Deseducação acima de tudo: a ideologia dos que não têm ideologia

O Brasil é o país em que as pessoas precisam defender a educação (Foto: autor não identificado)

Henry Bugalho

Carta Capital

Quem serão os reais ganhadores com o fim da educação superior pública? Quem lucrará com isto? Quem se beneficiará com este desmonte?

“Em defesa da educação” estampava a faixa afixada na fachada da icônica sede da Universidade Federal do Paraná em Curitiba. Esta faixa, com uma mensagem apartidária em favor de uma causa que qualquer pessoa minimamente racional apoiaria, acabou se convertendo no símbolo das manifestações pró-governo, em defesa da confusa e ineficiente gestão de Bolsonaro, no último domingo, 26 de maio.

Em um vídeo que viralizou nas redes sociais, vemos um homem com a camisa da seleção brasileira, peça que vem simbolizando o patriotismo fajuto calcado num reacionarismo tupiniquim, dizendo o seguinte: “vamos retirar esta faixa, porque prédio público não pode ser utilizado de forma ideológica”, enquanto isto, vê-se atrás dele outros paramentados manifestantes bolsonaristas cumprindo o prometido.

Confesso que tive de me esforçar para encontrar o viés ideológico implícito nos dizeres “Em defesa da educação”. Como saber qual grupo político está por detrás disto? Quem se beneficiará com isto? A quem serve?

Mas o fato é que defender a educação é e sempre será uma postura ideológica, pois suscita outra indagação: que tipo de educação? Para quem?

De fato, todos vivemos num mundo permeado por ideologias, somos atravessados por elas e todos os nossos atos, falas e omissões são dotados de carga ideológica. Sob esta ótica, a faixa “Em defesa da educação” é claramente um slogan ideológico, assim como também é ideológica a fachada neoclássica desta sede da UFPR, com colunas, traves de cornijas que remetem a princípios arquitetônicos da Antiguidade greco-romana. A camiseta amarela da seleção brasileira com o logo da Fifa é também revestida de ideologia e a própria afirmação que “prédio público não pode ser usado de forma ideológica” também é, por sua vez, altamente ideológica.

Portanto, o problema essencial na cabeça do manifestante não é Ideologia com “i” maiúsculo, mas uma determinada ideologia da qual ele discorda, já que os atos seguintes são ainda mais reveladores. No lugar de “Em defesa da educação”, foi afixada outra faixa que dizia “Olavo tem razão, ao mestre com carinho” e incluía também a inscrição “Ninguém nos déte”, sabe-se lá o que isto queira dizer.

A cena expõe, como podemos supor, um conflito profundamente ideológico e que está no cerne do governo bolsonarista. Na base desta guerra cultural está o explícito ataque ao conhecimento, aos professores e aos estudantes universitários. Segundo Olavo de Carvalho, a pessoa homenageada na faixa posta no lugar daquela que defendia a educação, as universidades são antros esquerdistas que servem de ponta de lança para uma revolução comunista de inspiração gramscista, numa “marcha pelas instituições” para a consolidação da hegemonia cultural e intelectual dos vermelhos – de maneira resumida, isto é o que se chama de “marxismo cultural”.

Sendo assim, conquistar estes espaços educacionais, expurgar professores “comunistas”, reescrever a História e extirpar quaisquer vestígios da ideologia contrária é uma condição sine qua non desta guerra cultural. Para os olavistas, qualquer vitória política sem esta vitória cultural não será uma vitória completa, pois deixará margem para que os comunistas retornem rapidamente às esferas de controle social e político. O expurgo deve ser completo e irrestrito.

“Em defesa da educação” passa uma mensagem evidente, principalmente em uma universidade federal: de uma educação pública, de qualidade e inclusiva. Contudo, para quem pensa na universidade como um espaço destinado a uma elite, é evidente que isto pode soar como afronta. Sabe-se que o acesso à educação é um dos principais pré-requisitos para a redução da desigualdade social, por permitir melhores oportunidades de trabalho e, por isso, estimular a mobilidade social. O acesso dos mais pobres ao ensino superior público permite duradouras transformações numa sociedade. A quem duvide sugiro que veja o que fizeram os países do norte da Europa, hoje amplamente acatados como melhores modelos de sociedade. Neles a real implantação da socialdemocracia comprovou o antigo mote segundo o qual: uma sociedade é tão rica quanto é rica sua porção mais pobre.

Mas, voltemos à questão. A quem não interessa isto?

E deixo para resposta de vocês estas últimas perguntas: quem serão os reais ganhadores com o fim da educação superior pública? Quem lucrará com isto? Quem se beneficiará com este desmonte?

Adianto que qualquer resposta será ideológica, mas com inevitáveis e catastróficas implicações práticas para milhões de jovens estudantes que agora estão na linha de frente deste embate por seu futuro, por suas carreiras e, mais do que isto, por um modelo de sociedade mais aberta e inclusiva.

