Terceira colocada que virou reitora homenageia ídolo de Bolsonaro

Reitora nomeada por Bolsonaro resgata quadro de ditador (Foto: reprodução)

Terceira colocada na consulta à comunidade acadêmica da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA) Ludimilla Oliveira só se tornou reitora graças ao procedimento do presidente Jair Bolsonaro de ignorar a vontade da maioria.

Grata, ela resgatou do almoxarifado da UFERSA o quadro do presidente Costa e Silva e colocou no gabinete de trabalho. Junto com o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o mais famoso torturador da ditadura militar, os cinco presidentes do período autoritário compõem o panteão de ídolos de Bolsonaro.

Costa e Silva foi o presidente que assinou o Ato Institucional número cinco, conhecido como AI 5, que endureceu o regime e perseguiu opositores. Foi no governo dele que a Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM), que deu origem a UFERSA, foi fundada.

Quando era deputado Bolsonaro mantinha galeria com presidentes militares no gabinete (Foto: reprodução)

Além da forte conotação política com objetivo de agradar Bolsonaro, o gesto desrespeita resolução do Conselho Universitário (CONSUNI/UFERSA) que proibiu homenagem a ditadores na instituição de ensino superior.

O fato resultou no envio do quadro de Costa e Silva para o almoxarifado e a retirada do nome do ditador dado ao ginásio da UFERSA.

Procurada por meio de sua assessoria de imprensa a reitora disse que não iria se pronunciar sobre o assunto.

Leia a decisão do CONSUNI/UFERSA que extingue qualquer Homenagem a ditadores

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O monopólio do mimimi

Por Gabriela Prioli*

Quem conhece essa nova direita brasileira (coitada da direita brasileira) sabe que uma estratégia adotada amplamente é a de deslegitimar qualquer reivindicação que parte de grupos oprimidos. No dialeto deles: o mimimi.

O discurso, alimentado por uma ideia deturpada de meritocracia, é que a reclamação é chororô e que quem realmente se empenha consegue superar qualquer dificuldade (e sem políticas afirmativas ou qualquer outro tipo de política pública).

O então presidenciável pelo PSL Jair Bolsonaro durante debate televisivo nas eleições de 2018 Diego Padgurschi – 17.ago.18/Folhapress

É mimimi reclamar de racismo estrutural num país em que os negros estão sobrerrepresentados entre os que vivem abaixo da linha da pobreza, os jovens negros são as vítimas preferenciais da polícia e, no ano passado, as mulheres negras receberam 44,4% do salário dos homens brancos. Aliás, é mimimi discorrer sobre dados de violência contra a mulher no Brasil. Elas devem reclamar de estupro porque são tão feias que não merecem nem ser estupradas.

“Acuse-os do que você faz, chame-os do que você é.” A qualidade que o bolsonarismo atribui às demandas alheias é estratégia para confundir o espectador. Reclamam, na verdade, daquilo que enxergam internamente. No bolsonarismo, a reclamação sem legitimidade é estratégia para se eximir da responsabilidade.

Notem que a lógica do esforço pessoal não vale para eles mesmos.

Bolsonaro é o reclamão por excelência. Reclama de tudo como uma criança mimada. Chegou ao mais alto cargo da República e, dia sim, dia não, diz que não consegue fazer nada. Reclama do Congresso, da imprensa, do STF… Sempre tinha no bolso uma solução mágica que, coitado, não conseguiu implementar porque, na condição de Presidente da República, é o verdadeiro oprimido.

Mesmo num momento em que consensos são difíceis no Brasil, penso que podemos concordar que um presidente que não consegue fazer nada não é algo de que precisemos agora. Sugiro ouvirmos atentamente as confissões de Bolsonaro sobre a sua incapacidade para que possamos fazer melhores escolhas futuras.

Este artigo não representa a mesma opinião do blog. Se não concordar, faça um rebatendo que publique como uma segunda opinião sobre o tema.

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Bolsonarismo fica sem candidato a prefeito em Mossoró

Ângela Schneider vai disputar vaga na Câmara (Foto: redes sociais)

A odontóloga Ângela Schneider (PRTB) não vai mais disputar a Prefeitura de Mossoró. Ela foi deslocada para a chapa proporcional e o seu partido não lançará nomes para a majoritária nem apoiará nenhum dos candidatos.

