Bolsonaro nunca chamará alguém de capitão do mato

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Na polêmica que marcou a semana, o presidenciável Ciro Gomes (PDT) foi acusado de injúria racial por setores da direita por comparar o vereador paulistano Fernando Holiday (DEM) a um capitão mato (para saber mais sobre o contexto histórico do termo leia AQUI).

Deixando de lado a imprudência da verborragia de Ciro Gomes, a pergunta levantada por setores da direita nas redes sociais foi: “e se fosse Bolsonaro?”.

A pergunta, creio eu, é apenas uma mera provocação militante. Afinal de contas Bolsonaro é tão capitão do mato quanto Holiday e isso vale para o contexto histórico. Sim, brancos também faziam o trabalho de recaptura de escravos que fugiam. Mas esse é outro debate.

O capitão do mato “moderno” cumpre o papel de estabelecer como “vitimismo” qualquer argumento que justifiquem ações afirmativas em favor dos negros no Brasil.

Bolsonaro nunca vai considerar Holiday como um capitão do mato. Ambos estão do mesmo lado por reproduzirem o discurso opressor que finge que termos apenas 13% de negros nas universidades não tem nada a ver com a herança histórica da escravidão. Para eles, basta que um negro ou pobre se esforce para chegar ao ensino superior como se os caminhos fossem exatamente os mesmo de um branco de classe média.

O tal do “vitimismo” é uma muleta retórica que é usada para dizer que o Estado não tem nenhum compromisso em evitar que 71% dos homicídios no Brasil sejam praticados contra jovens negros. Temos em nosso país um verdadeiro genocídio de negros pobres e esse realmente é o assunto que deveria importar nos debates sobre política. Não vai ser com o esforço individual das raríssimas exceções que vamos acabar com esse problema. É com intervenção do Estado. Os EUA, berço do liberalismo de verdade, fez isso no Século XX. Mas parece que tem gente querendo copiar a parte ruim da questão racial estadunidense.

Bolsonaro já deu mostras do que é capaz de dizer quando o assunto envolve a inclusão e o respeito aos negros. Abaixo um vídeo do programa CQC da Band exibido em 2011.

Vejam, não vou nem entrar na mensagem subliminar que aborda a primeira resposta. Mas veja a segunda onde ele deixa claro que se um filho dele casasse com uma negra seria “promiscuidade” e que eles foram “bem-educados” para evitar que isso aconteça.

Uma das justificativas usadas para escravizar negros era de que eles não possuíam “alma” e a comparação deles com animais. Veja abaixo a comparação tosca que Bolsonaro faz entre quilombolas a animais medindo peso deles por arroubas. Ele reproduz o discurso do “negro preguiçoso” que foi usado lá atrás para justificar a substituir a mão-de-obra escrava pela do imigrante europeu logo após a abolição. Se o negro fosse incluído no mercado de trabalho após a assinatura da lei áurea teríamos hoje um país muito menos desigual. Mas os ex-escravos foram marginalizados e os seus postos ocupados por italianos e alemães. Isso matou uma classe média insipiente que estava sendo formada nos centros urbanos mesmo na época da escravidão pelos alforriados que ocupavam postos importantes na administração pública. Não por acaso, 20 anos após a o fim da escravidão tivemos nosso primeiro e único presidente negro, Nilo Peçanha.

Abaixo o vídeo

Não. Realmente Bolsonaro nunca vai chamar alguém de capitão do mato porque, repito, ele personifica a imagem de um dos nossos vilões históricos ao reproduzir o discurso que desqualifica a luta por igualdade racial no Brasil. Capitão do mato é um termo usado para enquadrar negros que lutam contra a própria causa, mas também serve para brancos que reproduzem o tal do argumento do “vitimismo”.

Um negro tem direito de não concordar com as pautas do movimento negro, mas causa estranheza quando ele adota o discurso do opressor. Logo um racista dirá “veja ele é negro e concorda comigo”. Isso vira argumento de autoridade para essa gente abjeta (os racistas). É a mesma coisa no sentido inverso, quando um branco se solidariza com a causa negra no Brasil e se irmana no combate ao preconceito racial ele dá mais força simbólica a uma causa justa.

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Ciro é racista ou nós é que não conhecemos nossa história?

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Capitão do Mato, o oprimido que impunha opressão

O pré-candidato a presidente da República Ciro Gomes (PDT) é racista? Não sei dizer. Já o entrevistei em duas oportunidades, mas não tenho qualquer contato com ele para cravar que sim ou não.

Mas comparar o vereador paulistano Fernando Holiday (DEM) a um capitão do mato é um gesto racista? Não. Quem vê racismo nisso é um racista ou não conhece os livros de história.

