Cid falou verdades inconvenientes na hora errada e antecipa reflexão pós-eleitoral

Cid fala verdades na hora errada

Ganhou o mundo o vídeo em que o senador eleito do Ceará Cid Gomes (PDT) desafiou a militância petista a fazer um mea culpa e cobrou autocrítica pelos erros do PT no poder.

As verdades inconvenientes proferidas por Cid foram antecipadas, por coincidência, por este operário da informação durante a live do diário das eleições no Facebook de ontem.

O problema é que Cid não escolheu o momento adequado fazendo um discurso de adversário que faz o favorito nas pesquisas Jair Bolsonaro (PSL) vibrar. Dá até para desconfiar que foi proposital.

Mas o que importa é que o petismo tem muito a aprender com a derrota que virá no dia 28. Vai ter que fazer autocrítica sim.

Aqui pondero que não é só o PT que deve se autocriticar, mas os demais partidos. O PSDB afundou numa derrota humilhante no dia 7 de outubro. O MDB diminuiu de tamanho. O PP se esconde no ranço contra o PT, mas é o partido campeão no ranking da corrupção. O DEM deixou de ser partido grande faz tempo.

Poderia ficar o dia inteiro escrevendo sobre quem precisa fazer autocrítica, mas o foco é o PT. O partido é o mais cobrado pelo tamanho e representatividade que tem. Só os fanáticos bolsonaristas e antipetistas não conseguem enxergar avanços civilizatórios na era petista. Pegam 18 meses do governo Dilma cravam como se fosse o conjunto de uma obra de 13 anos.

É injusto.

O PT vai precisar rever a forma como se comunica para não repetir o erro tucano que não soube defender o legado de FHC. A vitória de Bolsonaro terá ele ocupando a mídia dia sim dia sim satanizando o PT como Lula fez com FHC.

Será um grande desafio encarar isso do outro lado balcão.

O PT terá que reorientar sua militância para que respeite quem pensa diferente no processo de reconquista da simpatia popular. A empáfia do esquerdista que se sente intelectualmente superior ao “jumentalizado” terá que ser revista.

É essa mágoa das discussões passadas que faz com que muitos topem arriscar conquistas trabalhistas, sociais e até mesmo pessoais votando em um candidato de perfil autoritário e imprevisível apenas pela satisfação de ver o PT derrotado.

Tem muita coisa a se refletir sobre o comportamento da esquerda nos próximos anos. Agora ela tem diante de si não um tucano sem base social, mas uma versão piorada de tudo que a direita poderia produzir e com algo inédito no outro lado do espectro político: base social.

O batido de Cid Gomes seria didático se não fosse na hora errada por favorecer o adversário.

 

 

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Qual é a única coisa que une os brasileiros e que o poder prefere esconder?

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Por Juan Arias

Será verdade que, como injustamente se divulga no exterior, os brasileiros estão divididos em tudo? Que nada é capaz de unir os cidadãos de um lado e do outro do arco político? Há dois brasis irreconciliáveis em tudo? A julgar pelos resultados da última pesquisa nacional do Datafolha, a resposta é não.

De acordo com essa pesquisa, quem aposta em um Brasil dividido em tudo deve se sentir frustrado. Existe um tema que vem incendiando a opinião pública nos últimos anos e que se intensificou com a condenação e prisão de Lula: o apoio à Lava Jato, cuja continuidade é defendida por 84% dos brasileiros. Apenas insignificantes 12% acham que deve terminar. O Brasil todo parece unido na luta contra a corrupção e contra as tentativas de “estancar a sangria”, sonho de tantos políticos e poderosos e até mesmo de boa parte do Supremo Tribunal Federal. Entre esses 84% que querem que a Lava Jato continue estão, por exemplo, 77% dos eleitores de Lula, algo que o PT, que acusa a Justiça de ser seletiva com seu partido, deveria explicar, se de fato a grande maioria de seus eleitores também defende essa cruzada contra a corrupção.

Outro dado importante de uma pesquisa anterior do Datafolha confirma que os brasileiros concordam, quase unanimemente, que a Lava Jato deve seguir seu caminho: em 22 anos, é a primeira vez que a corrupção é a maior preocupação do país. Não é a violência? Não. A corrupção já preocupava quatro vezes mais em 2015. E a educação? Também não. Preocupa quatro vezes menos que a corrupção. Não seria economia, ou o desemprego, a maior preocupação dos brasileiros? Não, a corrupção preocupa cinco vezes mais. E a saúde, a angústia das filas nos hospitais? Nem isso. A corrupção interessa duas vezes mais que a saúde.

Será que os pré-candidatos à presidência tomaram consciência de que a sociedade como um todo, pobres e ricos, continua a favor da luta contra a corrupção? E os governadores, senadores e deputados que pretendem ser reeleitos? Terão percebido os excelentíssimos magistrados do Supremo que a única coisa que parece unir os brasileiros é a luta contra a corrupção, e quase 60% defendem a prisão após condenação em segunda instância sem esperar pelos recursos a instâncias superiores? E que a grande maioria é contra o foro privilegiado?

Sabemos que mais de um magistrado disse não entender o que significa a voz das ruas e que lhes interessa mais a letra da lei que no seu espírito, que é o que deve ser levado em conta quando se trata de julgar indivíduos de carne e osso. Não é segredo que, no Brasil, antes da Lava Jato, a Justiça procurava ser humana e respeitosa com os condenados importantes, para quem a presunção de inocência deveria ser sagrada. O condenado sem nome tornava-se, por outro lado, um número frio e sem alma.

Um povo que foi capaz de metabolizar sem dramas nem tumultos a prisão de Lula e dos grandes industriais do país acusados de corrupção talvez seja mais solidamente democrático e socialmente mais saudável do que uma minoria exaltada se esforça para negar. Se for esse o caso, é uma injustiça grave apresentar, no exterior, um Brasil à beira de um descarrilamento democrático, um golpe militar ou uma guerra civil, como vi escrito em jornais sérios. É injusto porque é falso. O que o mundo deve saber é que, no Brasil, até os mais pobres estão mais preocupados com a corrupção dos poderosos do que com a própria economia, algo que só seria concebível em países com velhas raízes democráticas.

Às vezes, chego a pensar que este país pode até dar uma reviravolta na teoria de Murphy, segundo a qual “se algo pode dar errado, dará”. Talvez seja capaz de interpretar essa lei pessimista mudando-a para o lado positivo: “se algo pode dar certo, dará”. E se nas próximas eleições, apesar de todo o pessimismo, acabar, por exemplo, acontecendo o melhor?

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