Girão analisa crise do PSL e comenta possibilidade de aliança do bolsonarismo com Rosalba

Girão está alinhado com o presidente na crise do PSL (Foto: autor não identificado)

O deputado federal General Girão (PSL) em conversa com o Blog do Barreto fez críticas a condução da direção nacional do PSL. “Fizemos campanha e fomos eleitos pregando transparência, ética e respeito. Isso estava e continua em falta no PSL. O que queremos é isso”, declarou.

Ele explicou que esse impasse partidário gera incertezas para 2020. “Em relação ao futuro das conversas políticas, não temos nem a certeza de em qual sigla estaremos”, disse.

Sobre a possibilidade de aliança do bolsonarismo com a prefeita Rosalba Ciarlini (PP) em 2020, o parlamentar não descartou a possibilidade de apoiar a ideia. “Os acordos políticos futuros, que vierem a acontecer, se vierem, estarão fundamentados no melhor para Mossoró”, garantiu.

 

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O partido militar

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Bolsonaro recebeu assessoramento de militares nas eleições (Foto: Web)

Por Lincoln Secco* 

A Constituição de 1988 registrava seu trigésimo aniversário quando um capitão indisciplinado, considerado mau militar, chegou à Presidência da República. E não o fez por um golpe de Estado.

Durante a Guerra Fria, a CIA tentou derrubar mais de 50 governos nacionais. A estatística é conservadora pois houve cerca de 45 tentativas apenas na África. Na América Latina foram 21 entre 1961 (Peru) e 1976 (Argentina) e, ao longo do século XX, foram mais de 90.

No entanto, a ascensão de Jimmy Carter (1977-1981) ao governo dos Estados Unidos obrigou os militares latino-americanos a mudar de postura. Era preciso racionalizar a repressão descontrolada e os arroubos de grande potência. O general Golbery do Couto e Silva abandonou o governo Figueiredo para assessorar um banco privado e a burguesia voltou-se contra as empresas estatais.

Também os banhos de sangue no Chile e Argentina atrapalhavam o discurso norte-americano contra a falta de direitos humanos na União Soviética. Por fim, sob Ronald Reagan (1981-1989), os Estados Unidos estavam voltados no continente para as insurgências em El Salvador e Guatemala e ao combate à Revolução Sandinista. No Brasil, delatores e torturadores sem patente perdiam privilégios. Outros partiam para atos de desespero.

Entre março de 1978 e maio de 1981 houve quarenta atentados tramados por arapongas da ditadura. O mais importante foi o do Riocentro, em 30 de abril de 1980. O presidente João Figueiredo dizia que eram atos de “bolsões radicais, porém sinceros”.

 O meio militar permaneceu hostil à esquerda. O PT até angariou simpatias em núcleos da Polícia Militar paulista nos anos 1980 e teve um oficial candidato, mas sua incidência entre militares em geral foi pequena.

Na esquerda comunista, sua organização nas Forças Armadas (Antimil), que ainda sobrevivia na forma de células autônomas clandestinas, dissolveu-se em 1992. Desse modo, a maioria da oficialidade superior acabou por aceitar uma estratégia indireta. Na frente ideológica, a preocupação passou a ser o “gramscismo”, o marxismo cultural e a questão de gênero, que visariam abalar três estruturas fundamentais: o Estado, a Nação e a família.

Diante de uma profunda mácula em sua imagem, a Marinha admitiu mulheres em 1980, mas só no serviço em terra, comme il faut, ou como deveria ser.

Afinal, as Forças Armadas combateram guerrilheiras e enfrentavam agora (início dos anos 1980) a retomada das lutas feministas. A “guerra cultural” serviu ainda para que se justificasse a permanência dos serviços de informação, afinal eles mesmos participaram da abertura política e contiveram seus “bolsões radicais” por meio do prêmio da impunidade. Basta lembrar que o último governo militar foi comandado por egressos dos aparelhos de espionagem (Golbery era o mais eminente deles, além do próprio presidente da República, João Figueiredo).

SOBREVIVENDO NO PORÃO

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Golbery do Couto e Silva (Foto: Web)

A espionagem oficial, embora idealizada e instituída antes, só foi efetivada por Juscelino Kubitschek como Serviço Federal de Informação e Contrainformação (Sfici). A ditadura de 1964 o transformou no Serviço Nacional de Informações (SNI). Seu criador foi Golbery.

As três armas ainda tinham seus serviços de informações. Além disso, o antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) contava com um serviço reservado. O SNI adquiriu acesso direto ao presidente da República e seu chefe tinha o status de ministro. Foi extinto por Fernando Collor, que reduziu a estrutura, mandou funcionários deslocados de volta às suas repartições de origem e demitiu contratados recentes.

No final dos anos 1980, os oficiais já tinham mudado o nome de seus órgãos de espionagem, evitando duas palavras eivadas de ligações indesejáveis com tortura, sequestros e assassinatos: “serviço” e “informações”. Preferiu-se o termo “inteligência”, copiado dos norte-americanos. Assim, a Divisão de Informações (depois Subsecretaria de Informações), que substituiu o SNI, cedeu lugar em 1999 à Agência Brasileira de Inteligência (Abin), ligada ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI), vinculado diretamente ao presidente. Já sob Itamar Franco, o setor passou a ter concursos públicos. Fernando Henrique Cardoso usou uma tática ambígua. Por um lado, institucionalizou o serviço de informações, deixando ao sucessor e ao Congresso a tarefa de colocar em prática algum controle democrático exterior; por outro lado criou o Ministério da Defesa e deixou à míngua as Forças Armadas. Filho de general, ele costumava dizer que brasileiro serve para sambar, e não para marchar, e deixou uma declaração pouco respeitosa sobre os desfiles de 7 de Setembro aos quais assistiu.

