A história é sempre diferente, mas as eleições de 2018 e 1989 são parecidas

Por Fernando Rodrigues

O desfecho da corrida presidencial segue indefinido. Prever algo para 7 de outubro é arriscadíssimo e 1 ato de irresponsabilidade. Perto de 30% dos eleitores tendem a não escolher ninguém. Mas seria errado ignorar os pontos de conexão entre a disputa pelo Planalto em 2018 e a 1ª realizada depois do regime militar, em 1989.

A história nunca é a mesma, mas ensina a entender o padrão de comportamento do brasileiro. Vamos lá:

  • economia paralisada – as razões são diferentes, mas hoje a sensação é a de que as coisas não vão bem. Em 1989 havia a hiperinflação. Hoje, a falta de emprego. O brasileiro coloca a culpa nos governantes;
  • rejeição a políticos – as pesquisas diziam que o voto seria a favor de alguma novidade em 1989. Havia rejeição aos políticos tradicionais, como hoje;
  • extremos – em 1989, o sentimento geral era a favor das pontas do espectro político. Fernando Collor (PRN) representava o que se considerava “de direita” nos anos 1980. No outro polo estavam os candidatos do PT, Lula, e do PDT, Leonel Brizola. Hoje, Bolsonaro veste o figurino de Collor. PT e PDT estão no mesmo lugar;
  • os mesmos partidos – a sigla de Collor era minúscula e com pouco tempo de TV (como o PSL de Bolsonaro). O candidato do PT será quem Lula indicar. No PDT, Ciro Gomes é o neo-Brizola, nacionalista. Afirma que vai expropriar alguns dos campos licitados do pré-sal e ataca o PT –só falta chamar Lula de “sapo barbudo“;
  • teorias idênticas – Bolsonaro vai desidratar (Collor não aguentará a campanha e é muito explosivo). Geraldo Alckmin vai crescer porque tem a maior aliança, tempo de TV e boa equipe (Ulysses Guimarães tem o maior partido, muitos aliados, grande equipe, inclusive, entre outros, 1 dos melhores publicitários da história política, Geraldo Walter);
  • a busca de 1 outsider – em 2018 já foi testado Luciano Huck. Em 1989, o apresentador de TV cogitado foi Silvio Santos. Nenhum emplacou;
  • a busca de 1 nome de centro e tucano – agora há esforço para levantar o tucano Geraldo Alckmin. Em 1989, tentou-se energizar Mario “choque de capitalismo” Covas.

SÍNDROME DE ULYSSES GUIMARÃES

O tempo passa e as pessoas são endeusadas. Ulysses Guimarães (1916-1992) tem hoje uma legião de admiradores. Mas era 1 político centrista, sem brilho. Passou a infância em Rio Claro, no interior de São Paulo. Era apreciador de poire (licor de pera), umas das bebidas mais sem graça já inventadas. Fez direito na USP (no Largo São Francisco) e ficou de 2ª época em direito constitucional. Depois, presidiu o Congresso constituinte (isso explica muito do Brasil atual e de sua Constituição esquizofrênica).

Ulysses era sem dúvida 1 moderado e grande negociador. Forçou seu partido, o PMDB, a lançá-lo candidato em 1989 num momento em que outros jovens da legenda teriam mais chance (Alvaro Dias e Orestes Quércia, por exemplo). Teve extenso tempo de TV. Durante a campanha, afastou-se ao máximo do Palácio do Planalto (sob o impopular José Sarney). Deu tudo errado. Terminou a campanha com perto de 4% dos votos.

Agora em 2018 há outro candidato importante que veio do interior paulista. Geraldo Alckmin fez carreira em Pindamonhangaba. Seu apelido, dado pelo humorista José Simão, é picolé de chuchu. Governou São Paulo por muitos anos, mas hoje não lidera as pesquisas no seu Estado (Bolsonaro vence por lá; em 1989, Collor ganhou a maioria do voto paulista).

Apesar de o PSDB ter ajudado a colocar Michel Temer no Planalto, hoje Alckmin não quer proximidade com o presidente da República.

Alckmin tem o PSDB, uma espécie de PMDB do século 21 –no sentido de usar 1 discurso citando glórias do passado. A sigla tucana apregoa que é a fiadora do Plano Real e da estabilidade econômica, mas grande parte dos eleitores nem se lembra do que era a inflação pré-1994. O PMDB e Ulysses em 1989 se apresentavam com o bastiões da democracia e da resistência contra a ditadura, só que os eleitores não se recordavam direito o que havia sido viver sob uma ditadura para valer na década de 1970.

Mas Geraldo Alckmin é Ulysses Guimarães? Claro que não é. Só que a história nos prega várias peças. Algumas histórias às vezes se repetem –como na frase de Hegel citada por Marx no início do “18 Brumário de Luis Bonaparte”.

Para vencer, Alckmin terá de se reapresentar ao eleitorado. Mudar sua estampa. Precisa convencer os brasileiros de que será 1 presidente de renovação. É possível, mas não é fácil.

Post scriputm: muitos leitores notam que em 1989 houve uma “eleição solteira” (só para presidente da República, enquanto 2018 terá disputas para todos os cargos. É verdade. Mas há muito esse tipo de correlação deve ser relativizada, pelo que nos mostraram eleições recentes (voto Lulécio em Minas Gerais, por exemplo).

O eleitor escolhe o presidente muitas vezes de maneira desconectada do voto para governador e vice-versa. Até na ditadura, o “voto vinculado” (só se podia votar em candidatos do mesmo partido para todos os cargos) era burlado, quando apareceu o curiosa “sublegenda”, outra invenção brasileira.

O fato é que o eleitor brasileiro é como o torcedor de futebol. Quem anima o torcedor brasileiro é o time e não o contrário. Brasileiro já entra no estádio reclamando. Só depois de a equipe marcar 1 gol é que a galera começa a aplaudir. Essa é uma idiossincrasia nossa. Na política é quase igual: só há empolgação com 1 candidato depois que ele se mostra viável, e não o contrário.

Tudo considerado, sim, é sempre necessário considerar que há vasos comunicantes entre eleições nos Estados e a corrida presidencial. Mas não é algo tão determinante como possa parecer.

 

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