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Bolsonaro assina decreto do sal

Presidente assina decreto do sal (Foto: Isac Nóbrega/PR – Flickr Palácio do Planalto)

O presidente da República Jair Messias Bolsonaro assinou na tarde desta terça-feira (4), o decreto presidencial que reconhece o sal como um bem de interesse social. A medida vai garantir a segurança jurídica necessária que atividade precisa, sem que haja perdas para o meio ambiente, nem para os produtores e trabalhadores do setor. O pleito foi uma luta do deputado federal Beto Rosado (PP) junto aos salineiros do Rio Grande do Norte.

O parlamentar apresentou em 2017 a indicação Nº 3966, sugerindo a criação do decreto que ao longo dos últimos anos vem tramitando entre os ministérios do Meio Ambiente, Economia, além da Casa Civil. Com a mudança do governo federal, Beto Rosado apresentou uma nova indicação Nº 464/2019, sugerindo a criação do decreto, que foi assinado na tarde desta terça-feira.

“A ameaça iniciou em 2013 e vem gerando imensa insegurança jurídica à atividade salineira, inibindo investimentos e gerando desconfiança quanto a sua continuidade por parte de fornecedores e clientes. Se não fosse este decreto, a atividade chegaria em curto espaço de tempo a um verdadeiro colapso, atingindo os mais de 50 mil empregos diretos e indiretos gerados pela indústria”, alertou Beto.

A medida do presidente Jair Bolsonaro, tão esperada pelos produtores, obedece aos preceitos estabelecidos no código florestal.  “A medida abrangerá aquelas indústrias consolidadas até o ano de 2008 e sem alternativa locacional, garantindo não só a continuidade do setor salineiro, mas a própria preservação do ambiente hipersalino desenvolvido na região, sempre respeitado pela indústria do sal”, afirmou o vice-presidente do Sindicato das Indústrias da extração do Sal Aírton Torres.

Participaram da assinatura do documento o Ministro-chefe da Casa Civil Onyx Lorenzoni, os deputados federais Beto Rosado, Fabio Fabia (PSD), Rafael Motta (PSB), General Girão (PSL), João Maia (PL) e o senador Styvenson Valentim (Pode); prefeita de Mossoró Rosalba Ciarlini (PP), de Areia Branca Iraneide Rebouças (PSD) e o prefeito de Macau Túlio Lemos (PSD), além dos representantes do setor salineiro Rafael Mandarino, José Mandarino, Aírton Torres, Marcelo Monteiro, Herbert Junior, Frediano Rosado, Francisco Ferreira Souto Filho, Edite Souto, Francisco Aldemir de Souza, Severino Praxedes Sobrinho, Lucivan Praxedes Gomes, Marcos Roberto Alves, Renato Fernandes e David Maranata.

História

A indústria salineira do Brasil é uma atividade secular. O Rio Grande do Norte concentra 95% da produção de sal do país. A sua área de atuação é composta por 35 salinas situadas no semiárido brasileiro, nos municípios de Mossoró, Grossos, Areia Branca, Macau, Porto do Mangue, Guamaré e Galinhos, denominada região da Costa Branca.

A produção anual brasileira é de aproximadamente 7,5 milhões de toneladas, correspondente a 6 milhões de toneladas de sal marinho e 1,5 milhão de sal gema – sendo o sal gema utilizado integralmente de forma cativa, como insumo em determinadas indústrias químicas detentoras de sua exploração. Logo, o sal marinho do Estado do Rio Grande do Norte representa a quase totalidade do sal brasileiro que é negociado para os diferentes segmentos de mercado, seja no Brasil ou no exterior.

“Infelizmente, desde o ano de 2013, o setor salineiro está sendo ameaçado de ter que desocupar e restaurar todas as áreas marginais de rios e cursos de água, justamente nas áreas onde ocorre toda a sua produção há praticamente um século. Nesses locais foram construídas todas as benfeitorias que constituem a indústria salineira, tais como cristalizadores, evaporadores, canais, estações de lavagem do sal, estações de bombeamento, áreas de estocagem do sal, portos de embarque, edificações para instalações de beneficiamento de sal, escritórios, oficinas e demais facilidades operacionais dos empreendimentos”, lembra Aírton.

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Bolsonaro assina decreto do sal amanhã

Bolsonaro assina amanhã decreto do sal (Foto: autor não identificado)

Amanhã, às 17h, o presidente Jair Bolsonanro (PSL) assina o decreto que torna a produção de sal de interesse social.

A articulação foi feita pelo deputado federal Beto Rosado (PP) que explicou ao Blog do Barreto que o gesto do presidente vai criar uma rede de proteção jurídica para a indústria salineira. “O sal terá um tratamento diferenciado, inclusive na questão ambiental”, acrescentou.

Várias autoridades de Mossoró estão se deslocando para Brasília amanhã para acompanhar a assinatura do decreto.

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Bolsonaro é desaprovado por 60% dos potiguares, aponta pesquisa

A desaprovação do Governo do Presidente Jair Bolsonaro, nos primeiros cinco meses de gestão, entre os norte-rio-grandenses é de 60,58%. O índice é maior entre o público feminino (64%), jovem com idade até 24 anos (65,5%) e 25 a 34 anos (61,8%) e entre os com nível superior de escolaridade (66,8%). Os números são da Pesquisa FIERN/CONSULT Retratos Da Sociedade Potiguar 2019, divulgada neste domingo (26), feita sob encomenda da FIERN ao Instituto Consult Pesquisa, entre os dias 17 a 20 de maio, com 1.700 entrevistas, nas 12 regiões do estado. A sondagem tem margem de erro de 2,3%.