Em seu governo houve redução drástica dos gastos com o funcionalismo. Em 2002, o Exército dispensou recrutas por falta de recursos. O custeio real da Defesa foi depreciado de 1995 a 2003. Para uma estratégia militar neoliberal, a força armada de um país neocolonial precisa de um contingente suficiente para garantir a extração de riquezas do território, criando bolsões seguros para o capital transnacional e combatendo movimentos sociais.

Mas essa não é uma operação militar, e sim policial. Se o caso fosse de enfrentamento com o verdadeiro inimigo estratégico potencial (os Estados Unidos), nenhuma força armada seria suficiente, salvo um exército de todo o povo, conforme foi teorizado por Vo Nguyen Giap no Vietnã. FHC percebeu que não valia a pena fortalecer uma instituição vocacionada ao golpe interno, e não à defesa externa.

O mesmo não ocorreu durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Logo depois da posse, ele já excluía os militares da reforma da Previdência (O Estado de S. Paulo, 13 jan. 2003). Em seu segundo mandato, ele aprovou a Estratégia Nacional de Defesa, que visava modernizar as Forças Armadas.

DESINTELIGÊNCIA

Em 1999, a imprensa noticiou que a Polícia Federal brasileira recebia dinheiro do Departamento de Combate a Entorpecentes (DEA) e da Agência de Inteligência (CIA) norte-americanos. Em abril de 2004, a própria Federação Nacional dos Policiais Federais denunciou o problema.

Até julho de 2004, Lula manteve na PF uma diretora-geral egressa do SNI. Já em 2003, os agentes concursados chegaram a enviar um abaixo-assinado pedindo a troca de toda a diretoria da Abin. Eles se dirigiram à Casa Civil, e não ao GSI (antiga Casa Militar). Nos governos petistas, a Abin ampliou seus poderes. Mesmo depois que a agência fabricou o primeiro escândalo do seu governo (caso Waldomiro Diniz), Lula continuou apoiando-a, legalizou os grampos e até manteve em sua segurança pessoal uma cabo da PM que havia trabalhado como espiã no VIII Encontro Nacional do PT! Durante o governo Dilma Rousseff, os próprios servidores da Abin criticaram o foco prioritário em movimentos sociais (O Estado de S. Paulo, 20 nov. 2012), mas em junho de 2013 o governo Dilma solicitou que a agência acompanhasse os protestos e “infiltrações de grupos políticos”.

Em setembro de 2013, a imprensa noticiou que dois agentes da CIA iam semanalmente à Polícia Federal em Brasília. É claro que não se duvida que o PT tenha feito o melhor governo para os pobres desde Getúlio Vargas. Mas não é esse o tema aqui. Diante do retrospecto da política militar petista, não é espantoso que em 2009 a imprensa tenha noticiado que o Exército enviou oficiais para a Abin e servidores falaram em volta do SNI (Veja, 21 fev. 2009). Por fim, o governo Bolsonaro pediu formalmente à CIA apoio para a criação da Academia Nacional de Inteligência no Brasil (Folha de S.Paulo, 21 jun. 2019).

OPOSIÇÃO MILITAR

Os oficiais militares continuaram oposicionistas radicais ao PT. Quando foi lançado o livro Direito à memória e à verdade, em 2006, os protestos dos apoiadores da ditadura aumentaram. Comandantes das três forças criticaram a obra. Embora se tratasse de um documento oficial do governo brasileiro, nenhum militar foi punido.

O governo Lula enfrentou também um motim de controladores de voo (O Estado de S. Paulo, 31 mar. 2007). E em 16 de abril de 2008, por ocasião de um seminário no Clube Militar, o general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia, atacou frontalmente a política indigenista do governo e teve apoio até do deputado comunista Aldo Rebelo.

Durante o primeiro mandato de Dilma, o Clube Militar patrocinou um manifesto contra ela. O ministro da Defesa ordenou depois que o documento fosse retirado. Após um breve recuo, os signatários voltaram à carga e disseram não reconhecer a autoridade do ministro sobre eles. A maioria dos “sublevados” era do Exército.

Como no período 1950- 1964, nada aconteceu com os rebelados. Seu desafio mostrava apenas que a disciplina e a hierarquia eram uma ideologia a ser invocada ao sabor das circunstâncias.

A CRISE POLÍTICO-MILITAR

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Bolsonaro demonstra gratidão a Villas Bôas (Foto: Web)

Depois do suposto atentado a Jair Bolsonaro em 6 de setembro de 2018, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, declarou em entrevista que a legitimidade do novo governo eleito poderia ser questionada (O Estado de S. Paulo, 9 set. 2018).

Essa não foi a primeira declaração polêmica do general. Em 3 de abril de 2018, véspera do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal de um habeas corpus impetrado pelo ex- -presidente Lula, o comandante do Exército escreveu numa rede social seu “repúdio à impunidade”, que poderia configurar ameaça “à paz social e à democracia”. Registre-se, contudo, que, no dia seguinte, o Comando da Aeronáutica divulgou uma nota, assinada pelo tenente-brigadeiro do ar Nivaldo Luiz Rossato, em defesa dos poderes instituídos e sugerindo ao meio militar não se empolgar “a ponto de colocar convicções pessoais acima daquelas das instituições” (O Globo, 4 abr. 2018).

Um caso a ser pesquisado. O general Villas Bôas já havia falado a uma Loja Maçônica no ano anterior aventando a possibilidade de uma intervenção militar. Antes dele, o general Antônio Hamilton Mourão falou em “impor uma solução” para a crise política no país (Gazeta do Povo, 20 set. 2017).

