A inteligência na simplicidade de Milton Marques

WhatsApp Image 2017-04-22 at 16.36.07

Passei a conhecer Milton Marques de Medeiros mais de perto em 2011 quando fui nomeado por ele jornalista da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) após ser aprovado em segundo lugar em um concurso público.

Ficava impressionado como aquele pequeno grande homem era objeto de tanta admiração e ao mesmo tempo tão simples. Tive poucos e bons contatos com ele nesse período. Lembro de um em especial: fiz uma matéria, não lembro bem o assunto, mas o gesto não tinha como esquecer, um e-mail parabenizando o texto. “Ora! O reitor se preocupar em fazer isso?”, me perguntava.

Mas Milton Marques era assim. Fazia questão de incentivar e apoiar os que se encontravam em sua volta. Após deixar a Reitoria em 2013 com a sensação de dever cumprido por ter pacificado tanto a UERN, a ponto de quase ser candidato único na reeleição em 2009, só voltei a ter contato com ele em 2015 quando ele confiou a mim a missão de por em prática um antigo projeto dele: um programa político no concorrido horário do meio-dia. A carta branca foi total acompanhada de uma única recomendação: fazer jornalismo com “J” maiúsculo.

Foi nesse período que conheci melhor Milton Marques. Conversar com ele era uma aula de como ser inteligente e ao mesmo tempo simples convertendo a postura em sabedoria.

Tão sábio que mesmo cortejado por todos os segmentos políticos do Estado nunca quis entrar para a sujeira da política. Perdeu Mossoró? Não diria isso. Ganhou a cidade porque na sua sabedoria, Milton tinha ciência de que não precisava ter um mandato de prefeito ou deputado para contribuir com a cidade que ele tanto amava.

Com visão além do nosso alcance ele enxergava Mossoró melhor que os políticos e através da iniciativa privada pode fazer muito pela cidade. Também contribuiu no serviço público sendo presidente do antigo IPE (Instituto de Previdência do Estado, atual IPERN), como professor da UERN, fundador da Faculdade de Medicina e reitor por dois mandatos.

Médico psiquiatra, empresário do ramo salineiro, jornalista, advogado, professor, reitor e dono de um dos maiores complexos de comunicação do Rio Grande do Norte.

Creio que sua última grande alegria tenha sido poder anunciar que o seu xodó, a 95 FM, assumira a liderança em todos os horários no rádio local. Fica para nós, funcionários da emissora, a missão de manter essa posição como a melhor forma de homenageá-lo.

Como ser tanta coisa e ao mesmo tempo ser tão simples, tão humilde? Como ter tanta inteligência e boas ideias e ao mesmo tempo ter a disponibilidade de ouvir, ser conciliador? Só sendo Milton Marques.

Ele deixa um grande legado.

Guardarei na lembrança a imagem de um homem sábio, que aliava inteligência dentro da sua sublime simplicidade.

Foto: Luciano Léllys

Compartilhe:

Um final de semana na Mossoró prometida pelos políticos

nogueirão-maquete

Como é bom viver numa cidade cujas promessas dos políticos são cumpridas. Tudo na cidade está às mil maravilhas.

Adoecer é uma raridade num lugar 100% saneado e com um sistema de saúde em que marcamos consultas por um aplicativo de celular. O negócio funciona com tanta eficiência que ninguém mais usa plano de saúde. As operadoras fecharam suas sucursais em Mossoró.

Como é bom viver numa cidade assim. Ontem acordei e busquei meu filho para um passeio. Fui de ônibus. Como funciona bem o nosso transporte público! A espera de décadas hoje é uma vaga lembrança. Peguei o transporte na duplicada avenida Francisco Motta usando uma linha que cruza a cidade por meio da ponte de Passagem de Pedra. Uma beleza!

Dei uma passadinha no Centro. Um espetáculo de acessibilidade após a construção do camelódromo. Com o transporte público eficiente e a construção de novas vagas de estacionamento acabou aquela situação caótica de antes.

Já a noite fui de carro com meu filho ao Nogueirão assistir Potiguar x ABC. O jogo foi transmitido para todo país pelo Esporte Interativo. Deu orgulho de ver ao estádio moderno muito elogiado durante toda a transmissão do jogo segundo meus amigos que preferiram ficar em casa.

