Semana teve de tudo, exceto interesse público

Pazuello foi desautorizado por Bolsonaro na crise da vacina (Foto: reprodução)

Por Josias de Souza

O Brasil viveu uma semana esquisita. Começou com um acordo republicano firmado entre o Ministério da Saúde do governo Bolsonaro com o Butantan, instituto vinculado ao governo do arquirrival João Doria. E terminou com um desacordo que tem a aparência de guerra política, com Rodrigo Maia se oferecendo para exercer o papel de herói da racionalidade. Tudo isso num instante em que o Legislativo promove um festival de irracionalidade. Alguma coisa está fora da ordem nesse balé de elefantes.
Entre a segunda e a sexta-feira, o país assistiu à consumação de dois grandes acordos malcheirosos, ambos costurados na frente das crianças. Num, a cúpula do Senado se juntou para livrar de punições Chico Rodrigues, o senador da cueca endinheirada. Noutro, a banda bandalha da política se reuniu numa articulação pluripartidária para enviar ao Supremo Tribunal Federal o escolhido de Jair Bolsonaro, Kassio Marques.
Simultaneamente, desentendimentos que eletrificam as relações do grupo de Rodrigo Maia e da ala de Arthur Lira, líder do centrão que disputa com ele o comando da Câmara, bloqueia até os trabalhos da comissão de Orçamento, a mais importante do Congresso.
Entre os espantos dos últimos dias —o resgate do senador que esconde dinheiro entre as nádegas, gente como Flávio Bolsonaro e Renan Calheiros remando na canoa do doutor de currículo fluido, o Congresso paralisado— acrescentou-se uma guerra inútil em torno do único tema que parecia inquestionável no país: o direito do brasileiro de ser vacinado contra o coronavírus.
Mais uma vez, Bolsonaro desperdiça a sua hora. Podendo atuar como facilitador de uma iniciativa que transformaria o Ministério da Saúde em provedor de todas as vacinas que se revelarem eficazes, o presidente preferiu humilhar o seu ministro e se antoconverter em garoto-propaganda da liberdade de não se vacinar —ou do direito de infectar. Numa semana tão esquisita, permeada de contendores insensatos a de mediadores improváveis, é difícil encontrar algum vestígio de interesse público.

Este artigo não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema.

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Chico Rodrigues nunca foi flor que se cheire e Bolsonaro sabia disso

Chico Rodrigues e Léo Índio, sobrinho do presidente: uma mão lava a outra - Reprodução/instagram
Primo dos filhos de Bolsonaro, Léo Índio, é assessor de Chico Rodrigues (Foto: redes sociais)

Por Thaís Oyama

O ex-deputado com quem o presidente Jair Bolsonaro disse ter “praticamente uma união estável” está há quase quatro décadas na vida pública, mas só se tornou nacionalmente conhecido em 2006, quando o jornal O Globo revelou que parlamentares usavam notas fiscais falsas emitidas por postos de gasolina para embolsar a verba destinada ao pagamento de combustível, num esquema que gerou um prejuízo de 41 milhões de reais aos cofres públicos em valores da época.

O então deputado pelo PFL foi o campeão de gastos. Na ocasião, ele admitiu apresentar notas frias de até 30 mil reais por mês para “cobrir outras despesas” para as quais não tinha recibo. Chico Rodrigues já passou pelo PMDB, PTB, PPB, PTB, PSB, PSDB e atualmente está no DEM, onde já havia estado antes.
O atual vice-líder do governo no Senado, doravante conhecido por epíteto impublicável, foi vice-governador e governador de Roraima, onde era famoso pelo gosto de viajar às custas dos cofres públicos. Eleito senador em 2018, levou o hábito para Brasília. Nos seus primeiros nove meses de mandato, visitou seis países, sempre subsidiado pelo contribuinte.

Esteve no Canadá, Cazaquistão, China, Argentina, Itália e Israel – neste último, foi acompanhando o presidente Bolsonaro, cujo sobrinho, Léo Rodrigues de Jesus, abrigou em seu gabinete como assessor parlamentar. Léo Índio, como é conhecido, é próximo de Carlos Bolsonaro, com quem chegou a morar.
Chico Rodrigues tem um extenso currículo de maus serviços prestados à Roraima e à nação.
Em 2014, teve o mandato de governador cassado pela Justiça, condenado por gastos ilícitos na campanha para governador de 2010. Com isso, virou ficha-suja e tornou-se inelegível por oito anos. Em setembro de 2018, no entanto, um mês antes das últimas eleições, foi salvo pelo Tribunal Regional Eleitoral de Roraima, que deferiu o seu registro de candidatura por considerar que o prazo de sua inelegibilidade terminaria quatro dias antes do primeiro turno.
O senador Chico Rodrigues é ainda réu em uma ação penal que investiga apropriação de dinheiro público na liberação de emendas parlamentares para um projeto de plantio de café que nunca existiu.
A denúncia foi apresentada pelo Ministério Público Federal de Roraima quando Rodrigues era ainda deputado federal. Ele foi acusado de embolsar, junto com seu irmão, o dinheiro de emenda parlamentar supostamente destinada a um convênio firmado entre o Ministério da Agricultura e a Prefeitura Municipal de São Luiz do Anauá.

O caso do café está parado, mas o da farra das notas frias já foi encerrado, e terminou em pizza.
No mesmo ano de 2006, a Mesa Diretora da Câmara decidiu pelo arquivamento da investigação contra Rodrigues, acatando parecer do corregedor-geral que alegou não ver quebra de decoro por parte do parlamentar. O corregedor-geral era o então deputado Ciro Nogueira, hoje senador, expoente do Centrão, padrinho da indicação de Kassio Marques para o STF, ex-colega de partido de Bolsonaro e, como Chico Rodrigues, dileto amigo do presidente.
Nem num cenário em que as piadas invadem a realidade existem virtuosos entre ladrões.
Jair Bolsonaro não vai dar voadora nenhuma em ninguém.
Jair Bolsonaro não está nem aí para o decoro.

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