“Nãoo foi fácil chegar até aqui em tão pouco tempo, mas conseguimos a primeira vitória, manter o grupo unido demonstrando honra, caráter, dignidade e fidelidade ao nosso Presidente e nossos líderes”, declarou nas redes sociais.

Com a retirada da postulação de Schneider, o bolsonarismo não terá candidatura a prefeito de Mossoró. Isso porque outro pré-candidato deste campo político, Daniel Sampaio (PSL) será o vice da ex-prefeita Cláudia Regina (DEM).

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Bolsonaro desligou a Lava Jato

Por Celso Rocha Barros

Na semana passada, o STF concluiu o processo judicial mais longevo da história brasileira. Tratava-se de disputa entre, veja bem, a princesa Isabel e o governo brasileiro para saber quem é dono do Palácio Guanabara, onde trabalha seja lá quem a milícia tiver escolhido para ser governador do Rio de Janeiro. O processo durou 125 anos.

Mas a briga da princesa já tem concorrentes para o posto de processo que demorou mais e deu em menos na história brasileira. Afinal, as investigações de corrupção chegaram à direita.

Resultado: em menos de uma semana, o governador do Rio, que nomeia o procurador-geral, que investiga a família Bolsonaro, foi trocado por outro governador, aliado de Bolsonaro. E a força-tarefa da Lava Jato de São Paulo renunciou porque a procuradora indicada pelo PGR de Bolsonaro parecia disposta a melar as investigações.

Eu me lembro, jovens, da fúria santa que caracterizava o clima político quando as investigações eram contra a esquerda. Mas chegou à direita, e, agora, cai o governador para beneficiar o presidente, desmonta-se a Lava Jato na frente de todo mundo, e nada.

Por isso, sempre que você ouvir a pergunta “o que significam esquerda e direita no Brasil de hoje?”, responda: esquerda é o cara que foi preso. Direita é o cara que fugiu da cadeia enquanto liderava a campanha contra a corrupção que prendeu o cara de esquerda. Centro é o procurador que entrou nesse negócio achando que ia mesmo poder prender todo mundo.

Quem matou as investigações de corrupção foi a extrema direita. Jair Bolsonaro, o candidato outsider de 2018 eleito na “eleição da Lava Jato”, foi quem matou a Lava Jato. Os generais que iam para o Twitter ameaçar golpe se absolvessem o Lula mataram a Lava Jato. Os bolsonaristas que não tinham “bandido de estimação” mataram a Lava Jato.

Mas e aqueles movimentos todos de rua, camisa de seleção, ética na política? Bom, o Vem pra Rua está pedindo o impeachment do Aras, o procurador-geral da República. Isso, o do Aras, não o do Bolsonaro, esse impeachment eles não querem.

Carreata teve início no Pacaembu, em São Paulo Bruno Santos/Folhapress/

Perguntem aos procuradores da Lava Jato o que aconteceu no governo Bolsonaro e vejam se eles acham que a culpa é do Aras ou do Bolsonaro.

A esta altura, você pode perguntar: mas a Lava Jato não era mesmo cheia de problemas, não estava na hora de acabar aquilo e seguir com a vida? É mais complicado que isso, mas, para facilitar, digamos que seja o caso.

Mesmo assim, perdoe-me por achar chato que acabe depois do meu lado ter perdido muito mais. É muito, muito ruim para a democracia que as instituições possam ser ligadas e desligadas conforme o interesse de um dos lados do espectro político.

A própria esquerda está satisfeita com o fim da operação. Muita gente inteligente, gente que eu respeito, acha que os resultados do ciclo antissistêmico dos anos dez foram tão desastrosos que, a essa altura, qualquer acomodação ajuda.

O ex-assessor parlamentar e policial militar Fabrício José Carlos de Queiroz em foto ao lado de Jair Bolsonaro. A imagem foi publicada no perfil do Instagram do ex-auxiliar em 21 de janeiro de 2013 Reprodução/Instagram

Talvez eles tenham razão. O que eu ainda não entendi é por que eu devo confiar que o processo em curso seja um desmonte ideologicamente equidistante, e não um aparelhamento bolsonarista. O que me parece é que a capacidade de ligar e desligar as instituições está se tornando mais, e não menos, concentrada nas mãos da turma de sempre.

