Pedir desculpa a quem se ofendeu é atestar preconceito

Por Renata Mendonça*

Após quase 90 anos de história, o Washington Redskins cedeu às pressões de ativistas e patrocinadores da equipe, aceitando trocar de nome e símbolo, considerados ofensivos por fazerem menção à “pele vermelha” dos nativos americanos Kevin Lamarque – 13.jul.20/Reuters

Venho por meio desta pedir as mais sinceras desculpas a todos os que se sentiram ofendidos. Aos 56% da população brasileira, que é negra, e porventura pode não ter gostado do meu comentário. Jamais foi minha intenção ofender ninguém ao dizer que o jogador negro estava na senzala. Sou contra qualquer forma de discriminação. Não tenho nada contra negros, tenho até amigos que são.

Não sou racista. Falei senzala porque é só uma forma de expressão. É o nome daquele restaurante no bairro chique de São Paulo. Hoje em dia o pessoal problematiza tudo. Não é como se tivesse mandado o cara para Auschwitz ou como se o pessoal fosse comer no lugar com o nome de um campo de concentração que matou um milhão de pessoas. Falei senzala como quem mora na casa grande. Fui mal interpretado.

Foi só um comentário infeliz. Mas desculpa a quem se sentiu ofendido, não foi a intenção. Quem me conhece, sabe. Não sou preconceituoso.

Marinho protesta contra racismo em seu Instagram
Marinho protesta contra racismo em seu Instagram – Reprodução/Instagram

Esse tipo de pedido de desculpas, tão usado hoje, é a forma que se encontra não para admitir culpa ou erro, mas para apontá-los nos outros. Quem pede desculpa a quem se sentiu ofendido se exime da responsabilidade pelo ato cometido e põe o peso em quem se ofendeu. Diz que foi mal interpretado como se o erro estivesse em quem interpretou, e não em quem formulou a frase.

O Brasil talvez seja o país onde mais se encontra preconceitos sem se encontrar os preconceituosos. Em 1995, o Datafolha fez pesquisa em que 89% dos entrevistados disseram haver racismo no Brasil. Mas só 10% admitiam serem racistas.

Receio que o mesmo aconteceria com uma pesquisa sobre machismo. Provável que imensa maioria reconhecesse a existência do problema, mas não admitisse sua participação nele. Assim, a gente segue ignorando as questões urgentes enquanto solta notas frias e superficiais de repúdio em que, em vez de nos assumirmos preconceituosos, deixamos o preconceito na conta da “má interpretação”.

Há quem use os efeitos para justificar sua cegueira sobre as causas. Aconteceu neste fim de semana numa transmissão da NBA, quando o comentarista se espantou que “até mulher” participava da discussão sobre o jogo nas redes sociais na madrugada.

Em 1967, Kathrine é agarrada por funcionário que tenta tirá-la da maratona de Boston logo no início da prova Boston Globe/Boston Globe via Getty Images

Alertado sobre sua postura machista, ele justificou: oras, mas a maioria das pessoas que acompanha NBA é homem. Não adianta só “atestar” os fatos. Precisamos questionar as causas para esse efeito. A maioria dos consumidores de esporte é homem. Isso acontece por um fator biológico? É genético? Ou fruto de um aspecto social? Está na hora de parar de naturalizar o que não é natural.

Estranho não é ver mulheres participando de uma transmissão da NBA na madrugada. Estranho é ter passado tanto tempo achando normal a ausência das mulheres como consumidoras, praticantes e protagonistas do esporte.

Estranho é ainda ver transmissões 100% masculinas e achar que, quando uma mulher consegue romper as barreiras e ocupar esse espaço, ela só faz isso por causa da “cota feminina”. “Tá aí porque é mulher.” Quando poderemos falar da cota para homem branco, heterossexual, racista, machista e homofóbico que está aí porque é homem (no esporte e em outras áreas)?

Enquanto nós, brancos, não enxergarmos o racismo que nós mesmos praticamos, somos parte do problema. Enquanto os homens não virem o machismo que reproduzem, eles são parte do problema. Quando escolhemos o silêncio diante de atitudes racistas e machistas, somos coniventes. E quando pedimos desculpa “a quem se sentiu ofendido”, isso só atesta nosso preconceito.

*É jornalista, comenta na Globo e é cofundadora do Dibradoras, canal sobre mulheres no esporte.

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