sinal.

Causa asco, mas não espanto, que o atual ministro Educação sinta-se à vontade para dizer que “odeia a expressão ‘povos indígenas”. Causa repulsa, mas não surpresa, que o titular do Ministério do Meio Ambiente sugira que se aproveite “a tranquilidade” decorrente da pandemia — esta mesma pandemia que já matou 25 mil brasileiros — para “passar com a boiada” sobre a Mata Atlântica, a Floresta Amazônica, os povos indígenas e o patrimônio histórico e cultural do País.

As comunidades indígenas do Nordeste vivem uma situação especialmente alarmante, confrontadas com a possibilidade concreta de extinção e até pela negação de seu reconhecimento.
Apesar dos esforços para ampliar a demarcação de terras indígenas em governos anteriores — notadamente nos governos Lula e Dilma — o Nordeste responde por apenas 11 % do território indígena demarcado no País.
Hoje, enfrentamos mais um obstáculo, que é a pendência em torno do Parecer Normativo da Advocacia-Geral da União (AGU) que pretende estabelecer um marco temporal para o direito à terra dos habitantes originais deste País.
Segundo esse parecer da AGU, suspenso por liminar do ministro Luiz Roberto Fachin, a condição para que uma comunidade indígena requeira o direito sobre um território é que esse grupo já estivesse na terra reivindicada antes de 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição.
O julgamento dessa questão chegou a ser iniciado, em Plenário Virtual do Supremo Tribunal Federal, mas acabou adiado para depois da pandemia, quando será apreciado presencialmente pelos integrantes daquela Corte.
Enquanto isso, as comunidades indígenas do meu estado e outras 711 em todo o País permanecem na incerteza.
O Rio Grande do Norte carrega a marca do massacre da Confederação dos Cariris (1682-1713). Esse movimento, protagonizado pelos Kiriris, impôs 30 anos de resistência indígena à ocupação portuguesa de seu território e à escravização de seu povo. A razia final imposta por militares portugueses levou, erroneamente, à crença de que não haveria povos indígenas remanescentes no nosso estado.
Mas 13 comunidades indígenas — Apodi, Caboclos, assentamento Marajó, Amarelão, Serrote de São Bento, Açucena, Assentamento Santa Terezinha, Cachoeira/Nova Descoberta, Tapará, Lagoa Grande, Lagoa do Mato, Katu e Sagi/Trabanda — desafiam e desmentem a extinção.
É urgente a demarcação dessas áreas, assegurando às comunidades a proteção legal a seu território e o reconhecimento de direitos ancestrais.

*É senador pelo RN.

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Por que quero ser reitora 1 (Por Ludimilla Oliveira)

Imagem: Youtube/reprodução

Por Ludimilla Oliveira*

A Universidade é um espaço de sonhos, de esperança, de transformação e crescimento na vida das pessoas!

Aos 44 anos, sou uma mossoroense oriunda de uma família simples, mas que sempre acreditou na educação como um caminho capaz de mudar a realidade social.

Estudei em Escolas públicas, aos 16 anos casei, fui mãe e segui uma trajetória de vida pautada na luta, sempre acreditandoem dias melhores.

Ingressei aos 17 anos na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte –UERN, no curso de Economia precisei parar e só continuar 07 anos depois, já no curso de Serviço Social. Estudar, enfrentando os problemas domésticos e sendo professora de aula particular, foram minha rotina sem nunca enterrar meus sonhos.

Viver a Universidade ao longo dos anos durante a graduação, especialização, mestrado e doutorado, foi também acompanhar a desistência de muitas jovens da minha idade naquela época da caminhada, em função das dificuldades sociais e econômicas,e outras pela maternidade. Então, fui levada a refletir que podia fazer mais pela juventude, se eu consegui, outros conseguirão. Afinal é possível, viver dias melhores, construir sua própria história e ser uma mulher com espaço na sociedade!

Os passos dados me levaram a ser professora de uma Universidade Federal com uma diferença: conheço a trajetória dos que saem da Escola Pública. Por isso, quero a partir dessa oportunidade ser uma Reitora que vai trabalhar pela valorização, pela inclusão e pelo fortalecimento desses jovens. Assim como, atuar com ética, respeito, compromisso e comprometimento com a causa pública e coletiva.

É nossa missão fazer na UFERSA um espaço de educação gratuita, com qualidade nas ações de ensino, pesquisa e extensão com uma gestão democrática de resultados para a sociedade..

*É Professora da Ufersa.

