Carol Solberg é exemplo da concepção de liberdade relativa no esporte

Por Katia Rubio*

Ainda que praticado por seres humanos, há momentos em que o esporte parece se constituir como um fenômeno único, regido por uma moralidade própria. Suas regras o fazem ser considerado uma linguagem universal, passível de ser praticado por mulheres e homens de todo o planeta, independentemente de cultura ou credo religioso.

Em tese, isso parece maravilhoso. Uma atividade que remete à agonística, organizada por uma instituição autônoma, capaz de conter em si mesma a magia do gesto e a transcendência de pessoas fora de série. Entretanto, como tudo que é da ordem do humano, o esporte pode ser interpretado e manipulado por quem detém o poder de sua organização. E não sejamos ingênuos: isso acontece com uma frequência mais que indesejada.

Carolina Salgado Collet Solberg é atleta de vôlei de praia, começou aos 9 anos na escola da mãe, a ex-jogadora Isabel Salgado Wander Roberto – 20.set.2020/Inovafoto/CBV

Afinal, mesmo existindo com leis próprias, as instituições esportivas estão sujeitas aos movimentos do momento histórico e do lugar nos quais elas estão situadas. Tudo o que acontece no esporte é demasiadamente humano.

Nesta semana, Carol Solberg foi julgada e punida com advertência por ter bradado “Fora, Bolsonaro” durante uma entrevista ao final de um torneio de vôlei de praia. Essa punição a impede de se pronunciar a partir daquele momento. Amordaçada pela justiça desportiva, transformada em uma jogadora desprovida de voz, porém não de intenção, Carol é um exemplo ideal da concepção de liberdade relativa dentro do esporte.

Livre para usar sua habilidade motora em favor da equipe em que atua, e do país que representa, não desfruta da mesma autonomia para exercer sua potência intelectual como mulher e cidadã.

Cindida de seu desejo, é impedida de manifestar o que pensa e sente. Fica nítida a intensão dos que julgam: é fundamental esvaziar a potência da voz dessa atleta, que desfoca a atenção da competição, um de seus papéis sociais, e remete à sua condição de cidadã, que não deixa de entrar em quadra no momento de seu exercício profissional.

Ainda que 2 dos 5 auditores tenham sido contrários à punição, parece mesmo que a justiça desportiva interpreta o que é o esporte e a liberdade de expressão sem considerar os princípios básicos que regem o olimpismo.

Nunca é demais lembrar que o princípio fundamental nº 2 da Carta Olímpica entende o olimpismo como uma filosofia de vida que exalta e combina em equilíbrio as qualidades do corpo, do espírito e da mente, combinando esporte com cultura e educação. Quero com isso afirmar a impossibilidade de ter uma atleta hábil na quadra, porém desprovida de pensamento e voz.

O caso de Carol remete à história do filósofo Spinoza, que aos 24 anos foi julgado e banido da comunidade judaica de Amsterdã. Sua heresia foi pensar e falar em defesa da liberdade de pensamento e de expressão. Anos mais tarde, foi também julgado e condenado pelo sínodo calvinista por sua obra “Tratado Teológico-Político”. Afirmava o filósofo que os afetos originados das paixões alegres têm potência transformadora.

A jogadora Carol Solberg durante etapa de Saquarema do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia
A jogadora Carol Solberg durante etapa de Saquarema do Circuito Brasileiro de Vôlei de Praia – CBV – 20.set.2020/Divulgação

Carol celebrava a medalha de bronze no momento de sua manifestação. Virtuosa, provava a integração de um corpo habilidoso com uma mente também ágil e habilidosa. Afirmava assim tanto um princípio olímpico como humano.

Porém, como na Amsterdã do século 17, um tribunal a julgou culpada e a fez calar. Espero que sua heresia, assim como a de Spinoza, prove que a liberdade é a proximidade plena de si consigo mesma. E que o silêncio imposto não cale sua capacidade de pensar para se expressar tão logo sua liberdade seja restituída.

*É professora da USP, jornalista e psicóloga, é autora de “Atletas Olímpicos Brasileiros”.

Este artigo não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema.

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Qual o seu mecanismo?

Mecanismo provoca debate sobre limites entre ficção e realidade
Mecanismo provoca debate sobre limites entre ficção e realidade

Ontem assisti o primeiro episódio da Série O Mecanismo oferecida pelo Netflix que tanta polêmica tem provocado nas redes sociais. A primeira sensação que fico é a de que o país não está preparado para seriados políticos tão comuns nos EUA.

Outro ponto: há uma confusão entre ficção, ficção baseada em fatos reais e documentários. Só este último tem compromisso com a verdade dos fatos. Os outros dois não.

O Mecanismo se propõe a ser baseada em fatos reais e é isso que abre margem para questionamentos.

