Sairá a humanidade melhor dessa pandemia? As possibilidades de avanço e os perigos de retrocesso que nos cercam

Por Robério Paulino*

As grandes crises ou comoções humanas, como a que vivemos nessa pandemia, sempre geram esperanças em muitos corações e mentes de que as sociedades e os indivíduos reflitam e modifiquem para melhor seus padrões de comportamento anterior. O sofrimento, às vezes, ensina. É perceptível nesse momento a esperança por parte de amplos setores das populações de que a humanidade saia melhor dessa pandemia mais solidária, mais reflexiva, com mais compaixão, menos violenta e mais pacífica, menos individualista, consumista e destrutiva para o planeta.

É visível também a grande expectativa de parte dos setores mais conscientes de que essa crise contribua para superar ou arrefecer o ímpeto destrutivo do sistema capitalista e sua forma mais agressiva e irracional, o neoliberalismo, levando à reversão de um quadro de tanta desigualdade e pobreza das populações, mais uma vez tristemente revelado nesses dias. Os governos de países capitalistas têm sido obrigados nessa pandemia a elevar sensivelmente os gastos públicos, seja para socorrer empresas, para o controle da doença ou para não deixar cair o consumo demasiadamente, evitando recessões ainda mais severas do que as previstas.

Não está claro ainda como a conta dos gastos dessa pandemia será paga, mas, a depender de alguns governos, a orientação neoliberal não será afastada e a fatura será passada em breve aos trabalhadores e às populações, como já se aprovou no Brasil. Contudo, essa crise também pode levar a um arrefecimento do ímpeto neoliberal, a depender das reações das populações e dos trabalhadores, que se neguem a pagar essa fatura.

GRAVES CRISES TAMBÉM GERARAM GRANDES RETROCESSOS

Vemos alguns analistas dizerem que a humanidade não será a mesma depois dessa pandemia, sugerindo que ela poderá sair melhor, mais reflexiva e solidária dessa comoção. A história humana mostra, no entanto, que crises econômicas e políticas e pestes arrasadoras nem sempre são sinal de aprendizado, de mudança para melhor. Muitas catástrofes deram espaço a grandes retrocessos, a involução, a barbárie. Como no passado, nessa grande comoção em curso há uma luta de ideias e interesses em choque, que pode levar a civilização para um lado ou para outro, para frente ou para trás, a depender da capacidade dos campos em luta de chegar aos corações e mentes de bilhões.

São muitos os exemplos de retrocessos depois das grandes crises sociais.  A decomposição do Império Romano é um exemplo que levou a uma grande involução, abrindo caminho para uma longa noite de obscurantismo e terror na Idade Média, a um processo esvaziamento das cidades, de ruralização, isolamento da vida social em pequenas comunidades, queda das trocas comerciais de longa distância, quase desaparecimento da moeda e rebaixamento geral da cultura e das condições de existência em toda a Europa Ocidental. Estima-se que Roma, em seu auge, tenha chegado a ter uma população entre 800 mil a 1,5 milhão de habitantes. Depois das invasões e da decomposição do Império, sua população caiu para menos de 50 mil habitantes.

Outro exemplo de saída negativa depois de uma crise foram os acontecimentos que se seguiram à Grande Depressão iniciada em 1929, nos EUA, mas que se propagou para todo o mundo. Aquele crash mergulhou a economia mundial e de muitos países numa profunda recessão, com o fechamento de milhares de empresas e milhões de desempregados. A quebra da economia na Alemanha, o alto desemprego, a inflação descontrolada, que jogava nas alturas os preços e transformava a moeda em fumaça, gerando desespero na população, facilitaram a ascensão do nazismo, que capturava e transformava em ódio o sentimento nacionalista, fruto da humilhação da Alemanha depois da derrota na I Guerra Mundial. O resultado foi a II Guerra Mundial, conflito que matou até 80 milhões de seres humanos e ensejou os horrores do Holocausto e a explosão de duas bombas atômicas sobre o Japão.

A crise da economia capitalista aberta em 2008, gerada pelo liberalismo econômico radical e pela acelerada financeirização da economia, apesar de não ter a dimensão de tragédia das duas guerras mundiais, gerou quebradeira de empresas e bancos e desemprego maior. Não levou a uma saída positiva e não afastou o neoliberalismo da condução da economia dos países. Mesmo depois daquela perturbação, os ataques aos sistemas de proteção social continuaram. A aceleração da desindustrialização em curso no Ocidente e os novos cortes de milhões de empregos levaram a uma precarização cada vez maior das condições de trabalho, à queda dos salários e à uma reconcentração de renda de patamares não vistos há décadas, similares ao período pré-1929.

Outro exemplo de desenlace negativo, de que nem sempre situações de convulsão ou crises levam a saídas melhores e sim a retrocessos, são as desilusões com governos de esquerda ou considerados progressistas, quando estes chegam ao comando dos países e frustram as esperanças das populações. Ao contrário do que às vezes esperam organizações socialistas mais radicais, de que essas decepções aumentem a audiência para elas, na maior parte das vezes essas frustrações têm conduzido à volta de partidos de direita e mesmo fascistas ao comando dos países.