Nota do Blog: o espaço está aberto para outros postulantes enviarem artigos neste formato. A publicação será no próximo domingo.

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Por qualquer motivo

Por Jorge Mota*

Por qualquer motivo
Uma briga
Por qualquer discussão
Uma ferida
Por qualquer tolice falada
Uma intriga

Por qualquer olhar de soslaio
Um questionamento
Por qualquer sorriso aleatório
Um tormento

Por qualquer querer do não querer
Uma interrogação de adultério
Por qualquer noite não amada
Quase um rompimento sério

Por qualquer palavra não compreendida
Um martírio na vida persistente
Por qualquer música executada
Um sentimento diferente

Por qualquer deslize
Um juramento de vingança
Por qualquer destempero
Uma birra de criança

Por qualquer sonho, não revelado
Um alarido estorvante
Por qualquer beijo não dado
Um ciúme asfixiante

Por   uma ternura
Um olhar desconfiado
Como uma censura
De achar que esta sendo enganado
Rejeitando qualquer tipo de afago
Por…

*É funcionário Público Estadual.

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A solidez da nossa democracia

Por General Girão*

Em 24 de maio de 2020 Artigo recentemente publicado em um jornal de São Paulo, de autoria de um pouco conhecido cientista político, analisa a História brasileira nas últimas três décadas e meia para concluir, como título, que a “forte presença militar no Estado reflete fragilidade da democracia no Brasil”. O texto começa discorrendo sobre a posse de José Sarney, em 1985, bem como do papel do então Ministro do Exército e das próprias Forças Armadas na transição e, em seguida, na elaboração da Constituição Federal de 1988. À época no posto de Capitão, vivi e acompanhei, pelo noticiário, cada citado episódio e posso assegurar que há ilações pouco consistentes em diversos pontos. É descabida, por exemplo, a “presença marcante” do General Leônidas na redação da Carta Magna, especialmente no que se refere à Polícias Militares.

Insiste o analista que as Polícias Militares permanecem subordinadas ao Exército, o que é absolutamente falso, uma vez que reportam-se, para todos os fins e efeitos, aos respectivos governadores das Unidades da Federação, conforme preconizado por todo o arcabouço vigente. A visão do autor sobre o artigo 142 da Constituição Federal, que refere-se diretamente às Forças Armadas, demonstra mais uma série de equívocos, examinando se podem ou não os militares intervir para garantir os poderes constitucionais. Nesse ponto, é válido lembrar o poema de Charles M. Province (1970), indicando que “É graças aos soldados, e não aos sacerdotes, que podemos ter a religião que desejamos. É graças aos soldados, e não aos jornalistas, que temos liberdade de imprensa (….) É graças aos soldados, e não aos políticos, que podemos votar”. Em qualquer país do mundo, quando ocorre a falência das instituições, ou as Forças Armadas atuam para restaurar o regime ou instala-se o caos, a guerra civil ou invasões estrangeiras.

Depois, afirmando que “as Forças Armadas deixaram o governo, mas não o poder”, o artigo salta para os tempos atuais. Deduzo que ou o autor é deve ter vivido fora do Brasil nas últimas décadas, porque todo cidadão medianamente informado sabe que os militares foram mantidos — e mantiveram-se — totalmente afastados dos principais centros do Poder Executivo e ausentes do Poder Legislativo, em decorrência de leis aprovadas durante o próprio Regime Militar. Sobre o alegado “bunker” do Governo Bolsonaro, nomeando militares para cargos de confiança, é preciso enfatizar que trata-se de militares da reserva ou afastados do serviço ativo, uma vez que a Marinha, o Exército e a Força Aérea permanecem voltados para suas missões constitucionais.

Por outro lado, os militares são reconhecidos como excelentes gestores públicos e conhecedores dos meandros da complexa burocracia estatal, o que os credencia para exercer cargos de confiança. Nunca é demais lembrar que, em recentes governos anteriores, muitos desses cargos foram ocupados por comunistas, ex-guerrilheiros e ex-terroristas, configurando verdadeiras quadrilhas que assaltaram os cofres públicos como “nunca antes na História deste País”. Finalizando, uma leitura acurada da matéria permite afirmar que a verdadeira fragilidade não é característica da democracia brasileira e sim da capacidade de análise do autor.

*É deputado federal pelo Rio Grande do Norte.

