A riqueza dos museus londrinos e o iluminismo como a maior herança positiva da Europa para a humanidade

Por Robério Paulino

Desde Londres, nos intervalos do meu trabalho especificamente acadêmico, a partir das minhas observações da realidade dessa impressionante cidade, resolvi escrever, como crônicas, algumas reflexões acerca da epopeia humana, dos graves problemas e dos desafios que tem a civilização neste início de novo milênio. Diferentemente dos textos que entregarei à minha universidade de origem, estes aqui não terão formato rigoroso, pelo que me darei a liberdade de usar livremente a primeira pessoa, uma linguagem mais coloquial. Tenho a mania de, não sei se por defeito ou virtude, observar discreta e atentamente tudo em volta, em detalhes, o comportamento das pessoas, os costumes, o modo de vida local e especialmente a riqueza ou pobreza material e cultural das sociedades.

Nessa cidade de tanta história, fundada no ano 43 da era cristã, que já atravessou inúmeras guerras,  pestes, bombardeios, que já foi a maior cidade do mundo no século 19, onde alguns que vêm para cá veem a imponência e a beleza arquitetônica dos seus prédios, eu vejo também a força do capital, poder, império, ideias, arrojo, ciência, história, busco explicações para a forma de ser do país e para seus problemas também. Quando vi o Tâmisa pela primeira vez, fiquei imaginando uma nau romana subindo o rio por aqui, há quase 2000 anos, no início da Era Cristã. Ao ver as marcas de explosões de bombas em muitos prédios, pelo bombardeio alemão na Segunda Guerra Mundial, com milhares de bombas V1 e V2 caindo sobre a Grã-Bretanha, imediatamente viajei no tempo e fiquei imaginando as pessoas correndo desesperadas para os subterrâneos do Metrô.

Nas poucas semanas desde que cheguei, além de cuidar das sempre difíceis questões de acomodação e sobrevivência em um país diferente, tudo muito caro, dos tropeços com meu inglês enferrujado, que estou tendo que colocar rapidamente em nível satisfatório para poder conversar com as pessoas,  de segunda a sexta me escondo num canto da biblioteca da universidade onde realizo meu estágio pós-doutoral, me dedicando à pesquisa para cumprir meus compromissos de produção acadêmica com minha universidade no Brasil.

Já nos fins de semana, logo cedo corro para os museus, só saindo de lá quando estão fechando os portões, no final da tarde, meio que empurrado pelos funcionários. Os dois últimos fins de semana, antes de ir ver o Big Ben, até porque ele está “vestido” por alguns anos para reformas, passei dentro do Museu de História Natural e do Museu Britânico, experiência a partir da qual escrevo esta primeira carta e recomendo a todos que um dia puderem vir para cá não deixarem de fazer.

Como professor há mais de 30 anos, sonho e gostaria profundamente que cada criança ou jovem das escolas públicas brasileiras pudesse ter a oportunidade de passar por esses tão educativos corredores, onde, em profundo silêncio, respira-se história, evolução, ciência. Se eu estivesse à frente de algum governo estadual ou municipal, daria como prêmio ao melhor aluno de cada escola uma viagem até aqui, como forma de estímulo. Isso não seria tão caro se for feito de forma coletiva, planejada, previamente negociada com empresas aéreas e conseguindo com os governos daqui os alojamentos, com parcerias, intercâmbios. Vi, feliz, como educador, várias turmas de alunos de diversas partes do mundo visitando esses museus, acompanhadas de seus professores.

A RIQUEZA DOS MUSEUS LONDRINOS E O ILUMINISMO 

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Quero começar esta série de cartas analisando o porquê de existirem nestes museus britânicos tão grandes e significativos acervos, discutindo como isso foi possível e por que não vemos a mesma coisa em outros países, mesmo quando formados por povos muito antigos, de onde  vem parte dessas coleções, como Egito, Iran, Iraque, Síria, Grécia, sem falar na pobreza e mesmo na falta de museus no Brasil.

Penso que em grande medida isso decorreu da onda iluminista que atravessou profundamente a Grã-Bretanha e alguns países da Europa Ocidental nos 3 primeiros séculos da Era Moderna. Sem esquecer os imensos sofrimentos causados a muitos povos pela expansão europeia, do que falarei adiante, como sugeri no título considero o Iluminismo como talvez a maior herança positiva da Europa para a humanidade, com profundo impacto em nossa forma de ver e pensar o mundo hoje. Sem que nos demos conta, o legado do Iluminismo está presente em cada aula de Biologia, Física, Química, História, Geografia, Economia, Ciências Sociais etc., que temos hoje nas escolas e universidades do Brasil e do mundo, mudando radicalmente toda forma de pensar o mundo nos últimos séculos.

No Museu de História Natural de Londres, encontra-se um acervo de centenas de milhares de peças, animais grandes e pequenos empalhados, artefatos do passado e de distintas civilizações, minerais, plantas, fósseis de ossos de animais pré-históricos como os dinossauros, mostrando uma parte da longa evolução geológica do nosso planeta e da riqueza das diferentes formas de vida nele. Uma panorâmica e emocionante viagem no tempo. Mas o que você vê nos corredores é apenas uma pequena parte do que está por trás dos mostruários, guardado em milhares de gavetas e prateleiras internas. Por isso, pesquisadores de todo o mundo vêm estudar nesses museus londrinos.