 

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Se a operação para normalizar Bolsonaro funcionar no RN, não será Rogério Marinho, mas Styvenson o candidato competitivo para 2022

Por Daniel Menezes*

Caso funcione a normalização feita do presidente Jair Bolsonaro no RN, não sairá daí a condição de candidatura competitiva para o governo em 2022 do hoje ministro Rogério Marinho. É o desejo que as elites potiguares tentam realizar, mas não é assim que acontece. A força do exemplo será maior do que a do discurso seletivo.

Se a população aceitar que o bom é agredir jornalista, gritar com os outros e arrebentar com o sistema político, ação que Bolsonaro faz mais nos holofotes do que na vida real da relação com o congresso, o potiguar não olhará para Rogério, mas para o capitão Styvenson.

Rogério Marinho é preparado, porém tem o perfil da “velha política” e um histórico de alianças com os principais grupos políticos do RN. Quem age do jeito que se tenta normalizar é o senador Styvenson.

O povo, além disso, perceberá a contradição entre valorizar Bolsonaro e sua forma de agir e tentar fritar Styvenson, que atua de maneira semelhante. Nesse processo, será o bolsonarista local que terminará na panela entregue de bandeja.

E um aviso que deveria ser motivo de preocupação. Bolsonaro faz composição e vive pacificamente com quem tem o poder, apesar da truculência e da retórica. Já Styvenson, não. Muita gente está cavando o próprio buraco para se enterrrar. Basta olhar as pesquisas.

*É sociólogo e professor da UFRN

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Pelo direito de ser enganado

O negacionismo científico e a gestão de saúde - Saúde Business

Por Daniel Menezes

Eu quero ser enganado. Quero acreditar que o supremo tribunal federal, ao deliberar que Bolsonaro não poderia desfazer as ações de isolamento promovidas pelos estados e municípios, retirou dele todas as responsabilidades diante de uma pandemia. Não faz nenhum sentido, mas deste modo eu acharei que o nosso presidente, dito patriota, não foi negligente ao manter as fronteiras nacionais escancaradas para o covid-19, agiu certo ao não ter plano de atuação contra o coronavírus, entre outras (in) ações.

Eu quero ser enganado e nutrir toda fé de que a cloroquina cura covid-19. O remédio já foi abandonado no mundo para tal objetivo, após dezenas de pesquisas demonstrarem que ele atrapalha o processo de recuperação contra a doença. No Brasil, em que ele é largamente empregado, não há qualquer evidência de que a cloroquina tenha diminuído a taxa de letalidade. Pelo contrário. Mas quem sabe eu perderei de vez o medo de adoecer? Então, cloroquina funciona, Bolsonaro tem razão e a OMS é comunista. O mesmo vale para ozonioterapia e vermífugo.

Eu quero ser enganado e contra todo o planeta falar com convicção de que o coronavírus tem pernas e caminha até a casa de quem fez e faz isolamento social. Ora, vírus só “anda” através de vetores. Só que eu quero gritar ou escrever em caixa alta nas minhas redes de maneira bem boçal: o Osmar Terra, o que disse a Bolsonaro que só teríamos 800 mortes por covid-19 no Brasil, tem razão! Deste modo, minha consciência para aquela vez que eu furei o isolamento e fiz um churrasco com a galera ficará tranquila.

Eu quero ser enganado por aquela corrente que mostra que os caixões dos mortos por covid-19, na verdade, estão cheios de pedras. Pense, como seria bom saber que há alguém malévolo por trás de tudo e que não passa de encenação. A probabilidade é zero, pois teríamos aí um complô entre justiça, polícia, ministério público, estados e municípios, imprensa, etc, impossível de ser organizado. E, ainda que fosse possível, para quê? Porém, ora, seria ótimo ir dormir convencido de que tudo é uma ilusão arquitetada pelos globalistas defensores dos chineses.

