Fátima Bezerra se consolida na liderança em pesquisa Seta, mas indica estagnação nas intenções de voto

Fátima admite candidatura ao Governo (Foto: Tribuna do Norte)
Fátima vai ter que superar estagnação das intenções de voto

A pesquisa Seta divulgada ontem pelo Jornal Agora RN tem um dado que passou despercebido: Fátima Bezerra (PT) não cresceu no comparativo com a última sondagem do Instituto Seta divulgada em março. Está estagnada nos 29,3%.

Os principais adversários Carlos Eduardo Alves (PDT) e Robinson Faria (PSD) cresceram. Se a eleição fosse hoje conforme o Instituto Seta teríamos segundo turno por pequena margem de votos representados em 0,9%. A soma de todos os adversários dá 30,2% contra de 29,2% Fátima Bezerra. Se levarmos em consideração que Kelps Lima (SD) e Eliezer Girão (PSL) não são candidatos ao Governo do Rio Grande do Norte a soma de todos os adversários da petista cai para 25,9%, o que daria a ela a vitória no primeiro turno levando em consideração que os votos nulos e brancos não são válidos.

Em 20 de março, em outro cenário, a soma de todos os candidatos, incluindo os que na época não tinham desistido, era de 24.05% contra 29,56% da senadora. Os crescimentos de Robinson e Carlos Eduardo diminuíram a possibilidade de segundo turno em 2018 conforme o instituto. Ainda não é possível afirmar que existe uma tendência de crescimento dos dois porque é necessária uma nova pesquisa repetindo o avanço.

Esses números indicam, em um primeiro momento, que Fátima está estabilizada na liderança, mas ao mesmo tempo não consegue crescer nas intenções de voto. São dois meses na casa dos 29% enquanto os dois principais adversários cresceram de forma tímida. Digamos que a petista esteja “estagnada na liderança” até segunda ordem.

O desafio para provocar um segundo turno será conquistar os 31,3% de eleitores que dizem não votar em nenhum dos candidatos e convencer os 9,2% de indecisos. Se eles anularem o voto Fátima pode até vencer no primeiro turno.

A formação das alianças será fundamental, principalmente nas cidades menores onde os líderes políticos locais exercem mais influência sobre o eleitorado.

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A causa tem que ser mais importante do que quem faz a greve

Greve dos caminhoneiros é justa. A causa é o mais importante
Greve dos caminhoneiros é justa. A causa é o mais importante

Quando professores param são chamados de vagabundos. Quando o MST bloqueia uma estrada é acusado de criminoso. A esquerda defende os movimentos. A direita detona.

Agora com a paralisação dos caminhoneiros o quadro é diferente. Ninguém os acusa de vagabundos ou criminosos. Muito pelo contrário há um apoio de quase 100% da população. A esquerda peca por não dar um apoio mais incisivo a essa categoria fundamental para o desenvolvimento da nação.

Os caminhoneiros não atrapalham o direito e ir e vir da população e isso faz toda a diferença para que o movimento seja simpático ao gosto popular muito embora as reivindicações da categoria se confundam com os dos patrões provocando suspeitas de loucaute (termo usado para casos em que patrões se aproveitam de protestos dos trabalhadores para tirar proveito da situação), uma prática ilegal.

Num país dividido como o Brasil o que menos importa é a causa. O mais importante é quem defende a causa. Lutar por educação, moradia e terra para plantar é uma causa apropriada pela esquerda. As pessoas que não simpatizam com esse espectro político correm para detonar.

A questão dos caminhoneiros não possui participação dos movimentos sociais ligados aos partidos de esquerda. Logo quem não gosta do MST e CUT os apoia e ainda faz questão de comparar as situações mostrando que os caminhoneiros são mais eficientes em “parar o Brasil”.

Ninguém parece disposto a discutir as causas. A dos caminhoneiros é justa. A dos outros movimentos sociais também é.

Precisei viajar de avião na semana passada e fui prejudicado de alguma forma por causa da paralisação e aceitei de bom grado o sacrifício porque mais importante do que chegar logo em casa é a causa justa que está em discussão no país.

Também não sou ingênuo a ponto de não saber que a luta justa é da categoria e não do país. Parte das reivindicações nos beneficia, mas é preciso separar as coisas. O Governo de Michel Temer está focando a solução em cima dos preços do diesel e não em todos os combustíveis e isso pode ser uma armadilha para mais a frente jogar o povo contra os caminhoneiros. Afinal o cidadão comum usa gasolina ou álcool nos seus veículos.

