Cancela-te a ti mesmo e jamais serás cancelado por outrem

Gregorio Duvivier*

Volta e meia acordo com medo de ter sido cancelado durante a noite. Depois lembro que, pra ser cancelado, é preciso antes ter sido aprovado. Ninguém cancela um serviço que não contratou.

A melhor maneira de ganhar imunidade vitalícia ao cancelamento é jamais ter sido digno de confiança, como tenho sido sem exceções. Cancela-te a ti próprio, diz o filósofo, e jamais serás cancelado por outrem. Tenho a “incancelabilidade” dos irrelevantes.

Mas nem precisa disso, se você nascer no Brasil. Não existe cancela do lado de baixo do Equador. Delfim Netto assinou o AI-5 e depois a Constituição de 1988 —hoje assina colunas de opinião neste jornal e em tantos outros. Há meio século que Silvio Santos faz tudo que está ao seu alcance pra ser cancelado, sem sucesso. Já diz o pagode: “Você sabe o que é cancelar? Nunca vi, nem comi, eu só ouço falar”.

Catarina Bessel – Catarina Bessel

Tenho a impressão de que a tal “cultura do cancelamento” não passa de um mal entendido geracional. Alguém não entendeu que era meme. Meu maior medo de envelhecer não é deixar de enxergar ou de ouvir direito, mas deixar de entender piadas. No dia em que eu fizer um textão refutando um meme, por favor desliguem os aparelhos, ou pelo menos o roteador.

“Eu gostaria de falar com a central do cancelamento?”, diz o meme. Intelectuais gabaritados reagiram com longos artigos críticos a uma suposta cultura do cancelamento. “Só se pode cancelar serviços!”, argumentam, “jamais pessoas!”. Sim! Exatamente! Por isso mesmo é que é engraçado. Se estivessem tentando cancelar a Net, não teria muita graça —e levaria ainda mais tempo.

A ideia de que uma pessoa deveria ser cancelada, além de obviamente humorística, passou a ser ainda mais repetida depois que acadêmicos começaram a dizer que não pode. “Foi meme, sua burra”, diz o meme.

Quem reclama que foi cancelado, geralmente, apenas teve de lidar com críticas —e achou chato. Ao invés de refletir sobre a validade do que ouviu, prefere jogar a culpa no zeitgeist. Em outros tempos culparia a “ditadura do politicamente correto” ou a “patrulha ideológica”.

Toda vez que ouço alguém reclamar que “o mundo tá chato” e que “já não dá pra falar nada” eu me pergunto se a pessoa já ouviu falar na inquisição, no macartismo, no Dops. Nunca deu pra falar tanto, e é exatamente por isso que ela tá ouvindo uma crítica. Quem fala em cultura do cancelamento geralmente tá tentando cancelar alguém.​

*É ator e escritor. Também é um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos.

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