E se algum infectado existir eu quero ser enganado e perceber que, na verdade, o que importa acompanhar é o número de curados. Que problema tem em desconsiderar que, para os curados existirem, eles precisaram se contaminar antes? E se tivéssemos evitado o vírus, com os dois meses de folga que tivemos, não contaríamos nem mortos e muito menos recuperados? Saber também que já há estudos que mostram quantos se curam (99%) e quantos morrem (1%) ao contrairem coronavírus não me interessa. Quero ter o direito de comemorar o que poderia ser evitado e esconder o que demonstra o resultado de todo o descaso. Aliás, que descaso?

Eu quero ser enganado e só consumir informação que chega até o meu smartphone sem fonte, sem eu saber a razão de quem produziu aquele texto e que sempre contenha conteúdo alarmista e inverossímil do tipo: URGENTE! AMEAÇA NACIONAL! Ou SUA VIDA DEPENDE DISTO! Seria mais sensato conhecer o autor, procurar por ponderação; mas, poxa, ler um monte de jornal, acessar fontes oficiais e estudos trabalhosos é cansativo e, pior, eu daria moral para jornalixo que quer sexualizar nossas crianças com mamadeiras de piroca. Melhor a fazer é esperar a corrente embaladinha chegar e eu me amparar nela para dizer quem é do bem e do mal, em toda a complexidade de um desenho animado do He-man.

Eu quero ser enganado pelo Youtuber que sabe de tudo e sempre faz eu me sentir especial, como se, ao ouvir as platitudes que ele distribui, às vezes de forma bem remunerada por mim mesmo, eu farei parte de um super grupo de seres pensantes. Eles nunca acertam, mas meu ressentimento foi aplacado. Só que eu quero ser otimista, viver através de fórmulas simples, ainda que não funcionem. Ou melhor, só sirvam para eu me situar em meu mudinho. Afinal, esses cientistas que aparecem por aí são muito pessimistas: eles falam de números, cobram evidências para fundamentar ações e relações de causa e efeito.

Sim, eu quero ser enganado e tocar minha vida em realidade paralela. Afinal, eu acho que a minha ignorância é algo especial e o planeta ficará melhor se existirem outros como eu e a gente possa espalhar todas as nossas certezas em paz. Respeite o meu direito.

A nossa liberdade está ameaçada! Os comunistas estão destruindo a família! Patriotas admiradores dos EUA, uni-vos!

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Assistencialismo na saúde e na doença

Constantino: Obras que outros governos prometiam são entregues por ...
Bolsonaro invade território político da esquerda (Flickr Palácio do Planalto)

Por Fernando Rizzolo*

Ainda me lembro, como se fosse hoje, das desvirtudes que o “lulopetismo” amargou quando a classe média e a direita – que nem sabia que pertencia à direita – acusavam o Bolsa Família de ser um “projeto assistencialista”, que induzia o povo pobre a não trabalhar, pois o petismo não “ensinava os pobres a pescar”, dando-lhes o “peixe pronto”.

Em um dos meus artigos de meados de 2019, já previa que a sobrevivência do bolsonarismo dependia da virada à esquerda, mesmo se portando e posando de liberal conservador. Dizia também, e com muita sobriedade, que as formas tácitas de apropriação política do petismo deveriam ser angariadas e cooptadas pelo bolsonarismo, uma vez que sobreviver ao capital eleitoral apenas com patriotismo e combate à corrupção seria impossível por não alcançar a densidade populacional pobre deste país.

A grande verdade é que estrategicamente o governo Bolsonaro, até como inspiração militar de técnicas de contenção ao inimigo, se apercebeu de que a população pobre, mormente vivenciando uma crise econômica, pouco se interessa por palavras, por ideias de luta de classes, a não ser que tenha dinheiro e a renda mensal garantida, assim como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez.

Portanto, ao que parece, um novo “pai dos pobres” pode estar a caminho, afinal Bolsonaro aprendeu com Lula que passar quatro anos dando 120 reais todo mês beneficiou cerca de 14 milhões de famílias, atingindo 57 milhões de brasileiros, e fez dele o “mito da esquerda”. Atualmente o valor médio do benefício é de 191 reais.