Na estratificação por região, a desaprovação é maior no Alto Oeste (72,2%), seguido por Mossoró e Central Cabugi (68,3%, ambas) e Sertão do Apodi (68%). Mesmo em Natal, onde obteve números expressivos na eleição (52,98% dos votos), 65% desaprovam o governo.

E 55,18% dos potiguares avaliam Governo do Presidente Jair Bolsonaro como Ruim (19,47%) ou Péssimo (35,71%).  Somente 15,23% consideram Ótimo (3,29%) ou Bom (11,94%). Os piores resultados foram registrados nas regiões do Alto Oeste Potiguar que, somados, registram 67,8% de ruim ou péssimo, seguidas pelas regiões Sertão do Apodi (59%) e Mato Grande e (58,9%).

A pesquisa aferiu ainda o grau de expectativa do potiguar em relação ao Governo Federal. Para 46,65% dos entrevistados o presidente fará um governo Ruim (24%) ou Péssimo (22,65%). Outros 23,82% esperam um governo Bom ou Ótimo. As piores expectativas estão na população do Alto Oeste Potiguar (58,2%), da Central Cabugi (56,7%) e Natal (54,8%).

No quesito confiança, 61,59% dos entrevistados responderam que não confiam no governo Bolsonaro. A desconfiança é maior entre os que possuem escolaridade de nível superior (69,1%), mulheres (65,9%) e os de idade até 24 anos (66,3%). E nas regiões do Alto Oeste e Sertão do Apodi os que não confiam chegam a 74,8% e 73%, respectivamente.

Quando comparado com os governos anteriores, 44,18% consideram a gestão Jair Bolsonaro Pior, enquanto para 23,24% ela é Melhor e 22,59% responderam considerar Igual. Na segmentação por escolaridade, 53,5% dos que tem curso superior consideram pior e 48,2% são mulheres. Em Natal, 59,5% dos entrevistados dizem ser Pior, na comparação, enquanto no Seridó 37,6% avaliam como Melhor.

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Fátima defende mais investimentos no Nordeste em reunião com a Sudene e Bolsonaro

Governadora defende investimentos no Nordeste (Foto: Elisa Elsie)

A governadora Fátima Bezerra defendeu na reunião do Conselho Deliberativo (Condel) da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), que 30% dos recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) passem a ser destinados para investimento em infraestrutura nos estados da região.

A proposição foi acatada de forma consensual pelo Condel, que é integrado por todos os governadores da região Nordeste, de Minas Gerais e Espírito Santo, representantes de prefeitos, trabalhadores e empresários da região, e pelo Governo Federal. A ideia apresentada pela governadora do RN é de que a verba do FNE, que é gerida pelo Banco do Nordeste, seja aplicada em obras prioritárias, seguindo o Plano Regional de Desenvolvimento do Nordeste (PRDNE) 2020-2023. O plano foi apresentado pelo Ministério do Desenvolvimento Regional durante a reunião realizada nesta sexta-feira (24), no Instituto Ricardo Brennand, em Recife-PE.

“O plano é uma ferramenta muito importante para a região, mas é preciso que ele não seja um plano de prateleira. Por isso é fundamental a questão do financiamento com os 30% dos recursos do FNE, podendo assim dar início a ações estratégicas inseridas no plano”, destacou Fátima Bezerra.

Esta foi a 1ª reunião do Condel em 2019 e contou com a presença do presidente da República, Jair Bolsonaro, e de vários ministros de Estado para a apresentação do PRDNE e de mudanças no plano de aplicação do FNE. Ainda sobre o plano regional, a governadora apresentou três sugestões. “Devemos acrescentar nos objetivos deste planejamento o reforço da infraestrutura hídrica, fortalecimento da infraestrutura logística do Nordeste e o fomento às ações de inclusão socioprodutiva”, pontuou a chefe do Executivo estadual.

Fátima também defendeu a inclusão de uma representação dos governadores no Comitê de Acompanhamento do FNE, que pela proposta original só teria membros do Ministério da Economia, da Sudene e do Banco do Nordeste. As proposições foram recebidas pelo Ministério do Desenvolvimento Regional e serão incluídas no plano até o fim do julho, que então será encaminhado para apreciação do Congresso Nacional.

O Plano de Desenvolvimento é fruto da Política Nacional de Desenvolvimento Regional, criada pelo Governo Federal em 2007. O plano O documento apresentado pelo Governo Federal inclui o Rio Grande do Norte quando trata de áreas como geração de energia eólica, fruticultura irrigada, apicultura, Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF) e combate à violência.

