A arte de não se importar

Já pensou como a nossa vida seria bem melhor se a gente não se importasse tanto com assuntos que questões individuais dos outros?

Hoje vivemos em um país recheado de divisões e boa parte delas são motivadas pelo interesse de controlar a vida alheia.

O que temos a ver se Fulano gosta de namorar homens. Ou se Beltrana gosta de transar com mulheres. O que temos a ver se Cicrano professa uma religião de matriz africana?

Pense como a nossa vida seria muito melhor se nós simplesmente não nos importássemos com as escolhas individuais dos outros.

Por que não gostar de uma pessoa que muito bem poderia ser nossa amiga apenas por ela ter uma visão política diferente da nossa? Que tal pautarmos o debate limitando ao campo das ideias?

Infelizmente há um desejo de vencer debates que não tem vencedores e muitas vezes utilizamos a estratégia de “enquadrar” o interlocutor. O debate empobrece, infantiliza e muitas vezes os ataques descambam para o caráter pessoal.

Uma pessoa não pode ser considerada má por ser direita ou esquerda. Um caráter não pode ser julgado por sua orientação sexual ou preferência religiosa.

A vida em sociedade seria bem melhor se também soubéssemos nos colocar no lugar do outro, fossemos mais empáticos com quem sofre discriminação.

Vamos exercer a arte de não se importar. Vale a pena.

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O “isentão”

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Por Bruno Barreto

O “isentão” é um espécime curioso na fauna políticas das redes sociais. É acima aquele chato que se coloca acima dos demais e está sempre com o dedo apontado para os outros com a intenção de desacreditá-los e encher o peito que venceu o debate.

O “insentão” é o chamado moralista de goela. Todos os outros são corruptos, menos ele. É a figura que se coloca sem qualquer contradição. Ele é liberal na economia, mas é um concurseiro de plantão. É o cara que manda o esquerdista abrir um negócio para ver como é difícil ser empresário, mas ele mesmo não bota não tem nenhuma bodega. Pode reparar, o “isentão” sempre foca seus ataques aos esquerdistas.

O “isentão” se diz honesto e “cidadão de bem”. Mas estaciona o carro na vaga de deficientes e idosos, faz fila dupla na frente da escola, dá “bola” ao guarda de trânsito para se livrar da multa ou é próprio guarda corrupto.

O “isentão” não diz não ter ideologias e sempre tenta encerrar as discussões com o argumento de que “esse negócio de esquerda e direita não existe”. O problema é que o “isentão” diz não ter posição, mas se posiciona. Geralmente ele é de direita, mas não admite. Ele procura desesperadamente um muro para subir. Geralmente encontra isso dizendo que vota em Marina Silva para presidente.

O “isentão” diz querer todos os corruptos presos, mas na TL dele só existem memes tratando da corrupção petista. Ele só compartilha notícias negativas contra a esquerda nos grupos de Whatsapp. Quando é pressionado pelo interlocutor, ele geralmente ataca a esquerda para justificar sua própria incoerência.

“Por que a esquerda não vai para as ruas pedir a prisão do Aécio?”. É a muleta padrão para justificar-se.

O “isentão” brada “fora todos”, mas a prisão de Lula ele já está de bom tamanho para ele.

O “isentão” defende votar no “novo” e não reeleger os que estão aí, numa ingênua e estreita visão de como funciona a política. Ele não consegue entender que não adianta mudar os nomes sem mudar o sistema e fazer o controle social sobre a atuação política. É um acomodado político que aparece de quatro em quatro anos nas urnas para votar nos mesmos de sempre mesmo pregando o extermínio deles da política.

O “isentão” prometeu dar sequência a limpeza política pedindo pela saída de Temer, mas teve duas grandes chances e ficou calado. Ele culpa o PT por ter escolhido Temer como vice nas eleições de 2014 para tentar justificar a sua incoerência.

Veja: para o “isentão” a culpa é sempre do PT!

O “isentão” possui um sentimento de superioridade moral em relação a quem assume posições claras seja pela esquerda ou direita.

