Namoro entre Bolsonaro e centrão tem toda pinta de relação abusiva

(Foto: Sérgio Lima/AFP)

Por Matheus Pichonelli.

Oi centrão, tudo bem?

Tenho algo a falar sobre seu novo amor.

Recebi, pelos portais, a notificação de que os parlamentares do seu grupo e o presidente Jair Bolsonaro mudaram o status de “estamos nos conhecendo” para “relacionamento sério”. Parabéns.

Não quero jogar água nessa calda de chocolate com morango. Sei que vocês não são exatamente um santuário do amor sincero e desinteressado, mas talvez valesse a pena dar um toque: esse namoro tem tudo para acabar em relacionamento abusivo.

Veja o que aconteceu com quem caiu no conto da versão “paz e amor” do sujeito que é ódio puro, por dentro, por fora, por baixo e por cima.

A Regina, coitada, ainda se lembra daquela nota da Secretaria de Comunicação da Presidência, postada como um carro de som tocando Celine Dion e pedidos oficiais de casamento após “o avanço de uma nova fase do noivado”. Ela jurava que o moço era bonzinho, não mordia, enquanto ele devorava seu braço, como resumiu a Laerte em uma charge.

A Joice foi outra. Sofreu horrores e não segura as lágrimas quando fala dos ataques que sofreu nas redes.

A Bia foi trocada de um dia para o outro. Soube do fim do namoro pela imprensa. “Poderia ter tido mais delicadeza comigo”, lamentou ela, que ainda se nega a reconhecer a traição.

Quem também passou poucas e boas ali foi o Sergio, com quem o presidente desfilava até nos jogos do Flamengo. Quando descobriu que o ex-juiz não era seu brinquedo, ele saiu disparando: “uma coisa é admirar, outra é conhecer de perto”.

Teve Carlos Alberto, o Maynard, o Vélez, o Levy e ainda o Marinho, que emprestou até a casa para o Jair fazer campanha em 2018 e foi chutado na sequência. Pergunta o que ele tem a dizer hoje sobre a experiência. A polícia também quer saber.

Quem também sofreu após o rompimento foi o Gustavo, um dos primeiros ministros a ser lançados ao mar, depois de tantas viagens, tantos sonhos, tantas promessas e uma prova viva de união construída em mensagens de celular. “É quase um casamento que, infelizmente, prematuramente se desfez”, disse o presidente, que não deu um pio quando o ex-aliado morreu, de infarto, triste e esquecido.

Pois é, centrão.

No começo da semana, vi no jornal O Globo uma entrevista de um cara da sua turma, o Fábio Faria (PSD-RN), que ganhou um anel em forma de ministério das Comunicações, parafraseando João Gilberto em “Brigas, Nunca Mais”.

Ele jurava que o presidente, quando ama, não quer briga com ninguém. “Ninguém aguenta brigas todos os dias”, jurou.

O Jair disse o mesmo para o Rodrigo Maia (DEM-RJ), de quem vocês todos querem a cadeira.

No primeiro desentendimento, Bolsonaro questionou: “Você nunca teve uma namorada? E quando ela quis ir embora, o que você fez para ela voltar, não conversou?”

Isso no começo. Vai ver agora o que ele fala dos quase-ex em público ou na roda de amigos. Para o abusador, todos os ex são loucos, malucos mesmo, indignos de seu amor.

Vai acontecer com vocês, que reúnem PP, PL, Republicanos, Solidariedade, PTB, PSD, ora PROS, PSC, Avante e Patriota –mas não mais MDB e DEM, que sentiram a encrenca e vazaram.

A vida política de Bolsonaro, que ele gosta de traduzir em metáfora amorosa, é uma vida de abuso.

Começa com excesso de amor e provas grandiloquentes de paixão e encantamento que colocam o par num pedestal cercado de todos os traços de superproteção.

Na fase seguinte, ele começa a exigir mudanças. Não pode dizer isso, não pode andar assim, não quero ver você conversando com fulano.

As mudanças envolvem, inclusive, a fé e as convicções dos “conges”. “Quem não aceitar as minhas bandeiras, família, Deus, Brasil, armamento, liberdade de expressão, livre mercado” está fora, lembra?