Os governos são craques em jogar a população contra grevistas. Professores sabem disso muito bem. Em tempos de criminalização dos movimentos sociais a esquerda precisa rever as estratégias e aprender um pouco com os caminhoneiros, mas a parcela da população também precisa entender que mais importante do que quem faz a greve é a causa.

 

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Robinson repete em 2018 a estratégia de Francisco José Junior em 2016

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Robinson segue tática parecida com a de antigo pupilo

Há dois anos, Francisco José Junior reunia em um hotel de Mossoró uma montanha de gente formada por16 partidos e centenas de líderes comunitários que lhe manifestaram apoio. O prefeito mais impopular da história da segunda maior cidade do Rio Grande do Norte tinha certeza de que esse apoio lhe daria competitividade.

Mas a montanha de gente pariu um rato de votos e o então prefeito caiu fora da reeleição de forma melancólica.

Era a velha confusão entre viabilidade política e viabilidade eleitoral que os homens e mulheres públicos fazem. O prefeito era eleitoralmente inviável por causa da baixa popularidade, mas tinha alguma sustentação política no projeto de reeleição cuja tendência (confirmada) era de se esvair.

Agora o governador Robinson Faria (PSD) adota a tática do outrora pupilo de Mossoró. Ele se aproximou dos prefeitos das cidades menores como atalho para conquistar o voto de um eleitor teoricamente menos exigente e mais fiel aos líderes políticos locais. Robinson já reúne em torno de si algo em torno de 10 partidos.

Francisco apostou tudo nos apoios políticos, mas faltou combinar com o povo
Francisco apostou tudo nos apoios políticos, mas faltou combinar com o povo

Esse quadro por si só garante ao governador a viabilidade política para entrar na disputa. O problema é que nem sempre a viabilidade política garante o principal: a viabilidade eleitoral. A junção dessas variáveis políticas é fundamental para vitórias nas urnas.

Ter viabilidade eleitoral sem muito apoio político deixa a campanha capenga, mas ter a viabilidade política estando eleitoralmente inviável é certeza de ser abandonado ao longo do pleito num vexame monumental.

O case de Francisco José Junior está aí e o governador conhece bem a história. Vale lembrar que o próprio Robinson aconselhou o outrora pupilo a não tentar a reeleição. Deu no que deu.

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Estupidez da militância petista pode esvaziar palanque de Fátima

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Fátima e Rafael Motta discutem aliança. Militância atrapalha

O debate militante não pode invadir a política. Não se trata aqui de defesa de alianças espúrias e contraditórias, mas da necessidade de flexibilizar o discurso para vencer pleitos. Isolada, a esquerda não ganha uma eleição majoritária no Rio Grande do Norte.

Engana-se quem acha que Fátima Bezerra (PT) se tornou senadora sozinha. O apoio de Robinson Faria (PSD) foi fundamental para ela trucidar Wilma de Faria nas urnas. O mesmo vale no sentido inverso: o governador teve apoio importante da esquerda para se eleger. Um ajudou o outro.

Fátima Bezerra lidera todas as pesquisas para o Governo, mas nem de longe é uma favorita com folga. A dianteira precisará da atração de apoiadores para se consolidar. Sábado no aniversário da petista, o deputado federal Rafael Motta (PSB) foi um dos convidados. Terminou vaiado e deixando o recinto mais cedo sendo xingado de golpista.

Além da deselegância de tratar mal um convidado, a militância petista fechou uma porta para o entendimento político e escancarou outra para o ressentimento. Fosse uma reação dessas contra um José Agripino ou Rogério Marinho seria compreensível, mas Motta é uma figura moderada que se converteu em crítico do Governo Temer, inclusive perdendo cargos na administração federal.

O próprio Lula já avisou que perdoa alguns golpistas por entender que não se faz política para vencer sem alianças. Pragmatismo não é tudo, mas ponderar é fundamental.

O PSB tem um bom tempo de TV e agrega para as disputas proporcionais sendo capaz até mesmo de resolver o impasse com o PHS nessa seara.

A militância petista está mais preocupada em não parecer incoerente nos debates com os “coxinhas” no Facebook do que vencer as eleições. Enquanto isso, em nível nacional a legenda vai se entendendo com Renan Calheiros e cia.

Esse não é único caso da estupidez militante invadindo a política e atrapalhando o PT no Rio Grande do Norte.