Assim, a estratégia para o aumento da densidade eleitoral por parte do governo Bolsonaro é no mínimo inteligente. Senão vejamos: o auxílio emergencial deverá injetar 300 bilhões na economia, e já beneficiou 66,2 milhões de brasileiros, multiplicando a renda dos atendidos. Dessa forma, em eventuais ameaças de queda em sua popularidade, estabelecerá Bolsonaro metas e estratégias fiscais que viabilizem sua perenidade.

O Bolsa Família custou 34 bilhões ao erário público. Se houver uma ampliação do benefício médio para que possa abranger um número maior de beneficiários e se tal benefício se tornar contínuo, o avanço da esquerda pode ser contido, além de capitalizar votos para a reeleição. Até mesmo o ministro Paulo Guedes entendeu a equação política e luta por novos tributos, como a volta da CPMF, desta feita disfarçada.

A chegada consagrada do Programa Renda Brasil, nos moldes melhorados do Bolsa Família e mais generoso, põe os liberais como guardiões dos pobres e nada sobrará para a atual esquerda. Vamos então, quem sabe, abandonar Celso Furtado, furtando seus ideais através de uma tática estrategista militar, e restará ao PT e à esquerda, se quiserem sobreviver, apenas dar as mãos ao bolsonarismo.

Celso Furtado, foi, portanto, vítima de um furto ideológico baseado na figura jurídica que chamamos de “estado de necessidade”… de o bolsonarismo voltar ao poder.

*É Advogado, Jornalista, mestre em Direitos Fundamentais.

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Na batalha das redes, a extrema direita ganha por W.O.

Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil

Por Rosana Pinheiro Machado

The Intercept

Enquanto você lê esta coluna, parte da rede bolsonarista de WhatsApp recebe aproximadamente 5 mil mensagens nos quase 2 mil grupos de apoio ao ex-capitão.

“A extrema direita ganha por W.O.”, quando há vitória de um time sem adversário. Assim Pedro*, expert em tecnologia e política, define a atual disputa ideológica entre direita e esquerda nas redes sociais. Ele segue sua explicação: “é como se fosse uma guerra aberta, na qual a direita vem com drone e bombardeio, e a esquerda joga um fogo de artifício para o alto para tentar demonstrar reação, sem exatamente entender que está numa guerra”.

Pedro se vale de muitas figuras de linguagem para explicar e dar sentido ao horror da caixa de pandora que tem em mãos. O último monitoramento realizado por sua equipe analisou 2.513 grupos de WhatsApp bolsonaristas, 93.886 usuários e mais de 5 milhões de mensagens conspiracionistas sobre o coronavírus compartilhadas desde fevereiro.

Eu acessei o software, sem preparo psicológico prévio, e fiquei enojada e atônita por alguns dias. Para pesquisadores que trabalham com big data e extrema direita, é normal lidar com uma quantidade imensa de dados desse tipo. Mas não é o meu caso. A sensação de ver a máquina do ódio funcionando a todo a vapor, segundo a segundo, me fez entender um pouco o que Pedro queria dizer com uma guerra sem adversário.

Pedro tem um vasto e respeitado currículo profissional na área de política e tecnologia, mas prefere manter sua identidade protegida para seguir nos bastidores sua luta contra a desinformação. Abrindo a caixa de pandora diariamente, ao mesmo tempo em que tenta dialogar com as principais lideranças do campo da esquerda no Brasil, o pesquisador tem uma visão bastante árida da fragilidade tecnológica do campo progressista. Para ele, as esquerdas têm uma dupla defasagem na disputa política-tecnológica.

Primeiro, uma parte da esquerda ainda não entendeu – e talvez não esteja disposta a entender – que a grande mudança de paradigma político no século 21 foi impulsionada pela tecnologia. Segundo, esse estado de inanição apenas reflete algo de fundo, que é uma falta de projeto e orientação para o futuro.

É claro que existem movimentos, mídias, ativistas, influenciadores digitais e parlamentares que se preocupam com o tema e têm grande impacto nas redes. Não se trata de ignorar o trabalho daqueles que, há alguns anos, estão tentando mudar esse quadro. O ponto é meramente reconhecer que esses esforços não chegam perto de compor estrategicamente um ecossistema de atores que se movem, mais ou menos de forma coordenada, num processo de disputa política propriamente dito.