Quando menos se percebe, as agressões verbais e a violência psicológica passam a fazer parte do relacionamento. Sinais de paranoia, ciúmes e manias de perseguição viram rotina.

O que dizer de alguém que já assumiu que dorme com uma arma debaixo do travesseiro e que tem uma rede de informantes paralela para saber dos passos de tudo e de todos?

Quando chega essa fase, o roteiro é sempre o mesmo.

O abusador começa a fazer pouco caso das suas conquistas (“o técnico sou eu, vocês são só jogadores!”), ridiculariza suas opiniões e gostos, destroça sua autoestima, jura que só ele é capaz de te suportar, culpa você pelas reações agressivas e intempestivas dele (“só me defendo”), pergunta se você prefere voltar com o ex, que ele não suporta, grita, depois pede desculpas alegando estresse, para depois gritar do mesmo jeito, seguir vigiando seus hábitos, conversas e postagens em redes sociais e controlando sua vida financeira, com cargos e nomeações.

No fim, vai sempre colocar os interesses dos filhos, de quem você terá de cuidar para não criar melindres, na frente de qualquer compromisso. Isso envolve dívidas, cheques, cartões, andanças com companhias estranhas, fugas, ameaças, xingamentos, bullying em redes sociais.

É um padrão que se repete desde muito antes da campanha, quando Bolsonaro flertava com o Patriota enquanto já namorava o Bivar, que depois disse estar “queimado pra caramba”, só pra ficar com o partido e o fundo eleitoral do ex-parceiro. Ao todo foram oito partidos trocados e descartados como se fossem ministros da Educação.

Chega agora a ser comovente, não fosse uma tragédia anunciada, o esforço de nomes como Fábio Faria e Arthur Lira (PP-AL), líder informal do centrão, para mostrar que daqui pra frente tudo vai ser diferente, que o presidente aprendeu a ser gente, que o bom é ser feliz e mais nada, nada.

Dessa vez, no auge da rejeição popular, o Jair parece ter encontrado um par a altura, que inclusive já exige mudança de postura.

Posto que é chama num galão de gasolina, que este amor seja eterno enquanto não dure.

Este artigo não representa a mesma opinião do blog. Se não concordar, faça um rebatendo que publique como uma segunda opinião sobre o tema.

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Alckmin concede ao centrão um habeas poesia

Por Josias de Souza

Depois que o centrão colocou suas nuvens sobre a campanha de Geraldo Alckmin, alguma coisa subiu à cabeça do presidenciável tucano. Na noite desta quinta-feira, espremido por perguntas sobre a radioatividade que o grupo transmite, Alckmin concedeu aos aliados tóxicos um habeas poesia. Disse que nenhum time tem “só gente boa” ou só “gente ruim”. Rodeado de valdemares e outros azares, o candidato evocou o príncipe dos poetas brasileiros. “É de Olavo Bilac: há no interior de cada homem e de cada mulher um Deus que chora e um demônio que ruge”.

O poema que inspirou Alckmin durante sabatina na Globonews chama-se “Não és Bom, nem és Mau”. Nele, Bilac discorre sobre a alma humana, “capaz de horrores e ações sublimes.” Leia abaixo:

Não és bom, nem és mau: és triste e humano…

Vives ansiando, em maldições e preces,

Como se a arder no coração tivesses

O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal padeces;

E rolando num vórtice insano,

Oscilas entre a crença e o desengano,

Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,

Não ficas com as virtudes satisfeito,

Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E no perpétuo ideal que te devora,

Residem juntamente no teu peito

Um demônio que ruge e um deus que chora.

O centrão não se afeiçoa muito a poesias, disse um dos entrevistadores, tentando trazer os pés de Alckmin para o chão enlameado de sua coligação. E o candidato: “Queremos ter maioria para trabalhar. Do contrário, não acreditamos na democracia.” Retomando o timbre lúdico, Alckmin afirmou que “o Brasil está com muito ódio, muito nós contra eles.” Para avançar, disse o tucano, “precisamos nos unir.”

União com criminosos?, indagou outro jornalista. “Nós fazemos alianças com partidos políticos”, desconversou Alckmin. “Não tem democracia sem partidos políticos.” Súbito, a repórter que mediava a sabatina anunciou a exibição de uma cena gravada na convenção em que o PTB formalizara dias antes  seu apoio a Alckmin. No vídeo, o tucano transborda em elogios ao presidente da legenda, um ex-presidiário do mensalão.