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Gabinete de Robinson vira local de peregrinação de prefeitos e redes sociais expõem estratégia do governador

Instagram do governador expõe estratégia
Instagram do governador expõe estratégia

O governador Robinson Faria (PSD) é considerado politicamente morto e sepultado para as eleições de 2018 graças a sua impopularidade recorde. Mas diferente de sua antecessora, Rosalba Ciarlini (PP), ele só depende de si para ser candidato a reeleição.

Com um grupo de pequenos e médios partidos gravitando em torno de seu projeto político, Robinson tem garantida a viabilidade política. Resta combinar com o povo, ou seja, atingir a viabilidade eleitoral que as pesquisas lhe negam.

Sem a confiança das lideranças políticas de Natal, Mossoró e Parnamirim, Robinson partiu para o caminho mais tortuoso: o da busca por apoio de intermediários. Entram em cena os prefeitos das cidades pequenas.

Em curso a estratégia de receber os burgomestres no seu gabinete. Diariamente é uma peregrinação. Tudo registrado nas redes sociais bem mais ao estilo cara audiência, um flash.

O governador está jogando bem nessa estratégia. Com dificuldade em penetrar nas grandes cidades do Estado ele parte para cima dos menores municípios que juntos fazem um volume para capital nenhuma botar defeito. Pode até não dar certo, mas teoricamente é uma estratégia inteligente.

Resta saber se os prefeitos parceiros vão dar a contrapartida nas eleições.

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É hora de identificar quem faz pilhagens ao erário através de doações de casas, espaços comerciais e terrenos em Mossoró

Hoje na redação da TCM assisti uma reprise da sessão da Câmara Municipal de Mossoró do último dia 9. No debate se discutia algo além do preguiçoso debate nas redes sociais: a pilantragem de alguns que se beneficiam de oportunidades dadas pelo poder público.

Com defeitos e virtudes, são os vereadores que circulam a cidade e ouvem o povo de perto mais até mesmo que um jornalista por mais conhecido e popular que ele seja. O debate trouxe outros elementos além da tradicional acusação de que quem recebe terrenos casas sempre vende. A prática também acontece nos estratos mais abastados da sociedade sem gerar qualquer indignação.

Além dos que se aproveitam das casas populares, a presidente da Câmara Municipal Izabel Montenegro (MDB) levantou a questão dos terrenos doados pelo município em troca de investimentos que nunca saem do campo das promessas. O vereador Raério Araújo (PRB) citou casos de pessoas que recebem boxes nos mercados da cidade para botarem pequenos negócios, mas terminam vendendo ou alugando. Faltou citar exemplos de casos concretos para ser perfeito.

Os três tipos de casos precisam de rigorosa fiscalização do poder público do contrário é apenas conivência.

Não podemos generalizar os empresários e pequenos comerciantes da mesma forma que não devemos fazer o mesmo com miseráveis que mal tem o que comer. Curiosamente só o último tema é alvo de relatos carentes de consistência (muito embora eu creia que isso acontece): o dos que se aproveitam de casas populares. A nossa velha mania de criminalizar a pobreza.

Precisamos discutir esse assunto com provas. Falar de ouvir dizer em redes sociais, meios de comunicação ou plenário da Câmara Municipal é leviandade. Isso vale para o leitor do Facebook, para os vereadores e até mesmo para mim.

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São três mortes a cada quatro dias em Mossoró. Aonde vamos parar?

Capa histórica de O Mossoroense registra uma cidade chocada com a violência
Capa histórica de O Mossoroense registra uma cidade chocada com a violência

São 102 mortes em 135 dias em Mossoró. Isso faz da nossa cidade uma das mais violentas do país com uma média de três mortes a cada quatro dias. É um dado assustador.

Lembro que em 7 de junho de 2011 o Jornal O Mossoroense publicou a chocante capa com as cruzes das 100 primeiras vítimas daquele ano. Depois disso, se tornou natural a centésima vítima de homicídio no mês de maio. Em 2016 o centésimo homicídio foi em 16 de maio, ano passado foi no dia 17, esse ano no dia 14. Daqui a pouco teremos 100 “mortes matadas” em abril ou em março e vamos achar a coisa mais natural do mundo. O negócio banalizou a ponto de ninguém se importar muito a não ser quando envolve alguém próximo.

A centésima morte foi a do jovem engenheiro Everton Pinto Tomaz, de 28 anos, talvez seja a mais emblemática desta lista pela comoção que está gerando pelas circunstâncias que aconteceu. Esse crime mostra o quanto a morte está na nossa porta.  Todos os dias saímos de casa sem saber se voltamos vivos.