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Deus é negro

Frei Betto*

Trago no sangue uma África. O reboar de tambores, a ponta afiada de lanças, os riscos coloridos realçando a pele e, na boca, o gosto atávico dos frutos do Jardim do Éden. Na alma, as cicatrizes abertas de tantos açoites, o grito imperial dos caçadores de gente, os filhos apartados de seus pais e os maridos de suas mulheres, o balanço agônico da travessia do Atlântico e, nos porões, a morte ceifando corpos engolidos pelo mar e triturados pelos dentes afiados dos peixes.

Sou filho de Ogum e Oxalá, devoto de Iemanjá, a quem elevo as oferendas de todas as dores e cores, lágrimas e sabores, o choro inconsolável das senzalas, a carne lanhada de cordas, os pulsos e os tornozelos a ferros, a solidão da raça, o ventre rasgado e engravidado pela feroz pulsão dos senhores da Casa Grande.

Restam-me, na cuia de madeira, as sobras do suíno descarnado e, enquanto a mesa colonial saboreia o lombo, rasgo peles e orelhas, refogo em banha o feijão, fatio em paio as carnes, frito linguiças e torresmos, apimento e condimento, e me empanturro. No alambique, colho a seiva ardente da cana, e me transporto aos ancestrais, às savanas e florestas, ao tempo de imensurável liberdade.

Nas noites de Casa Grande, com capatazes bêbados, enfeito o meu corpo de tinturas e, espelhado no reflexo da Lua, adorno braços e pernas, cubro-me de colares e braçadeiras e, ao som inebriante do batuque, danço, danço, danço, exorcizando tristezas, exconjurando maus espíritos, imprimindo ao movimento de todos os meus membros o impulso irrefreável do voo do espírito.

Sou escravo e, no entanto, senhor de mim mesmo, pois não há ferrolho que me tranque a consciência nem moralismo que me faça encarar o corpo com os olhos da vergonha. Faço do sexo festa, do carinho, liturgia, do amor, bonança, multiplicando a raça na esperança de quem fertiliza sementes. Dou ao senhor novos braços que haverão de derrubá-lo de seu trono.

Comungo a exuberância da natureza, as copas das árvores são meus templos, do fogão de lenha trago as ofertas, em meu ser trafegam, céleres, cavalos alados, e sigo o mapa traçado pelos búzios, que me ensinam que não há dor que sempre dura e o verdadeiro amor perdura. Tão povoado é o céu de minhas crenças que não rejeito nem mesmo a santeria do clero. Antes, reverencio o cavalo de São Jorge, transfiro aos altares a devoção aos meus orixás, lanço ao rio a Virgem negra na fé de que, entre tantas brancas, trazidas no andor do senhor de escravos, chegará o tempo em que a minha será Aparecida e, a seus pés, também os joelhos dos brancos haverão de se dobrar.

Sou liberto e, no fundo das matas, recrio um espaço de liberdade, defendendo com espírito guerreiro o meu reduto de paz. No quilombo, volto à África, resgato a força mistérica do meu idioma, celebro reisados e congadas, o canto livre ecoando no coro da passarada, as águas da cachoeira expurgando-me de todo temor, as árvores em sentinela cobertas de mil olhos vigilantes.

Cidadão brasileiro, ainda luto por alforria, empenhado em abolir preconceitos e discriminações, grilhões forjados na inconsciência e inconsistência dos que insistem em fazer da diferença divergência e ignoram que Deus é também negro.

*É escritor, autor de “Batismo de Sangue” (Rocco), entre outros livros.

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RN ultrapassa 300 mortes por covid-19 e registra mais de 1.800 curados

Sesap apresenta novos números sobre a covid-19 (Foto: Demis Roussos)

O Governo do Rio Grande do Norte anunciou que foram confirmadas mais 37 mortes por covid-19, das quais 11 ocorreram nas últimas 24 horas. Com isso, o Estado chegou a 305 óbitos causados pela doença.

O Estado ainda registra 1.824 pacientes recuperados.

Foram notificados 14.172 considerados suspeitos (menos 734 em relação ao último boletim) e 7.402 casos confirmados (939 a mais do que os casos apresentados ontem).

Na entrevista coletiva concedida hoje na Escola de Governo, o secretário de Estado da Saúde Pública, Cipriano Maia, enfatizou a necessidade de a população se conscientizar e aderir ao isolamento social, para conter a curva do contágio pelo novo coronavírus. “As medidas de proteção são a maneira de proteger a vida e, com isso, fazer valer os decretos, perseguir a meta de redução do contágio e conseguir vislumbrar a retomada das atividades com segurança”, alertou o secretário.