Pedro relata situações em que desenvolveu projetos digitais para partidos e lideranças de esquerda. Sua frustração é, campanha após campanha, ver que o trabalho é muitas vezes interrompido após as eleições: “Não dá para parar. Esse é um projeto contínuo”.

Acreditar que basta ganhar a eleição de 2022 para mudar o quadro catastrófico em que nos metemos faz parte do autoengano generalizado e sintomático que acomete a esquerda tradicional há quase uma década.

Surgem manifestações coxinhas, a gente dá risada. Bolsonaro se coloca como candidato, a gente diz que ele não terá tempo de televisão e que o sistema político irá se regenerar em torno da polarização PT versus PSDB. Bolsonaro cresce nas pesquisas, é porque Lula está preso – sim, evidentemente, mas podemos pensar que não foi só isso? Bolsonaro ganha as eleições é porque levou a facada  – sim, esse foi um elemento desestabilizador, mas podemos pensar que não foi só isso?

Não se trata de ignorar os muitos golpes que a esquerda e o PT, em particular, sofreram. Mas é preciso também entender que a extrema direita vem se articulando nas mídias desde a virada do milênio. E essa articulação tem sido feito com propósito, tentativa de coordenação de diferentes vertentes e sistematicamente espalhando paranoia e pânico moral contra inimigos forjados.

Quando não entendemos que a vitória de Bolsonaro faz parte de um projeto muito maior, só nos resta esperar as pesquisas de aprovação do governo a cada semana e ficar agarrados naquelas que indicam alguma queda da base dos 30% do que seria o núcleo-duro bolsonarista. Resta-nos torcer para que o governo se autodestrua. Basta eleger alguns parlamentares e tentar não perder em 2022. Resta-nos acreditar que tudo o que aconteceu no Brasil foi fruto das fake news bolsonaristas produzidas no “gabinete do ódio”. Acreditamos que, ao prender seus agentes estratégicos, o núcleo-duro bolsonarista seria desestruturado.

Essa é uma visão limitada de como se articula a rede bolsonarista política e tecnologicamente. Pedro dá o exemplo da prisão de Sara Winter, que não tinha nenhuma menção no ecossistema de extrema direita. Após sua detenção, houve uma explosão de seu nome na rede, em uma onda de viralização de linguagem religiosa que pedia por orações por ela em mais de 1.031 grupos cheios de emojis de amém e linguagem de guerra espiritual.

“Infelizmente, a rede de distribuição de informação do ecossistema é muito maior do que a operação da Polícia Federal foi capaz de identificar”, diz um relatório realizado pela equipe de Pedro, demonstrando que, para além dos grupos militantes declarados, essa rede atua também por clusters presentes em grupos de venda, pornografia e caminhoneiros.

Pedro sempre bate na tecla que a incompreensão de como funciona o ecossistema traz resultados negativos para a esquerda enquanto um campo de oposição. “Muitas pessoas pensam que basta acabar com o gabinete do ódio como se a rede bolsonarista fosse meramente uma estrutura de poder e financiamento vertical. A grande incompreensão é não entender que essa rede atua com suas próprias mídias e é muito mais autônoma, horizontal, autofinanciada do que se imagina”.

O gabinete do ódio – que precisa, sim, ser desestruturado –  é, portanto, consequência (e não apenas a causa) de um alinhamento de forças de articulistas e influenciadores outrora pulverizados. Acabar com esse ponto de organização não necessariamente mina os 18 mil outros domínios de divulgação política mapeados por Pedro.

É evidente que esse ângulo de olhar a realidade traz uma profunda angústia e uma sensação de impotência. A primeira coisa que nos perguntamos é como sair dessa. É possível que os ratos voltem para os esgotos depois de as comportas terem sido abertas? É possível regenerar um sistema putrefato que funciona livremente?

Em primeiro lugar, penso que é importante não perder de vista que nem tudo é vitória por W.O. do lado de lá. O professor especialista Fábio Malini, pioneiro no estudo de big data e política das redes no Brasil, comentou comigo recentemente que não podemos esquecer que o poder bolsonarista, atualmente, advém de uma máquina de propaganda governista, o que, a meu ver, enfraquece a espontaneidade e autenticidade do ecossistema.