O trabalho ainda prevê uma série de ações na parte de infraestrutura em solo potiguar, como a ampliação das BR’s 110 (Areia Branca-Salvador) e 304 (Natal-Fortaleza), a criação da Ferrovia Litorânea ligando as capitais potiguar e baiana, além de obras de segurança hídrica vitais para o estado como a conclusão da barragem de Oiticica, os sistemas adutores Oiticica-Caicó e Armando Ribeiro-Currais Novos – que são parte do Projeto Seridó – e a ampliação dos sistemas adutores Monsenhor Expedito, Maxaranguape, Santa Cruz-Pau dos Ferros e Santa Cruz-Mossoró. “A conclusão do eixo norte do projeto de transposição do rio São Francisco é uma necessidade imperiosa, assim como essas ações estratégicas para o nosso estado, como o Projeto Seridó, que estão incluídas no plano de desenvolvimento e no Plano Nacional de Segurança Hídrica”, apontou Fátima.

De acordo com Mário Gordilho, superintendente da Sudene, o plano de desenvolvimento regional terá vigência imediata. “O plano que apresentamos será ainda um instrumento orientador do planejamento que se propõe a conduzir e monitorar a política de desenvolvimento no horizonte dos próximos 12 anos”, explicou ele.

INFRAESTRUTURA

O Governo Federal ainda apresentou durante a discussão no Condel o aumento na verba disponível para infraestrutura e microcrédito no Banco do Nordeste. Serão R$ 4 bilhões a mais no FNE em 2019, cujo saldo sairá de de R$ 23,7 bilhões para R$ 27,7 bi.

“Teremos R$ 3 bilhões a mais para serem investidos em infraestrutura e R$ 1 bilhão no programa nacional de micro crédito produtivo orientado, que já existe em área rural e vai ser realizado em área urbana”, explicou o ministro do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto.

Ainda durante o encontro, o presidente Jair Bolsonaro pediu apoio dos governadores presentes para a aprovação da reforma da previdência que foi apresentada ao Congresso e está tramitando na Câmara dos Deputados.

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O 15m 2019 no Brasil e o desgaste precoce do governo Bolsonaro: como as redes sociais e o mundo em rede aceleram todas as experiências e encurtam o tempo histórico

Por Robério Paulino

Muitas vezes quando estamos imersos no turbilhão de um processo social não conseguimos compreender exatamente seu real significado e sua dimensão. Para isso, torna-se necessário parar, tomar distância, se elevar, ver de cima o que se passa, de forma panorâmica, ao mesmo tempo que recorrer à História, a processos passados, comparar. Além disso, se não queremos ser impressionistas, é importante levar em conta todos os elementos da realidade, não apenas alguns que nos afetam mais.

Recorrendo a um exemplo histórico para exemplificar a questão, historiadores apontam que os que viveram o tempo da Revolução Industrial aqui na Grã-Bretanha, iniciada por volta de 1760/80, não se deram conta em sua época da real dimensão do processo revolucionário que estavam vivendo. O termo Revolução Industrial só veio a entrar na literatura com esse nome já por volta de 1850, ex-post. Nem mesmo Marx e Engels o usaram no seu célebre Manifesto Comunista.

Em minha segunda carta daqui de Londres, escrita antes das manifestações de 15M no Brasil, afirmei que a Revolução Tecnológica que vivemos e as redes sociais estavam acelerando todos os processos e as experiências com governos, partidos, ideias, e que, portanto, o desgaste do governo Bolsonaro seria provavelmente rápido. Nenhum de nós, imaginava, no entanto, que tão rápido. Amigos de várias partes do Brasil que leram aquela carta entraram em contato comigo para dizer que eu estava muito otimista, que não estava vendo a dificílima situação pela qual passamos no Brasil com a ascensão de um radical de direita ao governo. Alguns me disseram mesmo que a vitória de Bolsonaro era uma derrota histórica dos trabalhadores e que tínhamos que nos preparar para um longo inverno, no que toca à situação política no Brasil.

Penso que as manifestações de 15/05 no Brasil – que nos enchem de ânimo e orgulho, especialmente por nossa juventude, e nos dão muitas esperanças de dias melhores – ajudam a esclarecer a questão e revermos juntos nossas visões, o que há de negativo e o que há de positivo na situação política do país. Lutas sociais e mesmo revoluções não acontecem quando os povos estão bem, mas exatamente quando os direitos sociais e as condições de vida das populações são fortemente atacados, quando a situação se torna insuportável. O tamanho do ataque às universidades públicas e à educação turbinou as mobilizações. A estupidez e inabilidade de Bolsonaro e seus ministros também.

As manifestações de junho de 2013 foram progressivas, porque, apesar de começarem lutando contra os aumentos das passagens, questionavam de certa forma também a farra da construção de gigantescos estádios com dinheiro público desviado para a corrupção, entre várias outras bandeiras que levavam ao descontentamento. Mas tiveram aquele caráter difuso e terminaram por serem aproveitadas mais ao final também por grupos de direita para engatarem o processo de impeachment de Dilma Rousseff depois.

O 15M 2019 é claramente diferente, é uma grande manifestação nitidamente política contra Bolsonaro e contra a direita, com uma potência que alterou um pouco a situação nacional a favor dos trabalhadores e da juventude, colocando na pauta inclusive a possibilidade de impeachment do presidente, ampliando a crise no campo conservador. O 15M está mais para um maio de 1968 do que para junho de 2013.