Já no Museu Britânico, encontra-se centralmente uma coleção de peças que revelam a história da evolução da civilização, desde a Mesopotâmia, passando pelo Egito antigo, as civilizações assírias, Grécia e Roma até os tempos mais atuais. Na parte da Mesopotâmia, com sua Babilônia, pode-se ver a história do começo das cidades, da civilização, dos alfabetos, da agricultura. Neste museu estão ferramentas rudimentares, esfinges grandes e pequenas, sarcófagos, múmias, esculturas, colunas, placas de pedras originais de 5.000 anos com inscrições, leis e decretos das distintas dinastias egípcias ou assírias, um acervo de fato impressionante.

Ali se tem noção de como os distintos e aparentemente mais poderosos impérios ascenderam e declinaram, rise and fall, mostrando como nada é eterno, nem as aparentemente mais sólidas formações sociais, regimes políticos ou as mais perversas ditaduras. Nesses corredores, os últimos 10.000 anos – desde que o sapiens deixou de ser um nômade e se fixou nas primeiras aldeias entre os Rios Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia, deixando de ser um nômade e começando a plantar e a criar animais – parecem um piscar de olhos.

Muitas das dinastias egípcias duraram séculos, mas caíram. O império romano teve um domínio impressionantemente vasto por muitos séculos, na Europa, África e no Oriente Médio, mas ruiu. A longa noite da Idade das Trevas, que tantos matou, passou. Estendendo o pensamento, falando do século XX, os regimes fascistas, como de Hitler e Mussolini, que aterrorizaram o mundo, ao final acabaram. O domínio europeu e norte-americano sobre o mundo moderno também está tendo seu fim, é só questão de tempo, assunto que será um tema de outra carta que escreverei. A atual ascensão de governos de direita no mundo, como no Brasil, que assusta a tantos, também cessará. Nada é eterno. Além do mais, o tempo histórico se acelera, tudo muda cada vez mais rápido, fica cada vez mais líquido, se dissolve, como disse Zygmunt Bauman. Às vezes para o mal, mas também para o bem. O desenlace do dilema sobre para que lado a humanidade vai enfim caminhar, dependerá da ação de cada um de nós e da velocidade com que ajamos na construção de um mundo melhor, enfrentando o obscurantismo.

Mas a questão que coloquei acima na carta é explicar por que alguns museus europeus e particularmente os britânicos podem ter acervos tão ricos, enquanto outros países não os têm. Ampliando a pergunta, podemos pensar também porque a Europa enriqueceu tanto e pôde ter um papel central na formação do mundo moderno. Cabe-me então explicar como o Iluminismo contribuiu para tudo isso.

O LEGADO NEGATIVO DA EUROPA

 

Antes analisar o imenso legado do Iluminismo, devo dizer que uma parte da explicação para a riqueza desses museus, que de forma alguma podemos desprezar, foram obviamente as possibilidades que tiveram os povos europeus ocidentais e particularmente o Império Britânico de carregarem para cá, nos últimos séculos, esses tesouros, saqueando pela força das armas e explorando num comércio desigual suas colônias, entre as quais se encontravam Egito, Síria, Palestina, Índia e muitos outros países ou partes da África, da Ásia e América. Entre 1882 e 1952, por exemplo, o Egito foi ocupado pela Inglaterra, que trouxe para cá boa parte desses ricos acervos. Hoje, existe um forte conflito jurídico sobre a propriedade de grande parte dessas peças que estão nos museus britânicos, com os países de sua origem reivindicando a volta delas. Lembremos que depois que foram expulsos da América, com a independência dos EUA, os britânicos logo se viraram para a Ásia, África e Oceania e construíram talvez o maior império mundial de todos os tempos.

O saque, a escravidão moderna, os milhões de mortos, a opressão sobre as populações das colônias, são o lado negativo dessa história, da dominação não só britânica, mas europeia, no mundo nos últimos 500 anos. Que o digam, se pudessem, os milhões de habitantes originais das colônias mortos, na América, África, Ásia e na Oceania, pelas armas ou especialmente pelas doenças levadas pelos europeus, como bem nos mostrou Jared Diamond, no seu fenomenal Armas, germes e aço (2013), um livro absolutamente essencial para quem quer entender o mundo, cuja leitura recomendo vivamente a todos. Que o digam, se pudessem falar, os milhões de negros escravizados ou jogados ao mar vivos dos navios, sem qualquer clemência, quando ficavam doentes na travessia do Atlântico, arrancados de suas terras que nunca mais veriam. Que o digam os povos do Oriente Médio e da África, por séculos oprimidos e espoliados pelos impérios europeus. Esse é parte da explicação da riqueza desses museus e de alguns países da Europa.

A HERANÇA POSITIVA DA EUROPA 

 

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Mas no caso dos amplos acervos dos museus de Londres, avalio que não é só isso. Outros fatores, positivos, também influenciaram para a riqueza de suas coleções e de alguns países europeus. Um deles, como já falei, foi a influência do Iluminismo no pensamento de grande parte da Europa Ocidental, especialmente sobre o britânico. Deixem-me explicar. Talvez em nenhum outro país do mundo tenha havido como aqui na Grã-Bretanha, nos séculos XVII, XVIII e XIX, uma mania por observar, classificar, catalogar, arquivar, tentar entender, tudo aquilo que chegava aos olhos e mãos dos exploradores e pensadores. E isso deriva em grande medida da influência iluminista, que pregava o primado da razão, fugindo da explicação apenas religiosa.

Os séculos XVII e XVIII foram excitantes tempos de despertar da Ciência no continente. Muitas coisas que até ali eram mistérios começaram a ficar claras, a serem entendidas de forma racional; a compreensão correta das coisas e fenômenos passou a ser buscada nas suas causas e origens, como parte de um movimento, de uma evolução. A superstição, a tradição, os dogmas, a alquimia, as lendas, foram dando lugar ao pensamento racional, às novas teorias, à vontade de compreender, à observação atenta, à medição, à experimentação, ou seja, ao nascimento da Ciência.

