Uma denúncia, um preconceito e a confissão de “culpa”

Quando era menino em Natal eu e meus amigos sonhávamos um dia ir no Senzala nas resenhas pós-pelada no campinho. A casa de show e serviços de acompanhantes até hoje povoa o imaginário dos natalenses.

Apesar das mudanças nos comportamentos, é difícil nos dias atuais conhecer um homem que nunca tenha frequentado uma “casa de recursos”.

A prostituição é uma realidade desde que o mundo existe tanto que leva a fama de a profissão mais antiga da humanidade.

Faço esse preâmbulo, ou nariz de cera como se usa no jargão das redações, porque Natal hoje foi sacudida com a notícia de que o filho do dono do mais famoso cabaré foi nomeado para cargo na Câmara Municipal por indicação do vereador Ranieri Barbosa (Avante).

Fora a piada pronta, já que as casas legislativas são sempre comparadas aos rendez-vous*, rolou uma pontinha de preconceito nesta história.

Se o rapaz tem qualificação para a função qual o mal que tem nisso? Repare: não estou questionando o trabalho dos colegas. É uma situação inusitada e o inusitado também é notícia.

O problema está reação das pessoas que já saíram por aí dizendo que o homem não poderia assumir o cargo por ser filho (e sócio) de uma casa de shows legalizada com CNPJ, inclusive.

Muitos dos que reagiram certamente já curtiram uma noitada no Senzala, mas nas redes sociais posam de defensores da moral e dos bons costumes.

Como se vê do inusitado a hipocrisia foi um pulo.

O presidente da Câmara Municipal sucumbiu a moral hipócrita quando na verdade deveria deixar o assunto de lado.

A não ser que o rapaz não tenha qualificação profissional para a função. Aí seria uma confissão de culpa.

*Rendez-vous é um termo que em francês significa encontro, encontrar alguém ou encontro marcado. No Brasil, os mais antigos usavam esta expressão para se referir a bordeis.

 

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