Não devemos de forma alguma menosprezar a séria derrota que sofremos nas últimas eleições, nem os ataques que estão por vir. O governo ainda não foi derrubado, a Reforma da Previdência continua tramitando no Congresso, os cortes nas universidades não foram suspensos. O movimento ainda é essencialmente limitado à juventude e aos trabalhadores da educação. Os demais trabalhadores ainda não se envolveram. O teste será dia 14/06. E mesmo que Bolsonaro caia, pode assumir um vice-presidente igualmente conservador e duro contra os movimentos sociais e os trabalhadores, talvez mais hábil, que vai tentar manter aquela reforma e os ataques às universidades e à educação. A grande burguesia liberal já se articula para essa substituição e começa a descartar Bolsonaro, porque já percebeu que ele pode incendiar os movimentos sociais e o país com seus arroubos.

Mas o fato é que a reação contra os ataques aos direitos do povo já começou, muito forte e muito rápida, depois de apenas 4 meses e meio da posse do novo governo. E pode contagiar outros setores da população e dos trabalhadores e mesmo derrubar Bolsonaro em pouco tempo, se as lideranças mais uma vez não vacilarem. Se a greve geral de 14 de junho for mantida e for forte, bastaria depois dela marcar uma nova paralisação nacional por um período maior ou por tempo indeterminado e governo estaria nas cordas. O que parece é que podemos estar vivendo apenas o prólogo de uma nova grande jornada de lutas no país, se algumas lideranças não se apropriarem e abortarem o movimento, tentando desvirtuar tudo apenas para o funil de um projeto eleitoral no próximo ano. Além disso, não podemos colocar a mão no fogo pela maioria de nossas centrais sindicais, pelo que já vimos de outras vezes. Mas agora trata-se de buscar toda unidade possível e preparar com força a greve geral para que ela se torne irreversível.

Eu havia escrito outra carta, sobre outro assunto, que envio nas próximas semanas, mas, em função dos acontecimentos no Brasil, optei por mais uma vez abordar a questão de como a Revolução Tecnológica vem acelerando todos os processos e experiência sociais, como se relacionam com o 15M 2019. A comunicação em tempo real e as redes sociais explicam em muito a velocidade da mudança da situação política no Brasil.

Muitos analistas sérios em todo mundo têm mostrado o lado ruim de como as redes sociais vêm servindo a governos, a mega-empresas e conglomerados de comunicação para o controle das massas populares e de dados, ao monitoramento de cidadãos do mundo inteiro pelo governo norte-americano e apontam a nossa desvantagem na capacidade no impulsionamento em relação aos grandes grupos econômicos etc. São conhecidos os casos de manipulação de eleições, com disparos em massa de mensagens, fake news, inclusive por robôs, o que pode ter, inclusive, alterado o resultado das eleições no Brasil em 2018. Outros apontam que as pessoas estão passando tempo demais ligados em seus smartphones ou computadores nas redes sociais, que isso vem afastando e até mesmo alienando as pessoas, viciando crianças e jovens.

Na última carta falei do pessimismo de Zygmunt Bauman com as redes sociais e que Umberto Eco chegou a dizer que elas têm dado voz a milhões de imbecis. Tudo isso é certo. Esse é o aspecto negativo desse processo, que não menosprezo. Mas é apenas um lado da questão. Todo fenômeno em geral é contraditório, tem dois lados. A Revolução Tecnológica que vivemos e as redes sociais também têm também um papel extremamente progressivo, revolucionário, sem que as vezes não nos demos conta.

Nunca na história humana a informação viajou tão rápido. Temos informação em tempo real sobre tudo. Um fato corre o globo em minutos. Veio na minha cabeça a lembrança de um vídeo gravado na escotilha da ISS, Estação Espacial Internacional, há alguns anos por astronautas orbitando sobre o Atlântico, quando cruzaram aquele oceano em poucos minutos. Que diferença de um veleiro, que, ainda em 1850, demorava semanas para levar as novidades de um continente a outro.

Andando aqui pelas ruas de Londres notei também que, com a disseminação dos smartphones, por toda cidade as cabines telefônicas vermelhinhas – que cumpriram a função de nossos antigos orelhões aí no Brasil – estão vazias, abandonadas. Nem sei porque não foram ainda retiradas da paisagem urbana ou revertidos para outros usos. No Museu de Londres, que visitei no último fim de semana, existem expostos um aparelho de telex e um dos primeiros microcomputadores da década de 1980, como parte da história da cidade. Estavam ali literalmente como peças de museus. Mas isso foi ontem. A velocidade estonteante das mudanças encurta o tempo de tudo.

Hoje, com a comunicação em tempo real pelas redes sociais e portais hospedeiros, possibilitados pela Revolução Tecnológica que vivemos, todas as pessoas que quiserem podem ter uma página com milhares de amigos com os quais se comunicam instantaneamente. Bilhões estão em aplicativos como FACEBOOK, WhatsApp, Twitter, etc. Essas páginas e milhões de blogs e sites independentes vinculam notícias antes das grandes redes de comunicação, quebrando de fato seu monopólio da informação, como já afirmei anteriormente. Toda cidadezinha perdida nos mais distantes rincões do globo tem suas páginas próprias, que reproduzem as notícias nacionais e internacionais em tempo real. Mesmo o rádio e a televisão têm que ecoar o movimento das redes.

