Calendário apertado e desigualdade no acesso a recursos digitais levantam questões sobre data do Enem

Aplicação das provas do ENEM está marcada para novembro (Foto: Isto É)

A aplicação das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) está agendada para o mês de novembro. Mesmo com a pandemia do novo coronavírus, até o momento, o calendário de provas foi mantido, o que pode afetar o desempenho dos estudantes, sobretudo de escolas públicas.

“Eu acho que a gente que estuda em escola pública enfrenta muitas dificuldades, principalmente, nesse momento”, diz a estudante Ravana Aira, de 16 anos.

Ela é aluna do terceiro ano do Ensino Médio da Escola Estadual Ainda Ramalho Cortez Pereira e se prepara para concorrer a uma vaga no curso de Medicina, através do Enem.

Sem ter computador, Ravana enfrenta dificuldades para ter acesso aos conteúdos digitais. “Eu estudo só pelo meu celular”, conta. “Alguns professores doaram bastantes livros”, acrescenta a estudante.

Além disso, ela comenta que em uma casa com muita gente às vezes é difícil até encontrar silêncio. A mudança no dia-a-dia também atrapalhou. “A gente não tem aquela rotina. Muitas vezes acaba até procrastinando”, revela.

Para estudar, Ravana, que está retomando o ritmo, divide com um amigo as mensalidades do plano de um site de estudos e acessa outro canal que liberou o conteúdo gratuitamente durante a pandemia.

Consciente da importância do isolamento social, ela considera que o ENEM deveria ser adiado. “Eu acho muito desumano, principalmente, para quem é de escola pública”, conclui Ravana.

Essa é a defesa que tem sido feita por representantes da pasta relacionada ao assunto no País. “Nós, secretários de Educação, todos, sem exceção, defendemos que se adie essa prova”, afirmou o secretário Estadual de Educação do Rio Grande do Norte, Getúlio Marques.

Até o momento, as provas do Enem estão marcadas para os dias 1º e 8 de novembro – para quem fará as provas no modelo tradicional impresso – e 22 e 29, para candidatos que farão o Enem digital.

De acordo com Getúlio Marques, já foram enviados vários documentos ao Ministério da Educação solicitando a mudança do calendário. Inclusive, na próxima segunda-feira, 04, os secretários devem se reunir com o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) para discutir não só a questão do Enem, como a questão do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB).

Os secretários ainda não têm em mente uma data ideal para a aplicação das provas, mas ele adianta que o ideal é que elas não ocorram antes de dezembro, pois não há tempo para preparar os alunos da rede pública no mesmo nível que os da rede privada.

Além disso, a questão ainda precisa ser discutida com os reitores das universidades, já que serão as instituições a receberem os estudantes.

Além da questão do conteúdo da sala de aula, outro ponto a ser considerado é a desigualdade entre estudantes de escolas públicas e particulares. Getúlio Marques lembra que nas escolas particulares existe uma parcela dos estudantes que não possuem conectividade, porém, nas escolas particulares esse número é muito maior.

Além disso, fora de sala de aulas outras questões interferem no processo de aprendizagem, como a condição das residências, muitas com poucos cômodos e muita gente em casa. Para se ter uma ideia, o secretário de Educação informa que dos cerca de 215 mil alunos do ensino fundamental e médio da rede pública estadual mais de 40 mil são cadastrados no Bolsa Família, o que revela a falta de condições sociais.

Com relação aos alunos do terceiro ano do Ensino Médio, o secretário comenta que eles contavam com os aulões, que vinham sendo oferecidos e que apresentaram resultados positivos no ano passado, mas não estão sendo realizados. De acordo com o secretário, para este ano o objetivo era iniciar os aulões ainda no primeiro semestre.

O secretário destaca o compromisso de professores que, mesmo com a pandemia, estão desenvolvendo trabalhos junto aos alunos.

“Alunos e professores são realmente dedicados, apesar das críticas que se fazem”, diz Getúlio Marques.

Plataformas de acesso gratuito

Getúlio Marques informa que o site da Secretaria Estadual de Educação www.seec.rn.gov.br disponibiliza ferramentas de aprendizagem digital. No site, os alunos podem ter acesso ao conteúdo disponibilizado pela Escola Digital, Escola nas Redes, Clikideia, Google of Education, Colégio Porto e Centro de Aperfeiçoamento de Língua e Linguagem (CALL).

Ele explica que, por meios dos recursos, os professores podem, inclusive, formar suas salas de aula e interagir com os alunos.

A Secretaria estuda formas de aproveitar parte dos acessos, mas para que isso ocorra ainda são necessárias campanhas para divulgação das ferramentas entre os alunos, entre outras medidas, como a publicação de uma normativa para regulamentar o uso das plataformas.

No entanto, Getúlio Marques lembra que isso não pode ser obrigatório, pois ainda tem um grande percentual de pessoas que não têm acesso aos dispositivos.  “A preocupação da gente é mais com os que não tem do que com os que tem”, afirma.

Suspensão das aulas

No Rio Grande do Norte, os alunos estão afastados de sala de aula desde a publicação, em 17 de março, do Decreto 29.524, que, inicialmente, suspendia as atividades escolares por 15 dias. A partir de outras medidas, o prazo de suspensão das aulas vai até 31 de maio. A medida é uma das ações necessárias para minimizar a circulação do coronavírus.

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