O mesmo general Mourão seria no ano seguinte escolhido candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro. Depois das eleições, interlocutores de Lula (Celso Amorim e o senador Jorge Vianna) procuraram o general Villas Bôas e o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Sérgio Etchegoyen, para saber da reação a uma possível libertação de Lula. Ouviram que as Forças Armadas não interferem na justiça (O Estado de S. Paulo, 20 dez. 2018)…

POLÍCIAS E MILÍCIAS

A partir da campanha pelo impeachment, os militares recuperaram força política. O Brasil registrou um aumento nos gastos militares acima da média mundial e pela primeira vez um militar (nomeado por Michel Temer) assumiu a pasta da Defesa. Tais acontecimentos revelavam que o Partido Togado estava deixando a cena depois de ter subtraído o papel dos políticos profissionais. O vácuo começava a ser preenchido pelo Partido Militar. Oliveiros Ferreira definiu a diferença entre um partido fardado que periodicamente se arvorava em intérprete da Constituição e pressionava a cúpula para destituir o governo e o “estabelecimento militar”, que engloba a organização permanente das Forças Armadas, sua hierarquia, disciplina e valores fundamentais e conta com uma tutela constitucional sobre os demais poderes.

O século XXI, porém, viu surgir um partido militar que não se resumia mais a uma fração das Forças Armadas ou ao “exército político” da Primeira República. Desde o império havia uma concorrência com a Guarda Nacional, extinta em 1916, e na República Velha, uma disputa com as forças públicas estaduais.

No século XXI, as polícias não dispõem do mesmo equipamento das Forças Armadas, mas seu efetivo vive em plena guerra civil latente num país que contabilizou 62,5 mil homicídios em 2017, a maioria absoluta de negros e pardos. Parte dos policiais se tornou base militante de Bolsonaro e o discurso dele se dirigiu mais à segurança pública do que ao nacionalismo militar. Seus líderes ocuparam as assembleias legislativas, Câmara dos Deputados e Senado. Suas ações se espraiaram pelo submundo das milícias e mimetizaram as forças paramilitares de regimes fascistas ou das ditaduras latino-americanas.

Foi Antonio Gramsci quem notou que “uma organização de Estado enfraquecida é como um exército enfraquecido; entram em campo […] organizações privadas armadas, que têm duas tarefas: usar a ilegalidade, enquanto o Estado parece manter-se dentro da lei, como um meio de reorganizar o próprio Estado”.

OXIMORO: FORÇAS MILITARES ANTI-ESTADO

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Lula fez grandes investimentos nas forças armadas (Foto: Web)

As Forças Armadas têm uma escola única que garante unidade ao corpo de oficiais. Uma parte expressiva dos aspirantes é de filhos de militares. Na cúpula, a experiência do Haiti, fornecida pelo PT, permitiu à alta oficialidade uma vivência comum única. Acrescente-se a carta branca informal para a PM efetuar execuções e se imbricar com as milícias.

Estavam assentados os fundamentos materiais e socioprofissionais do Partido Militar. Ele se apresentou como “liberal” em economia. Não é à toa que em 4 de maio de 2018 o general Villas Bôas exortou São Paulo, “a quem o Brasil deve o processo de modernização pós-1932”, a assumir a liderança de um “projeto de resgate para o Brasil”.

Ao vencer, Bolsonaro agradeceu ao general Villas Bôas e disse que devia sua vitória a ele… A assessoria técnica de campanha de Bolsonaro foi constituída por nove generais e um brigadeiro. Com a ascensão de militares ao Executivo, ao Congresso e até à assessoria da presidência do STF, é inegável a força do Partido Militar. E, como aconteceu com o Partido Togado, também é inevitável a politização da tropa e os reflexos disso em sua imagem.

A própria figura do presidente colocou em dúvida a excelência do ensino da Academia Militar. Em 1964, os militares tinham um projeto antipopular, mas não antinacional, segundo suas crenças e valores. Altas taxas de crescimento econômico, hoje ausentes, sustentavam seu discurso pelo desenvolvimento.

Em 2018, eles se apresentaram apenas com as propostas antipopulares (reforma da Previdência, diminuição de gastos sociais e defesa de interesses próprios). Atuaram como “partido” e politizaram a tropa, mas sem lograr ultrapassar seus interesses corporativos e oferecer uma direção moral e intelectual ao restante da sociedade. A disjunção entre povo e nação se ampliou e a força armada foi deslegitimada pelo Partido Militar.

*É professor da Universidade de São Paulo e autor do livro História do PT (Ateliê Editorial, Cotia-SP, 2011).

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“Bolsonaro perdeu sua última oportunidade de ser respeitado”

Em tom agressivo, presidente brasileiro mandou duros recados à ONU, a governos, ongs e imprensa, surpreendendo atores internacionais e levando muitos a lamentar (Foto: UOL)

Por Jamil Chade

UOL

Jair Bolsonaro não tinha chegado sequer à metade de seu discurso e meu whatsapp, Signal e email já estavam sendo bombardeados por mensagens de diplomatas e representantes de entidades internacionais. Todos chocados com o que estavam ouvindo.

Mas uma das mensagens particularmente dura veio de um representante que faz parte da cúpula das Nações Unidas: “Ele (Bolsonaro) acabou de perder a última chance de ser respeitado”. Em outra mensagem, um mediador perguntava: “há algo mais extremo que essa visão de mundo?”.

Depois do vexame do discurso de seis minutos em Davos, em janeiro, de uma participação apagada no G-20, e de ofensas a líderes internacionais, Bolsonaro tinha mais uma chance de mostrar ao mundo que poderia ser moderado e, assim, começar a recuperar seu respeito internacional. Fracassou rotundamente.

Dentro da ONU, não foram poucos os comentários diante de seu discurso. Era esperado do Brasil um sinal de que o País estava pronto a fazer parte do esforço internacional para lidar com desafios globais. Mas Bolsonaro chamou a atenção ao repetir em várias ocasiões as palavras soberania e pátria.

O presidente, sem dúvida, fez questão de reposicionar o Brasil no mundo e na ONU. Mas não da forma que muitos na entidade esperavam.