A Subcoordenadora de Vigilância Epidemiológica da Sesap, Alessandra Lucchesi, que apresentou o boletim deste sábado, relatou que a maior incidência da doença está entre os jovens, que são potenciais transmissores para a faixa etária que tem ido a óbito, composta pelo idosos. Segundo ela, o processo de transmissão ainda está ocorrendo de forma acentuada no RN.  “Acreditamos que estamos apenas no início da subida da curva. Os números são cada vez mais preocupantes, mas também refletem a aceleração do diagnóstico do Lacen e da parceria com o Instituto de Medicina Tropical da UFRN, que se somam com os testes rápidos dos municípios”, explicou.

O secretário ressaltou o reconhecimento – pelo Estado – da importância dos trabalhadores da saúde no enfrentamento à pandemia e informou que o Governo pagou hoje a insalubridade no percentual máximo de 40% sobre o salário, retroativo a abril. “Outra ação importante nesse sentido é o programa Acolher Saúde, criado para proteger a saúde dos familiares dos profissionais da saúde que estão na linha de frente. Temos cerca de 30 profissionais hospedados no Hotel Barreira Roxa”, disse.

O titular da Sesap-RN também agradeceu ao programa de âmbito nacional, Todos pela Saúde, que tem protagonismo do Banco Itaú. O Governo fez a adesão e tem recebido apoio na implantação da gestão clínica nos hospitais, nos insumos, equipamentos, testes e EPIs (Equipamentos de Proteção Individual). As unidades que integram o programa são: Hospital Giselda Trigueiro, Hospital da Polícia, Hospital Regional Tarcísio Maia e os regionais de Pau dos Ferros e do Seridó.

Existem 548 pessoas internadas nas redes pública e privada do Rio Grande do Norte, sendo 260 em leitos de UTI e unidades semi-intensivas e 288 em leitos clínicos. A internação de pessoas em estado grave mostra a mudança no perfil da epidemia entre grupos e extratos sociais, pois têm mais pacientes internados de gravidade de 1 e 2 na rede pública, no caso 171, do que na rede privada (89).

A taxa de ocupação é de 97% em Natal e em Mossoró, de 75% em Pau dos Ferros e de 40% no Seridó. A fila da regulação tem 93 pessoas, sendo 31 para leitos críticos. “Hoje o hospital municipal de campanha vai abrir novos leitos, o que vai ajudar a reduzir a pressão da demanda. E também abriremos leitos nas demais regiões do Estado durante a semana”, afirmou Cipriano.

Ele finalizou sua participação na coletiva informando que a retomada da “normalidade” já está planejada pelo Governo do Estado, mas é necessário alcançar metas de ocupação de leitos abaixo de 70%, declínio de casos e de óbitos e redução da taxa de contágio. “Quem está em casa e usa máscara quando precisa sair está contribuindo para a retomada da vida normal. Por isso repito aqui o mantra: ‘fiquem em casa, usem máscara’ e encerro na perspectiva de que esse fim de semana seja bem utilizado para reflexão de toda a população sobre a necessidade do isolamento social”.

 

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Marcha Mundial das Mulheres faz movimentação e pede fora Bolsonaro

A cada 5 anos a Marcha Mundial das Mulheres, movimento feminista que atua em mais de 64 países, realiza uma ação internacional contra as investidas do capital, na defesa da vida, da democracia e por direitos.

Devido à pandemia do novo coronavírus, neste ano de 2020 a ação da Marcha que aconteceria no Brasil, em Natal/RN, aconteceu neste sábado, 30, virtualmente e com ações de solidariedade e luta em torno do Fora Bolsonaro.

Em todo o Brasil as militantes da Marcha Mundial das Mulheres distribuem cestas básicas, máscaras, álcool gel e adesivos Fora Bolsonaro: “Além do vírus, aqui no Brasil enfrentramos um governo anti-povo de um presidente genocida, por isso que a Marcha Mundial das Mulheres exige uma mudança política real com o fim do governo Bolsonaro e novas eleições”, diz Conceição Dantas da Marcha Mundial das Mulheres do RN.

Aqui no RN a Marcha realiza ações de solidariedade, adesivaços Fora Bolsonaro e afixação de faixas por diversas cidades como Natal, Mossoró, Caraúbas, Governador, Messias Targino, entre outras, afirmando a luta das mulheres por um país melhor para todas as pessoas.

Além das ações presenciais, o movimento também está realzando uma transmissão ao vivo em suas redes abordando temas que impactam a vida das mulheres todos os dias. O debate acontecerá com militantes de todo o país.

Confira abaixo:

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