Bolsonaro é a reação patriarcal à primavera feminista

Bolsonaro tem discurso que considera feminismo “mimimi”

Por Rodrigo Almeida*

Portal 360

Os recentes números das pesquisas divulgadas por Datafolha e Ibope mostram que a excepcionalidade da disputa presidencial de 2018 não está apenas na liderança de um candidato aprisionado e virtualmente inelegível. Há um sopro de novidade numa eleição na qual o desinteresse é o mais alto desde 1994: pela primeira vez, existe uma enorme distância de gênero registrada por um candidato com chances reais de ir ao segundo turno – Jair Bolsonaro.

Sim, a rejeição feminina ao ex-capitão do Exército é tão eloquente quanto a solidez dos números do ex-presidente Lula, cujos 39% e 37% –respectivamente no Datafolha e no Ibope – devolveram a empáfia autoconfiante com que petistas e simpatizantes costumam analisar a candidatura do seu líder maior.

Nos dois casos (o voto de gênero antiBolsonaro e o voto apaixonado ou indignado pró-Lula), vítimas e algozes se retroalimentam.

Com sua teimosia calculada, Lula vem protelando o enterro quase inevitável de sua candidatura em favor de Fernando Haddad. Ao fazê-lo, porém, capitaneou grande parte da indignação popular atual e se manteve com força na mesma mídia que acusa de persegui-lo. Favorecem-lhe tanto a profunda crise econômica em curso quanto a dúvida espalhada sobre a lisura das instituições.

Enquanto isso Bolsonaro vem subindo nas sondagens espontâneas – embora alguns analistas-torcedores digam que ele está estagnado há algum tempo. O fato principal é que sua oscilação positiva se dá justamente em meio à primavera feminista no país.

UM TOTEM DE VIRILIDADE CHAMADO BOLSONARO

Já está cristalizada a tendência do voto em Bolsonaro: vem majoritariamente do eleitorado masculino, branco e rico. (São também relevantes, para ele, os eleitores jovens, abaixo de 35 anos.)

O novo aí é a resistência feminina numa eleição presidencial. Conforme mantém ou aumenta sua força eleitoral, maior tem sido o peso feminino contrário ao capitão.

Esse é um típico movimento decorrente de forças centrífugas e centrípetas que atingem a sociedade em diferentes épocas e diferentes temas. Neste caso, uma geração cada vez mais forte e politicamente ativa (e altiva) de mulheres feministas resulta no movimento contrário: uma reação adversa masculina.

Como afirmou a antropóloga e cientista social Rosana Pinheiro-Machado, em providencial artigo no The Intercept, Bolsonaro é fruto de penúria econômica, de falência democrática, mas também da crise do macho. Sua figura parece ser, como ela escreveu, um totem de virilidade em tempos de medo, violência e insegurança.

Nada mais sintomático, portanto, do que a identificação masculina com a sua figura agressiva e ao mesmo tempo vazia.

FEMINICÍDIO AUMENTA. MAS PARA ELE É SÓ UM MIMIMI

Só há muito pouco tempo suas exibições explícitas de machismo, racismo, misoginia, homofobia e agressividade em geral deixaram de ser vistas como mera aberração de um candidato-sem-chance.

Ainda que muitos analistas façam questão de tornar favas contadas a desidratação iminente de sua candidatura, a ameaça Bolsonaro é, de um modo crescente, tão grave à democracia, à sensatez e à civilidade quanto os episódios de violência contra a mulher que insistem em se repetir país afora.

Feminicídios – aqueles crimes nos quais o gênero da vítima é determinante para o delito – subiram 22% entre 2016 e 2017, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A taxa de feminicídio no Brasil é a quinta mais alta do mundo.

Não custa lembrar o que disse Bolsonaro sobre o tema, adornando seu vasto portfólio de declarações assombrosas: “Nós temos que acabar com o mimimi, acabar com essa história de feminicídio”. A frase é do ano passado, segundo a lembrança do jornalista Mário Magalhães.

Neste mês, ele disse: “Se uma pessoa matar o meu pai ou a minha mãe, eu vou me sentir triste de qualquer maneira”; “não tem que ter Lei do Feminicídio”. Como se o padrão não fosse companheiro matar companheira.

Para não mencionar o embate de Marina Silva com ele sobre as diferenças salariais que atingem homens e mulheres – o único bom momento de Marina nesta campanha.

O GÊNERO PODE CONTAR EM 2018

Na pesquisa do Ibope, Bolsonaro é o único dos oito primeiros colocados que não exibe no eleitorado feminino nem metade da intenção de votos que obtém no masculino. Ele colhe 13% entre as mulheres e 28% entre os homens, no cenário que Lula lidera. No Datafolha, tem 27% de intenção de votos entre homens e 12% entre mulheres.

Historicamente, as eleições presidenciais brasileiras costumam apresentar uma separação razoavelmente evidente entre o candidato dos mais ricos e o candidato dos mais pobres. Até hoje não existiu o candidato dos homens e o candidato das mulheres a ponto de decidir uma eleição.

Em 2018 isso é possível.

De maneira inédita, reafirme-se, a divisão de gênero pode ajudar a decidir uma eleição. Se hoje Bolsonaro exibe musculatura suficiente para ir ao segundo turno, o voto feminino pode tirar dele a intenção de instalar-se no Palácio do Planalto.