Mas vai muito além disso. Hoje, universidades, cientistas, profissionais, empresas, grupos sociais de todo tipo mantém comunidades virtuais, muitas vezes com integrantes localizados em diferentes países do mundo. Isso vem acelerando, por exemplo, a disseminação dos resultados das pesquisas e do conhecimento, a ajuda mútua, a colaboração, de forma nunca antes imaginada. Museus trocam informações em tempo real. Universidades e acadêmicos organizam encontros nacionais e internacionais através de grupos. Médicos ajudam em cirurgias do outro lado do mundo. Comunidades de pessoas com doenças raras se encontram e se ajudam. Mesmo uma criança pode ter o conhecimento do mundo em suas mãos através dos mecanismos de busca. Repito que no terreno da tecnologia estamos vivendo uma revolução sem perceber.

Cheguei a Londres com receio de como iria me comunicar com o Brasil, já que minha empresa telefônica do Brasil não me dá acesso aqui. Temor desnecessário. Comprando um simples chip de uma operadora local por 10 libras podemos nos colocar em contato com todos no Brasil imediatamente. Mas nem era preciso, porque em qualquer lugar, residência, faculdade, restaurante ou café da cidade ou do planeta que tenha Wi-Fi hoje você se conecta ao mundo todo instantaneamente com seu celular ou computador, com vídeo, sem pagar ligação telefônica, pelo Skype ou WhatsApp. Vejo imigrantes e turistas falando com seus países de origem no meio da rua, nos museus, o tempo todo, enviando fotos, vídeos. A sociedade toda em rede, como disse Manuel Castells.

Daqui do meu cantinho na biblioteca da LSE (London School of Economics), onde passo a semana pesquisando e escrevendo e de onde comecei a redigir esta carta, a cada duas horas parei para descansar a cabeça e acompanhei em tempo real as mobilizações do 15M no Brasil e inclusive ajudei a mobilizar. Como o mundo ficou pequeno. O Brasil inteiro viu as manifestações do 15M pelas redes sociais em tempo real.

A Globo e demais emissoras já não têm jeito de esconder tudo. Não é só por sua postura de se afastar do governo Bolsonaro não, mas também porque já não podem ocultar os fatos para não perderem credibilidade e se desmoralizarem; as redes sociais os revelam antes. Alguns amigos acharam exagerado quando eu disse que o monopólio da informação está sendo quebrado. Pois está aí o novo tempo para todos que quiserem ver.

É verdade que as redes sociais podem ter dado voz a uma multidão de gente pouco letrada, que escrevem errado, muitos ignorantes, como reclamou Eco. Mas penso que não há qualquer problema nisso; o fato é que elas também deram voz a outras centenas de milhões de pessoas progressistas, esclarecidas, a milhões de jovens, que antes não tinha voz nenhuma e que hoje podem falar com outros bilhões, o que antes era muito mais difícil. As redes provocam o choque de visões, o debate, e isso é bom, apesar das provocações que vemos. Lembremos que as ideias erradas sempre existiram e se apoiaram na ignorância, na escuridão, na desinformação. Não foi à toa que um período da Idade Média foi chamado de Idade das Trevas. Por isso, governos autoritários têm tanto medo e censuram as redes sociais. Têm medo da informação.

Na minha tese de doutorado, mostrei como a ex-URSS começou a ficar para trás na corrida tecnológica no início da década de 1980 a partir do momento em que seus governos tentaram impedir a posse individual de microcomputadores e impressoras, para evitar a disseminação de informações. Um tiro no pé. Penso que nas próximas décadas teremos grandes e boas novidades políticas vindas da China contra seu regime autoritário. É só uma questão de tempo; o caldeirão está cozinhando. O governo chinês monitora e censura as redes, mas aquele país gigante se urbaniza e se escolariza rapidamente e se integra por mil vasos comunicantes. Nos EUA os governos monitoram dados de milhões de cidadãos no mundo através das redes sociais, mas enfrentam resistência a isso.

Os jovens, particularmente, têm sabido usar muito bem as redes sociais, já nasceram em seu tempo, não têm qualquer problema com isso. Lembro do banho que a juventude pobre, filha de imigrantes e discriminada nas periferias de Paris deu na polícia durante a Revolta de 2005, usando as redes sociais para enganá-la. A polícia ia para um local anunciado para as manifestações, mas elas irrompiam em outros bairros.

No Brasil, as manifestações do 15M 2019 foram convocadas essencialmente pelas redes. E a juventude esteve à frente delas. Governos sempre se aterrorizam quando veem milhares de jovens nas ruas, que têm o potencial de contagiar todo um país e iniciar grandes transformações, como foi em maio de 1968 na França, nas mobilizações contra ditadura no Brasil ou no Fora Collor.  Pela primeira vez em muitos meses, a direita perdeu a guerra nas redes sociais nestes dias do 15M, segundo diversos mecanismos de monitoramento.