De lá deixei meu bambino em casa e na volta pela ponte de Passagem de Pedra o pneu furou. Em outros tempos seria motivo de pânico diante da iminente possibilidade de ser assaltado. Mas a Ronda Cidadã é um show de eficiência e a criminalidade se reduziu a zero. Mesmo assim a viatura que passava na hora deu um suporte enquanto eu trocava o pneu em segurança.

No domingo, minha esposa foi logo cedo ao Santuário de Santa Luzia. Assistiu uma missa celebrada pelo bispo. Quando ela retornou fomos a Areia Branca visitar um familiar. De lá fomos para Tibau através da ponte Grossos/Areia Branca.

No próximo final de semana iremos a Recife no voo da Azul que sai diariamente de Mossoró para a capital pernambucana.

Boa demais essa Mossoró dos políticos que se unem de forma altruísta em defesa da cidade.

Compartilhe:

O Brasil não é um país sério!

carne

Por Mário Gerson

Mais um escândalo coloca o Brasil numa posição nada confortável. Desta vez, a Polícia Federal deu uma batida na casa dos grandes frigoríficos. “A Operação Carne Fraca, realizada nesta sexta-feira (17), revelou que empresas adulteravam a carne no mercado interno”.

30 empresas estão no bolinho da carne podre, que tinha na receita papelão na linguiça, ácido ascórbico na carne, para maquiar a aparência do produto, já vencido, e tantas outras artimanhas feitas sob a complacência de funcionários públicos, responsáveis por fiscalizar os picaretas do açougue grande.

Quando meu avô, José Faustino, negociava carnes no Santo Antônio, periferia da cidade, pelos idos dos anos 90, um fiscal da Prefeitura apareceu por lá, empolado numa camisa escura, uma prancheta na mão… Chegou, saudou meu avô e um senhor que estava sentado perto, e foi logo tascando: “O senhor tem nota dessas carnes? Dessa geladeira?” Meu avô, bastante conhecido por seu temperamento além da conta, calou-se e respirou profundo – eu estava a um canto, perto da banquinha onde colocávamos as verduras para vender – e fiquei esperando a resposta… O velho olhou o fiscal, pigarreou e disse: “Tenho!”

Mostrou uns papéis da balança. Ele mandava regular sempre. Mostrou outras coisas. Complementou apresentando os papéis de luz e o fiscal impaciente. Numa determinada hora, o fiscal perguntou pelo documento do carneiro.

Meu avô olhou-o sereno e, brincalhão, mandou vir, lá de dentro do comércio, um pá de culhões grandes, retirados, naquela manhã, do animal: “Estão aqui!” Sorrimos. O fiscal sorriu. Quem, naquela época, tinha lá droga de documento de carne de criação?! O homem foi embora. Meu avô resistiu até a morte com seu negócio de carnes, hoje mantido por um tio meu. Mas quase sempre, aqui e ali, tinha uma chateação, uma visita de um fiscal de tributos, esse povo que existe “derna” da época de Jesus Cristo (Zaquel foi o primeiro que se tem notícia no Novo Testamento, depois se regenerou, dizem). E, enquanto as visitas e aporrinhações apareciam, as grandes marcas de carnes faziam das suas… como agora ficou provado!

Atribuíram ao general Charles de Gaulle, ex-presidente da França, a frase: O Brasil não é um país sério. Depois disseram que fora um embaixador brasileiro, o Carlos Alves de Souza Filho, quem a pronunciara. Bom, se ambos a disseram seria ainda melhor, porque duas bocas falaram, ao mesmo momento, uma verdade incontestável… Há tempos é assim! Desde a época em que “descobriram” essas terras, tudo tem um jeitinho, uma forma de fazer à revelia da lei, uma camaradagem, um arrumado. Leiam a Carta de Pero Vaz de Caminha. Há um trecho, cheio de fru-fru, em que ele pede um favor ao Rey: mandar vir o genro, Jorge de Osório. Segundo relatos, esse elemento havia roubado uma igreja e ferido um padre. Começamos errado!

Se Charles de Gaulle estava certo? Certíssimo! De sério esse país não tem mais quase nada. E, se sobrou, essa seriedade ainda resiste nas pessoas simples e honestas desta nação, a qual está sendo destruída, desde muito tempo, pelos sucessivos governos corruptos, de esquerda e de direita, que tem dominado o Brasil e o transformado, através de seus conluios com grandes empresas – descobriu-se, até, nessa Operação Carne Fraca, que o Ministro da Justiça está no meio da coisa – em um verdadeiro mar de lama, uma pocilga para seus banhos infames com dinheiro público e a boa-fé dos nossos compatriotas.