O “isentão” diz odiar política e que todos os políticos são ladrões. Ele generaliza o debate e adora classificar como fanáticos quem discorda dele.

Autoproclamar-se “neutro” é o maior orgulho do “isentão”.

O “isentão” é um chato acima de tudo, mas também é um hipócrita. Ele pode ser eu ou você!

O “isentão” vai reclamar desse texto!

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O descanso do decano do jornalismo mossoroense

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Há quase 15 anos quando pus os pés pela primeira vez numa redação de jornal e um dos primeiros alertas foi o de que jornalista não se aposenta. Mas Emery Costa insiste que pode se aposentar sim após 55 anos comunicando e fazendo história na mídia local.

Tive a honra de trabalhar com Emery por 12 anos em jornal, rádio e TV. Eram aulas diárias de humildade e companheirismo. Ele é uma figura ímpar nesses dois aspectos.

Na coluna diária em O Mossoroense, os leitores se deleitavam com sua escrita leve. No rádio e TV a notícia objetiva era sua prioridade.

Seu trabalho alcançou tanta relevância que chegou a ser candidato a vice-prefeito de Mossoró em 1972 compondo com Lauro da Escóssia Filho em um embate eleitoral vencido por Dix-huit Rosado.

Emery encerrou as atividades na Rádio Rural no último dia 28 de fevereiro falando que ia se aposentar. Lembre-se, jornalista não se aposenta.

Logo veremos ele postando alguma amenidade ou nota fúnebre no Facebook.

Vida longa ao mestre Emery.

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Um maluco beleza do bem se foi

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A última conversa que tive com Cabi da Costa de Lima foi no lançamento do livro “Os Rosados Divididos”. Ele reclamava de muitas dores do que suspeitava ser um problema na vesícula. “Só vim porque era o primeiro, viu?”, avisou o Camaradinha.

Infelizmente o quadro era mais grave do que se imaginava e ele acabou não resistindo para tristeza de todo o Rio Grande do Norte que aprendeu a admirar esse maluco beleza do rádio.

Generoso, em um de nossas últimas conversas ele foi me procurar na Reitoria da UERN para pedir ajuda para um amigo em comum. Assim era Caby, um cidadão capaz de dar tudo o que tinha para ajudar alguém.

Guardo na lembrança cada conversa, conselho e sugestões que o amigo Caby me deu.

Caby com seus tamancos fez história no rádio mossoroense com a ousadia dos diferenciados. Chegou a levar uma equipe esportiva do interior do Rio Grande do Norte para transmitir o mítico Fla x Flu do gol de barriga de Renato Gaúcho, no histórico show de Romário nas eliminatória da copa de 1994 ele estava lá cotando a história.

Foi o presidente que montou um dos melhores times da história do Potiguar, em 1997.

Era respeitado e admirado no meio radiofônico sempre tratado como “camaradinha” seu bordão marcante.

Ele deixou um relevante legado de livros de coletâneas fotográficas de personalidades locais que só será compreendido no futuro.

As manhãs de domingo não serão mais as mesmas sem o som do Caby.

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A inteligência na simplicidade de Milton Marques

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Passei a conhecer Milton Marques de Medeiros mais de perto em 2011 quando fui nomeado por ele jornalista da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) após ser aprovado em segundo lugar em um concurso público.

Ficava impressionado como aquele pequeno grande homem era objeto de tanta admiração e ao mesmo tempo tão simples. Tive poucos e bons contatos com ele nesse período. Lembro de um em especial: fiz uma matéria, não lembro bem o assunto, mas o gesto não tinha como esquecer, um e-mail parabenizando o texto. “Ora! O reitor se preocupar em fazer isso?”, me perguntava.

Mas Milton Marques era assim. Fazia questão de incentivar e apoiar os que se encontravam em sua volta. Após deixar a Reitoria em 2013 com a sensação de dever cumprido por ter pacificado tanto a UERN, a ponto de quase ser candidato único na reeleição em 2009, só voltei a ter contato com ele em 2015 quando ele confiou a mim a missão de por em prática um antigo projeto dele: um programa político no concorrido horário do meio-dia. A carta branca foi total acompanhada de uma única recomendação: fazer jornalismo com “J” maiúsculo.