O poder público tenta passar uma imagem de que tudo vai bem. O governador Robinson Faria (PSD) acha que não tem nada com isso. A prefeita Rosalba Ciarlini (PP) até hoje não apresentou alternativas as BICs fechadas.

No campo do debate político não saímos do lugar num debate em que a direita simplifica as soluções argumentando que basta armar todo mundo. A esquerda apresenta soluções que não convencem o povo, teorias e mais teorias. Entremos num oito onde os bandidos de fora fazem a festa atirando e roubando sem serem incomodados como deveriam.

Mossoró tem iluminação pública deficiente, educação excludente, falta de investimentos sociais, desemprego, habitações precárias, falta de estrutura para investigações policiais, efetivo reduzido da Polícia Militar, etc…

A lista do que contribui para a violência é interminável.

O povo não tem iniciativa para cobrar, o máximo que vemos é algum chilique nas redes sociais e os políticos fingem que não tem nada com isso. A imprensa fica presa ao declaratório sem provocar reflexão nem instigar o debate, salvo raras exceções.

A nossa sociedade tem um pacto de comodismo com o “mundo cão”.

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Zenaide não consegue desgrudar de Agripino e Garibaldi nas pesquisas

Zenaide não consegue desgrudar de Agripino e Garibaldi nas pesquisas

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Considerada o nome em melhores condições de mandar José Agripino Maia (DEM) ou Garibaldi Alves Filho (MDB) para casa em 2019, a deputada federal Zenaide Maia (PHS) está estagnada nas pesquisas.

Há um ano a perspectiva era de que ela se desgarraria pelo menos de José Agripino com o passar dos meses. Mas a parlamentar segue no mesmo patamar de intenção de votos que a dupla. Sempre embolada com um empate técnico.

Veja como o quadro está inalterado comparando a última pesquisa de 2017, divulgada em 14 de dezembro pela Consult.

Garibaldi Alves Filho: 18,88%

Zenaide Maia: 15,24%

José Agripino Maia: 13,12%

O quadro em outra pesquisa, do Instituto Certus, divulgada em 6 de maio, mostra empate técnico.

Garibaldi Alves Filho: 12,59%

José Agripino Maia: 11,63%

Zenaide Maia: 8,23%

Geraldo Melo: 8,12%

Repare um agravante no desempenho de Zenaide na última pesquisa divulgada é que ela está tecnicamente empatada também com o ex-senador Geraldo Melo (PSDB), aposentado da política há 12 anos.

Como a soma de primeiro e segundo votos revelam baixas intenções de votos para o Senado temos uma sinalização de que o eleitor está dando um tempo para se posicionar em relação a esta disputa.

Até aqui Zenaide está longe de ser um “fenômeno” nem tirou vantagem do desgaste da dupla de caciques políticos. Muito pelo contrário, temos em curso uma disputa acirrada.

Não é fácil derrotar os dois maiores líderes do Rio Grande do Norte das últimas quatro décadas.

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Chegamos a 130 anos de não-liberdade: a escravidão social não cessou

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Abolição da escravidão é retratada como concessão de brancos em novelas da Globo

Há 130 anos a princesa Isabel, herdeira do trono brasileiro, acordou com um sentimento de bondade incondicional pegou uma pena dourada e assinou a lei áurea. Jogou a chance de ser imperatriz do Brasil na lata do lixo por retaliação dos fazendeiros escravocratas, mas o “sacrifício” lhe valeu o apelido de “A Redentora”.

É mais ou menos assim que os livros contam a história na escola. O estereótipo ganha contornos de verdade materializada nas novelas de época da Globo que sempre mostram a abolição como sendo uma concessão de brancos bonzinhos.

As leituras mais aprofundadas mostram que não foi bem assim. Houve muita luta que não se resumiam aos “fujões” que montavam quilombos. Havia luta política e nomes como Luiz Gama, André Rebouças e José do Patrocínio são os verdadeiros redentores do Brasil.

No entanto, existiam brancos dando as cartas e na hora de se definir pela abolição as ideias de reforma agrária defendidas por André Rebouças e Joaquim Nabuco foram rejeitadas. Foi aprovada no Senado do Império uma lei fria e “imparcial” que se não indenizou os escravocratas também não deu rumos aos escravos. Como a gente sabe a tal da imparcialidade favorece as elites. A retaliação não demorou e a monarquia deu lugar a uma república via golpe de estado em 15 de novembro do ano seguinte.