 

Compartilhe:

Escritores e escreventes

17238624_381865238850621_828551716_n

Por Mário Gerson

“Quem fala? Quem escreve? Falta-nos, ainda, uma sociologia da palavra.” É assim que se inicia o ensaio antológico do crítico literário e filólogo Roland Barthes.

Barthes é de França. E é também do mundo. O seu livro “Crítica e Verdade”, se não se encontra em estado de extinção no mercado editorial, pelo menos anda beirando isso, é uma joia do ensaio crítico moderno. A coleção, que foi dirigida, dentre muitos escritores, pelo crítico e tradutor Haroldo de Campos (há pouco desaparecido dentre nós) e outros intelectuais da crítica literária, recebe o nome de Debates. Nesse livro se encontra um ensaio que, a título de empréstimo, apoderei-me: Escritores e Escreventes. Quem é o escritor? Quem é o escrevente ou o escrevinhador? Primeiro, Barthes coloca, para principiar o seu estudo entre as figuras em destaque, o escritor e o escrevente, o que eles têm de mais comum: a palavra. E, ao passo que analisa o que ambos têm de diferenciação, separa o joio do trigo, nunca, porém, descartando a importância de um e o valor superior de outro. “O escritor realiza uma função, o escrevente uma atividade”, sentencia Barthes. “O escritor é aquele que trabalha sua palavra (…) e se absorve funcionalmente nesse trabalho. A atividade do escritor comporta dois tipos de normas: normas técnicas (de composição, de gênero, de escritura) e normas artesanais (de lavor, de paciência, de correção, de perfeição)”. Mais adiante, ele nos repassa o caráter filosófico da figura do escritor dizendo que “o escritor é um homem que absorve radicalmente o porquê do mundo num como escrever.” Por que o mundo? Qual o sentido das coisas? Essas são, também, perguntas de Barthes, e de tantos e tantos escritores que quiseram, cada qual à sua maneira, responder a esse enigma que cada um descobre por si, ou o tenta fazer. E o escrevente? Onde podemos situar a figura do escrevente ou o escrevinhador nesse ensaio de Roland Barthes? E ele, de imediato, nos diz que “os escreventes são homens “transitivos”; eles colocam um fim (testemunhar, explicar, ensinar) para o qual a palavra é apenas um meio; para eles, a palavra suporta um fazer, ela não o constitui”. Para Barthes, o escrevente tem a característica de aflorar dialetos, como, por exemplo: marxista, cristão ou existencialista, “mas muito raramente estilos”. Hoje nos perguntamos, em meio aos vendavais de edições, de histórias, e de novos escritores: como, em pleno século XXI, distinguiríamos a figura do escritor e do escrevente? Usaríamos a mesma técnica barthesiana? Interrogaríamos tal qual Barthes interrogou? Será que não agimos como meros escreventes, metidos e engodados por seus hobbyes, empurrando, garganta abaixo, palavras e mais palavras ao leitor?

17270235_381865202183958_1617118282_n

“O escritor tem algo de sacerdote, o escrevente de clérigo; a palavra de um é um ato intransitivo (portanto, de certo modo, um gesto), a palavra do outro é uma atividade. O paradoxo é que a sociedade consome com muito mais reserva uma palavra transitiva do que uma palavra intransitiva”. E Barthes continua: “a função do escrevente é dizer em toda ocasião e sem demora o que ele pensa”. Porém, no mesmo ensaio, Barthes descreve o que para ele seria uma contradição pura: “cada um hoje se move mais ou menos abertamente entre as duas postulações, a do escritor e a do escrevente; a história, sem dúvida, o quer assim, pois ela nos fez nascer tarde demais para sermos escritores soberbos (de boa consciência) e cedo demais (?) para sermos escreventes escutados”. “Os escritores têm bruscamente comportamentos, impaciências de escreventes; os escreventes se alçam por vezes até o teatro da linguagem. (…) Em suma, nossa época daria à luz um tipo bastardo: o escritor-escrevente”.