Malini também destaca o fato que ideias progressistas estão ganhando espaço nas redes e no mercado editorial, citando Felipe Neto e Djamila Ribeiro, por exemplo, e que mais atenção pública tem sido dada ao trabalho de parlamentares de esquerda. O professor também mostra que as hashtags #antifa #antirracismo e #auxilioemergencial são exemplos de disputas narrativas que o campo progressista venceu nas redes.

Ambos os pesquisadores concordam que o anticientificismo de Bolsonaro é um ponto fraco. Quando a gente fala de esperança nas redes, ela vem da renovada atuação de cientistas pautando debates nacionais, os quais não apenas defendem o conhecimento técnico, mas também a democracia.

Buscando uma luz no fim do túnel, questionei Pedro se havia um ponto de abalo nesse ecossistema. Ele me disse que as mensagens de pessoas infectadas por coronavírus são um ponto importante de desestabilização. Começaram a circular mensagens de pessoas chorando, relatando sofrimento e morte, dizendo que não era uma “gripezinha”. Malini entende que isso afeta a classe médica e também os demais grupos apoiadores, produzindo um efeito negativo que não é instantâneo, mas tem “influência de longo prazo”.

Nada disso, contudo, impacta imediatamente a caixa de pandora bolsonarista, especialmente via WhatsApp. É por isso que, no curto e no médio prazo, é tão importante investigar e regular as mídias. Não se trata de uma salvação, mas um passo importante para impor limites no avanço da extrema direita, que até agora andou sem freios.

Quando conversei com o historiador Federico Finchelstein para minha última coluna, perguntei como e quando acabam regimes fascistas baseados em mentiras. Ele me respondeu que, olhando para o passado, o esgotamento se dá da maneira mais trágica: quando as pessoas começam a morrer. Essa é uma resposta que faz todo o sentido e encontra eco na própria política de morte bolsonarista, que agora atinge seus próprios apoiadores.

Mas, em termos de ação política, essa não é uma resposta aceitável para o campo de oposição, que não pode esperar – e não tem esperado – que as pessoas morram.

A verdade é que pouco adianta regular as mídias e prender criminosos extremistas sem apresentar um projeto político e tecnológico alternativo a médio e longo prazo. A luta comunicacional contra a extrema direita é inglória e assimétrica porque os fascistas atuam por mentiras que tocam no âmago no medo – e o medo é um sentimento que mobiliza os indivíduos visceralmente. Mas é possível entrar nessa batalha de forma honesta mudando o modus operandi.

Por pelo menos quatro décadas, os gurus da extrema direita estudaram as táticas políticas da esquerda. Agora, está na hora de a esquerda fazer o movimento contrário, não para copiar os métodos sujos, mas para entender seu funcionamento.

A experiência da extrema direita aponta para a formação de uma rede em que as pessoas se sentem incluídas no processo político, se sentem atores ativos e não passivos no ecossistema bolsonarista. Isso já estava claro nas minhas pesquisas e de Lúcia Scalco com jovens no Morro da Cruz, realizadas em Porto Alegre em 2017. Os simpatizantes repassavam mensagens e criavam conteúdos voluntariamente no YouTube para espalhar em outras redes.

Há muito pouco disso no campo da esquerda tradicional, que usa o WhatsApp ainda de forma vertical, cadastrando números de telefone para passar informação de políticos e partidos unilateralmente. Também se disseminou a promoção de intermináveis lives, bastante explicativas do mundo e muito pouco participativas – e não raramente com a caixa de comentários do Instagram fechada. Por uma hora, o político x fala com o líder do movimento y – e há quem acredite que isso é disputa de redes. Esse é um modelo que está fadado ao fracasso.

A esquerda precisa já se ocupar das redes de forma mais propositiva, horizontal e articulada para formar um ecossistema inclusivo, que não fique permanentemente caçando a carteirinha de seus membros.

O campo tradicional da esquerda precisa se abrir, fomentar alianças amplas, ampliar as linhas de debate, formar novas lideranças e oferecer esperança, utopia e projeto no lugar do medo.

Este artigo não representa a mesma opinião do blog. Se não concordar, faça um rebatendo que publique como uma segunda opinião sobre o tema.

 

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