A ONU, segundo ele, não representa interesses globais. Mas é sim um espaço de nações soberanas. “Não estamos aqui para apagar nacionalidades em nome de interesses globais”, disse. E emendou um alerta de que o Brasil não aceitará que haja uma mudança na ONU.

Uma forma de dizer: não mexam comigo. No fundo, o que se viu no palco foi um presidente com um discurso ainda mais radicalizado, intolerante e nacionalista que nas demais reuniões internacionais.

Militarismo, Deus, elogios à polícia e ameaças substituíram palavras como sociedade civil, espaço democrático, diversidade, multilateralismo e o sistema internacional. “Acho que nunca começamos nosso trabalho nesse tom”, lamentou uma fonte.

No lugar de se comprometer com metas ambientais, Bolsonaro preferiu partir para o ataque e rejeitou a tese de que a Amazônia seja um patrimônio da humanidade. Sem citar nomes, fez alusão ao “espírito colonialista” da França e preferiu garantir que a Amazônia está “praticamente intocada”, gerando inúmeros comentários.

Fustigou Raoni, acusado de ser usado como “peça de manobra” em uma guerra pela floresta, e manobrou a própria Constituição. “Bolsonaro distorce argumentos sobre autonomia dos povos originários para negar direitos que a própria Constituição garante”, disse Camila Asano, coordenadora de programas da Conectas Direitos Humanos.

“Categoricamente, anuncia que não promoverá novas demarcações de terras indígenas. É extremamente grave que o presidente tenha usado a Assembleia Geral da ONU como palanque para atacar uma liderança indígena e ameaçar a segurança jurídica das terras Yanomami e Raposa Serra do Sol, que já estão demarcadas”, afirmou.

Bolsonaro atacou ongs e a imprensa internacional, proliferou teorias da conspiração e fez um discurso com a forte marca da demagogia de um populista que duvida do poder da democracia.

Ditaduras

Bolsonaro também surpreendeu com sua nova apologia às ditaduras do Cone Sul, desta vez feita sem citar nomes. Experientes embaixadores brasileiros admitiram que o que ele fez no palco da ONU não tem precedentes na era democrática do país e poderia se igualar à apologia a um torturados que ele fez em pleno Congresso Nacional, ainda quando era deputado.

Ele justificou o Golpe de Estado de 1964 e as demais ditaduras na região, num tom radicalmente oposto ao que disse José Sarney quando falou no mesmo palco, nos anos 80. Naquele momento, ele lembrou que o Brasil “saiu de uma longa noite autoritária” e se apresentava ao mundo como uma democracia.

Ao citar socialistas cubanos, ele indicou que eles “tentaram mudar o regime brasileiro” e de outros países. “Civis e militares foram mortos e outros tantos tiveram reputação destruídas. Mas vencemos aquela terra e resguardamos nossa liberdade”, declarou. Ao dizer essa frase, ele simplesmente cuspiu sobre a entidade, que o havia criticado por sua apologia às ditaduras. Um dos representantes da ONU exclamou: “não posso acreditar no que estou ouvindo”.

Bolsonaro fez um discurso de guerra, repleto de termos e inimigos dos anos 60 e 70: a ameaça socialista e a necessidade de impedir que nossa soberania seja questionada.

Mas, acima de tudo, ofendeu a muitos naquela sala. Num trecho comentado por vários diplomatas, ele alfinetou os demais governos e entidades, alertando que eles tinham aplaudido os presidentes brasileiros que, por ali, tinham passado.

Sua insistência em citar a Bíblia, os cristãos e Deus foram vistas com cautela, num sinal de que tentará redirecionar a agenda internacional com base nesses valores. “Ele esqueceu que preside sobre um país diverso”, disse um diplomatas.

Ele ainda chocou ao falar das vítimas entre os policiais, e não citar os números de mortos pela polícia no Brasil.

Elogios? Apenas para seu mentor, Donald Trump.

Nos minutos que esteve no palco do mundo, não deu garantias, não construiu pontes. Não reconheceu os problemas do país.

Usando um tom de voz desafiador, como se o Brasil estivesse em guerra, Bolsonaro escolheu apenas os inimigos imaginários, enquanto os reais problemas foram ignorados.

Em Nova Iorque, ele apenas confirmou a visão ideológica da política externa e do que será seu governo. E agora o mundo inteiro ouviu, em todas as línguas oficiais da ONU.

“Quando será a próxima eleição?”, me escreveu um experiente embaixador asiático.

Afinal, onde começam os Direitos Humanos? Em pequenos lugares, perto de casa — tão perto e tão pequenos que eles não podem ser vistos em qualquer mapa do mundo. No entanto, estes são o mundo do indivíduo; a vizinhança em que ele vive; a escola ou universidade que ele frequenta; a fábrica, quinta ou escritório em que ele trabalha. Tais são os lugares onde cada homem, mulher e criança procura igualdade de justiça, igualdade de oportunidade, igualdade de dignidade sem discriminação. A menos que esses direitos tenham significado aí, eles terão pouco significado em qualquer outro lugar. Sem a ação organizada do cidadão para defender esses direitos perto de casa, nós procuraremos em vão pelo progresso no mundo maior. (Eleanor Roosevelt)

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Maioria dos deputados do RN vota para retirar cobrança de bagagens em voos comerciais

Maioria da bancada do RN vota para derrubar veto de Bolsonaro (Foto: montagem/Blog do Barreto)

A maioria dos deputados do Rio Grande do Norte votou para derrubar o veto do presidente Jair Bolsonaro (PSL) à cobrança de tarifa por bagagens aéreas.

A proposta terminou não passando porque eram necessários 257 votos pela derrubada do veto, mas faltaram dez votos. Assim a cobrança das bagagens continua valendo.