Logo no primeiro episódio o caso do Banestado (Banco do Estado do Paraná) surge dando a entender que é um escândalo petista quando na verdade é algo da época do PSDB. Foram dezenas de bilhões enviados ao exterior de forma ilegal, causando dissabores ao ex-presidente do Banco Central no governo FHC, Gustavo Franco.

A citação do personagem que faz alusão a Alberto Youssef dizendo que o ministro da justiça iria resolver o problema não é tão absurda como apregoou a ex-presidente Dilma Rousseff em artigo. O relator da CPI do Banestado, realizada em 2003, era o petista José Mentor que teve atuação bastante criticada por propor anistia aos que enviaram dinheiro ilegalmente ao exterior. Ele foi acusado de sabotar a CPI.

Mas é claro que não relação com a realidade o envolvimento do então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos (já falecido) em qualquer intervenção nesse sentido.

Ainda não vi o restante dos episódios, mas sugiro que ao final de cada um deles o leitor faça uma pesquisa no Google para conferir se os fatos batem com a série, chega a ser educativo fazer isso, inclusive por se tratar de um exercício de separação entre ficção e realidade.

Algumas pessoas estão chocadas, com razão, por causa de uma cena em que o personagem atribuído a Lula usa a famosa frase de Romero Jucá que fala no “grande acordo nacional, com o supremo, com tudo”. Nesse caso, a liberdade da ficção flertou com a desonestidade intelectual e confunde os mais desinformados e preguiçosos que não vão tirar dúvidas pesquisando.

Quanto à ideia de censura ao Netflix entendo que as pessoas são livres para escolherem se assinam ou não um serviço de entretenimento, mas considero qualquer campanha nesse sentido uma demonstração de autoritarismo. Não gostou não assista. Assistiu se informe mais sobre os assuntos abordados.

Aos políticos do PT que estão revoltados com o seriado e o filme que tal se organizarem e fazerem algo mostrando suas versões? Ou melhor: que tal trazer à tona na ficção as falcatruas engavetadas na era FHC como caso Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia), pasta rosa, privataria e a famosa compra de votos para emenda da reeleição que criou as bases para o mensalão nos governos petistas.

Cada um com o seu mecanismo, qual é o seu?

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Fascistinhas do MBL e a censura nas universidades

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A sociedade deu cabimento demais ao Movimento Brasil Livre (MBL), grupo de jovens que surgiu aparentando ser a renovação da direita liberal brasileira. Mas a queda de Dilma Rousseff, mas a subida da popularidade de Jair Bolsonaro sem provocar a derrocada eleitoral de Lulaestava espremendo a molecada que ficava cada dia mais desmoralizada pelas próprias contradições e propagação de informações falsas.

Em meio a isso, os “emebeélicos” estavam impedidos de fazer protestos contra a corrupção do governo Temer. A desculpa esfarrapada era de que isso favoreceria o PT, mas até o pato amarelo da FIESP sabe que os meninos do Kim eram parceiros do vampirão da Bovespa. Restou desviar o assunto (corrupção do governo Temer) adotando uma pauta  fascistóide do “mito”.

Agora, na mais absoluta falta do que fazer, um fascistinha do MBL entrou na Justiça Federal para impedir a realização do curso “Golpe de 2016 e o futuro do Brasil”, oferecida pelo Departamento de Ciências Sociais. Pode-se criticar a falta de embasamento científico para a oferta do curso.

Mas e daí?

É problema de quem oferece a disciplina e de quem vai se matricular.

Não gostou?

Articule-se para ofertar uma disciplina sobre temas caros ao MBL como mensalão, “petrolão” (podem dizer lá que só tem petistas envolvidos), homem nu no museu, exposições de pênis de borracha, data da prisão de Lula, como enganar bobos com memes, etc… Falando em memes seriam ótimas referências teóricas para um curso mobilizado pelos fascistinhas

Assunto não falta. É só dar um tempo na fake news e agir.

Agora não me venham com esse chilique falso de que as universidades são “antros” esquerdistas onde só se estuda Marx.

Pura mentira que não vai além de um meme tosco. Uma coisa é o pensamento de esquerda ser majoritário na academia, outra é dizer que as ideias liberais e conservador são censuradas.

Trabalho e estudei em uma universidade onde existem muitos professores com pensamento liberal e conservador.

Também estudei na UFRN e conheço muitos professores de lá que não são nem de longe esquerdistas. Articulem-se para a oferta de algum curso e deixem a censura de lado, fascistinhas.

Ideias se combatem com ideias. O que existe fora disso é fascismo por mais que a Justiça seja colocada no meio dessa confusão. E olhe que nosso judiciário dos auxílios moradias tem coisa mais importante para se preocupar, como o umbigo dos magistrados.

Arrumem uma lavagem de roupa, fascistinhas!

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