Fica aí, então, a pergunta: saberia o caro leitor, agora, diferenciar o escritor do escrevente?

Compartilhe:

A chuva na janela

Chuva

Por Mário Gerson 

Começou o período de chuvas. Algumas pessoas plantam, as que possuem um pedaço de terra. Outras querem relembrar a infância e tomam banho de chuva. Algumas reclamam dos alagamentos. Em frente a um supermercado local, a chuva chegou, por esses dias, a arrastar motos estacionadas. A água desceu pela Avenida Presidente Dutra. E não tinha festa política, era tudo natural.

Nos bairros da periferia, visitou algumas casas. Alagou quintais, fez os sapos saírem das suas tocas, a noite ficou mais fria – há dias a cidade enfrenta noites amenas e, recentemente, amanheceu com um nevoeiro – digamos, uma cerração cobrindo os prédios e as ruas, em um cinza belo de se ver, um mergulho na infância campestre.

A chuva chegou em boa hora. Quem anda pelo sertão agora vê, ao largo do horizonte, o verde no lugar do cinza, o canto dos pássaros no lugar da solidão das aves, a água enchendo barreiros, riachos, açudes transbordam, pequenos agricultores plantam – daqui a pouco, o feijão e o milho verde estarão com os preços competitivos –, a vida oculta antes das águas, que agora ganha mais força, que brota do chão na babugem coberta pelo orvalho da noite.

As madrugadas são também de companhias barulhentas. Há muriçocas, há pernilongos, há insetos que insistem em retornar ao espaço que tomamos, à força das construtoras via Banco do Brasil. Sim! Nós ocupamos aquilo que não era nosso! E os escorpiões e aranhas caranguejeiras querem-no de volta. Pego a aranha com uma pá, entro no mato em frente à habitação e a devolvo àquele habitat. Por que matá-la, tão solitária em seu caminhar? Por que não deixá-la ir?

Da biblioteca, sentado na cadeira que pertenceu ao mestre Dorian Jorge Freire, e escrevendo, vejo a neblina salpicando, com gotas aleatórias, o vidro fosco e sem vida, enquanto, lá dentro, a vontade é de abrir a janela e sentir a água pela casa, é deixar que entre um pouco, que refresque minha alma… mas a vontade passa e continuo a escrever. A água escorre e uma nuvem de lembranças não apagadas – porque a memória é companhia certa nas horas de ócio e reflexão – ressurge, uma a uma, pescadas na solidão das águas turvas da vida, mas ainda brilhantes, cada uma a sua maneira.

Levanto-me para fazer um café. A chuva continua. Acendo a boca do fogão, um trovão forte anuncia alguém que fala mais alto do que eu e um sorriso não deixa de aparecer nos meus lábios. De infância mesmo, na vera, nunca tive medo dos trovões. Corria, e essa é uma lembrança que não foi apagada, para a chuva, olhava o céu fechado, os raios cruzando as nuvens, meus primos com medo da voz forte de Deus, e sorria, esperando o raio cair e contando os segundos, como ensinara meu tio, ex-militar. “São poucos segundos e depois vem o trovão!”

A água, na pequena chaleira de metal, começa a ferver. Coloco o pó de café no pano – sim, ainda o faço coado, tão delicioso quanto qualquer outro café do mundo! – e vejo a água escorrer entre a escuridão do pó e o vapor que sobe como perfume às minhas narinas!

Então, vem outro trovão e a chuva começa a cessar… Levo a xícara para a biblioteca e me arrependo, devo dizer, de não ter tomado o banho de chuva, talvez tantas outras lembranças viessem dele… ou um raio de luz na escuridão!

Compartilhe:

Feliz “ano novo”

carnaval de rua cinzas

Finalmente o ano começará de fato. Agora a conta protelada será paga. Afinal de contas já estamos “em depois do carnaval”.

O trabalho da faculdade vai ser feito, aquele regime finalmente será iniciado e os projetos para 2017 finalmente vão sair do papel.

Enquanto isso, os bandidos não deixaram para matar e roubar para “depois do carnaval”. Os políticos não pararam de aprontar enquanto o “ano não começava”.

A menina que deixou tudo para “depois do carnaval” poderá ter que repensar os planos com a gravidez fruto do amor da folia de Momo.

“Feliz ano novo”, besta!