Foi nesse período que conheci melhor Milton Marques. Conversar com ele era uma aula de como ser inteligente e ao mesmo tempo simples convertendo a postura em sabedoria.

Tão sábio que mesmo cortejado por todos os segmentos políticos do Estado nunca quis entrar para a sujeira da política. Perdeu Mossoró? Não diria isso. Ganhou a cidade porque na sua sabedoria, Milton tinha ciência de que não precisava ter um mandato de prefeito ou deputado para contribuir com a cidade que ele tanto amava.

Com visão além do nosso alcance ele enxergava Mossoró melhor que os políticos e através da iniciativa privada pode fazer muito pela cidade. Também contribuiu no serviço público sendo presidente do antigo IPE (Instituto de Previdência do Estado, atual IPERN), como professor da UERN, fundador da Faculdade de Medicina e reitor por dois mandatos.

Médico psiquiatra, empresário do ramo salineiro, jornalista, advogado, professor, reitor e dono de um dos maiores complexos de comunicação do Rio Grande do Norte.

Creio que sua última grande alegria tenha sido poder anunciar que o seu xodó, a 95 FM, assumira a liderança em todos os horários no rádio local. Fica para nós, funcionários da emissora, a missão de manter essa posição como a melhor forma de homenageá-lo.

Como ser tanta coisa e ao mesmo tempo ser tão simples, tão humilde? Como ter tanta inteligência e boas ideias e ao mesmo tempo ter a disponibilidade de ouvir, ser conciliador? Só sendo Milton Marques.

Ele deixa um grande legado.

Guardarei na lembrança a imagem de um homem sábio, que aliava inteligência dentro da sua sublime simplicidade.

Foto: Luciano Léllys

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Um final de semana na Mossoró prometida pelos políticos

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Como é bom viver numa cidade cujas promessas dos políticos são cumpridas. Tudo na cidade está às mil maravilhas.

Adoecer é uma raridade num lugar 100% saneado e com um sistema de saúde em que marcamos consultas por um aplicativo de celular. O negócio funciona com tanta eficiência que ninguém mais usa plano de saúde. As operadoras fecharam suas sucursais em Mossoró.

Como é bom viver numa cidade assim. Ontem acordei e busquei meu filho para um passeio. Fui de ônibus. Como funciona bem o nosso transporte público! A espera de décadas hoje é uma vaga lembrança. Peguei o transporte na duplicada avenida Francisco Motta usando uma linha que cruza a cidade por meio da ponte de Passagem de Pedra. Uma beleza!

Dei uma passadinha no Centro. Um espetáculo de acessibilidade após a construção do camelódromo. Com o transporte público eficiente e a construção de novas vagas de estacionamento acabou aquela situação caótica de antes.

Já a noite fui de carro com meu filho ao Nogueirão assistir Potiguar x ABC. O jogo foi transmitido para todo país pelo Esporte Interativo. Deu orgulho de ver ao estádio moderno muito elogiado durante toda a transmissão do jogo segundo meus amigos que preferiram ficar em casa.

De lá deixei meu bambino em casa e na volta pela ponte de Passagem de Pedra o pneu furou. Em outros tempos seria motivo de pânico diante da iminente possibilidade de ser assaltado. Mas a Ronda Cidadã é um show de eficiência e a criminalidade se reduziu a zero. Mesmo assim a viatura que passava na hora deu um suporte enquanto eu trocava o pneu em segurança.

No domingo, minha esposa foi logo cedo ao Santuário de Santa Luzia. Assistiu uma missa celebrada pelo bispo. Quando ela retornou fomos a Areia Branca visitar um familiar. De lá fomos para Tibau através da ponte Grossos/Areia Branca.

No próximo final de semana iremos a Recife no voo da Azul que sai diariamente de Mossoró para a capital pernambucana.