A SAÍDA TAMBÉM PODE SER PARA MELHOR

Mas, felizmente, nem sempre as saídas das grandes crises ocorrem pelo lado negativo. Se algumas grandes comoções humanas conduziram a retrocessos, outras levaram a humanidade a repensar o curso e seguir em frente melhor, se superar. Situações adversas podem sim abrir espaço para o novo, para avanços, como torcemos para que aconteça agora. Ao longo de milhares de anos, nossa espécie se destacou das demais e se impôs como senhora do planeta exatamente por sua imensa capacidade de adaptação aos mais distintos e inóspitos ambientes, por sua flexibilidade, seu grande poder de refletir e aprender rapidamente com as maiores dificuldades, com as tragédias, saindo em frente das grandes comoções.

Como explicar que apesar de todas as pestes, secas, grandes fomes, catástrofes ambientais, guerras locais ou mundiais com milhões de mortos, a humanidade tenha chegado a quase 8 bilhões de seres e esteja vivendo mais, com uma expectativa de vida de quase o dobro de meados do século XIX, senão por este instinto de preservação e superação? Os exemplos na história são inúmeros.

A unidade de muitos países na Segunda Guerra contra o nazismo é um deles. Mesmo com a antiga URSS sendo um país que se declarava socialista, portanto uma ameaça ao seu sistema social, países capitalistas como EUA e Inglaterra foram forçados a se unirem a ela contra as tropas de Hitler, por saberem que uma vitória desse último poderia significar uma longa noite de obscurantismo e terror no mundo.

A Segunda Guerra Mundial também levou à formação da ONU e seus organismos, um embrião de Estado mundial, que, por mais que defenda os interesses do grande capital, tem princípios nobres e elevados em sua carta de fundação. Ali se estabeleceu um palco de negociações que, se não impediu muitas novas guerras localizadas e ações imperialistas dos EUA, por exemplo, talvez tenha até agora evitado um novo conflito mundial generalizado e terminal para a civilização. Apesar das intervenções patrocinadas por essa organização em muitos países, um aspecto negativo, a existência de muitos organismos internacionais que cumprem papel positivo essencial, como a OMS e o PNUD, por exemplo, foi possível também pela existência da ONU.

A Guerra Civil nos EUA, entre 1861 e 1865, uma das mais mortíferas até o século XIX, teve como saldos positivos acelerar o fim da escravidão, estabelecer em todo seu território um Estado liberal capitalista, acelerar a distribuição de terras a milhões de novos colonos, negando a extensão dos latifúndios escravistas do Sul, e ampliar vários direitos civis. De negativo, acelerou o genocídio indígena e deixou muitos negros libertos de fora daqueles novos direitos.

No Brasil, a grave crise econômica do início da década de 1980 trouxe muito desemprego, mas também teve como saldo positivo acelerar o fim da ditadura militar, inaugurando o período de democracia parlamentar capitalista que vivemos, mesmo que muita limitada, possibilitando uma Constituição melhor, com novos direitos sociais, conquistas que hoje o capital busca ceifar. Tivemos mesmo a oportunidade de um partido com origem na esquerda chegar ao governo, experiência que infelizmente não atendeu às expectativas geradas e abriu espaço para a chegada da ultradireita ao comando do país no momento.

Na pandemia atual, nada garante que o mundo vai mudar para melhor. Mas observamos alguns exemplos positivos e muito alentadores de solidariedade internacionalista. Talvez nunca se tenha visto uma colaboração tão próxima entre países durante uma crise como a que se observa no momento entre alguns dos principais governos europeus. A China enviou um avião com médicos especialistas e toneladas de remédios para a Itália, que também recebeu a solidariedade de Cuba, através de médicos, coisa antes impensável. A Rússia também mandou um comboio de ajuda humanitária. Cientistas de todo o mundo cooperam intensamente nesse momento, trocam informações, correm contra o tempo para obter uma vacina ou descobrir um coquetel de remédios que possa derrotar a COVID-19, o que será rapidamente compartilhado.

No Brasil desses dias, a pandemia tem levado a que muitos governadores e outros líderes que apoiaram Bolsonaro tenham que dele se afastar, por seu comportamento irracional. Há uma clara crise no campo capitalista sobre a condução da crise. Além de defenderem o isolamento social, mesmo paralisando em grande medida a economia capitalista, muitos deles e o próprio Congresso Nacional têm sido obrigados a elevar os gastos públicos, a exemplos de outros países, na contramão do neoliberalismo que sempre praticaram. Temem se desgastarem e sentem medo de uma explosão social das dezenas de milhões de trabalhadores pobres que de repente ficaram sem qualquer fonte de sobrevivência nessa pandemia.

Exemplos como esses acima nos fazem esperar e torcer para que essa comoção pela qual passamos possa também contribuir para uma saída em frente, para uma humanidade melhor. O pessimismo da razão nunca pode anular o otimismo da vontade. Talvez nunca na história da civilização a humanidade tenha se sentido tanto como uma comunidade única quanto nessa pandemia, enfrentando uma ameaça global simultaneamente, de forma integrada e relativamente coordenada, com a OMS à frente dos esforços. As cenas das maiores cidades mundiais desertas, de hospitais colapsados e o sofrimento de tantos têm comovido a muitos e os levado a refletir sobre o acionar e a condição humana.