Compartilhe:

“E agora eu vou escrever!”

crônica

Por Mário Gerson

Meu filho tem cinco anos. Ele tinha um quando, de uma hora para outra, parei de escrever literatura. Calculava o tempo parado na literatura de acordo com a idade do meu filho. Hoje, 18 de fevereiro de 2017, voltei a escrever.

Muitos amigos dizem que nunca parei. Só havia mudado os hábitos de publicação (considerando a plataforma de internet e a página social que mantenho, com poucos colegas da antiga função – na vida passada, bem recente, eu era jornalista). Esses mesmos amigos me pediam que voltasse a escrever. Sem motivo aparente para fazê-lo, os dias se sucederam numa espécie de parada para um café e passei quatro anos sem produzir literatura (antes de pedir demissão da GAZETA DO OESTE, ainda escrevia, mas só reportagens).

Hoje, meu filho me pediu algo que eu nunca esperava que pedisse: uma máquina de escrever! Parei na sala da casa, Chopin tocava na biblioteca, e sorri com um olhar de incredulidade. Pedi que repetisse: “Quero uma máquina de escrever, pai. Das suas!” (No momento em que escrevo estas palavras, duas lágrimas caem sobre a minha perna esquerda…) Saí, devo dizer, com alegria a caminho da biblioteca. Abri a porta e o chamei para dentro. Ele entrou e tirei duas máquinas da estante. Uma Remington – a que eu uso e que, espero, ser enterrado com ela – e outra, uma pequena, Olivetti Lettera, a máquina com a qual o fotografei com um ano de idade. Foto esta que está em seu quarto, em um grande banner e é um de seus orgulhos…

Retirada a máquina, procedemos com as instruções. Os olhinhos curiosos saltitavam de alegria. “Ah, pai, legal!”, ele dizia, depois de cada observação. “E para escrever maiúsculo, filho, você segura esta tecla aqui!” “Pai, e se parar?” “Se parar, puxa essa alavanca aqui!” Sentados no chão frio da casa – Chopin continuava no som da biblioteca – Davi e eu conversamos por um momento sobre a máquina e ele me olhou, sereno, e disse: “Gostei muito, pai, do presente! E agora eu vou escrever!” A voz entrou na minha alma, rondou todos os meus lugares mais recônditos e me vi de novo, muito jovem, adquirindo minha primeira máquina de escrever, com o dinheiro que ganhei como garçom, em uma lanchonete da cidade… também me vi lendo vorazmente nas madrugadas, enquanto meus colegas desfrutavam de outras realidades.

Meu filho, eu poderia ter passado mais quatro anos sem nada produzir: somente sua imagem à máquina de escrever bastaria para suprir tudo. Foi a cena mais poética que vi em toda minha vida. Eu me lembro de você, ainda bem pequeno, mexendo na minha Remington. Tenho uma foto que mostra isso… Sua frase, seus olhos brilhando, renovaram, em mim, essa vontade de voltar a escrever, não uma escritura de revanchismo e de revolta, tão comum naqueles que, como seu pai, enfrentaram percalços, pedras no caminho, um pouco de solidão e fúria, afastamento social e contentamento interior…

 Não, meu filho… não voltei a escrever para compor uma obra de tédio e ódio, mas apenas para me exercitar junto com você, aprender com você, refletir com você…

Agora eu o vejo, mesmo daqui, em sua máquina, a escrever meu nome – obrigado por tê-lo feito tão bem –, meu nome não como a sociedade me viu ou me vê, não o nome de ofício ou identidade, mas o nome que carrego e sei importante para você… obrigado por ter escrito, naquela folhinha branca, a honrosa palavra: PAPAI.

 

Compartilhe:

Um político 100% a favor do povo

NaniHonesto2

Raimundo Silva é conhecido como “Mundinho das Docas”. Cansado de ver o sofrimento da comunidade carente em que mora ele decidiu lançar-se na política. Primeiro atuou como líder comunitário realizando a maior operação tapa buraco já vista nas Docas.

Daí foi um pulo para se eleger vereador na cidade de Caixão do Oeste. Na campanha ele prometeu ser 100% a favor do povo. Foi eleito propondo:

Projeto de lei proibindo parentes de vereadores de trabalharem em cargos comissionados da Prefeitura;

Fiscalizar todos os atos do município e dos colegas;

Denunciar qualquer esquema de corrupção que presenciasse;

As propostas provocaram risadas dos colegas.