Isaac Newton, o pai da Física Moderna, para chegar à Lei da Gravitação Universal, hoje ensinada em todas as escolas do mundo, no Japão ou no Brasil, e que mesmo uma nave espacial chinesa levará em conta para chegar a Marte no século XXI, tinha que estar livre de dogmas, com a mente aberta à investigação e compreensão racional dos fenômenos. Se pensasse que tudo depende de uma lei divina, que a maçã cai porque um deus quer, ou porque Adão a mordeu, nunca concluiria que ela cai pela força de gravidade da Terra. Jamais determinaria que essa força de atração entre dois corpos depende do produto direto de suas massas, da razão inversa do quadrado da distância entre eles, multiplicados por uma constante de gravitação universal, que ele chegou mesmo a determinar o valor, g = 9,81 m/s2. Chegar a isso hoje talvez seja fácil, mas chegar às suas 3 leis ainda nos anos 1600, em que ele viveu, é coisa para um gigante do pensamento, séculos à frente de seu tempo.

No terreno da Economia, Adam Smith é também um grande expoente do Iluminismo. Analisando os processos da Revolução Industrial nascente, o crescente comércio da Grã-Bretanha com o restante do mundo, as relações de trabalho nas indústrias, ele chegou a uma primeira formulação da Lei do Valor e ao entendimento do porquê de algumas nações serem mais ricas que outras. Ao ler A Riqueza das Nações, mergulhamos numa deliciosa viagem ao ambiente das sujas e fumacentas fábricas de Manchester, ou seja, na realidade em rápida transformação. Ao contrário do que se possa pensar, mesmo Marx, outro pensador de mente extremamente aberta, mesmo sendo um crítico do liberalismo de Smith, se considerava um discípulo dele, integrando a Economia Política deste último nas suas teorias.

Em vários países, homens práticos, como os engenhosos James Watt, Ampère ou Volta, construíram a ponte entre essa nova Ciência e o mundo da indústria, cada vez mais acelerado. A máquina a vapor aperfeiçoada de Watt ajudou a Grã-Bretanha a saltar na frente de todas as nações na Revolução Industrial, ajudando a construir sua riqueza e poder. Cada vez que dizemos que um equipamento ou uma máquina em nossa casa tem tantos Watts de potência ou que a voltagem da tomada elétrica é de tantos Volts, estamos nos referindo ao legado desses pioneiros, estamos sem saber nos referindo aos reflexos do Iluminismo para a Ciência, a técnica e a vida cotidiana. O Sistema Internacional de Medidas, que o mundo todo usa atualmente, foi criado na Europa como fruto dessa explosão da Ciência no continente.

Um pouco mais tarde, o pensamento e as teorias de Darwin, como expressos em A Origem das Espécies, que revolucionaram as Ciências Naturais, serão também reflexos das ideias iluministas de sua época. Darwin disse uma vez: “Freedom of thougth is best promoted by the gradual illuminations of men’s minds, which follows the advance of Science” (frase escrita em pedra na base de sua estátua, na entrada do Museu de História Natural). Aqui está cristalino o modo de pensar iluminista. Esse pensamento aberto ao novo, à investigação, à compreensão da origem, da evolução e do chegar a ser das coisas, ou seja, o pensamento científico, é bem diferente, ou para dizer melhor, é o oposto do pensamento dogmático, para quem tudo veio de criação divina.

Mesmo após quase dois séculos de Darwin e de a Ciência Moderna ter comprovado que somos primos e uma evolução dos primatas e que os nossos ancestrais sapiens de todos os povos atuais saíram da África há uns 200 mil anos, até hoje ainda há bilhões de pessoas que não acreditam nessa explicação. Caso se dessem ao trabalho de olhar a mão de um chipanzé, nosso primo mais próximo nos dias atuais no reino animal, veriam que ela tem 5 dedos igual à nossa. Você pode ver aí na Internet. Sabe-se hoje que 99% de nosso DNA é igual ao dele. Darwin promoveu uma revolução nas Ciências Naturais, mostrando que todas as espécies, animais e vegetais são resultado da evolução da vida no planeta, inclusive nós humanos. Por isso, já na entrada do Museu de História Natural encontra-se uma grande estátua dele, nos recebendo.

Por outro lado, em minha modesta opinião, a resistência da velha forma dogmática de pensar atrasou em muito o avanço do pensamento científico em muitos países, como na Península Ibérica, campo maior da Inquisição. O Iluminismo chegou de forma muito tardia em Portugal, Espanha e em outros países muito fechados e de religiosidade muito arraigada, o que ajuda a explicar o atraso na industrialização e na educação em muitos lugares, como no Brasil, já que a cultura em nosso país refletia muito o ambiente ibérico.

Sem querer desmerecer qualquer país ou povo, pois somos todos parte de uma única raça, a raça humana, todos igualmente inteligentes, afirmo que, em sua época, muito pouco provavelmente um Charles Darwin – que tinha apenas 22 anos quando embarcou no Beagle para uma viagem ao redor do mundo, observando atentamente  e com mente aberta e ávida tudo que via, coletando, catalogando animais, plantas e rochas, para tentar entender a origem e a evolução das espécies – surgiria em outro país que não fosse a Grã-Bretanha ou no ocidente da Europa. Dificilmente surgiria um Isaac Newton em países dominados pela Inquisição cristã ou em países onde a forma hermética ou supersticiosa de pensar predominava, onde toda verdade já está pronta em um livro sagrado e o pensamento científico era repelido, as vezes com a fogueira, o apedrejamento e a morte.