Os números explicam a possibilidade: as mulheres compõem 52,5% do eleitorado. Têm peso para fazer a diferença num segundo turno, especialmente num país em que o desemprego atinge mais mulheres do que homens (14,2% contra 11%) e o conservadorismo patriarcal estrebucha sua raiva e sua pequenice diante das vozes femininas contra a injustiça e a covardia.

* é jornalista e cientista político.

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Fatos da semana mostram que família Bolsonaro vai além dos estereótipos

Bolsonaro e filhos políticos se envolvem em constantes polêmicas nas redes sociais
Bolsonaro e filhos políticos se envolvem em constantes polêmicas nas redes sociais

O que caracteriza a extrema direita? Dentre outras está o empenho no isolamento de minorias como negros e gays, mas também no preconceito escrachado contra as mulheres.

Nos últimos anos, por meio de programas sensacionalistas da Rede TV e memes nas redes sociais, o bolsonarismo expressado pelo deputado federal Jair Bolsonaro ganhou tanta força que fez de seu maior ícone um candidato competitivo a ponto de ser líder nas pesquisas que excluem o nome do ex-presidente Lula.

Bolsonaro e seus meninos (o deputado estadual fluminense Flávio, o vereador carioca Carlos e deputado federal por São Paulo Eduardo) formam uma dinastia extremista cuja pregação nas redes sociais e em entrevistas repete chavões tão simplórios quanto nocivos à quem preza pela liberdade.

Quando a polêmica explode sempre fazem questão de negar que sejam homofóbicos, racistas e machistas. O recurso retórico da “brincadeira” é sempre a ferramenta verbal para justificar aberrações que se repetem.

Nesta semana, Jair Bolsonaro foi denunciado por racismo por se referir de forma jocosa a comunidades quilombolas. O filho dele, Eduardo, está enrolado em outra denúncia por crime de ameaça registrada por prints do aplicativo Telegram. O alvo era a jornalista Patrícia Lélis.

Os dois agora são alvos de ação da Procuradoria-Geral da República no Supremo Tribunal Federal (STF). Certamente seus apoiadores irão minimizar dizendo que ele não responde a escândalos de corrupção. Mas não custa nada lembrar que Bolsonaro admitiu desvio de finalidade do auxílio moradia para fins sexuais. Não deixa de ser corrupção.

No meio da discussão que se converteu em ação no STF, Eduardo Bolsonaro expôs toda a educação recebida do pai e respeito as instituições ao mandar Patrícia Lélis enfiar a “Justiça no c…”.

As falas e ações dos Bolsonaros tem ajudado na propaganda negativa e aos poucos a sociedade brasileira vai vendo que esse papo de “mimimi” e “vitimismo” não pode servir de justificativa para o preconceito nosso de cada dia.

Todo mundo pode dizer uma besteira ou se exceder em algum momento da vida, mas a família Bolsonaro já extrapolou todos os limites e isso ganha contornos ainda maiores quando se trata de uma extremista dinastia política.

Agora, os Bolsonaros irão entender que a Justiça (por mais desacreditada que esteja atualmente) não serve para ser enfiada em nenhum orifício corrugado.

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Caso de mossoroense atingida por golpes de tesoura abre uma pergunta: até quando vamos tratar violência contra mulher como “vitimismo”?

Meme ajuda a estimular justificativas para violência contra mulher
Meme ajuda a estimular justificativas para violência contra mulher

A professora Márcia Regina Fernandes Lopes foi vítima de 12 golpes de tesoura pelo marido Genildo Duarte. As perguntas sempre são: “qual o motivo?”, “ela traia ele?” ou a leviana e vazia afirmação “aí tem coisa!”.

O fato é que a violência sofrida por Márcia é reproduzida todos os dias em vários lares. Todos nós conhecemos alguma história de mulheres agredidas por homens e alguns tratam isso como “mimimi”, “vitimismo” ou usa frases feitas como “ela gosta de apanhar” para esconder um problema que deveria provocar revolta na sociedade.

Aprendi com minha saudosa avó dona Darquinha que em mulher não se bate nem como uma flor e isso ficou no fundo do meu inconsciente.

O combate à violência contra a mulher precisa ser levado à sério e receber a adesão dos homens conscientes do tamanho dessa covardia. Isso tem que ser ensinado aos nossos filhos como fez comigo a minha avó, mas as filhas precisam ser conscientizadas a resistir a qualquer tipo de discriminação por elas serem meninas. Sabemos que o preconceito já começa na infância.

Mas também precisamos reagir contra esse e qualquer outro tipo de violência. O que aconteceu com Márcia é revoltante pela covardia, mas, infelizmente, não é um fato isolado. Se reproduz em vários lares.

Nós homens que rejeitamos a violência contra a mulher precisamos censurar nossos amigos que praticam esse tipo de crime. A crítica nas rodas de amigos a frases como “dei uma ‘mãozada’ para ela baixar a crista” precisa ser motivo até mesmo para se desfazer amizades e de denúncia.

A tolerância à violência contra mulher entre os homens estimula que essa prática nefasta se perpetue. Precisamos fazer a nossa parte para que não tenhamos novas Márcias.

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