Os negros foram jogados nas ruas sem terras, sem estudos e empregos remunerados. Alguns ficaram pelas fazendas por não ter para onde ir.

A luta pela abolição foi apagada dos livros de história na mesma proporção de que o fim da escravidão não interrompeu a escalada da desigualdade que grassa no país.

A violência contra os negros se seguiu. Hoje eles são as maiores vítimas da criminalidade, desemprego e vulnerabilidade social.

Há 130 anos a abolição tirou os negros das senzalas, mas não lhes concedeu liberdade. A escravidão seguiu em um outro formato de não-liberdade: o cativeiro da desigualdade social.

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“Minha ditadura matou, mas a sua também” é prova da falência da razão

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Por Leonardo Sakamoto

Tenho uma atração mórbida por colecionar comentários que demonstram a incapacidade das pessoas em desenvolver um debate baseado em evidências sólidas nas redes sociais. Sei que isso não é saudável, mas todos temos vícios questionáveis, como fumar tabaco, assistir TV até altas horas da madrugada ou comer Cheetos num ônibus abafado com janelas fechadas. Um tipo de comentário em especial remete à minha infância: quando acusávamos o coleguinha de algo e ele, prontamente, respondia ”mas fulano de tal também”.

Como fôssemos os responsáveis pelas besteiras do fulano de tal. Isso é equivalente a alguém apresentar dados sobre pessoas executadas por ordem do alto comando da ditadura brasileira (1964-1985) e, ao invés de receber um questionamento sobre a fonte da informação e sua veracidade ou argumentos que tentem justificar as mortes (se é que isso é possível), ler ou ouvir um ”mas fulano de tal também”. O raciocínio (sic) é o seguinte: se a ditadura brasileira matou, mas ditaduras comunistas e socialistas também mataram, então ninguém pode falar nada a respeito sob risco de hipocrisia. Isso embute farsas argumentativas. Primeiro, quem se diz de esquerda não compactua necessariamente com o que governos que se dizem de esquerda fazem ou dizem. Esquerda e direita são campos extremamente plurais e a esquerda tem dificuldade até para chegar em um consenso na forma de dar bom dia.

Ao mesmo tempo, isso passa pelo pressuposto equivocado de que um ato ao se equiparar ao outro mostra que todo são iguais para tentar inviabilizar a crítica. Essa justificativa tenta calar os que criticam a celebração da memória de um regime autoritário, aqui no Brasil, que perseguiu, torturou, matou, esquartejou, queimou, jogou ao mar. Celebração feita por pessoas que, hoje, desejam um Estado que propague a violência para garantir a paz. Na verdade, há espaço para criticar todas as ditaduras violentas. Essa falta de maturidade é típica de um país que ainda engatinha quanto à pluralidade do debate público e vive em meio à herança não-resolvida do seu próprio período autoritário. O que me lembra o velho paradoxo das pessoas que querem usar sua liberdade de expressão para exigir que determinadas minorias não tenham liberdade de expressão, como era na época da ditadura. Não faz sentido. Mas tampouco comer Cheetos faz.

Governos que se autointitulavam socialistas ou comunistas mataram milhões. Do Khmer Vermelho, no Camboja, aos expurgos de Stalin, na União Soviética, passando pelos fuzilamentos na China ou em Cuba, a História é farta em registrar o que esses grupos fizeram em nome de suas revoluções ou da perpetuação de poder. Parte da esquerda faz essa crítica e não deseja copiar nenhum desses regimes. Da mesma forma, a História é rica ao demonstrar as montanhas de mortos em decorrência da ação colonialista de países europeus na América Latina, África e Ásia. Sem falar dos milhões que morreram em decorrência das políticas de expansão do Estado norte-americano ao redor do mundo ou das grandes corporações. Já tratei desses assuntos muitas vezes, mas para boa parte dos que vivem em função da intolerância online, o que já foi dito, não importa. Se a cada postagem sobre a ditadura brasileira você não fizer uma retomada histórica de 200 anos das mortes ocorridas após o nascimento de Karl Marx, torna-se um mentiroso seletivo e hipócrita. Se a cada postagem, não reafirmar que considera o governo Maduro, na Venezuela, autoritário e violento, seu pensamento não vale. Pois, no fundo, as pessoas não querem que você diga nada além do lado da história com a qual concordam. Isso deságua mais do que na terceirização do pensamento e da reflexão. Leva à indigência intelectual que, ao atingir o fundo do poço, faz com que o ódio flua livremente pelo corpo sem os incômodos entraves impostos pela razão. Você se torna uma casca vazia e, o melhor, sem se sentir culpado por disso.