“Conheço o Roberto Jefferson há 30 anos, fomos constituintes juntos”, declarou Alckmin. ”Ele é um homem de coragem. Aliás, teve um papel importante, colocando o dedo na ferida, mostrando os problemas do PT.” O candidato referia-se ao escândalo do mensalão. Em verdade, Jefferson implodiu o esquema não por coragem, mas por vingança.

Sob Lula, um apadrinhado do PTB foi pilhado plantando bananeira dentro do cofre dos Correios. O esquema ganhou as manchetes. E Jefferson enxergou no noticiário as digitais do grão-petista José Dirceu, então chefe da Casa Civil. Defendeu-se atacando. Levou os lábios ao trombone numa célebre entrevista à repórter Renata Lo Prete. Jefferson confessaria que ele próprio recebeu um mimo de mais de R$ 4 milhões. Disse que a verba foi rateada com correligionários. Mas sonegou os nomes dos beneficiários.

Sob Michel Temer, o PTB foi brindado com o controle do Ministério do Trabalho. Deitou e rolou. Hoje, Jefferson, sua filha Cristiane Brasil e prepostos enfiados pela dupla no organograma da pasta são protagonistas de um inquérito da Polícia Federal sobre a venda ilegal de registros de sindicatos na pasta do Trabalho.

Na sabatina desta quinta, além de conceder uma biografia nova a Jefferson, Alckmin torturou a história ao vincular o trabalhismo de resultado$ do seu aliado ao trabalhismo nascido sob Vargas: “O PTB é um partido que tem história, desde Getulio Vargas. É um partido importante na industrialização do Brasil, reformas de base. […] É um partido das reformas, da mudança, compromissado com o trabalhador, com a trabalhadora, com a retomada do crescimento do Brasil.”

Os primeiros 50 minutos da sabatina foram mais constrangedores pelas perguntas que Alckmin teve de ouvir do que pelas respostas que não conseguiu dar. Afora os escândalos alheios, o candidato foi submetido a questionamentos sobre malfeitorias que explodiram ao seu redor e no quintal do tucanato federal: a verba que migrou do departamento de propinas da Odebrecht para a caixa da campanha do entrevistado, os milhões enviados clandestinamente para o estrangeiro pelo operador tucano Paulo Preto, o superfaturamento no Rodoanel, o derretimento moral de Aécio Neves…

Alckmin declarou que não tem apenas a ficha limpa, mas uma “vida limpa”. A certa altura, perguntou-se ao candidato: Vale a pena participar da política? E ele: “Um dia desses, um colega meu, governador, falou: ‘olha, não vou ser candidato, porque a política no Brasil está totalmente criminalizada. Infelizmente, o resultado disso não vai ser bom, porque vai afastar as melhores pessoas da vida pública. Não é adequado, não é correto. E há um intuito de jogar todo mundo na vala comum. Não é tudo igual.”

A banda podre da política, de fato, foi criminalizada. O que o presidenciável tucano finge não ter notado é que a PF, a Procuradoria e a Justiça estão enviando para trás das grades corruptos que se meteram em transações políticas que visavam assaltar cofres públicos. Ou seja, a política foi criminalizada pelos criminosos. Sabe-se que há políticos piores e melhores. Contudo, ficou mais difícil discernir uns dos outros. E os gatunos ficam ainda mais pardos quando diferentes presidenciáveis disputam o apoio de partidos financiados pelo déficit público.

Definitivamente, alguma coisa subiu à cabeça de Alckmin depois que o centrão encostou seu lixão na candidatura do tucano. Considerando-se que o candidato se apresenta ao eleitorado como uma opção renovadora, sua hipotética Presidência se liquefaz antes mesmo de virar algo sólido. Alckmin enganou-se na escolha do poeta. Os versos que mais se encaixam à aliança que celebrou com o centrão não são os de Bilac, mas os de Antonio Carlos de Brito, o Cacaso. Em “Jogos Florais”, ele anotou:

“Minha terra tem palmeiras onde canta o tico-tico.

Enquanto isso o sabiá vive comendo o meu fubá.

Ficou moderno o Brasil ficou moderno o milagre: a água já não vira vinho, vira direto vinagre”.

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