Cinco deputados do Rio Grande do Norte quiseram derrubar o veto. Só dois votaram a favor da decisão de Bolsonaro. O deputado federal Fábio Faria (PSD) faltou a votação.

Confira a votação

 

Deputado (a) Partido Bancada Como votou
Benes Leocádio Republicanos Não
Beto Rosado PP PpMdbPtb Não
General Girão PSL Sim
João Maia PL Sim
Natália Bonavides PT Não
Rafael Motta PSB Não
Walter Alves MDB PpMdbPtb Não

 

 

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UFERSA revisita o passado temendo pelo futuro

Em 1991 a então Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM) escolheu uma chapa para dirigir a instituição, mas foram os derrotados que ascenderam ao poder.

No voto a Chapa 2 (“Autonomia na Luta”) venceu a Chapa 1 (“Unidade na Luta”) 568 x 414. O diretor seria José Torres Filho, mas a manobra colocou Joaquim Amaro no posto.

O episódio ficou conhecido como  “Golpe na ESAM”.

Ano que vem tem eleição na agora Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA). A consulta terá pouca importância para o presidente Jair Bolsonaro (PSL) que vai nomear quem bem entender como já fez em seis universidades federais sendo que em uma delas nomeou uma interventora que sequer integrava a lista tríplice.

No dia 24 será exibido, às 15h, no Auditório Amâncio Ramalho, o documentário “Democracia, um sonho distante. A história de luta da ESAM contra o golpe de 1991”, que trata do “Golpe da ESAM”.

Se vivo fosse, o grande Cazuza ao tomar conhecimento desta história diria que a UFERSA está temendo o futuro repetir o passado e se tornar um museu de grandes novidades.

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Os eleitores de Bolsonaro estão sendo vítimas do princípio do compromisso e coerência

Por A. Coutinho

Mas o que é o princípio do Compromisso e Coerência?

Este princípio traz como premissa que o ser humano após realizar uma escolha ou compromisso, se submete a pressões internas (expectativas de si mesmo) e externas (expectativas dos que o cercam) para agir de forma condizente / coerente com o escolhido / afirmado.

Depois que fazemos uma opção ou tomamos uma posição nos deparamos com pressões sociais, pessoais e interpessoais exigindo que nos comportemos de acordo com esse compromisso. Sentimos um desejo íntimo de coerência.

Uma vez que pessoas tenham sido induzidas a tomar atitudes que mudam suas autoimagens, elas tenderão a manter sua conduta. A pressão pela coerência dará conta do recado.

Dessa forma, pessoas levadas a assumir um compromisso (tomar uma posição, expressar uma opinião) assumem automaticamente uma coerência automática, obstinada e imponderada com ele. De tal forma que compromissos públicos, ativos, trabalhosos ou livremente escolhidos afetam a autoimagem de uma pessoa, tendem a ser duradouros, levando-a a concordar naturalmente com toda gama de pedidos coerentes com aquela postura.

A coerência automática funciona como um atalho para novas decisões, agindo como uma “viseira”. Em excesso pode assumir uma forma “cega”, digamos assim, que, ao inverso do efeito benéfico de gerar relações pautadas em confiança, pode gerar “correntes” de insensatez.

E assim observamos pessoas lutando cegamente para serem coerentes com uma escolha difícil e de grande impacto que tomaram, para não parecerem incoerentes e inconstantes.

“Não há expediente ao qual um homem não venha a recorrer para evitar o trabalho de pensar”.
Joshua Reynolds

Como escapar deste princípio? Nosso subconsciente nos alerta antes de tomarmos o compromisso. Um desconforto que parece vir do estômago aparece quando percebemos que o compromisso e a coerência estão nos pressionando a concordar com pedidos que sabemos que não queremos satisfazer. Experimentamos nossos sentimentos em relação a alguma coisa uma fração de segundo antes de conseguirmos intelectualizá-la. Dessa forma temos uma chance de evitar o pior.

E se a decisão já foi tomada? Qual seria o antídoto? Precisamos sempre nos perguntar: “Sabendo o que eu sei agora, se eu pudesse voltar no tempo, assumiria o mesmo compromisso? O que devo fazer agora que eu preciso externar que mudei de ideia?” Uma dica, os poderosos aprenderam com Maquiavel como agir em situações como esta:

“…um príncipe sagaz não deve cumprir seus compromissos, quando isso não estiver de acordo com seus interesses e quando as causas que o levaram a comprometer sua palavra não existam mais.”
Maquiavel

“Quando se trata de tomar uma decisão sobre a salvação da Pátria não deve caber qualquer consideração nem de justo, nem de piedoso, nem de cruel, nem de louvável, nem de ignominioso; ao contrário, afastada qualquer outra consideração, deve-se adotar aquela solução que lhe salve a vida e lhe mantenha a liberdade.”
Maquiavel

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O bolsonarista pragmático

Marlen Couto

O Globo

Eles aprovam o governo Jair Bolsonaro, embora nem sempre concordem com as declarações do presidente e com todas as suas decisões. Também defendem a Operação Lava-Jato e as propostas anticorrupção encabeçadas pelo ministro da Justiça, Sergio Moro, e econômicas de Paulo Guedes, sobretudo a reforma da Previdência. Por outro lado, podem deixar de avaliar positivamente o governo, se houver ruptura com essas pautas. Por enquanto, consideram que oito meses de gestão é pouco tempo para cobrar melhorias e tendem a ser otimistas com o futuro. Eis operfil de parte da população que considera o governo Bolsonaro ótimo ou bom e, simultaneamente, não se alinha totalmente à base mais fiel ao presidente, uma tendência apontada em recentes pesquisas de opinião e por analistas ouvidos pelo GLOBO.