O caso da divulgação do memorando da CIA sobre as execuções sumárias autorizadas pela cúpula da ditadura, descoberto pelo professor Matias Spektor, da FGV-SP, ganhou repercussão nesta quinta (10). Ilustrei meu texto sobre o tema com uma foto do corpo do jornalista Vladimir Herzog, pendurado pelo pescoço nas dependências do Exército, em 1975. Na época, o governo afirmou que ele havia se suicidado. Mas a foto forjada pela ditadura não convenceu parte da sociedade civil e a morte de Vlado, que trabalhava na TV Cultura, serviu para mostrar à população o destino de quem discordava do regime. Pois a ditadura, do alto de sua covardia violenta, nunca assumiu o que fazia entre quatro paredes.

Nas redes sociais, nesta quinta (11), a imagem de Vlado passou a ser usada para tentar convencer – com uma argumentação sem bases racionais – que a foto teria sido forjada pelos opositores para criar problemas para o governo militar. Não importam as provas e o fato do caso ser reconhecido internacionalmente, para muita gente a morte do jornalista – que havia se apresentado voluntariamente a fim de prestar esclarecimentos sobre denúncias contra ele – é uma farsa porque atrapalha a narrativa reluzente da Gloriosa. O que vai ao encontro da máxima das redes sociais: ”Verdade é tudo aquilo com o qual concordo e mentira, tudo da qual discordo”.

Em março de 2013, os familiares de Herzog receberam novo atestado de óbito, trazendo como causa da morte ”lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório nas dependências do segundo Exército DOI-Codi” por determinação da Justiça paulista. No documento anterior, forjado pelo médico da ditadura, aparecia ”enforcamento por asfixia mecânica”. O problema é que, muito provavelmente, se você leu até aqui este post, já exerce um debate plural de ideias, independente de concordar comigo ou não. Afinal, seja à esquerda ou à direita, muitos não ficam satisfeitos com uma informação reduzida a uma tuíte porque não estão recolhendo munições para sua guerra digital. Querem ouvir versões e entender a complexidade do mundo à sua volta. O que só confirma que estamos nos aproximando de outubro cavalgando em burrice violenta, como já disse aqui.

Entendo por burrice não a falta de um conhecimento específico. Burro não é quem separa sujeito e predicado por vírgula ou quem não sabe calcular. Muita gente não entende isso e desvaloriza a opinião do outro por não compartilhar dos mesmos padrões de fala ou do mesmo universo simbólico. Burro é quem menospreza o conhecimento, chegando a odiar quem o detém ou quem busca aprendizado para ampliar sua visão de mundo. O sujeito da burrice é prepotente e apressado, que xinga um texto ou vídeo na rede sem ter consumido nada além de seu título ou visto o nome do autor ou autora. E, diante das críticas sobre a superficialidade desse comportamento, rosna, dizendo que tudo o que é importante pode ser escrito em uma linha. Ou acredita que um produto é ruim simplesmente por não ter ido com a cara do rótulo.

O burro é aquele que vê seu preconceito violento como sabedoria. A burrice sempre tenta destruir o conhecimento que ameaça jogar luz sobre ela própria. Pois a burrice é incapaz de aceitar o próprio erro, transferindo a culpa para o outro ou equiparando o interlocutor a ela para poder fugir de sua falta de consistência. Ou, diante de um questionamento, foge da autocrítica, dizendo que outra pessoa ou partido também faz a mesma coisa. A burrice  não pede desculpa. Pois a burrice de um indivíduo acha que é absolvida pela burrice de outro indivíduo ou do coletivo. A burrice não aceita a existência de outra versão que interprete os fatos além da sua. É incapaz de reafirmar sua visão e, ao mesmo tempo, conviver com análises divergentes. Enxerga a opinião alheia como ”notícia falsa” não por desconhecer a diferença entre formatos de textos narrativos e opinativos, mas por não admitir o conteúdo. A burrice de alguns seguidores de políticos que não aceitam a existência de divergências ocorre da direita à esquerda, ou seja, não é monopólio de ninguém. ”A ditadura não executava opositores” é uma variação da ”Terra é plana”. Em ambos os casos, há muito já se deixou o campo da razão. É crença. E a história mostra que as pessoas matam e morrem por suas crenças, sejam elas quais forem.

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