Em entrevista ao jornal La Repubblica, o filósofo Slavoj Zizek disse acreditar que, em vez de um retrocesso, com essa crise, os laços de comunidade na humanidade saem fortalecidos. Para ele “Um novo senso de comunidade: é isso que está emergindo dessa crise. Uma espécie de novo pensamento comunista, distante do comunismo histórico. A banal descoberta de que coordenação e cooperação globais são necessárias para combater o vírus tem um viés revolucionário. Estamos redescobrindo o quanto precisamos uns dos outros”.  Ele afirma que, contra suas próprias políticas liberais, alguns governos estão sendo obrigados a adotar políticas de fato socialistas (2019). Torçamos para que Zizek esteja correto.

Uma marcha à ré após essa grande comoção não está descartada, com o capital tentando passar toda a conta dos gastos de combate ao vírus para as populações e os trabalhadores e estabelecer outras medidas autoritárias, como já se observa no Brasil. Por outro lado, um passo para frente vai depender da mobilização dos povos e dos trabalhadores na saída da pandemia, que, tirando as lições de toda essa crise pela qual passamos, não aceitem qualquer corte em conquistas sociais e salários, exijam a ampliação dos serviços públicos que vinham sendo destruídos e que se demonstraram tão essenciais numa emergência como essa. Essa é uma das lições fundamentais dessa crise. Sem sistemas de proteção social públicos como na China, na Europa, no Brasil e outros países, essa pandemia iria matar muito mais pessoas.

Existe também a hipótese de que não haja um desfecho global único nessa crise, que as saídas sejam diferentes nos distintos países, ou seja, uma saída desigual, na qual alguns países avancem, melhorem ou recomponham minimamente seus sistemas de proteção sociais e os instrumentos de enfrentamento de calamidades, enquanto outros retrocedam. A China pode sair mais forte dessa crise, como também a Alemanha, pelos exemplos de rigor com o qual enfrentaram a pandemia, enquanto os EUA se enfraqueçam um pouco mais, revelando ao mundo toda a precariedade de seu sistema de proteção social, em contradição com seu poderio econômico, se enfraquecendo no jogo da geopolítica mundial. No Brasil, o desfecho não está dado, mas até aqui podemos afirmar que haverá certamente um fortalecimento dos estados na sua relação com a União e um clamor pela melhoria do sistema de saúde pública logo que passe a pandemia.

Uma saída global para melhor nesse momento dependerá, também, da compreensão coletiva das origens dessa pandemia, que leve a humanidade a rever toda sua ação destrutiva sobre o planeta e mudar seu sistema social e produtivo, voltado apenas ao lucro de uma minoria, baseado no individualismo e no consumismo. Como mostramos acima e levantou como hipótese Zizek, talvez frente à uma ameaça global, esteja ocorrendo um impulso de solidariedade global, ainda que incipiente. Frente à grave comoção pela qual passa a humanidade no momento, quem sabe nossa espécie possa refletir que nossas diferenças são menores frente às ameaças de extinção da civilização e estejamos tendo que trabalhar juntos para encontrar a saída.

Não estamos entre os que pensam que o sofrimento enobrece ou coisas do tipo. Mas muitas vezes grandes traumas na vida dos indivíduos ou das sociedades podem levar à reflexão, ao amadurecimento. Em tempos difíceis, em grandes crises, a humanidade muitas vezes se elevou, se superou, avançou, demonstrou grandeza, como mostramos acima. Como já assinalado, um retrocesso não está descartado. Mas lutemos para esse cataclismo que assola a civilização e a quarentena que isola bilhões de nós em nossas casas ao mesmo tempo nos torne mais reflexivos e, quem sabe, mais humanos, nos ensine que a cura talvez esteja antes de tudo na solidariedade entre todos.

Assim como não podemos descartar um retrocesso depois dessa crise, se ela se agravar, lutemos para construir a partir dessa grande comoção social uma nova civilização, baseada em outros valores mais elevados, como igualdade de direitos e oportunidades para todos, fim da exploração de uns seres por outros, solidariedade entre todos os povos, compaixão, sustentabilidade e preservação de toda a vida no planeta. A humanidade de fato jamais será a mesma depois dessa crise. Quem sabe depois dessa sacudida pela qual passamos comece a surgir um mundo novo, diferente, melhor, mais solidário, que aproxime a todos os povos, derrube barreiras, fronteiras, supere o atual sistema econômico, e nos ensine que estamos todos em um único barco.

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*É professor da UFRN, no Departamento de Políticas Públicas, Natal.

Referências

ZIZEK, Slavoj. Zizek: O nascimento de um novo comunismo. Entrevista ao jornal La Repubblica. Traduzido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Publicado no portal outraspalavras.net.  Disponível em: https://outraspalavras.net/outrasmidias/zizek-o-nascimento-de-um-novo-comunismo/. Acesso em: 08 de maio de 2020.   

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