– Mundinho jamais fará na disso. O povo só quer que a gente pague o papel de luz e arrume ambulância.

Disse o vereador Toinho dos Galetos dando uma grande gargalhada em seguida.

Mas Mundinho das Docas era um sonhador. Queria ser o político que a sociedade cobra. Eleito pela oposição logo foi chamado para uma conversa no Palácio das Memórias, sede do poder em Caixão do Oeste. O convite era claro: dez cargos para livre escolha de Mundinho mais 10 mil mensais em dinheiro vivo. A resposta foi um sonoro não.

– Pena que eu não tinha ligado o gravador de voz do celular.

Lamentou Mundinho numa mesa de bar diante estupefatos amigos que esperavam por essa “boquinha”. Todos os parentes ficaram chateados com a decisão.

Aos poucos parentes e amigos foram se distanciando de Mundinho acusando-o de ingrato por não retribuir com cargos o apoio dado na campanha.

– Porra de ética! Eu quero o meu emprego. Desabafou um amigo.

– Todo mundo rouba, mas Mundinho quer ser certinho demais. Ele pensa que é quem? Disparou um primo revoltado.

Mas Mundinho seguia acreditando que precisava ser um mau parente/amigo para ser um bom político. A ética de Mundinho era subestimada. Tanto que foi chamado para uma reunião em que os colegas discutiam formas de chantagear o prefeito para obter mais cargos e melhorar a mesada para aprovar tudo que vinha do Palácio das Memórias.

Desta vez Mundinho não se fez de rogado. Gravou tudo e denunciou no Fantástico. O Ministério Público entrou com uma ação, mas os vereadores conseguiram ajuda de um senador influente nos meios jurídicos e a prova incontestável de corrupção terminou sendo considerada ilícita.

Mundinho terminou sendo processado por todos os colegas por calúnia e difamação. Além de ser alvo de uma advertência no conselho de ética da casa.

Mas Mundinho tinha o povo do lado dele. Após pagar do próprio bolso (ele não usava verba de gabinete) cinco carros de som chamando o povo para a sessão de Câmara Municipal, ele conseguiu lotar as galerias e fez os colegas aprovarem o Projeto de Lei que proibia vereadores de indicar parentes na Prefeitura de Caixão do Oeste.

A pressão deu certo. A proposta passou por 7×6.

– Precisamos tirar esse imbecil do nosso caminho! Vociferou o vereador Cornélio Rego.

A essa altura, Mundinho estava sem falar com todos os colegas, foi expulso do partido sob o argumento de incompatibilidade com os ideais da legenda.

Cada proposta em defesa do povo, Mundinho precisava fazer uma mobilização na cidade. Foi assim que ele conseguiu extinguir o auxílio lanche, o custeio da educação dos filhos dos vereadores com dinheiro da Câmara e a diária dobrada para vereadores fossem a eventos legislativos fora do legislativo.

Mas aos poucos o povo foi ficando com preguiça de participar das mobilizações de Mundinho. Afinal de contas, praticar a cidadania é muito trabalhoso.

– A gente tá é sendo besta para Mundinho se amostrar. Justificou Maroca das Laranjas.

Sem força e juntando inimizades e processos, Mundinho se tornou um leproso político. Nenhum colega aceitava ele por perto. Mundinho provocava rejeição em todos os partidos. Até mesmo o povo estava criando abuso por achar ele “briguento demais”.

Mundinho nem pode disputar a reeleição por falta de partido. Sequer terminou o mandado após ser cassado pelos seus colegas quebra de decoro parlamentar. A sentença foi justificada por falta de ética por constranger seguidamente os colegas expondo as vísceras corruptas da casa.

Hoje Mundinho está preso após ser condenado por corrupção. Os colegas denunciaram ele por fazer todas aquelas mobilizações para receber uma mesada maior que a deles. Mesmo sem qualquer prova ele foi denunciado por um promotor que não tinha certeza, mas convicção. O juiz condenou por entender que na nossa política essa é uma prática recorrente.

Triste fim para quem tentou apenas trabalhar pelo povo.

Compartilhe:

Um ano safadão

Safadão, a cara de 2016
Safadão, a cara de 2016

Que ano! Ufa! Finalmente terminou deve estar pensando a maioria dos brasileiros. O que aconteceu em 2016 aconteceria numa década.