A última pesquisa Datafolha, divulgada na semana passada, indica que a aprovação de Bolsonaro é de 29%. No entanto, este percentual é menor em algumas áreas do governo e quando são avaliadas posições e afirmações polêmicas do presidente, o que indica que, mesmo entre seus apoiadores, há quem tenha ressalvas. O instituto estima que 12% dos eleitores compõem o núcleo duro bolsonarista, mais alinhado às suas declarações.

BASE DIVERSA

O desempenho de Bolsonaro na educação e na saúde, por exemplo, tem taxas de aprovação de 19% e 13%, respectivamente, números inferiores àtaxa de aprovação geral do governo. Também abaixo desse patamar estão a aprovação àindicação do filho do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), para o cargo de embaixador nos Estados Unidos (23%), e à atuação de Bolsonaro no combate ao desmatamento e às queimadas na Amazônia (21%). Ainda na área ambiental, apenas 10% concordam com a sugestão do presidente em fazer cocô dia sim, dia não, para combater a poluição ambiental. Outra declaração polêmica de Bolsonaro, que chamou os governadores do Nordeste de “governadores de paraíba”, tem o apoio de 22%.

— O antipetismo ainda está forte. Há gente que apoia a agenda liberal, do Paulo Guedes, e que se alinha com o Moro, que votou no Bolsonaro para estimular a segurança pública. Continuam acreditando (no governo). Mas esse eleitorado tende a reprovar o discurso mais ideológico.

É um pessoal mais pragmático — explica o pesquisador da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, David Nemer, que monitora grupos bolsonaristas no WhatsApp.

Éo caso do carioca Diego Barenco, de 33 anos. O professor de educação física e motorista de Uber é favorável à reforma da Previdência e avalia que o governo tem projetos que podem melhorar o país, mas considera que Bolsonaro precisa ser mais moderado no discurso. Barenco afirma que só deixaria de apoiar o presidente “se descobrisse que é ladrão”.

— É cedo para alguma coisa melhorar já de cara. Temos que esperar. Só acho que, como governante, Bolsonaro teria que ser um pouco mais tolido. A briga com o Emmanuel Macron (presidente da França) foi desnecessária, da parte dos dois, mas ele podia ter se segurado um pouco — conclui, em referência à troca de farpas entre o francês e o brasileiro sobre a Amazônia.

Para Marco Marcondes, de 59 anos, morador de Dourados (MS), as declarações polêmicas de Bolsonaro não são o mais importante no seu governo e o presidente vai “se conter com o tempo”. Marcondes diz que apoia Bolsonaro por considerar que tem “ministério técnico” e cita Paulo Guedes e Sergio Moro como pilares da atual gestão. —Bolsonaro fala com agressividade, mas fala o que a gente quer escutar. Penso mais tecnicamente, sem muita emoção. Vamos pensar no Brasil. Não vou mudar por causa de besteirinha —diz o engenheiro, que discordou da indicação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada nos EUA.

— Espero que ele (Eduardo) cumpra o dever e mostre que tem capacidade. Não concordo, mas não é o grande problema do Brasil. Posso discordar de alguma questão, mas na essência acho que Bolsonaro é uma pessoa sincera, que quer o melhor pro país — acrescentou.

A última pesquisa Datafolha também aponta que, mesmo entre os 29% que avaliam o governo como ótimo ou bom, 41% às vezes confiam nas declarações do presidente e 6% nunca confiam. Além disso, só 38% dos seus apoiadores acham que ele se comporta sempre como o esperado. O administrador Joselio da Silva Barreto, de Fortaleza, não está nesse grupo. Ele cita o primeiro escalão como motivo para apoiar o presidente, avalia que o governo vai melhor na economia e também é otimista com o futuro do país. Por outro lado, diz que o estilo “sem papas na língua” às vezes atrapalha:

— Quando o Bolsonaro fala de assuntos sérios e importantes, confio nele. Mas muitas vezes ele fala besteiras como “fazer cocô um dia sim e um dia não”, ou fazer chacota da esposa do Macron. Eu penso que o presidente não deveria se comportar assim, ele deveria ter cuidado com as palavras. Já Emanuelle Vasconcelos, de 32 anos, do Rio, define-se como “anti-PT” e diz que Bolsonaro “está tentando melhorar o país”. Ela cita a segurança como área com mais avanços, também acredita que as polêmicas estão prejudicando o governo, e diz que costuma concordar com a agenda do Palácio do Planalto. — Discordo só quando (no governo se) fala que menino usa azul e menina usa rosa. É uma questão de cada um —diz em referência à frase da ministra de Direitos Humanos, Damares Alves.

LAVA-JATISTAS

Isabela Kalil, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), destaca que a atuação do governo no combate à corrupção é central para essa base mais “volátil” do presidente:

— O grupo que nunca apoiou Bolsonaro tende a ser mais crítico ao enfraquecimento da participação da sociedade civil e a falas consideradas inadequadas e violentas. Na sua base, há insatisfação com apossibilidade de Bolsonaro abandonar a pauta anticorrupção. As pesquisas não conseguiram ainda captar suas nuances — conclui Isabela, que acompanha mobilizações pró-governo nas ruas

— O que aparece nas análises que realizei é que o bloco lavajatista pode desembarcar, vai depender dos desdobramentos da pauta anticorrupção. A antropóloga cita, como exemplos de afastamento dessa pauta, a crise na Polícia Federal, após a tentativa de interferência na Superintendência do Rio, o fato de o presidente não ter vetado completamente a lei do abuso de autoridade, e a investigação que envolve o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), suspeito da prática de rachadinha — apropriação de parte do salário dos funcionários de seu antigo gabinete na Assembleia do Rio. Por enquanto, segundo o Datafolha, a atuação de Bolsonaro no combate à corrupção é aprovada por 34%. Entre os que avaliam o governo como ótimo ou bom, chega a 69%.