Boa demais essa Mossoró dos políticos que se unem de forma altruísta em defesa da cidade.

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O Brasil não é um país sério!

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Por Mário Gerson

Mais um escândalo coloca o Brasil numa posição nada confortável. Desta vez, a Polícia Federal deu uma batida na casa dos grandes frigoríficos. “A Operação Carne Fraca, realizada nesta sexta-feira (17), revelou que empresas adulteravam a carne no mercado interno”.

30 empresas estão no bolinho da carne podre, que tinha na receita papelão na linguiça, ácido ascórbico na carne, para maquiar a aparência do produto, já vencido, e tantas outras artimanhas feitas sob a complacência de funcionários públicos, responsáveis por fiscalizar os picaretas do açougue grande.

Quando meu avô, José Faustino, negociava carnes no Santo Antônio, periferia da cidade, pelos idos dos anos 90, um fiscal da Prefeitura apareceu por lá, empolado numa camisa escura, uma prancheta na mão… Chegou, saudou meu avô e um senhor que estava sentado perto, e foi logo tascando: “O senhor tem nota dessas carnes? Dessa geladeira?” Meu avô, bastante conhecido por seu temperamento além da conta, calou-se e respirou profundo – eu estava a um canto, perto da banquinha onde colocávamos as verduras para vender – e fiquei esperando a resposta… O velho olhou o fiscal, pigarreou e disse: “Tenho!”

Mostrou uns papéis da balança. Ele mandava regular sempre. Mostrou outras coisas. Complementou apresentando os papéis de luz e o fiscal impaciente. Numa determinada hora, o fiscal perguntou pelo documento do carneiro.

Meu avô olhou-o sereno e, brincalhão, mandou vir, lá de dentro do comércio, um pá de culhões grandes, retirados, naquela manhã, do animal: “Estão aqui!” Sorrimos. O fiscal sorriu. Quem, naquela época, tinha lá droga de documento de carne de criação?! O homem foi embora. Meu avô resistiu até a morte com seu negócio de carnes, hoje mantido por um tio meu. Mas quase sempre, aqui e ali, tinha uma chateação, uma visita de um fiscal de tributos, esse povo que existe “derna” da época de Jesus Cristo (Zaquel foi o primeiro que se tem notícia no Novo Testamento, depois se regenerou, dizem). E, enquanto as visitas e aporrinhações apareciam, as grandes marcas de carnes faziam das suas… como agora ficou provado!

Atribuíram ao general Charles de Gaulle, ex-presidente da França, a frase: O Brasil não é um país sério. Depois disseram que fora um embaixador brasileiro, o Carlos Alves de Souza Filho, quem a pronunciara. Bom, se ambos a disseram seria ainda melhor, porque duas bocas falaram, ao mesmo momento, uma verdade incontestável… Há tempos é assim! Desde a época em que “descobriram” essas terras, tudo tem um jeitinho, uma forma de fazer à revelia da lei, uma camaradagem, um arrumado. Leiam a Carta de Pero Vaz de Caminha. Há um trecho, cheio de fru-fru, em que ele pede um favor ao Rey: mandar vir o genro, Jorge de Osório. Segundo relatos, esse elemento havia roubado uma igreja e ferido um padre. Começamos errado!

Se Charles de Gaulle estava certo? Certíssimo! De sério esse país não tem mais quase nada. E, se sobrou, essa seriedade ainda resiste nas pessoas simples e honestas desta nação, a qual está sendo destruída, desde muito tempo, pelos sucessivos governos corruptos, de esquerda e de direita, que tem dominado o Brasil e o transformado, através de seus conluios com grandes empresas – descobriu-se, até, nessa Operação Carne Fraca, que o Ministro da Justiça está no meio da coisa – em um verdadeiro mar de lama, uma pocilga para seus banhos infames com dinheiro público e a boa-fé dos nossos compatriotas.

