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Cancelar carnaval e permitir eventos privados sem exigir passaporte da vacina é hipocrisia com pitadas de exclusão social

Prefeituras cancelaram as festas de réveillon, mas permitiram eventos privados sem fazer a devida fiscalização sobre a apresentação do passaporte vacinal.

Desde dezembro se fala em cancelamento das festas de carnaval enquanto que eventos como o Carnatal foram realizados normalmente sem qualquer exigência do passaporte vacinal, reforço.

Neste final de semana tivemos grandes eventos em Tibau e o tradicional Jegue Folia em Marcelino Vieira aqui pelo Oeste potiguar.

Não se falou em passaporte vacinal.

Quando a coisa aperta o setor de eventos é o que mais sente por ser o primeiro a ser afetado e o último a se normalizar. Quando alivia os protocolos vão para as cucuias.

As prefeituras tiraram a festa dos pobres e deixou rolar as dos mais endinheirados que sentem nojo só de pensar em dividir a praça pública com a “ralé”.

No carnaval vamos seguindo a mesma lógica que garante o lazer de quem tem grana e não quer se vacinar e retira dos pobres que se vacinaram a fuga da realidade em quatro dias de folia.

O cancelamento de eventos públicos e a permissão dos privados sem o devido cuidado em relação ao passaporte da vacina é uma não política pública. É uma vitória dos negacionistas que combatem a vacina.

Na prática pune os pobres numa hipocrisia com pitadas de exclusão social. Como não afeta quem tem poder e força no debate público fica normalizado o absurdo.

Se os eventos privados estivessem barrando a minoria barulhenta que não quer se vacinar já ajudaria um bocado.

Do jeito que está sendo feito está tudo errado!

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A Exclusão e o Pancadão

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Paraisópolis é símbolo de nossa exclusão social (Foto: autor não identificado)

Por Fernando Rizzolo*

Uns anos atrás, escrevi um artigo sobre a repressão praticada pelos seguranças dentro dos shoppings centers em São Paulo, uma vez que não permitiam que grupos de jovens da periferia, que marcavam encontros chamados de “rolezinhos”, frequentassem os espaços dos shoppings.

O caso da invasão policial a um baile funk, do qual, segundo informações, participavam mais de 5.000 jovens, em virtude de uma perseguição dentro da comunidade de Paraisópolis, uma das maiores de São Paulo, com mais de 100.000 moradores, e que culminou com nove mortes numa verdadeira invasão policial tumultuada, denota o horror a que chegamos em termos de despreparo e impetuosidade policial em relação à população pobre deste país.

A grande verdade é que temos que olhar toda a situação de um ponto de vista que vai além do que realmente aconteceu, até porque ações policiais são necessárias em determinadas situações, mas é muito importante refletir não somente sobre o fato em si, que é, sim, de grande desproporcionalidade entre a atuação da polícia e o comportamento dos jovens pobres da periferia. O que vivenciamos hoje é a política do abandono total, na qual se nega qualquer chance de um futuro promissor aos jovens da periferia deste país, estigmatizados por viverem em uma comunidade, por serem negros, por serem pardos.

As vozes do planalto enaltecem a atuação militar, o desprezo pela desigualdade de oportunidades, o desemprego, a miséria e o superencarceramento em massa exatamente daqueles que são vítimas da falta do Estado no provimento do desenvolvimento do tecido social já tão desvalorizado, com 12,8 milhões de desempregados, 13,5 milhões de brasileiros ganhando menos que 145 reais e 12 milhões vivendo na extrema pobreza.

Para um jovem sem esperança, filho da miséria e do desemprego, viver numa comunidade é a única possibilidade, sendo que a grande maioria são famílias constituídas apenas pelas mães solteiras e seus filhos.

Nessa vertente desesperadora de exclusão, incluindo exemplos como os dos “rolezinhos” em shopping centers, já ficou provado que a única diversão para esses jovens são os chamados “pancadões”, embalados pelo funk.

A política do “ajuste fiscal”, da priorização do capital, da exclusão social que se agrava a cada dia, numa jangada perdida e sem rumo nos mares macroeconômicos, nos faz refletir sobre a deletéria influência das políticas socioeconômicas que passam pela liberalização de componente repressivo, como prisões abarrotadas e inspirações de cunho “excludentes de ilicitude”, levando ao excesso das ações policiais, reflexo puro e simples de uma política econômica inspirada na promoção da violência do Estado.

Para finalizar, poucos daqueles que apregoam a prisão em segunda instância se manifestam quando o problema é com o pobre, ou a periferia, estão, sim, cegos de vingança e sem emoção. Enquanto isso, jovens pobres morrem no chamado “pancadão”, sua única opção de diversão..

*É Advogado, Jornalista, mestre em Direitos Fundamentais.