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A lágrima

Por Eliane Cantanhêde

O presidente Jair Bolsonaro criou e alimentou deliberadamente uma teia de inimigos e críticos, até atrair para ela os próprios bolsonaristas radicais e irascíveis de internet. Na reação à indicação de Augusto Aras para a Procuradoria-Geral da República, a gritaria mais estridente não é dos adversários, mas dos aliados de Bolsonaro.

Ele acusou o golpe. A lágrima por um ano da facada revelou também estresse e as intensas pressões que presidentes já sofrem naturalmente, mas o atual atrai desafiadora e arrogantemente. Num raro rompante de humildade e de contato com a realidade, ele declarou: “Reconheço as minhas limitações, as minhas fragilidades, a minha incompetência em alguns momentos”.

E tentou dar uma ordem de comando que já deveria ter dado há muito tempo. Pediu, ou ordenou, aos artilheiros da internet que apagassem “comentários pesados” atingindo o procurador Aras. Contra presidentes de outros países, primeiras-damas, comissárias da ONU, ambientalistas, jornalistas, defensores dos direitos humanos, ONGs, professores, estudantes e qualquer um que pense diferente, pode. Mas contra indicado seu não pode.

A escolha de Aras aprofunda a guerra no Ministério Público e a percepção de um forte recuo no combate aos crimes de colarinho branco, porque ele já se manifestou contrário aos métodos de juízes, procuradores e delegados da Lava Jato. Mas isso é detalhe, o que agita os bolsonaristas é a suspeita de que o novo PGR, ora, ora, seja um baita de um esquerdista.

Aras pode ser tudo, menos esquerdista, comunista ou algo do gênero. Falante como bom baiano, ele conversa com todos os lados, mas é conservador e crítico, por exemplo, dos excessos da era Rodrigo Janot, acusado no ambiente jurídico e político de proteger o PT e perseguir Michel Temer. Se Aras cometeu um “erro”, foi o de fazer o que candidatos costumam fazer e se tornou questão de vida ou morte com Bolsonaro: falar o que o presidente queria ouvir.

Como ele seria “esquerdista” com um padrinho como o ex-deputado Alberto Fraga, que é líder da bancada da bala e tem mais influência sobre o presidente do que muito general? E seu avalista é o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, uma estrela do governo, já que Aras assume o compromisso de não prestigiar o meio ambiente em detrimento do “progresso”.

Também não vai se meter com direitos humanos, minorias, questões comportamentais. E deve tirar da frente os procuradores identificados com Janot e os recém remanejados por Raquel Dodge, que sai no dia 17. Mais ou menos como o embaixador júnior Ernesto Araújo foi pautado para fazer com os embaixadores seniores do Itamaraty.

Se o MP já anda bem agitado, vai piorar muito agora, mas isso ocorreria fosse quem fosse fora da lista, ou até da própria lista, e a expectativa é que Aras passe no Senado. Uma vez na PGR, não vai tomar decisões absurdas, nem atuar em permanente confronto – como Bolsonaro faz. As coisas vão decantar.

O novo front de Bolsonaro no Congresso é outro: os vetos à Lei de Abuso de Autoridade correm sério risco de serem derrubados, servindo de ensaio para a votação de Eduardo Bolsonaro como embaixador em Washington. Se já pediu aos bolsonaristas de internet para pararem de bater no novo PGR, o presidente vai ter de convencer os bolsonaristas do Congresso a não fazê-lo passar vexame com vetos e filho.

É assim, com um PGR daqui, lei contra autoridades dali, Moro de escanteio, empurrão no Coaf, na Receita e na PF que a era Bolsonaro vai, na prática, vingando o PT e Lula. Se o “lavajatismo” (como diz Gilmar Mendes) derrubou o petismo, o bolsonarismo está derrubando o “lavajatismo”. Os “heróis de Curitiba” ficaram falando sozinhos. Ou nem tanto?

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Após críticas de Nando Reis a Bolsonaro, homem sobe ao palco e gera interpretações equivocadas. Confira o vídeo

 

Na última sexta-feira o cantor Nando Reis fazia um show em Mossoró quando foi vítima de um homem que ensandecido subiu ao palco com dedo em riste para o artista. O fato gerou uma série de interpretações equivocadas, inclusive desta página.

Foram necessários quatro seguranças para conter o homem.

Tudo se deu após Nando Reis fazer críticas indiretas ao presidente Jair Bolsonaro pela indicação do filho, Eduardo, para embaixada do Brasil nos EUA e sobre as queimadas na Amazônia.

Nas redes sociais as informações deram conta de que o caso teria motivação política. Em post do editor do Blog do Barreto no Facebook (ver AQUI) foram feitos vários relatos neste sentido.

São centenas de relatos privados e públicos em redes sociais (Instagram, Facebook, Twitter e Whatsapp) que esta página ouviu ao longo do dia de ontem, mas faltava um vídeo ou foto que recebemos agora a pouco.

Confira abaixo:

A organização do evento informou ao blog outra versão: a de que se tratava de um fã que queria tirar uma foto com Nando Reis.

O próprio cantor apresentou uma explicação que coincide com a versão da organização do show (ver AQUI).

Sobre o caso esta página se manifesta através de vídeo (AQUI).

Texto alterado por incorreção.

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O réu Bolsonaro seria o melhor advogado de Lula

‘Bolsonaro não se tornou conhecido por chamar a atenção do país como porta-voz das insatisfações salariais de sua categoria?’

Por Mario Rosa

Bolsonaro e Lula.

Antípodas, certo?

Antes de começar a ler, que fique claro que este texto não é –não é!– a resenha do primoroso livro de Luiz Maklouf Carvalho O Cadete e o Capitão (Travessia, 253 páginas). A resenha propriamente dita eu a fiz na semana passada (ver no Site Poder 360 AQUI) e procurei ser fiel ao conteúdo da obra. O que escrevo aqui é uma espécie de crônica, uma associação literária livre que nada tem a ver com o livro e parte de uma singularidade das biografias de Bolsonaro e Lula: ambos têm algo em comum, pelos tortuosos caminhos do destino. Ambos, as evidências agora surgem, foram submetidos a julgamentos em que a imparcialidade pode ser questionada. A partir dessa surpreendente conexão, é que me aventuro a fazer outras, talvez improváveis, talvez fictícias, mas debite isso a um esforço de olhar o nosso tempo para além da compulsão esquemática destes dias tão polarizados. O livro de Bolsonaro serviu apenas como inspiração. O que está aqui nada tem a ver com a obra. Tem a ver com as minhas conexões, absurdas ou não, depois de lê-la.

“Repudio o tratamento que tenho sofrido…pré-julgamento manifestado dura, ofensiva e ostensivamente…nego veementemente…(há) gritante cerceamento do direito de defesa…o benefício da dúvida é totalmente favorável ao acusado…esse processo constitui uma aberração jurídica…(não há) um fato causador de ofensa à ética… (a acusação é movida) por uma convicção pessoal e parcial.” Fala de Lula e de seu advogado? Não. De Bolsonaro e sua advogada, quando o atual presidente era réu, em manifestações agora trazidas a lume pelo livro O Cadete e o Capitão. Lula e Bolsonaro poderiam ter sido advogados um do outro. Foi o que pensei ao ler esses trechos. Suas teses de defesa foram iguais quando estiveram os dois na posição de acusados. De novo: isso não tem nada a ver com o livro. É a minha singela opinião.

Vou mais longe. Chega a ser até surpreendente como algumas paralelas nas vidas dessas duas trajetórias tão díspares, de forma tão improvável, se encontram no infinito das coincidências. Bolsonaro, como Lula, também não foi julgado? E como Lula não se sentiu injustiçado? E –como são estranhos os caminhos da vida, não?– Bolsonaro não se tornou conhecido por chamar a atenção do país como porta-voz das insatisfações salariais de sua categoria? Não foi assim quando publicou o texto O salário está baixo na revista Veja, ainda como capitão da ativa, um gesto ousado de indisciplina, quase como um líder sindical verde-oliva? E não foram nas greves do ABC na virada dos anos 1980 que o Brasil conheceu a liderança do metalúrgico que comandava as paralisações para pedir aumento salarial para a sua categoria? Não foi ali que o líder sindical começou a despontar com sua barba e sua voz rouca? E, tal como Lula, Bolsonaro não se tornou nacionalmente conhecido por ter sua imagem projetada pela imprensa? Justamente porque, como Lula, teve um gesto ousado se enfrentar…o poder militar? E, como Lula, Bolsonaro não passou uma breve temporada na cadeia antes de chegar à Presidência da República?

Você pode dizer, não sem razão: Bolsonaro nunca foi um líder sindical como Lula e comparar as paralisações da década de 1980 e a dimensão de seu enfrentamento com o texto de Bolsonaro de 1987 expondo a insatisfação salarial dos militares é um disparate. Sob o prisma da tantas vezes enganosa objetividade, pode-se dizer que sim. Mas olhando a História com uma lente um pouco mais abstrata, é um tanto perturbador deparar com a constatação difusa de que o presidente eleito após a criminalização absoluta de Lula e de seu partido num julgamento hoje contestado tenha um dia defendido, para si, a observância do devido processo legal. E que ambos tenham se projetado no imaginário nacional após ganharem destaque, em graus diferentes, sim, mas pela defesa de questões salariais de suas respectivas categorias. E que a mola que os impulsionou do anonimato para a fama tenha sido a visibilidade alcançada pela exposição na imprensa.

Mas há o fato em comum primordial que une as biografias de Bolsonaro e Lula. Graças ao levantamento primoroso de documentos históricos feito por Maklouf em seu livro, surgem agora indícios que tanto um quanto o outro podem ter sido réus em julgamentos que não foram absolutamente imparciais. No caso de Lula, a parcialidade vem sendo reforçada pelos vazamentos do vasto conteúdo de mensagens divulgadas pelo site Intercept em conjunto com diversos órgãos de imprensa, mostrando as comunicações de um aplicativo utilizado por integrantes da força tarefa da operação Lava Jato.

No caso de Bolsonaro, cabe a Maklouf trazer à superfície um olhar mais atento sobre as perícias grafotécnicas de manuscritos de Bolsonaro que serviram como base para o veredito do então capitão pelo Superior Tribunal Militar. Em síntese, o que Maklouf demonstrou com sua pesquisa é que os dois laudos considerados pelo Exército para punir Bolsonaro foram transformados no STM numa inventiva argumentação segundo a qual haveria dois laudos que inocentariam o então capitão e dois que o condenariam. Essa tese, criada por Bolsonaro, na prática significou a desconsideração do julgamento feito pelo Exército, permitindo a absolvição, no que pode ser entendido como uma decisão parcial dos magistrados.

Para mim, o que enxergo é que até nisso Bolsonaro e Lula são paralelas que se encontram no infinito. Ambos podem ter tido julgamentos parciais. No caso de Bolsonaro, se as periciais tivessem sido consideradas como conclusivas, ele poderia ter sido condenado e expulso do Exército. Como prevaleceu a visão de que havia “dúvida” nos laudos técnicos, foi inocentado. Essa é uma diferença –de mérito– na biografia dos dois personagens. A parcialidade pode ter sido útil para absolver Bolsonaro, enquanto no caso de Lula para condenar. Mas o que realmente importa –para além das consequências deletérias de juízos quando exercidos sem isenção– é que os argumentos de Bolsonaro são os de Lula –“cerceamento do direito de defesa”. São os de todos os acusados, justa ou injustamente. Nisso, eles terão sido um dia iguais. E, nisso, nunca deixarão de ser.

Texto extraído do site Poder 360

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