 

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Escritores e escreventes

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Por Mário Gerson

“Quem fala? Quem escreve? Falta-nos, ainda, uma sociologia da palavra.” É assim que se inicia o ensaio antológico do crítico literário e filólogo Roland Barthes.

Barthes é de França. E é também do mundo. O seu livro “Crítica e Verdade”, se não se encontra em estado de extinção no mercado editorial, pelo menos anda beirando isso, é uma joia do ensaio crítico moderno. A coleção, que foi dirigida, dentre muitos escritores, pelo crítico e tradutor Haroldo de Campos (há pouco desaparecido dentre nós) e outros intelectuais da crítica literária, recebe o nome de Debates. Nesse livro se encontra um ensaio que, a título de empréstimo, apoderei-me: Escritores e Escreventes. Quem é o escritor? Quem é o escrevente ou o escrevinhador? Primeiro, Barthes coloca, para principiar o seu estudo entre as figuras em destaque, o escritor e o escrevente, o que eles têm de mais comum: a palavra. E, ao passo que analisa o que ambos têm de diferenciação, separa o joio do trigo, nunca, porém, descartando a importância de um e o valor superior de outro. “O escritor realiza uma função, o escrevente uma atividade”, sentencia Barthes. “O escritor é aquele que trabalha sua palavra (…) e se absorve funcionalmente nesse trabalho. A atividade do escritor comporta dois tipos de normas: normas técnicas (de composição, de gênero, de escritura) e normas artesanais (de lavor, de paciência, de correção, de perfeição)”. Mais adiante, ele nos repassa o caráter filosófico da figura do escritor dizendo que “o escritor é um homem que absorve radicalmente o porquê do mundo num como escrever.” Por que o mundo? Qual o sentido das coisas? Essas são, também, perguntas de Barthes, e de tantos e tantos escritores que quiseram, cada qual à sua maneira, responder a esse enigma que cada um descobre por si, ou o tenta fazer. E o escrevente? Onde podemos situar a figura do escrevente ou o escrevinhador nesse ensaio de Roland Barthes? E ele, de imediato, nos diz que “os escreventes são homens “transitivos”; eles colocam um fim (testemunhar, explicar, ensinar) para o qual a palavra é apenas um meio; para eles, a palavra suporta um fazer, ela não o constitui”. Para Barthes, o escrevente tem a característica de aflorar dialetos, como, por exemplo: marxista, cristão ou existencialista, “mas muito raramente estilos”. Hoje nos perguntamos, em meio aos vendavais de edições, de histórias, e de novos escritores: como, em pleno século XXI, distinguiríamos a figura do escritor e do escrevente? Usaríamos a mesma técnica barthesiana? Interrogaríamos tal qual Barthes interrogou? Será que não agimos como meros escreventes, metidos e engodados por seus hobbyes, empurrando, garganta abaixo, palavras e mais palavras ao leitor?

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“O escritor tem algo de sacerdote, o escrevente de clérigo; a palavra de um é um ato intransitivo (portanto, de certo modo, um gesto), a palavra do outro é uma atividade. O paradoxo é que a sociedade consome com muito mais reserva uma palavra transitiva do que uma palavra intransitiva”. E Barthes continua: “a função do escrevente é dizer em toda ocasião e sem demora o que ele pensa”. Porém, no mesmo ensaio, Barthes descreve o que para ele seria uma contradição pura: “cada um hoje se move mais ou menos abertamente entre as duas postulações, a do escritor e a do escrevente; a história, sem dúvida, o quer assim, pois ela nos fez nascer tarde demais para sermos escritores soberbos (de boa consciência) e cedo demais (?) para sermos escreventes escutados”. “Os escritores têm bruscamente comportamentos, impaciências de escreventes; os escreventes se alçam por vezes até o teatro da linguagem. (…) Em suma, nossa época daria à luz um tipo bastardo: o escritor-escrevente”.

Fica aí, então, a pergunta: saberia o caro leitor, agora, diferenciar o escritor do escrevente?