Tivemos em um único ano vários escândalos de corrupção estourados, dezenas de figurões da política presos, uma presidente afastada… e Cunha? Num único ano ele conseguiu derrubar uma presidente, ser afastado da presidência da Câmara, renunciar ao cargo aos prantos, ser cassado pelos seus pares e preso em seguida.

Também tivemos o afastamento viúva porcina de Renan Calheiros (PMDB) da presidência do Senado. Ele se recusou a cumprir a decisão e ainda se safou no final. No mesmo ano ele chamou juiz de “juizeco” e delegado federal de “chefete de polícia”. Passou ileso no final contrariando os prognósticos.

E Lula? De “alma viva mais honesta do país” a cinco indiciamentos por corrupção. Passou o ano vendo seus “insuspeitos” adversários especulando a sua prisão. Terminou 2016 liderando as pesquisas para presidente em 2018.

Dilma caiu. Caiu para cima como diria capitão Nascimento. Aos poucos o governo Temer desmorona e os brasileiros vão vendo que o impeachment foi um erro.

No Rio Grande Norte vimos Henrique Alves (PMDB) cair duas vezes do Ministério do Turismo, nossa bancada federal aprofundar em sua inutilidade, a Assembleia Legislativa distante do povo e sendo um viveiro de fantasmas. A casa esteve mais para mesa branca de centro espírita do que um parlamento.

O governador Robinson Faria (PSD) patinou na impopularidade. Atrasou salários, mostrou insensibilidade com o povo, perdeu tempo com assuntos menores e viu a violência atingir níveis insuportáveis no Rio Grande do Norte. Justo ele, o “governador da segurança”.

Em Mossoró tivemos de tudo na política. O choro de Amélia marcou a campanha, mas não foi só isso. Vimos o povo rejeitar um prefeito e dar mais uma chance a uma ex-governadora outrora rejeitada. Os Rosados se uniram pelo “bem de Mossoró”. Francisco José Junior (PSD) termina o governo dele sendo tratado em tom de pilhéria. Não era para menos são incontáveis calotes e decisões equivocadas.

O governador cumpriu uma única agenda na cidade e há quase 11 meses não faz nada por essas bandas. Priorizou a picuinha política ao povo mossoronse. A violência foi o destaque da gestão dele na cidade ultrapassando 200 homicídios. Robinson ainda teve que perder tempo tendo que explicar que é contra a privatização da UERN após o presidente do TJ (e aliado de Robinson) Cláudio Santos defender essa ideia.

A Câmara Municipal foi ao fundo do poço com baixarias incontáveis e um presidente que oscilou entre o desequilíbrio e a insensatez mesmo quando fazia a coisa certa.

O ano de 2016 foi um ano difícil para a política e para os políticos. Não foi por acaso que o destaque da música esse ano atende pela alcunha de “Safadão”.

Foi um ano safadão!

Compartilhe:

Um gesto que muda a imagem de um país

homenagem-nacional-medellin-chapecoense

Pare e pense: quando você pensa na Colômbia qual a primeira imagem que lhe vem a cabeça. Acredito que a resposta seja Pablo Escobar, tráfico de drogas, As FARC, terremotos… Quis o destino que a tragédia de terça-feira acontecesse na Colômbia, mais precisamente em Medellín justamente a terra que tantas notícias negativas deu ao mundo manchando a imagem de um país graças ao cartel.

Agora tudo mudou. Logo que a tragédia aconteceu o Atlético Nacional, atual campeão da Libertadores, abriu mão do título da Copa Sul americana num gesto de grandeza que me levou as lágrimas. Depois os jogadores do clube apoiaram a decisão e o mais bonito: os torcedores foram ao estádio homenagear as vítimas do acidente aéreo e dizer que a Chapecoense era a campeão do torneio. Foi de arrepiar. Fui as lágrimas.

A partir de agora o preconceito em relação a Colômbia será deixado de lado. O país será lembrado pelo seu povo solidário, pela grandeza de seus dirigentes esportivos e atletas.

Queria ter escrito antes esse texto, mas não conseguia porque chorão assumido que sou saberia que iria às lágrimas como estou indo agora.

Força Chape!!! Mas também viva Colômbia pela lição de humanidade dada esta semana.

Compartilhe: