Como preservar a democracia da vontade do povo e das elites

Por Reinaldo Azevedo*

Pesquisa CNI-Ibope aponta recorde de popularidade do governo Bolsonaro. Acham seu governo ótimo ou bom 40% dos entrevistados. Apenas 29% dizem ser ruim ou péssimo. Estou com a minoria dos 29%. “Que é, Reinaldo, vai discordar da maioria do povo?” Já fiz isso muitas vezes.

Em 2006, no auge de embates com esquerdistas, escrevi um texto que me rendeu uma tempestade de insultos. Lá se lia: “Fico aqui queimando as pestanas, tentando achar um jeito de eliminar o povo da democracia. Ainda não consegui. Quando encontrar, darei sumiço no dito-cujo em silêncio. Ninguém nem vai perceber…”.

Um amigo me censura pelo emprego, que considera excessivo, da ironia. Talvez tenha razão. Não costumo explicá-la. Com nota de rodapé, ela vira capim. Esquerdistas me mandaram para o “paredón” moral por aquele artigo. Direitistas aplaudiram. Corria o ano da graça de 2006, e Lula seria reeleito três meses depois, um ano após o mensalão.

Após anunciar projeto de construção de uma ponte em Eldorado Paulista, cidade onde cresceu, Bolsonaro toma refrigerante no Bar do Juca, estabelecimento vizinho à casa de sua mãe. Presidente estava com o ministro da Justiça, André Mendonça, o filho Eduardo, o irmão Renato e sobrinhos Adriano Vizoni – 3.set.2020/Folhapress

Eu fazia uma citação coberta do Artigo 10, de “O Federalista”, de Madison, que trata da necessidade de preservar a “Assembleia” das paixões do que ele chama “facções” —sejam majoritárias ou minoritárias. E daí se pode supor que o que ele entende por “República”, que nós chamamos “democracia”, é mais do que a vontade da maioria.

O governo era então de esquerda. Hoje, somos governados pela extrema direita, com um estoque de agressões à ordem constitucional e legal que supera, em um ano e nove meses, os 13 e poucos de gestões petistas. E eis-me aqui de novo a negar capim a ruminantes.

Nesta sexta, o país vai superar a marca dos 141 mil mortos por Covid-19. Estamos à frente dos EUA em óbitos por 100 mil e lideramos o ranking tétrico do G-20. As praias e os bares indicam que parte considerável dos brasileiros faz a sua própria leitura de “Os Lusíadas”, de Camões. Entregam-se esses à urgência embriagada “e se vão da lei da morte libertando”, ainda que possam efetivamente matar e morrer em suas obras nada valorosas.

Há um desprezo épico pelo saber testado e firmado, do tamanho das línguas de fogo que devastam o Pantanal e parte da Amazônia. Os investimentos estrangeiros despencam e fogem, levados pelos fumos da irresponsabilidade oficial e da morte. Jamais me acusem de ter dito um dia que a voz do povo é a voz de Deus. Já escrevi que, mais de uma vez, foi o capeta que soprou as escolhas aos ouvidos das massas.

“Tá tristinho, Reinaldo, com a vontade do povo?” Reproduzo pergunta que um petista fez em 2006 na área de comentários do blog quando escrevi o tal artigo. Nessas coisas, não sou alegre nem triste. Aponto o que vejo. Reservo os sentimentos para meus amores e meus amigos.

O auxílio emergencial, obra do Congresso, não de Bolsonaro, e a caça a governadores que combateram o vírus, com ou sem roubalheira, explicam parte do resultado da pesquisa. Há, pois, fatos que elucidam os números. Mas não era e não sou paternalista: a avaliação traduz agora, como traduziu no passado, escolhas que são também morais e éticas.

Homem de máscara caminha na praça do Patriarca, no centro de São Paulo, e banner da prefeitura sobre o novo coronavírus está no fundo. Mathilde Missioneiro/Folhapress

Todo o cuidado é pouco. A culpa não é só do povo, claro! Há a das elites, ainda mais importante, conforme também se depreende do citado Artigo 10. Escrevemos nosso próprio roteiro de “Como as Democracias Morrem”. No livro, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt observam que uma das “normas cruciais” para a sobrevivência da democracia é a “reserva institucional”.

Entende-se por isso “o ato de evitar ações que, embora respeitem a letra da lei, violam claramente o seu espírito”, pois tal ação “pode pôr em perigo o sistema existente”. Ministério Público e Judiciário, nos últimos seis anos, têm mandado a autocontenção às favas e destruído o ambiente da “reserva institucional”, pretextando o cumprimento da lei —o que, de resto, é falso.

A democracia, que é mais do que um sistema de escolha de governantes, está, sim, em perigo. Seja porque a paixão das facções chega às decisões de Estado, seja porque a elite do aparato investigativo-judicial perdeu a noção da importância que tem a “reserva institucional” na defesa de um regime de liberdades.

Pronto. O achincalhe pode começar, como em 2006, agora por novos autores.

*É jornalista, autor de “O País dos Petralhas”.

Este artigo não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema.

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Não é com ele

Foto: Andre Coelho – 04.jun.2019/Folhapress

Por Eliane Cantanhêde

O que o presidente Jair Bolsonaro, o ex-presidente Lula e o presidente americano, Donald Trump, têm em comum? Chova ou faça sol, seus seguidores se mantêm firmes e fortes e, quanto mais eles erram, mais bobagens falam, mais consolidam e ampliam sua popularidade. É um fenômeno político que resvala para a seara religiosa, de crença, de dogmas.

Quando a paciência do então ministro Sérgio Moro se esgotou, a deputada bolsonarista Carla Zambelli, sua afilhada de casamento, ficou apavorada: “Bolsonaro vai cair se o senhor sair”. Pois é. Bolsonaro não caiu e, muito pelo contrário, não para de crescer nas pesquisas. Se nem a queda de Moro o afetou, o que poderia afetar?

Pelo CNI/Ibope, a aprovação de Bolsonaro deu um salto de 29% para 40% e a desaprovação caiu de 38% para 29%, entre dezembro de 2019 e agora. E o que marcou esse período? A pandemia, que já matou perto de 140 mil brasileiros e milhões de empregos, e as queimadas, que devoram a Amazônia, o Pantanal e a confiança do mundo no Brasil. Os fatos, que seriam contra qualquer governante, não atingiram Bolsonaro e ele até saiu lucrando. Seria simplista atribuir isso só aos R$ 600.

Daí a comparação com Lula, que passou incólume pelo mensalão, esquema engendrado e operado no Planalto, e pelo petrolão, que resultou até em prisão, e levou Fernando Haddad ao segundo turno em 2018. Daí, também, a comparação com Trump, que mente, tripudia, se lixa para direitos humanos, afugenta todos os principais assessores, inclusive os militares mais graduados, mas dividiu a potência em torno dele. Em 3 de novembro, os americanos não estarão votando entre Trump e Joe Biden, mas a favor ou contra Trump.

É o que ocorre neste momento no Brasil, com o mundo e boa parte da opinião pública nacional aterrorizados com a ojeriza ou descaso de Bolsonaro com educação, saúde, meio ambiente, cultura, política externa, direitos humanos. A ponto de os opostos – agronegócio e ambientalistas, bancos e cientistas, ex-ministros tucanos e petistas – se unirem para defender a Amazônia. De quem? De Bolsonaro. Mas, apesar disso tudo, ele não só mantém como amplia apoios.

Além do auxílio emergencial, Bolsonaro cresce nas pesquisas porque deixou de ser o presidente que lidera manifestações golpistas e faz tudo errado na pandemia e no meio ambiente para voltar a ser o candidato que viaja pelo País, sobe no palanque e é fotografo sorrindo para pequenas multidões. Só entra na boa.

O que a população vê? Os governadores e prefeitos correndo para lá e para cá, com as pessoas morrendo, as indústrias com a corda no pescoço, as lojas fechando, shoppings e ruas populares às moscas e milhões na escuridão do desemprego. E o presidente? Não está nem aí, não é com ele.

Ao atingir o melhor índice de aprovação de todo o mandato, Bolsonaro ensina que o importante é não fazer nada, não assumir responsabilidades, recuar o máximo possível da linha de frente – e do desgaste. Os governadores, o Centrão, os ministros que se virem. A internet faz o resto.

E os filhos? Bem… com o governador do Rio afastado, o prefeito do Rio inelegível, as denúncias de corrupção correndo soltas, até no combate ao coronavírus, quem está preocupado com o 01, o 02, o 03, Queiroz, rachadinhas, fantasmas, dinheiro vivo, dezenas de imóveis? Ou com interferência política na PF?

O recado da pesquisa é claro: Bolsonaro se salvou de Bolsonaro. Vai continuar perambulando de aglomeração em aglomeração e colhendo os louros de não fazer nada. É um efeito religioso, de fé, de crença, de dogma. A inteligência, a racionalidade e a realidade não movem moinhos, não definem popularidade, muito menos eleições. Ele é um exemplo vivo disso.

Este artigo não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema.

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O monopólio do mimimi

Por Gabriela Prioli*

Quem conhece essa nova direita brasileira (coitada da direita brasileira) sabe que uma estratégia adotada amplamente é a de deslegitimar qualquer reivindicação que parte de grupos oprimidos. No dialeto deles: o mimimi.

O discurso, alimentado por uma ideia deturpada de meritocracia, é que a reclamação é chororô e que quem realmente se empenha consegue superar qualquer dificuldade (e sem políticas afirmativas ou qualquer outro tipo de política pública).

O então presidenciável pelo PSL Jair Bolsonaro durante debate televisivo nas eleições de 2018 Diego Padgurschi – 17.ago.18/Folhapress

É mimimi reclamar de racismo estrutural num país em que os negros estão sobrerrepresentados entre os que vivem abaixo da linha da pobreza, os jovens negros são as vítimas preferenciais da polícia e, no ano passado, as mulheres negras receberam 44,4% do salário dos homens brancos. Aliás, é mimimi discorrer sobre dados de violência contra a mulher no Brasil. Elas devem reclamar de estupro porque são tão feias que não merecem nem ser estupradas.

“Acuse-os do que você faz, chame-os do que você é.” A qualidade que o bolsonarismo atribui às demandas alheias é estratégia para confundir o espectador. Reclamam, na verdade, daquilo que enxergam internamente. No bolsonarismo, a reclamação sem legitimidade é estratégia para se eximir da responsabilidade.

Notem que a lógica do esforço pessoal não vale para eles mesmos.

Bolsonaro é o reclamão por excelência. Reclama de tudo como uma criança mimada. Chegou ao mais alto cargo da República e, dia sim, dia não, diz que não consegue fazer nada. Reclama do Congresso, da imprensa, do STF… Sempre tinha no bolso uma solução mágica que, coitado, não conseguiu implementar porque, na condição de Presidente da República, é o verdadeiro oprimido.

Mesmo num momento em que consensos são difíceis no Brasil, penso que podemos concordar que um presidente que não consegue fazer nada não é algo de que precisemos agora. Sugiro ouvirmos atentamente as confissões de Bolsonaro sobre a sua incapacidade para que possamos fazer melhores escolhas futuras.

Este artigo não representa a mesma opinião do blog. Se não concordar, faça um rebatendo que publique como uma segunda opinião sobre o tema.

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Rogério Marinho se esconde sobre saída da Petrobras do RN e deixa Fábio Faria como bucha de canhão

Fábio Faria se expôr enquanto Rogério se calou a respeito de decisão do Governo Bolsonaro (Foto: Web/autor não identificado)

Ontem completou uma semana que a Petrobras anunciou que venderia todos os ativos restantes no Rio Grande do Norte. Na prática é a estatal dando um pé nas nádegas no sofrido elefante.

Assim que o assunto veio à tona esquerda e direita se armaram para o debate público. Outros preferiram o silêncio cúmplice.

O ministro das comunicações Fábio Faria (PSD) se armou para cima da governadora Fátima Bezerra (PT). No meio disso, o também ministro do desenvolvimento regional Rogério Marinho (sem partido) fingiu ser um político paulista, ou seja que não tem nada a ver com a história, e deu de ombros. Nenhuma menção ao assunto nas redes sociais.

Rogério não quis botar as digitais na história por ter planos majoritários para 2022. Assim ele deixou o colega Fábio atuar como bucha de canhão absorvendo o desgaste de defender a saída da estatal chegando ao cúmulo de anunciar que nada faria por ser uma decisão de um “governo liberal”.

Resta saber qual comportamento ganhou mais pontos com o presidente Jair Bolsonaro nessa história.

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Taxar super-rico para bancar Renda Brasil resolveria problema de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ministro da Economia, Paulo Guedes
Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo

Por Leonardo Sakamoto

Jair Bolsonaro reclamou, nesta quarta (26), da forma que o ministro da Economia, Paulo Guedes, encontrou para bancar o Renda Brasil, o Bolsa Família do bolsonarismo (imagino que seja tão estranho para vocês lerem isso quanto é para nós escrever). Para respeitar o teto de gastos, o dinheiro viria do abono salarial, do salário-família, do seguro defeso, do Farmácia Popular. O presidente disse que isso seria “tirar do pobre para dar ao paupérrimo”, o que esta coluna vem afirmando desde que a ideia sem pé nem cabeça veio a público.

Para ser mais exato, é tungar do pobre CLT para remediar o pobre da informalidade.

Ele, contudo, ignorou um elemento da equação social: os multimilionários e bilionários. Outras democracias vêm discutindo aprofundar a cobrança de impostos sobre os abastados para bancar os mais pobres na crise e depois dela. No Brasil, há uma série de iniciativas nesse sentido tramitando no Congresso. Ele já se mostrou contra a ideia no passado. Mas, até aí, ele também já havia xingado o Bolsa Família e hoje o abraça como se fosse fã desde pequeno.

Com o aumento em sua aprovação segundo Datafolha, principalmente entre quem ganha até três salários mínimos, Bolsonaro já entendeu os efeitos terapêuticos da transferência de renda entre uma população historicamente deixada para trás nas prioridades do poder público.

Percebe que não pode simplesmente acabar com o auxílio emergencial de R$ 600/R$ 1200 (aliás, ele deveria tratar deputados e senadores, os verdadeiros pais e mães disso, a pão de ló por esse presente) se quer se reeleger. E decidiu anabolizar o Bolsa, em valor e beneficiários. Só está com um problema para saber de onde sairia o dinheiro.

Tributar os super-ricos pode arrecadar cerca de R$ 292 bilhões anuais para serem usados contra a crise. É o que defendem a Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco), a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip), os Auditores Fiscais pela Democracia (AFD), o Instituto Justiça Fiscal (IJF), entre outras instituições.

(Super-rico não é você que vai para a Disney de vez em quando e abraça o Pateta, apesar do ministro da Economia achar que sim.).

Eles apresentaram 11 propostas legislativas que estão em consonância com o plano de Reforma Tributária defendido pelos partidos de oposição. “A maior parte dessas medidas podem tramitar por projeto de lei. Precisam ser aprovadas ainda em 2020 para passarem a valer em 2021”, afirma Eduardo Fagnani, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que participou da elaboração da proposta.

A tributação sobre patrimônio é criticada entre determinados economistas, que juram que os bilionários brasileiros iriam tirar o dinheiro do país. Contudo, apenas o Imposto sobre Grandes Fortunas arrecadaria R$ 40 bilhões nos cálculos desse grupo de entidades.

O resto viria de uma maior progressividade do Imposto de Renda de Pessoa Física (R$ 160 bilhões, incluindo a taxação de dividendos), no aumento temporário da alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido de setores econômicos com alta rentabilidade (R$ 30 bilhões), pela criação da Contribuição Social Sobre Altas Rendas (R$ 25 bilhões), entre outros.

O Imposto sobre Grandes Fortunas taxaria patrimônios superiores a R$ 10 milhões, abraçando 60 mil pessoas. E o Imposto de Renda aumentaria paulatinamente para quem ganha mais de R$ 23,8 mil por mês – que, segundo eles, perfazem 1,1 milhão de pessoas, 3,6% dos contribuintes. A alíquota mais elevada (45%) incidiria sobre 211 mil contribuintes (0,1% da população) que ganham mais de R$ 60 mil por mês.

Hoje, a classe média paga mais impostos em relação à sua renda do que multimilionários e bilionários devido à não taxação de dividendos, à baixa taxação de Imposto de Renda de Pessoa Física, entre outras manobras. A oposição quer aproveitar a Reforma Tributária para, além de garantir progressividade real na cobrança de impostos, reduzir a taxação na produção e comercialização e aumentar na renda e na riqueza.

O então deputado Jair Bolsonaro disse, em entrevista ao documentarista Carlos Julianos Barros, em 2015, que quem recebe o Bolsa Família não faz nada da vida, só produz filhos para o Estado custear.

“Uma política de planejamento familiar, acho que só eu falo aqui nessa casa [Câmara dos Deputados]. O cara tem três, quatro, cinco, dez filhos e é problema do Estado, cara. Ele já vai viver de Bolsa Família, não vai fazer nada. Não produz bem, nem serviço. Não produz nada. Não colabora com o PIB, não faz nada. Fez oito filhos, aqueles oito filhos vão ter que creche, escola, depois cota lá na frente. Para ser o que na sociedade? Para não ser nada”, afirmou.

Em 17 de outubro de 2018, entre o primeiro e o segundo turnos da eleição presidencial, ele criticou a taxação dos mais mais ricos em entrevista ao SBT:

“Eu acho que, no Brasil, você não pode falar em mais ricos, está todo mundo sufocado.

A carga tributária é enorme. Quase tudo é progressivo no Brasil.” Na verdade, o país está longe de uma progressividade decente na cobrança sobre a renda, ou seja, cobrar bem mais de quem tem muito.

Tendo visto que sua sobrevivência política e eleitoral depende disso, Jair não só “mudou de opinião” sobre o Bolsa Família (hoje com 14,2 milhões de famílias), como quer algo maior (de 20 a 30 milhões de famílias), passando de uma média de R$ 190 para algo em torno de R$ 300, na forma do Renda Brasil, a fim de herdar parte da base lulista.

Se ele “mudou de opinião” sobre o Bolsa Família, não por uma questão ideológica, mas pragmática, talvez não seja impossível mudar também sobre a taxação de super-ricos.

Para tanto, teria que fazer um cálculo: ou beneficia dezenas de milhões de brasileiros e pavimenta sua reeleição ou mantém boa relação com mercado e mantém acesa a chama do bolsonarismo-raiz – que acha que taxar bilionário é pecado e Bolsa Família é voto de cabresto.

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Por que o Queiroz depositou R$ 89 mil na conta da Michelle?

Por Gregorio Duvivier*

Entendo a raiva do presidente ao ser perguntado sobre as finanças da sua esposa. Também fico chateado quando me perguntam algo que eu não posso responder. “Por que seus olhos estão vermelhos?” ou “Você já deixa sua filha assistir televisão?” Se não queres ouvir uma mentira, não perguntes um segredo.

Mas pra isso serve a imaginação, e pra isso servimos nós, ficcionistas. Cabe a nós imaginarmos quais seriam os motivos possíveis pra um cheque tão generoso. Inúmeros são os motivos pra se fazer um depósito dessa quantia —muito embora tão pouca gente o tenha feito pra mim.

Colagem com foto de Gregorio Duvivier em preto e branco segurando três balões que estão flutuando
Catarina Bessel/Folhapress

O primeiro que me ocorre é o ágio. O presidente já afirmou ter emprestado R$ 40 mil ao melhor amigo e ex-motorista. Os R$ 49 mil restantes correspondem, obviamente, aos juros —a Selic pode ter baixado, mas o spread continua alto— especialmente entre agiotas. O presidente mostra que trata a todos como iguais: não é por se tratar de um amigo que há de se emprestar sem ágio. Alguém precisa pagar o leite condensado das crianças.

Não podemos tampouco descartar a hipótese do adultério. Isso justifica a revolta do presidente: é chato ficar sabendo pela imprensa que um marmanjo anda depositando somas altas na conta da conje. Isso explica também o nascimento da única filha mulher do presidente. Quem conhece o presidente sabe que ele não fraquejaria. Seus cromossomos são YY. Dali não sai nenhum XX.

Queiroz, pelo contrário, tem duas filhas mulheres, provando que tem por hábito fraquejar. O pagamento corresponderia, obviamente, à pensão da varoa. Ninguém espera que o presidente pague pela fraquejada alheia.

Pode, também, se tratar de um golpe complexo, muito comum entre parlamentares, famosos pela ingenuidade. Acontece mais ou menos assim: a pessoa fica anos trabalhando como motorista do seu filho, consegue o número da conta da sua esposa e, quando você menos espera, bum! Deposita R$ 89 mil. Pronto. Daí você tem que se virar pra gastar esse dinheiro.

Chocolate. Quem já foi a uma loja da Kopenhagen sabe que a Nhá Benta está pela hora da morte. Pode ser que Queiroz tenha ido tomar um cafezinho com a patroa e, na hora de pagar a conta, tenha esquecido a carteira, a generosa patroa convidou, e os R$ 89 mil coincidem com o combo: expresso e Nhá Benta de maracujá. Isso justifica também os R$ 400 mil que ele depositou na conta do Flávio. Tenho a impressão que a soma corresponde a um pacote de Língua de Gato.

É ator e escritor. Também é um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos.

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A biografia autorizada de Bolsonaro, segundo Jair

Bolsonaro era mais conhecido no exército pela atuação como atleta reserva (Foto: reprodução)

O presidente Jair Bolsonaro tem delírios sobre a própria biografia. Bem ao estilo de papo de botequim ele sai por aí contanto lorotas sobre si para impressionar (ao menos ele pensa que impressiona) seus interlocutores.

Quantos “tiozões do pavê” não são assim? Aumentam as histórias ou até mesmo inventam. Quando era adolescente cansei de ouvir “coroas” contando histórias do tipo “quando era da sua idade comia todas”.

Pois bem na biografia autorizada por Bolsonaro (textos em itálico) segundo Jair começa mais ou menos assim.

Nascido em 21 de março de 1955 nascia em Glicério (SP) Jai Messias Bolsonaro um homem predestinado a defender a nossa pátria e governar o país.

Aos dez anos ele trabalhou no “Bar do Seu Ricardo” em Sete Barras (vídeo abaixo) e ali aprendeu os valores bem diferentes dos da esquerda vagabunda que não gosta de trabalhar. Ali aprendeu a ter ordem e disciplina e para se militar foi um pulo.

Versão real história nas palavras de Renato Bolsonaro, irmão do presidente: “Meu pai tinha o estilão dele, boêmio. Mas nunca deixou um filho trabalhar, porque achava que o filho tinha que estudar” (fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2019/07/05/interna_politica,768510/irmao-de-bolsonaro-ja-disse-meu-pai-nunca-deixou-um-filho-trabalhar.shtml).

Bolsonaro aos 15 anos já estava na luta armada pelo lado do Exército e teria ajudado a prender o líder comunista Carlos Lamarca atuando como informante cujo codinome era “Moleque Sabido”.

“Em 1970, eu já estava na luta armada e conheço tudo o que está acontecendo no Brasil”, disse certa vez o presidente (Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/06/esta-chegando-a-hora-de-tudo-ser-colocado-no-devido-lugar-diz-bolsonaro-apos-decisoes-do-supremo.shtml).

Versão real da história: não indícios de que Bolsonaro tenha ajudado os soldados que caçaram Carlos Lamarca. (Fonte: https://epoca.globo.com/bolsonaro-o-moleque-sabido-que-ajudou-na-captura-de-lamarca-22971054).

Mas a luta do jovem Jair contra os comunistas não parou por aí. Ainda adolescente ele enfrentou o jornalista Alfredo Sirkis na luta armada fato que o orgulha tanto a ponto de relatar ao ex-vice-presidente dos EUA Al Gore (vídeo abaixo). “Lá atrás fui inimigo do Sirkis na luta armada”, regozijou-se.

Versão real da História: Sirkis após atuar na luta armada contra a Ditadura Militar Sirkis deixou o Brasil em 1971 e se exilou no Chile. Bolsonaro só entrou no exército em 1973 quando o jornalista era correspondente do jornal francês Libération na capital do país andino. (Fonte: https://noticias.uol.com.br/colunas/rubens-valente/2020/08/26/bolsonaro-forcas-armadas-ditadura.htm). Já Bolsonaro era famoso por ser atleta (reserva) na carreira militar (Fonte: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/03/28/pentatleta-bolsonaro-era-reserva-e-ganhava-laranja-como-incentivo.htm).

Esse é o nosso magnífico capitão.

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Saída da Petrobras: Fábio Faria justifica a própria omissão transferindo culpas

Ministro sobre nova postura de Bolsonaro: "Ninguém aguenta briga ...
Fábio Faria é ministro próximo ao presidente, mas não tentou influenciar contra a decisão (Foto: Web/autor não identificado)

O dia é 1º de fevereiro de 2007. Nesta data os deputados estaduais tomaram posse e elegeram Robinson Faria para presidir a Assembleia Legislativa pela terceira das quatro oportunidades em que esteve no cargo.

No discurso, bem escrito por sinal, Robinson Faria alertava que era questão de tempo a Petrobras deixar o Rio Grande do Norte. O legado não passaria de um tremendo passivo ambiental para o nosso Estado.

Faria tinha razão e o cenário que parecia distópico e distante se concretizou.

Naquela mesma data Fábio Faria assumia o primeiro dos quatro mandatos como deputado federal usando na campanha uma versão de uma música da banda Ferro na Boneca em que a palavra “Patifaria” era trocada por “Vote Fábio Faria”.

De fato o Rio Grande do Norte não se preparou para a saída da Petrobras. Os ex-governadores Tarcísio Maia, Lavoisier Maia, José Agripino, Geraldo Melo, Garibaldi Filho, Wilma de Faria, Rosalba Ciarlini e Robinson Faria (o mesmo autor do discurso citado no início do texto) não planejaram nada neste sentido. Com Fátima Bezerra não foi diferente.

Fábio tenta jogar culpa do PT de quem sempre foi aliado (Foto: Web/autor não identificado)

Agora Fábio, que sempre foi omisso sobre o grandes temas do Estado, na função de ministro influente no Governo Bolsonaro não procurou o presidente para fazer uma intervenção para manter a Petrobras no Estado. Nem ele nem Rogério Marinho, que goza do mesmo status.

Fábio em vez de fazer uma autocrítica, calculou a fala e o argumento retórico para jogar a culpa na governadora e inflamar o bolsonarismo local que anda caçando argumentos na terra de Poti. “Na gestão da atual governadora, grandes empresas já deixaram ou ameaçam abandonar o Estado devido à sua incapacidade administrativa, como a Inframérica, que desistiu do Aeroporto de São Gonçalo”, disse ao Agora RN.

Ele não cita as outras grandes empresas e a que ele cita não deixou o por dificuldades com o Governo do Estado e sim pela crise econômica impactada pela queda no tráfego de passageiros e pela defasagem nas tarifas de navegação. Outro ponto que pesa contra o aeroporto é a distância dele para Natal. Fábio até ensaiou usar seu prestígio para reverter a saída da Inframéerica do Aeroporto de São Gonçalo em nível de Agência Nacional de Aviação (Anac) que onde se resolveria o impasse.

Ficou na promessa.

A gora é um fato que no governo do pai de Fábio, a Ambev fechou a fábrica dela no Rio Grande do Norte gerando uma perda de 300 empregos. Neste caso foi obra e graça de Robinson Faria que decidiu aumentar as alíquotas do Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Em 2015, o empresário Flávio Rocha, repetiu a declaração que dera na gestão de Rosalba: o RN é o pior ambiente para se fazer negócios.

Voltando a Petrobras, a colega Thaisa Galvão relatou que em 2017 já estava em curso o desmonte da Petrobras no Rio Grande do Norte com os investimentos despencando 77%. Ela resgatou matérias em que Robinson fazia o mesmo que Fátima está fazendo: tentar se reunir com os dirigentes da estatal para reverter o quadro.

Robinson cumpria o papel de cobrar exatamente como Fátima faz hoje. É pouco? É.

O ministro Fábio Faria prestaria um serviço mais relevante ao Rio Grande do Norte se deixasse de lado a retórica que só ganha eco em ouvidos bolsonaristas e desavisados e em vez disso buscasse uma conversa com Bolsonaro para convencer o presidente a mudar a estratégia da Petrobras em nosso Estado mantendo o seu funcionamento e retomando os investimentos que entraram em declínio nas gestões petistas.

O problema é que Fábio apoia a saída da empresa para ser substituída pelo capital privado pagando a tabela mínima dos royalties, gerando menos empregos e detonando algo em torno de 50% do Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Norte.

Quando não se tem argumentos se vai ao ataque. Fábio não tinha o que mostrar em relação a ações para manter a Petrobras no Estado.

Confira as fontes pesquisadas para este artigo:

https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2020/03/05/inframerica-decide-devolver-aeroporto-internacional-de-natal-ao-governo-federal.ghtml

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/11/1702956-ambev-fecha-fabrica-no-rio-grande-do-norte-e-demite-300-funcionarios.shtml

http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2015/11/ambev-anuncia-fechamento-de-fabrica-no-rio-grande-do-norte.html

https://www.thaisagalvao.com.br/2020/08/26/programa-nacional-da-petrobras-anunciado-em-2017-e-que-esta-sendo-posto-em-pratica-provocou-queda-de-77-nos-investimentos-do-rn-como-afirmou-secretario-do-governo-robinson-faria/

https://www.thaisagalvao.com.br/2020/08/26/desinvestimentos-da-petrobras-no-rn-comecaram-em-2017-e-de-la-para-ca-estado-esta-no-segundo-governo-e-teve-duas-bancadas-federais/

https://www.thaisagalvao.com.br/2020/08/26/governador-robinson-faria-declarou-em-2018-petrobras-desaqueceu-fechou-demitiu-e-prejudicou-a-economia-do-rn/

http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/encontramos-no-rn-o-pior-ambiente-de-todos-diz-fla-vio-rocha/331494

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UFERSA: terceira colocada afirma que “pulou” para primeiro “por obra de Deus”

Ludimilla credita a Deus nomeação para ser reitora (Foto: reprodução/Blog do Barreto)

Para a futura reitora da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA) Ludimilla Oliveira foi “obra de Deus” que ela saltou do terceiro para o primeiro lugar. “O senhor quebra protocolos”, disse.

Pois é, Ludimilla foi terceira colocada na consulta a comunidade acadêmica da UFERSA, mas como a lei permite ela foi nomeada reitora contrariando a vontade dos três segmentos. A decisão foi anunciada pelo presidente Jair Bolsonaro na última sexta-feira.

“O senhor mandou me chamar para um lugar de honra com as grandes autoridades desse país”, avaliou.

A fala foi em uma live no Instagram como a missionária Hélia Galdino.

Nota do Blog: o protocolo quebrado foi a regra democrática de respeitar a ordem estabelecida na lista tríplice pela comunidade acadêmica nas universidades federais por meio de votação.

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Natália Bonavides entra com denúncia contra Bolsonaro

Natália entra com denúncia ao STF contra Boslonaro (Foto: PT na Câmara)

A deputada federal Natália Bonavides (PT/RN) protocolou no Supremo Tribunal Federal (STF) uma denúncia contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) por crime de constrangimento ilegal. A denúncia foi motivada após o episódio deste domingo (23) em que Bolsonaro, ao ser questionado por um repórter do jornal O Globo sobre os depósitos de Fabrício Queiroz (ex-assessor de Flávio Bolsonaro) na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro, declarou ter vontade de agredir o profissional fisicamente: “a vontade é de encher tua boca na porrada”, declarou o presidente.

Para Bonavides, o fato não é isolado e acontece em um contexto de ameaças e intimidações frequentes ao trabalho de jornalistas por parte do presidente da República. “Os ataques estão cada vez mais graves. Em maio deste ano, bolsonaristas agrediram jornalistas que cobriam manifestação em Brasília e o presidente, que estava presente no ato, não demonstrou nenhuma desaprovação. Agora, o próprio Bolsonaro ameaçou agredir um jornalista. Há uma escalada de autoritarismo que precisa parar”, afirma.

A denúncia resgata todo o cenário de ataques do presidente da República contra os profissionais da imprensa do início do ano até o momento. Se antes esses ataques já eram repudiáveis, o desse domingo (23) configura crime. De acordo com o documento, a conduta de Bolsonaro está tipificada no art. 146 do Código Penal que diz: Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe haver reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite, ou a fazer o que ela não manda. Com pena de três meses a um ano, ou pagamento de multa.

O documento apresentado por Bonavides ainda destaca que houve uma violação notória ao bem jurídico da liberdade assegurado na Constituição Federal, pois o presidente expôs de forma incontestável a intenção de agredir e impedir que o jornalista fizesse perguntas a uma autoridade pública, o que é permitido por lei.

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