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A chuva na janela

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Por Mário Gerson 

Começou o período de chuvas. Algumas pessoas plantam, as que possuem um pedaço de terra. Outras querem relembrar a infância e tomam banho de chuva. Algumas reclamam dos alagamentos. Em frente a um supermercado local, a chuva chegou, por esses dias, a arrastar motos estacionadas. A água desceu pela Avenida Presidente Dutra. E não tinha festa política, era tudo natural.

Nos bairros da periferia, visitou algumas casas. Alagou quintais, fez os sapos saírem das suas tocas, a noite ficou mais fria – há dias a cidade enfrenta noites amenas e, recentemente, amanheceu com um nevoeiro – digamos, uma cerração cobrindo os prédios e as ruas, em um cinza belo de se ver, um mergulho na infância campestre.

A chuva chegou em boa hora. Quem anda pelo sertão agora vê, ao largo do horizonte, o verde no lugar do cinza, o canto dos pássaros no lugar da solidão das aves, a água enchendo barreiros, riachos, açudes transbordam, pequenos agricultores plantam – daqui a pouco, o feijão e o milho verde estarão com os preços competitivos –, a vida oculta antes das águas, que agora ganha mais força, que brota do chão na babugem coberta pelo orvalho da noite.

As madrugadas são também de companhias barulhentas. Há muriçocas, há pernilongos, há insetos que insistem em retornar ao espaço que tomamos, à força das construtoras via Banco do Brasil. Sim! Nós ocupamos aquilo que não era nosso! E os escorpiões e aranhas caranguejeiras querem-no de volta. Pego a aranha com uma pá, entro no mato em frente à habitação e a devolvo àquele habitat. Por que matá-la, tão solitária em seu caminhar? Por que não deixá-la ir?

Da biblioteca, sentado na cadeira que pertenceu ao mestre Dorian Jorge Freire, e escrevendo, vejo a neblina salpicando, com gotas aleatórias, o vidro fosco e sem vida, enquanto, lá dentro, a vontade é de abrir a janela e sentir a água pela casa, é deixar que entre um pouco, que refresque minha alma… mas a vontade passa e continuo a escrever. A água escorre e uma nuvem de lembranças não apagadas – porque a memória é companhia certa nas horas de ócio e reflexão – ressurge, uma a uma, pescadas na solidão das águas turvas da vida, mas ainda brilhantes, cada uma a sua maneira.

Levanto-me para fazer um café. A chuva continua. Acendo a boca do fogão, um trovão forte anuncia alguém que fala mais alto do que eu e um sorriso não deixa de aparecer nos meus lábios. De infância mesmo, na vera, nunca tive medo dos trovões. Corria, e essa é uma lembrança que não foi apagada, para a chuva, olhava o céu fechado, os raios cruzando as nuvens, meus primos com medo da voz forte de Deus, e sorria, esperando o raio cair e contando os segundos, como ensinara meu tio, ex-militar. “São poucos segundos e depois vem o trovão!”

A água, na pequena chaleira de metal, começa a ferver. Coloco o pó de café no pano – sim, ainda o faço coado, tão delicioso quanto qualquer outro café do mundo! – e vejo a água escorrer entre a escuridão do pó e o vapor que sobe como perfume às minhas narinas!

Então, vem outro trovão e a chuva começa a cessar… Levo a xícara para a biblioteca e me arrependo, devo dizer, de não ter tomado o banho de chuva, talvez tantas outras lembranças viessem dele… ou um raio de luz na escuridão!

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Feliz “ano novo”

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Finalmente o ano começará de fato. Agora a conta protelada será paga. Afinal de contas já estamos “em depois do carnaval”.

O trabalho da faculdade vai ser feito, aquele regime finalmente será iniciado e os projetos para 2017 finalmente vão sair do papel.

Enquanto isso, os bandidos não deixaram para matar e roubar para “depois do carnaval”. Os políticos não pararam de aprontar enquanto o “ano não começava”.

A menina que deixou tudo para “depois do carnaval” poderá ter que repensar os planos com a gravidez fruto do amor da folia de Momo.

“Feliz ano novo”, besta!

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