Por isso, afirmei na última carta que a ascensão da direita no Brasil e no mundo não decorria do advento das redes sociais, mas também das experiências das populações com governos de esquerda. As redes sociais são inocentes. A direita tem sabido usá-las muito bem, talvez melhor que esquerda, porque tem muito dinheiro para impulsionar, para pagar funcionários e robôs, propagar fake news, que confundem as pessoas sem formação mais ampla, apelando aos preconceitos, aos demônios que assustam as cabeças de pensamento mais formalista, mobilizando os subterrâneos mais obscuros da mente humana, o medo, o ódio, a ignorância, a inveja.

Mas a mentira e as farsas têm pernas curtas e uma hora são desmascaradas. A esquerda tem a razão histórica, tem clareza e as melhores ideias. Mas não temos sabido explorar todo o potencial que as redes oferecem. É preciso ser mais ousados e dialogar, convencer, conquistar. Não é necessário insultar, humilhar, as pessoas mais fracas que votaram na direita. As pessoas pensam. Muitos jovens que apoiaram Bolsonaro já estão percebendo o erro e alguns até participaram do 15M. É por isso que eu disse na minha carta anterior que a Revolução Tecnológica, a comunicação em tempo real e as redes sociais poderiam tornar a experiência com Bolsonaro muito rápida, podendo mudar a situação política em pouco tempo.

Além disso, será difícil voltar a ganhar alguns setores populares e de classe média se esquerda não souber ser autocrítica. Porque quando ela chegou aos governos aplicou algumas das mesmas políticas que combatemos hoje, fez alianças com os que nos atacam hoje, teve as mesmas práticas que criticamos hoje. O ódio que vemos atualmente mesmo em setores da população tem a ver em grande medida com as decepções com governos de esquerda. É verdade que houve um golpe contra Dilma, a Lava Jato, contra o que lutamos. Estamos a favor da liberdade imediata de Lula, porque está patente a parcialidade. Mas foram também os erros, as práticas e alianças da esquerda nos governos anteriores que pavimentaram o caminho para o impeachment de Dilma e a subida de Bolsonaro.

Essa discussão vem sendo deixada de lado em função da necessidade de unidade do movimento social para enfrentar os ataques aos direitos sociais. Toda unidade na ação é preciso. Mas deixar de dizer as coisas como de fato foram é um erro. Unidade não pode significar veto ao debate. Afirmar isso que digo aqui com certeza é antipático. Martin Luther King dizia que para arranjar inimigos basta dizer a verdade. Mas é necessário. Não falo isso aqui com sentido de dividir, mas de nos fazer pensar sobre o passado recente para não cometer os mesmos erros.

Dizemos que os apoiadores da direita são alienados, não pensam, são sectários. Mas devemos nos perguntar se, quando está no governo, no controle de algum órgão, partido ou entidade, esquerda é menos intolerante, menos sectária, mais autocrítica, mais democrática. Infelizmente, há pouquíssimo sentimento autocrítico na esquerda sobre seus erros recentes e como eles pavimentaram a ascensão de Bolsonaro. A sociedade está embrutecida. E a esquerda, como parte desse meio, também. Digo isso porque sem uma avaliação autocritica do passado recente, de sua política e de suas práticas, a esquerda cometerá os mesmos erros se chegar novamente aos governos.

Para ir terminando essa carta, voltemos ao nosso assunto que é como entender a situação política atual e o potencial das redes sociais na aceleração do tempo histórico e das experiências com ideias e governos. Por muito tempo, usamos a fórmula de que para seguir adiante precisamos do pessimismo da razão e do otimismo da vontade. Essa formulação é um pouco subjetiva. Não podemos ver a situação através da lente do pessimismo ou do otimismo, mas objetivamente, como ela é de fato, com todas as suas tendências contraditórias em diferentes sentidos, em constante movimento e, como insistia Marx, voltar a estudar toda a história para, com as lições do passado, não repetir os erros no presente. Enquanto bebemos do vigor da juventude, cabe às gerações mais velhas passar essa experiência histórica aos jovens, numa grande troca. Não há nenhuma situação ruim para sempre, tudo é uma questão de tempo. E tudo se acelera.

Quero terminar dizendo de nossa imensa alegria com os últimos acontecimentos no Brasil, que nos enchem a todos o coração de esperança e confiança em que nossa luta não foi nem será em vão. É preciso acreditar que a humanidade tem futuro, acreditar que uma hora a inteligência humana superará a ignorância, a mentira, o egoísmo, a injustiça, o ódio, a maldade. Já fez isso antes em situações muito piores. E sabermos ser ousados, dialogar, empolgar, conquistar corações e mentes para a melhor alternativa.

Londres, 18/05/2019

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Acordei em 31 de dezembro de 2022 no país idealizado por Bolsonaro

(Alerta aos portadores de deficiência cognitiva programada: é um texto de ficção)

 

Por Bruno Barreto

Acordo na minha cela. Já são 18 meses cumprindo pena por apologia ao comunismo. A lei anticomunismo do deputado federal Eduardo Bolsonaro foi aprovada e saiu do papel no final de 2020. A porta foi escancarada para prisões políticas no país.