Isso de forma alguma nega a importância da contribuição que muitas outras civilizações e povos tiveram para o avanço do conhecimento ou mesmo casos isolados de pensadores de destaque em países de desenvolvimento científico mais atrasados, como o caso de um Copérnico no leste da Europa ou um Santos Dumont. A agricultura, o arado, as cidades, a roda, o alfabeto e os números usados hoje na Europa, a religião cristã predominante no continente, a astronomia, a matemática, o calendário, a engrenagem, a metalurgia, a pólvora, o foguete, a navegação a vela,  a grande arquitetura, a medicina primitiva, o vidro, o papel, o livro, a Filosofia, o Direito, surgiram noutros lugares, como no Oriente Médio, na China, na Índia, no norte de África, na Grécia etc. Não são invenções dos europeus ocidentais. Eles foram beneficiários de tudo isso. Mas o Iluminismo e a Revolução Industrial vão colocar esse continente no centro do desenvolvimento da Ciência e da técnica nos primeiros séculos da Idade Moderna.

O PAPEL CONTRADITÓRIO DAS RELIGIÕES

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Tampouco desprezo aqui a contribuição positiva das religiões, como o judaísmo, o cristianismo, o islamismo, o budismo e outras crenças para o avanço da civilização. Em seu momento, o cristianismo, por exemplo, significou uma profunda revolução no pensamento humano contra a escravidão, a injustiça, a desigualdade, contra a pobreza de muitos alimentando a riqueza de poucos, e por afirmar valores como bondade, justiça, igualdade, honestidade, verdade, lealdade, respeito, humildade, misericórdia. A civilização não seria possível sem leis e valores, – ainda que no futuro venham a ser apenas consentidos, não impostos – sem a maior parte das regras de convivência que estão nos dez mandamentos cristãos, na Bíblia, no Torá, no Alcorão ou nos livros budistas, de importância vital para a coesão social. Muitos dos iluministas continuaram religiosos, apesar de não dogmáticos. Outros pensadores, como Spinoza, no entanto, pagaram caro e tiveram sua importante contribuição relegada, por verem uma maior oposição entre Ciência e religião.

O problema começa, e ai sim algumas religiões passam a ter um papel extremamente negativo, quando essas crenças são vistas como ideias imutáveis que tentam impedir o avanço do pensamento, da ciência, contra a mudança dos costumes, quando cegam e enchem os corações de ódio, passando a ser usadas para perseguição ou guerras contra outras crenças, contra os dissidentes, contra os diferentes. Ou, como vimos em todos esses séculos, para praticar, em nome de seus deuses, a maldade, a crueldade, a violência, os mais perversos crimes e massacres, os pogroms, negando os princípios humanísticos que as religiões pregam.

Bastaria pensar nas centenas de milhares de mortos pela Inquisição, a quase totalidade inocentes, culpados apenas por serem diferentes, para entender do que estamos falando. A Inquisição não queimou apenas livros, incinerou ou esquartejou centenas de milhares que pensavam diferente. Matou milhares de mulheres simplesmente por serem ruivas ou as que tinham opinião própria e não aceitavam a submissão aos homens, vistas como bruxas. Matou Giordano Bruno e por muito pouco não fez o mesmo com um gigante como Galileu. Hitler, com todo seu ódio, assassinou 6 milhões de judeus, entre os quais 1 milhão de crianças igualmente inocentes; tudo em nome do deus cristão. Matou cruelmente 26 milhões de soviéticos, em nome de sua ideologia de ultradireita.

COMO O ILUMINISMO EXPLICA A RIQUEZA DOS MUSEUS BRITÂNICOS   

 

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Voltando ao Iluminismo, quando afirmo que um Isaac Newton, um Charles Darwin, um James Watt, um Adam Smith, um Locke, um Voltaire, um Rousseau, um Hegel, um Feuerbach, um Galileu um pouco antes, talvez só pudessem ter surgido na Grã-Bretanha ou no ocidente da Europa em sua época, não estou falando de superioridade de nenhum povo. Isso não existe. Estou me referindo apenas e  exatamente a um contexto histórico determinado, ao pensamento médio das sociedades em uma dada época, a um novo florescer do pensamento racional na Idade Moderna, ao Iluminismo, que surge de certa forma negando a Idade das Trevas, o Absolutismo, a Inquisição, para possibilitar que todo o conhecimento anterior acumulado fosse consolidado como Ciência e sua forma de aquisição transformada no que chamamos hoje de método científico. O Iluminismo produziu esses gigantes do pensamento humano em seu momento.

O Iluminismo é muitas vezes associado mais aos pensadores franceses das Ciências Sociais, da Filosofia, como Voltaire, Rousseau, Montesquieu, Diderot, principalmente no século XVIII. Mas isso é um engano. Foi uma nova forma de pensar que penetrou todos os campos do conhecimento, da Física à Medicina, passando pela Arqueologia. Além disso, os pensadores ingleses, como Newton, Smith, Watt, Locke, Darwin, foram muitos deles precursores deste movimento. Voltaire o reconhece e coloca Locke acima de Platão. Nas suas Cartas inglesas, ele diz o seguinte: “Talvez nunca tenha existido um espírito mais sábio, mais metódico, um lógico mais exato do que o Sr. Locke” (2001). D’Alembert, que organizou a Enciclopédia na França, também faz seu tributo a Locke e diz que ele é o criador da filosofia científica, assim como Newton o foi da Física científica. O Iluminismo foi, portanto, um movimento tão presente na Grã-Bretanha quanto na França e em outros países.

Mas para ir encerrando nossa reflexão, respondendo à pergunta feita inicialmente, o que o Iluminismo tem a ver com o rico grande acervo dos museus britânicos, que formulei no começo da discussão? Tudo. Isso porque para estudar e entender as coisas, os fenômenos, a vida, a história, fazer ciência, era preciso observar, coletar, arquivar, catalogar, fosse em coleções pessoais ou em museus. E isso foi feito aqui mais que em outros lugares. Diferentemente das expedições de outras nações, quase sempre realizadas exclusivamente por motivos comerciais ou militares, as naus inglesas sempre levavam, além de um comandante, um explorador junto. Assim viajou Darwin. Um outro exemplo de explorador muito famoso por aqui é Robert Scott, que circundou o globo inteiro várias vezes e morreu na Antártida voltando de uma expedição para ser o primeiro humano a chegar ao Polo Sul, em 1911, numa corrida que perdeu para o explorador norueguês Roald Amundsen.

Bem, espero ter explicado minha tese da relação do Iluminismo com a riqueza dos museus de Londres, que sugeri no título dessa carta. Tomem esta minha admiração por estes acervos e esta simples carta também como um apelo por mais museus nas cidades brasileiras. Um país que não preserva sua história não pode ter um grande futuro. Lamento imensamente pelo incêndio de um dos nossos poucos museus, o Museu Nacional, deixado ao abandono por governos obscurantistas, a quem não interessa o esclarecimento de nossa gente. Precisamos despertar o interesse de nossas crianças e jovens pela história, pelo conhecimento, pela Ciência. Nos sábados e domingos pela manhã, vi aqui em Londres, na Estação do Metrô de South Kensington, que dá acesso a ao Museu de História Natural e ao Museu da Ciência, uma multidão de gente chegando animada, centenas de famílias inteiras, país trazendo os filhos, de tudo quanto é lugar, pela aparência humildes, com crianças logo encantadas em cada corredor. Que inveja senti.  Precisamos criar essa cultura no Brasil. Sou otimista.

Meus próximos alvos já estão definidos: o Museu da Ciência e o Museu da Guerra. Nas semanas seguintes, nos meus fins de semana, pretendo escrever novas cartas, relacionando o que estou vendo nesta impressionante cidade com os problemas humanos atuais. Já na próxima carta, que está no forno, pelas minhas observações nos bairros fora do centro de Londres, tentarei mostrar como o liberalismo vem levando a Grã-Bretanha, pioneira na Revolução Industrial, e o Ocidente, à desindustrialização e à decadência, com todas as consequências sociais e políticas disso. A Grã-Bretanha é desde algum tempo um cemitério de fábricas, como vem ocorrendo também nos EUA. Assim, vou dividindo essa rica experiência com vocês, fazendo o caminho inverso dos exploradores ingleses, na terra deles.

Londres, 14/04/2019

Diamond, Jared. Armas, germes e aço: os destinos das sociedades. Rio de Janeiro: Record, 2013. 

Voltaire. Cartas Filosóficas. São Paulo: Ed. Landy, 2001.

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Lula está preso, Voltaire está morto. Babacas!

Por Rogério de Campos*

Diplomatique

O caso Calas é uma das pedras fundamentais daquilo que tem sido chamado sistema democrático ocidental. Quando o Brasil se coloca como parte da vanguarda do processo regressivo que pretende destruir tal sistema e as ambições do Iluminismo (Estado Laico, educação pública, liberdade de expressão…), podemos dizer ser inevitável ter seu caso Calas, que, qual em rituais esotéricos, deve ser conjurado e revertido simbolicamente

O magistrado David Beaudrigue estava convicto: o jovem Marc-Antoine Calas fora assassinado pela própria família. O pai, a mãe e um dos irmãos, e também a empregada Jeanne Viguière e um jovem amigo da família, Gaubert Lavaysse: todos que estavam na casa naquela noite do dia 13 de outubro de 1761 diziam que ao descer da sala de jantar, que ficava no primeiro andar, para o térreo, encontraram o corpo de Marc-Antoine no chão. Falou-se de um desconhecido misterioso que fugira, sem ser identificado. Falou-se de uma punhalada. Mas o médico retirou a gravata de Marc-Antoine e ali estava a marca no pescoço: o rapaz fora enforcado ou estrangulado.

Na cidade de Toulouse, no sudoeste da França, Beaudrigue era mais que um magistrado comum: era um capitoul, ao mesmo tempo investigador, promotor e juiz. Usando sua autoridade, naquela mesma noite mandou para a prisão todos que estavam na casa, inclusive o cadáver.

No dia 15, a verdade veio à tona: Marc-Antoine se suicidara. Seu irmão, Pierre Calas, e Gaubert Lavaysse o encontraram enforcado. Desesperados, chamaram o pai, Jean Calas. Os três desceram o corpo para o chão. A mãe, Anne-Rose, ficou assustada com os gritos e pediu a Jeanne que fosse ver o que acontecera. Só depois Anne-Rose foi até lá. Em meio ao desespero, Jean Calas ordenou a todos que não contassem a ninguém que Marc-Antoine se suicidara. Temia o castigo que era tradicionalmente imposto aos suicidas: seu corpo era amarrado nu a uma grade (a claie d’infamie), arrastado pelas ruas da cidade, apedrejado, até ser jogado no depósito de lixo da cidade.