Então vos apresento o capitão do mato: era o funcionário das fazendas responsável pelas capturas dos escravos “fujões”. Muitos capitães do mato eram negros e por isso são sempre considerados traidores da causa de libertação dos escravos.

Por que existiam capitães do mato? Porque os militares se recusavam a cumprir a tarefa subalterna de correr atrás de escravos que fugiam em ato de resistência. O capitão do mato recebia recompensas por escravos “recuperados”.

Daí a inevitável comparação de negros que traem a causa negra com capitães do mato, repito.

Fernando Holiday é um traidor da causa negra? Diria que sim. Ele é contra as cotas raciais, reproduz o discurso da elite branca do “vitimismo negro”, ataca o movimento negro com frequência e nega a dívida histórica que o Brasil tem com os descendentes dos escravos.

Holiday é autor de um projeto de lei que acaba com a celebração do Dia da Consciência Negra que é feriado no dia 20 de novembro em São Paulo e em várias cidades brasileiras.

Fernando Holiday propôs acabar com as cotas raciais em concursos em São Paulo. Veja o que ele disse sobre o assunto:

“Nós negros e pobres podemos sim vencer na vida através do mérito, não precisamos ficar como vermes, como verdadeiras parasitas atrás do estado, querendo corroer cada vez mais e mais, com esse discurso de merda, com esse discurso lixo. Vocês fazem dos negros verdadeiros porcos no chiqueiro, que ficam fuçando a lama através do resto que o estado tem a nos oferecer. Pobres da periferia, negros da periferia, não se submetam a esse discurso”.

Não corrigir distorções históricas contra negros e pobres favorece brancos ricos e de classe média. O caminho do sucesso profissional para negros e pobres é muito mais tortuoso se ele não nascer com talento para música ou artes.

Não concorda?

Então vamos a frieza dos números. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 53,6% dos brasileiros se declaram negros ou pardos. Conforme o mesmo IBGE apenas 12,8% dos estudantes universitários são negros ou pardos.

Não precisa ser gênio para saber que isso é fruto de uma herança maldita de nosso passado deixada para os negros e não da incapacidade deles em conseguir alçar voos mais altos. Mecanismos como cotas (sou a favor de cotas sociais que beneficia em sua maioria os negros) servem para corrigir distorções e não fazer dos negros vermes, parasitas ou porcos chafurdando no chiqueiro como afirma Holiday. Palavras que distorcem o papel do Estado numa sociedade tão desigual como a nossa.

Por sinal, essas palavras do vereador do DEM, partido historicamente sem qualquer identificação com a causa negra, são muito mais próximas do racismo do que as declarações de Ciro.

Holiday alega que um negro pode vencer na vida pelo próprio esforço. É assim? Os números mostram que não. A desvantagem entre um negro um branco no Brasil começa na própria gestação. O caminho da infância a vida profissional para um negro tem muito mais percalços e criar mecanismos para que essa desigualdade diminua é legítimo.

Recorro ao IBGE mais uma vez: os negros são apenas 17,4% da faixa mais rica de nossa população.

Quando um negro como Holiday reproduz um discurso que não sugere mecanismo de inclusão social para os negros ele legitima um argumento que interessa a setores da elite branca que deseja perpetuar nossas injustiças históricas. Logo ele porta-se como um capitão do mato que tolhia a rebeldia dos negros que lutavam por liberdade.

Comparar Holiday a um capitão do mato nem de longe é um ato racismo. Ele se encaixa perfeitamente no perfil de quem traiu a causa negra como os capitães do mato no faziam no passado.

Diferentemente de Holiday, Ciro reproduz em todas as entrevistas a necessidade de se criar mecanismos de inclusão social. Ele repete como um mantra os dados do Atlas da Violência que aponta que a cada 100 homicídios no Brasil 71% das vítimas são negras.

Dizer que é racismo chamar de capitão do mato alguém como Holiday só reproduz mais racismo.

A BURRICE DE CIRO

Tão eloquente quanto loquaz, Ciro cometeu uma burrice ao comparar Holiday a um capitão do mato. Primeiro porque a maioria dos apoiadores do MBL, movimento cujo vereador paulistano é um dos líderes, não se dão muito bem com os livros de história. Segundo porque ele trouxe ao centro das atenções uma turma que estava em baixa na Internet nos últimos dias.

O MBL sempre soube jogar com maestria com a ignorância de setores da parcela conservadora da sociedade. Como a maioria das pessoas não sabem quem danado foi esse tal de capitão do mato nem conhece as ideias de Holiday vão compartilhar as palavras de Ciro no contexto imposto pelo fascistinhas travestidos de liberais.

O presidenciável abriu margem na entrevista a Jovem Pam para que interpretações distorcidas se propagassem na Internet.

Ciro tropeçou nas mesmo estando coberto de razão.

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