Tudo que o presidente Jair Bolsonaro sonhou se tornou realidade. A CPI da Lava Toga foi um sucesso. Graças a ela sete ministros do STF sofreram impeachments e o presidente pôde indicar ultraconservadores para os postos.

O presidente ganha todas no Supremo.

A tentativa fracassada do centrão de fazer com Bolsonaro o que foi feito com Dilma Rousseff também não deu certo. Com um soldado e um cabo o congresso foi fechado.

O Brasil voltou a ser uma república das bananas.

Governadores e prefeitos acusados de apologia ao comunismo foram substituídos por interventores militares nomeados pelo presidente.

Adversários políticos do presidente como Guilherme Boulos, Ciro Gomes, Manuela D’ávila e Fernando Haddad estão presos por apologia ao comunismo.

Os partidos de esquerda foram extintos por decisão do TSE sob o argumento de, adivinhe, apologia ao comunismo.

A reforma eleitoral realizada por Bolsonaro proibiu que candidatos apresentem propostas cunho social e em defesa diversidade. Eleitores suspeitos de comunismo eram impedidos de votar. Títulos eleitorais foram cassados e manifestantes que foram as ruas lutar contra essas medidas foram presos acusados de terrorismo comunista.

Os movimentos sociais foram criminalizados. O Brasil se entregou a uma histeria conservadora deixando boa parte da população cega.

Nem mesmo padres escaparam. Muitos foram acusados de comunismo. Estão em uma prisão exclusiva para eles onde são obrigados a assistir cursos ministrados por pastores da Igreja Universal do Reino de Deus.

As religiões afro-brasileiras estão proibidas.

Nas eleições de outubro, Bolsonaro derrotou João Dória no primeiro turno com 88% dos votos válidos.

A vitória foi celebrada por Olavo de Carvalho no Twitter.  Ele classificou o resultado a última pá de cal jogada no comunismo.

Isso mesmo. Dória foi considerado “comunista”. Digamos que um “comunismo” consentido.

A CLT foi extinta. Não existem mais qualquer sistema que traga segurança ao trabalhador. Era isso ou desemprego nas palavras do presidente. Os empregos prometidos não apareceram e quem reclama é preso.

O desemprego diminuiu porque foi criada uma verdadeira indústria com base no trabalho forçado de presos que passou a ser perimido pela constituição. Entenda: o sujeito não consegue emprego, reclama e vai preso. Lá trabalha forçadamente para custear sua permanência e isso maquia a as estatísticas da Casa Civil, já que o IBGE foi extinto por apologia ao comunismo.

A reforma da previdência, derrotada no Congresso em 2019, acabou passando via decreto presidencial após o legislativo ficar de portas fechadas.

Todo mundo pode ter uma arma em casa. São comuns brigas de bares terminarem com mortes. Outro dia um vizinho morreu e o assassino alegou que matara um comunista sendo absolvido por legítima defesa da pátria.

As milícias foram legalizadas criando um Estado Paralelo. A desculpa, claro, é que são organizações cujo objetivo é defender o país do comunismo.

Os índices de criminalidade diminuíram porque muito do que era crime foi legalizado em favor das milícias. Restou pouca coisa a ser considerado crime.

As feministas foram exiladas. Nos aeroportos enquanto elas migravam para o exterior eram hostilizadas pela patrulha bolsonarista. As poucas que ficaram estão presas.

Olavo de Carvalho se tornou o patrono da educação brasileira.

O ano foi marcante para Olavo. Nas celebrações do bicentenário da independência ele foi consagrado por impor a tese de que D. Pedro I teria livrado o Brasil do comunismo. Isso mesmo, a Revolução Liberal do Porto, que tomara o poder da monarquia portuguesa em 1820, era formada por um bando de comunista, segundo a tese olavista.

Quem ousou contestar essa ideia absurda foi preso por, adivinhe de novo, apologia ao comunismo.

Saio para o banho de sol no presídio federal de Mossoró. Ouço o agente penitenciário dizer que Fernandinho Beira-Mar será libertado sob o compromisso de ser tornar um miliciano no combate ao comunismo.

Sérgio Moro se tornará amanhã vice-presidente. Hamilton Mourão se exilou na Inglaterra após ser acusado de apologia ao comunismo. O ex-juiz se tornou um ícone do combate ao crime organizado com ajuda das milícias e ao custo de morte de negros nas favelas. É preciso lembrar que nas leis bolsonaristas milicianos não são criminosos.

Volto para minha cela e sou avisado que minha família veio me visitar.

Minha esposa conta que meus livros foram confiscados e a promessa é de que o que não for considerado apologia ao comunismo seria devolvido.

Meu filho conta que na escola só tem aula de português e matemática na escola. Todas as aulas são gravadas para saber se os professores farão algum tipo de crítica ao governo ou apologia ao comunismo.

Meu enteado conta que na faculdade de direito, estão proibidas aulas de filosofia e sociologia. Ele conta que o argumento é que curso de direito é só para decorar as leis.

O Brasil virou uma filial do seriado The Hadmaid’s Tale e nem se deu conta disso. Amanhã, Bolsonaro assume um mandato por mais quatro anos. A nova política está só começando.

Cuidado!

 

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