Mas, apesar dessa confissão, o capitoul Beaudrigue continuava convicto: a família, com a ajuda de Jeanne e de Lavaysse, assassinara Marc-Antoine. Ordenou que todos continuassem presos. Outro capitoul, Lisle Bribes, aconselhou ao colega um pouco de calma e questionou a regularidade daquela detenção. Impaciente, Beaudrigue respondeu:

– Isso é comigo, o que está em causa é a religião (“Je prends tout sur moi. C’est ici la cause de la religion”).

Beaudrigue era católico. A família Calas era protestante.

O capitoul aparentemente acreditava nos boatos que começaram a correr pela cidade segundo os quais Marc-Antoine fora assassinado pela família porque desejava se converter ao catolicismo.

O quanto havia de fanatismo religioso em Beaudrigue é difícil de determinar. Durante alguns séculos, ele foi visto por historiadores como um magistrado rígido, cruel e intolerante. Voltaire o considerava tudo isso e também um patife, mas não tinha provas para esta última acusação. Em 1927, Anatole Feugère, professor da Faculdade de Letras de Toulouse, pesquisando nos arquivos da Corte de Justiça da cidade, descobriu documentos de um antigo processo que revelaram o quanto a intuição do filósofo estava correta: os velhos papéis demonstraram que Beaudrigue pouca coisa fazia que não motivada por subornos ou interesses pessoais. Recebia dinheiro de donos de salões de jogos e prostíbulos para fazer vista grossa. Tomava para si cargas de vinho apreendidas de contrabandistas e, santarrão, até promovia orgias em sua casa de campo. Em uma ocasião, usou sua autoridade para punir duramente o ex-amante de sua amante.

Mas, mesmo sem as descobertas do professor Feugère, seria fácil suspeitar das motivações de Beaudrigue para ser tão cruel com os Calas. O poderoso cargo de capitoul era uma conquista que se fazia no campo das relações políticas. O mais poderoso ministro da França naquele momento era o conde de Saint-Florentin, hostil aos protestantes. Beaudrigue trocava correspondência com Saint-Florentin. Além disso, a elite de Toulouse era totalmente católica e o poder judiciário em boa parte dominado pelos Penitentes Brancos (uma irmandade católica). Matadores de protestantes costumavam ser celebrados como heróis. Ser intolerante com hereges era ótimo para a carreira de um capitoul.

Em Toulouse, que fora uma das capitais da heresia cátara no século XII e depois um centro importante do protestantismo na França, o catolicismo teve que se impor a ferro e fogo. Contra os cátaros foram necessárias três cruzadas. Foi em Toulouse que são Domingos criou a Inquisição. E em 1562 aconteceu um grande massacre de protestantes, no qual foram mortas entre 3.000 a 5.000 mil pessoas. Na época, todos os protestantes sobreviventes foram expulsos da cidade. O aniversário do massacre, comemorado no dia 17 de maio, foi uma das principais festividades da cidade até o século XIX. Nesse dia, como retribuição à luta da cidade contra o protestantismo, o papa concedia indulgências a quem fosse rezar na catedral ou na igreja de Saint-Sernin, na qual se encontra uma peça de madeira entalhada que mostra um porco no púlpito com a legenda: “Calvino, o porco, pregando” (“Calvin le porc, prêchant”).

Em 1761, a população de Toulouse era formada por 50 mil católicos e 200 protestantes. Que conviviam mais ou menos pacificamente. O comerciante Jean Calas tinha negócios com católicos, os Calas tinham amigos católicos e a própria Jeanne, empregada da família há mais de 20 anos, era uma católica fervorosa. Mas haviam aqueles católicos mais que fervorosos, febris. Corria pela região a história de que os protestantes haviam se reunido em um sínodo, na cidade de Nimes, no qual decidiu-se que os pais e mães eram obrigados a matar seus filhos se esses tentassem mudar de religião. E os boatos diziam que Lavaysse fora enviado à casa dos Calas para ajuda-los a executar o filho.

Por mais absurdo que isso pareça, foi justamente essa história delirante de uma conspiração protestante para matar Marc-Antoine a base da argumentação da acusação:

“Calvino diz que todos os filhos que violem a autoridade paterna, quer através do desprezo, quer da rebelião, são monstros e não homens. E que, portanto, Nosso Senhor ordena que sejam condenados à morte todos os que desobedeçam a pai e mãe. Calvino é de opinião que o filho rebelde e desobediente seja morto”. Calvino, segundo a acusação contra os Calas, teria se baseado em Deuterônimo 21:18: “Se alguém tiver um filho rebelde e indócil, que não obedece à voz de seu pai e à voz de sua mãe, e não os ouve mesmo quando o corrigem, então, seu pai e sua mãe pegarão nele, e o levarão aos anciãos da sua cidade e à porta do seu lugar, e dirão aos anciãos da cidade: ‘este nosso filho é rebelde e indócil, não dá ouvidos à nossa voz, é um devasso e beberrão’. Então, todos os homens da sua cidade o apedrejarão com pedras, até que morra”.

Os outros protestantes, de Toulouse e da região, ficaram escandalizados com tal acusação. Denunciaram que o suposto sínodo em Nimes nunca acontecera e que o documento em que Calvino exortara o assassinato de filhos rebeldes era falso. Mas Beaudrigue não lhes deu atenção. Ele tinha outra preocupação: se não havia qualquer prova de que os Calais haviam matado o filho era preciso ao menos provar que havia um motivo para que eles o tivessem feito, provar que Marc-Antoine de fato pretendia se converter ao catolicismo. E o capitoul não tinha nem essas provas. Tinha boatos e tinha sua convicção.

