Professores de economia contestam estudo contratado pela Prefeitura

Estação das artes é o principal polo do MCJ (Foto: arquivo)

O Blog do Barreto consultou três professores da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (FACEM/UERN) que analisaram o estudo realizado pela Universidade Potiguar (UnP) que apontou que o Mossoró Cidade Junina 2019 movimentou R$ 94 milhões.

Esta página deixa bem claro que respeita os profissionais envolvidos no trabalho feito pela a UnP e que se trata de um debate acadêmico direcionado a questões metodológicas e não de caráter dos envolvidos ou acusações de manipulações.

O professor Mairton França explica que correu uma dupla contagem com o método utilizado. “Há um erro original na concepção porque ele faz comparação de objetos que não são comparáveis pela sua complexidade. Quando falo dos polos, e eu não sei se a Prefeitura pediu assim, eu tenho apenas três produtos: 1)Pingo da Mei Dia, 2)Boca da Noite e o 3) Mossoró Cidade Junina. Eu não posso dizer que o produto três é a Estação das Artes, Chuva de Bala, Cidadela, Arena das Quadrilhas, etc. É tudo um produto só: O Mossoró Cidade Junina. Na medida que você entrevista as pessoas nestes polos você comete um erro de dupla contagem”, explica.

Ele explica que existem migrações entre polos que podem gerar uma confusão na contagem. “Na Estação das Artes você tem a maior média de gastos porque é para lá que todos convergem. A pessoa que foi entrevistada na Cidadela pode migrar para outros polos. Por isso não me surpreendeu que o maior gasto na Estação das Artes. Eles poderiam ter feito um estudo de migração porque eles precisavam ver de onde a pessoa veio e para onde ela vai porque ele pode até beber em todas elas, mas comer ele vai provavelmente em apenas uma delas”, avalia.

Resultado de imagem para Pingo da mei 2019
Pesquisador sente falta de números da PM quanto a presença de público (Foto: web)

O professor Rodolfo Costa pondera que o relatório da UnP é didático embora carente de rigor. Ele questiona os critérios de contagem de público que em 2019 não se baseou na Polícia Militar, mas na Secretaria Municipal de Segurança Pública, Defesa Civil, Mobilidade Urbana e Trânsito. “Inicialmente, para todas as áreas analisadas, não se observa uma justificativa quanto as informações amostrais, definição de variáveis ou indicadores quantitativos. Por exemplo, não são relatadas se a área utilizada são as áreas totais dos espaços (se as são, não seria razoável usa-las na plenitude, já que não há indícios de lotação ou superlotação nos eventos); não está claro qual o critério utilizado para definir o número de pessoas por m2 (foram usadas as referências da Policia Militar?) e nem o porquê da razão pessoa/m2 ser diferente entre as áreas; não se observa nenhuma exposição quanto a definição das amostras utilizadas etc”, questionou.

Assim como o professor Mairton, ele questiona a metodologia usada em relação aos polos. “Cabe destacar, também, que as comparações entre os distintos polos carece de um maior rigor estatístico. Não é recomendável se comparar valores médios de unidades diferentes, com tamanho de amostra diferente, sem proceder com um teste estatístico de comparação de médias. Tal comparação, quando realizada, só é relevante com dados populacionais. Sua realização a partir de uma amostra fatalmente incorrerá em viés”, explica.

Ele ainda faz outra ponderação: “Por fim, admitindo que estatisticamente seja possível inferir sobre a população a partir dos dados do relatório MCJ 2019, uma avaliação econômica requer um conjunto de medidas tradicional, entre elas, Valor Presente Líquido, Taxa interna de Retorno, Custo-Benefício etc., as quais foram negligenciadas pelo relatório”.

A conclusão do professor Rodolfo é de que “as informações apresentadas no relatório MCJ carecem de justificativas que atestem seu rigor científico e, consequentemente, possam ser consideradas para análise técnica dos impactos socioeconômicos gerados pelo MCJ”.

A professora Elza Andrade considera o estudo relevante, mas aponta falta de critérios na escolha dos entrevistados:

“A apresentação da metodologia deixa dúvidas quanto a determinação da amostra e critérios estatísticos utilizados, no entanto pelas características da pesquisa subtende-se que a amostra seja não probabilística, uma vez que não há uma lista a priori dos indivíduos que compõe o universo. Sendo assim, as pessoas entrevistadas são abordadas aleatoriamente nos eventos estando em parte dependendo do julgamento do entrevistador e da acessibilidade do entrevistado.

Ademais não há uma apresentação precisa de quando foi aplicado e como foi a distribuição por dia dos questionários em cada polo, e nem como foi a divisão entre “pista” e camarote, uma vez que isso pode gerar um viés nos resultados, na medida em que o pesquisador pode optar por dias de maior público, dias em que as atrações sejam mais aguardadas, ou cujo perfil do público seja diferenciado”.

A professora Elza também aponta falta de rigor estatístico:

“O estudo se propõe a calcular o valor total movimentado no polo e no evento, para isso é efetuado um cálculo em que o público estimado é multiplicado pelo gasto médio por pessoa.  Ocorre que o gasto médio por pessoa foi calculado para uma amostra não probabilística.  Neste ponto fica evidente a falta de rigor estatístico do estudo, a partir do momento em o autor tenta inferir o resultado da amostra para a população. O problema neste caso refere-se ao fato de que os resultados deste tipo de pesquisa são aplicados apenas a amostra pesquisada, não permitindo inferências, ou seja, não é possível generalizar os resultados para a população, pois amostras não probabilísticas não garantem a representatividade da população”.

Ela disse sentir falta de um balanço sobre o que foi arrecadado em impostos como retorno do investimento do município. “Também nos resultados é exposto um cálculo de índice de rentabilidade do polo e índice de rentabilidade do evento, e estes seriam utilizados para a estimação do retorno sobre o investimento (ROI). Ressalta-se que estes índices são bem aplicados para análises de investimentos em empresas. No estudo em específico, há uma distorção quanto ao que foi considerado lucro operacional, uma vez que deduz o valor estimado movimentado no polo (pelo público) dos custos e despesas do polo (efetuados pela prefeitura. No entanto, deste VEMP a prefeitura terá sua participação em forma de arrecadação de tributos, sendo que foi valor informado corresponde ao consumo médio das pessoas entrevistadas durante os eventos e não ao que será arrecadado pelo município.  Este equívoco acaba por comprometer todo o resultado do estudo”.

Abaixo a entrevista concedida pelo professor Josivan Alves ao Meio-Dia Mossoró em que ele explicou a metodologia aplicada no estudo.

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Uma opinião sobre “Professores de economia contestam estudo contratado pela Prefeitura

  • 26 de agosto de 2019 em 16:56
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    Essa é a Rosa da mentir. Ela não cansa de querer desinformar a populaçãopopulação.
    É lamentável que está mulher ainda seja prefeita

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