Ilhados no manicômio

Bolsonaro queima a imagem do país no exterior (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

Por Ruy Castro*

Já viajei muito por aí e, em todos os países em que estive, senti que, ao ouvir a palavra “brasileiro”, as pessoas reagiam com encantamento, prazer e até inveja. Era, talvez, um eco de Carmen Miranda, Copacabana, Pelé, o Carnaval, “Garota de Ipanema”, símbolos históricos de um país musical, colorido e ensolarado. Claro que, mais a par da realidade, eu estranhava tanta aprovação. Ela ignorava nossas mazelas, como a ditadura, a tortura, a violência, a corrupção, a miséria. Mas era como se, mesmo que soubessem, não fosse da conta deles.

Agora, pela primeira vez, o que se passa aqui dentro ficou da conta do mundo. O Brasil está sendo visto como uma bomba prestes a explodir e despejar o coronavírus por toda parte. Nossos vizinhos na América do Sul estão alarmados — cada metro de fronteira, em qualquer dos sentidos, pode levar à morte de seus nacionais. Claro que isso não deve preocupar o governo brasileiro. Mas talvez preocupe o dos países para os quais nos sentamos nas patas traseiras e arfamos, e eles tomem certas providências.

Brevemente seremos proibidos de entrar nos países da União Europeia. Eles não querem se arriscar a admitir oriundos de uma população em que cada indivíduo pode contaminar outros dois com a Covid-19. Para isso, baseiam-se não só nos nossos números, que não demoram a ultrapassar mil mortos por dia e disparar, como na indiferença com que isso é tratado pelos supostos responsáveis.

Aos olhos internacionais, o Brasil tornou-se uma piada sinistra — um país em que fazer as unhas é uma atividade essencial, o ministro da Saúde é um cadáver ambulante e o presidente é um tresloucado que usa máscara cenográfica, humilha seus médicos e enfermeiros e estimula os humildes a sair às ruas para morrer.

​E, assim como não poderemos sair desse manicômio, ninguém de fora será louco de vir aqui ou pôr dinheiro nele.

*É jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

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Uma opinião sobre “Ilhados no manicômio

  • 17 de maio de 2020 em 19:10
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    Ruy Castro se esqueceu (de propósito) de escrever uma coisa: goste-se ou não do Lula, foi no governo dele que se verificou mais esse encantamento, mais do que com Carmen Miranda ou Jorge Ben, mais do que com Ary Barroso ou Pelé, mais do que comJobim ou Vinicius de Moraes. Foi nos governos (8 anos) dele em que houve mais otimismo e as pessoas nos viam lá fora como um povo alegre e se pensava realmente que a profecia de Zweig iria se concretizar (“o Brasil é o país do futuro”). Mas, na era Bolsonaro, era de trevas, somos o país do passado inglório.

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