Beaudrigue decidiu então lançar uma “monitória”, uma espécie de chamamento para que pessoas que soubessem de algo sobre o caso aparecessem para depor. Pela monitória, se alguém soubesse algo e não se manifestasse estaria automaticamente excomungado. Em geral, as monitórias funcionavam: com medo de serem condenadas ao inferno, as pessoas que tinham alguma informação corriam para depor. Também em geral, as monitórias não costumavam especificar se queriam depoimentos a favor ou contra os réus. Não era o caso dessa emitida por Beaudrigue, claramente direcionada: queria ouvir quem soubesse algo da conversão de Marc-Antoine, das ameaças que os pais faziam a ele, de uma reunião em que se deliberou sua morte, daquela noite do dia 13 na qual “esta execrável deliberação foi executada, fazendo ajoelhar Marc-Antoine, o qual, pela surpresa ou pela força foi estrangulado ou enforcado” e, por fim, “todos os que saibam quem são os autores, cúmplices, implicados, aderentes deste crime, que é dos mais detestáveis”.

E aí apareceu de tudo, gente que viu Marc-Antoine em igrejas, rezando, e até uma moça que se dizia ex-protestante e que garantiu que o rapaz não só se convertera ao catolicismo, mas também a convertera (depois ficou claro que a história era fantasia da garota, que sempre havia sido católica).

Um exemplo de depoimento:

“Massaleng, viúva, declarou que sua filha lhe contou que o senhor Pagès havia contado à ela que M. Soulié havia contado a ele que a senhorita Guichardet contara a ele que a senhorita Journu havia dito algo a ela que a fez concluir que o padre Lerraut, um jesuíta, tinha sido o confessor de Marc-Antoine Calas”. O padre Lerraut foi convocado para depor e demonstrou que a história não era verdadeira.

Portanto, não havia provas e os testemunhos eram bem frágeis. Mas Beaudrigue tinha convicção e isso ele podia provar: ordenou que Marc-Antoine tivesse um pomposo enterro como mártir católico. Juntou-se uma multidão, vieram delegações de todas as ordens religiosas e todas as confrarias de penitentes. Ou seja, a hipótese de que Marc-Antoine tivesse se suicidado havia sido completamente descartada.

Condenados à morte na primeira instância, os Calas recorreram à segunda instância, que era a Corte de Justiça de Toulouse. Mas ali também não havia esperança: até porque diversos dos juízes eram da irmandade dos Penitentes Brancos. Um dos juízes chegou a dizer às duas filhas de Calais (que não estavam na casa no dia 13 de outubro, portanto não foram implicadas no caso): “Não tendes outro pai agora, senão Deus”.

Ainda assim, os juízes vacilavam: também tinham a convicção da culpa, mas viam que ela não estava demonstrada. Não havia provas. Então alguém teve a ideia de julgar e condenar Jean Calas separadamente. Acreditavam que ele, um pacato comerciante de 64 anos, não aguentaria as torturas que precediam a execução, muito menos encarar o cadafalso: iria confessar e entregar seus cúmplices.

Às quatro horas da manhã do dia 10 de março de 1762, depois de passar a noite na infernet (masmorra reservada aos condenados à morte) foi levado à câmara de torturas. Dois padres ainda tentaram convencê-lo a converter-se ao catolicismo, para assim salvar sua alma já que a vida estava perdida. Mas ele se recusou.

Beaudrigue o esperava na câmara e anunciou que aquele seria o último interrogatório. Calas foi torturado por horas, mas resistiu a todas as tentativas do capitoul de arrancar dele uma confissão. Por fim, foi levado para a praça de Saint-Georges, que já estava lotada pela multidão. O cadafalso estava montado. Jean Calas foi condenado a ser morto na roda, uma das mais cruéis formas de execução: a vítima é colocada sobre uma roda, seus ossos são quebrados e ela fica ali, às vezes sendo comida viva pelos corvos e aves de rapina, até que morra de dor ou que a autoridade tenha a misericórdia de dar o golpe final. Beaudrigue fez mais uma tentativa, pareceu vacilar em sua convicção e admitir que talvez outra pessoa tivesse assassinado Marc-Antoine:

– Calas, embora inocente, sabe talvez quais foram os autores do crime cometido contra a pessoa de Marc-Antoine?

– Não sei.

Calas ficou duas horas na agonizando naquela roda, até que o carrasco o estrangulou. Seu corpo então foi lançado a uma fogueira.

Conta-se que enquanto ele agonizava um padre chamado Bourges fez uma última tentativa de arrancar sua confissão. E o Calas respondeu irritado:

– Padre?! O quê?! Também acredita que se possa matar um filho?!

Talvez um tanto desnorteados com a inesperada firmeza de Jean Calas, os juízes liberaram os outros acusados dias depois. Pierre foi condenado a um simulacro de exílio perpétuo: foi levado para fora de um dos portões da cidade e então conduzido novamente para dentro da cidade, para o convento dos dominicanos onde ficou sob vigilância até o dia 4 de julho, quando fugiu.

Voltaire vivia do outro lado da França, em Ferney, na fronteira com a Suíça. Quando ouviu a história do protestante que matou o filho, chegou a fazer piada a respeito. O filósofo aceitava como fato que Jean Calas era um fanático que matou o filho porque este queria se tornar católico. Voltaire tinha tanto desprezo pela intolerância católica quanto pela protestante.

Mas um comerciante de Marseille, que vinha de Toulouse e estava de passagem por Ferney, contou a Voltaire a outra versão da história. O filósofo ainda assim, resistiu a acreditar que os juízes pudessem ter errado. Escreveu a um amigo que o crime de Calas lhe parecia pouco verossímil, “mas é menos verossímil ainda que os juízes, sem qualquer interesse, tenham feito perecer um inocente no suplício da roda”.

Voltaire começou uma espécie de investigação para chegar à verdade. Mandou cartas para amigos que podiam saber mais do caso. “Quero saber de que lado nesse caso está o horror do fanatismo”, diz em uma das cartas. Por fim, se convenceu da inocência de Calas. E iniciou a épica campanha para que a verdade viesse a público. Seu célebre Tratado sobre a Tolerância (Traité sur la tolérance à l’occasion de la mort de Jean Calas – 1763) é parte dessa campanha que alcançou a vitória no dia 9 de março de 1765, quando o Conselho Real, em Paris, reabilitou Jean Calas e sua família, que foi indenizada pelo rei. Exatamente três anos depois da sentença que condenou Calas à morte.

O ministro Saint-Florentin tratou de se desvincular discretamente do caso. Usou outra falha de Beaudrigue, em outro caso, como desculpa para destituí-lo. Beaudrigue enlouqueceu. Tentou suicídio duas vezes. Na segunda tentativa foi bem-sucedido.

Voltaire tinha 70 anos quando ouviu falar de Calas pela primeira vez. Já havia feito sua fama como filósofo. Mas o caso daquele comerciante de Toulouse revolucionou sua biografia: ele se tornou um herói, um campeão na defesa dos injustiçados. E se tantos bustos dele enfeitam bibliotecas até hoje é menos por causa de Cândido que por Calas. Nove de março de 1765 passou a ser o jour de gloire do iluminismo francês.

Para diversos historiadores, o caso Calas marca o início da campanha contra a pena de morte e contra a tortura. O caso virou o grande monumento ao princípio jurídico da Presunção da Inocência. Tal princípio já estava presente no Corpo do Direito Civil, de Justiniano: “Ei incumbit probatio qui dicit, non qui negat” (“Àquele que disse e não ao que nega incumbe à prova”), mas foi mais ou menos esquecido durante a Idade Média, que talvez tenha começado a acabar quando o cardeal e jurista francês Jean Lemoine escreveu “item quilbet presumitur innocens nisi probetur nocens” (“uma pessoa é considerada inocente até ser provada culpada”).

É também em 1765, ano da reabilitação de Calas, que William Blackstone publica Commentaries on the Laws of England com seu famoso ratio: “é melhor que dez culpados escapem à condenação que um inocente sofra”. Podemos pensar que isso foi coincidência, resultado da Inglaterra estar mais adiantada em seu caminho rumo à democracia. Mas é certo que é Calas quem está na memória dos autores da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) quando eles escrevem o artigo 9: “Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado e, se julgar indispensável prendê-lo, todo o rigor desnecessário à guarda da sua pessoa deverá ser severamente reprimido pela lei”.

É claro que os Judiciários do mundo inteiro seguiram cometendo as injustiças que lhes são próprias. Mas a passou a existir aquela monumental referência do que é certo.

O caso Calas é, portanto, uma das pedras fundamentais daquilo que tem sido chamado sistema democrático ocidental. Assim, quando o Brasil se coloca como parte da vanguarda desse processo regressivo que pretende destruir tal sistema e as ambições do Iluminismo (Estado Laico, educação pública, liberdade de expressão…), poderia se dizer que era quase inevitável ter seu caso Calas, que, qual em rituais esotéricos, deve ser conjurado e revertido simbolicamente. Como se o caso precisasse ser refeito para que todas as consequências que teve possam ser revertidas. Então a tragédia de Toulouse volta a acontecer em Curitiba, na forma de farsa.

Como em Toulouse, o capitoul Sergio Moro não tem provas que sustentem a condenação de Lula. Moro, como Beaudrigue no passado, sequer consegue provar que há um crime. Existem os depoimentos, alguns delirantes, alguns maliciosos e interessados, alguns depoimentos, em Toulouse, arrancados à custa de ameaças de excomunhão, vários em Curitiba arrancados às custas de torturas (e não é tortura manter um cidadão preso por meses até que ele confesse a suposta culpa de outro cidadão?).

Mas há a diferença fundamental para o primeiro caso Calas: agora ninguém perde de vista de que se trata de uma farsa. Sabem disso tantos os juízes do Supremo que se colocam como reféns dos ritos quanto o colunista de jornal para quem a condenação faz justiça ainda que o Lula não seja culpado dos crimes que a motivaram. Sabe disso até mesmo o nerd boçal que repete eufórico “Lula tá preso, babaca!” e comemora a prisão como o fanático torcedor comemora um gol de mão.

Chega a ser injusta a acusação de hipocrisia feita aos protagonistas dessa farsa. Porque eles não prestam tal respeito à virtude. Tudo está à vista, porque precisa ser à vista: só assim serve como aviso. O que demorou, talvez, a ficar claro é que o objetivo, como já se viu, não foi apenas impedir o que aparentemente era inevitável: a reeleição do ex-metalúrgico. Mas impedir a possibilidade de eleição de um metalúrgico. Não apenas destruir o legado do PT, ou da Esquerda, ou do Getulismo, mas destruir também o legado da Revolução Francesa.

E nós, da periferia do capitalismo, que tínhamos várias razões para duvidar da pertinência do termo Civilização Ocidental, vemos a Democracia, que mal tinha posto os pés aqui, voltar para o navio e partir.

*É editor, tradutor e autor dos livros Revanchismo, Dicionário do Vinho (Prêmio Jabuti) e Imageria (Prêmio HQ Mix). Seu livro mais recente, Super-Homem e o Romantismo de Aço (Ugra Press, 2018) fala da relação do gênero super-heróis com o fascismo

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