Orienta corona: Principais dúvidas de usuários do aplicativo estão relacionadas à sintomatologia, medicação e grupos de risco

Aplicativo pode ser acessado pelo computador ou celular – Foto: Cedida

Poucos dias após seu lançamento, o Orienta corona, aplicativo voltado para tirar dúvidas sobre o novo coronavírus e que permite teleatendimento, totalizou cerca de 3 mil acessos.

As principais dúvidas apresentadas por quem acessa à plataforma são sobre os sintomas, formas de proceder com relação ao isolamento social. É o que explica o gerente técnico da plataforma e pesquisador do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LAIS/ UFRN), Sedir Morais.

Ao acessar o site orientacorona.saude.rn.gov.br e concordar com a política de privacidade, o usuário tem acesso a uma série de informações, como dúvidas sobre a transmissão do coronavírus, sobre os sintomas, forma de proceder em relação ao isolamentos, cuidados a adotar em casa, informações sobre grupos de risco, uso de máscaras, cuidados com idosos, entre outros. Outra possibilidade é a teleorientação.

Sedir Moraes explica que a equipe de teleatendimento é composta por cerca de 50 pessoas. Esses atendimentos são realizados por estudantes de Medicina dos últimos períodos, orientados por profissionais. O acesso à equipe acontece em dois casos. Um deles é quando a pessoa apresenta sintomas, o outro, quando têm dúvidas que a plataforma sozinha não respondeu.

De acordo com Sedir Moraes, as informações dos usuários do autoatendimento e teleatendimento são armazenadas apenas se as pessoas chegarem ao final do atendimento.

Embora a plataforma tenha tido muitos acessos, o mesmo não acontece com o teleatendimento. A dúvida da equipe é se as pessoas estão satisfeitas com o atendimento inicial ou se não estão sabendo chegar até o final.

O pesquisador informa que a maior parte dos usuários são mulheres com idade entre 20 e 40 anos e as pessoas também têm buscado bastante informações sobre quais medicamentos utilizar e se estão inseridas nos grupos de risco.  Segundo ele, a resposta não faz referência a um medicamento específico, mas a medicações para dar alívio aos sintomas, no caso de usuários com sintomas leves.

Entre os usuários que apresentam sintomas, a maioria relata que se sente mal e apresenta sintomas como febre. Poucos têm falta de ar.

O sistema é integrado com o Faceponto, que também faz parte do ecossistema de informações disponibilizado no Portal Covid-19 e que serve para monitoramento de pessoas que estão em quarentena.

Além disso, Sedir Morais informa que existe uma articulação com a Secretaria Municipal de Saúde de Natal e , principalmente, com a Secretaria da Saúde Pública do Rio Grande do Norte (SESAP-RN) para, em caso de necessidade, realizar o referenciamento dos usuários às unidades de Saúde de Natal.

O pesquisador explica que o diferencial da plataforma é o contato humano. Ele espera que a plataforma se torne uma fonte de informação confiável.

No endereço Portal Covid-19, os internautas têm acesso a outros aplicativos e ferramentas com informações sobre o novo coronavírus.

Compartilhe:

Portal tira dúvidas sobre Covid-19 e possibilita teleatendimento a usuários do RN

Coordenador do LAIS, professor Ricardo Valentim destaca alguns dos recursos do portal – Foto Fotos Demis Roussos

Com o objetivo de possibilitar mais transparência sobre as informações referentes ao Covid-19 no Rio Grande do Norte, instituições do Estado lançaram hoje, 12, durante coletiva de imprensa realizada em Natal para atualização dos dados sobre o coronavírus, o portal Covid19.

O site é uma realização conjunta do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LAIS/ UFRN), Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva (NESC/ UFRN), Núcleo Avançado de Inovação Tecnológica do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (NAVI/IFRN) e da Diretoria de Gestão de Tecnologia da Informação do IFRN.

A plataforma já está no ar e pode ser acessada através do endereço eletrônico portalcovid19.saude.rn.gov.br.

O coordenador do LAIS e representante do Rio Grande do Norte no Comitê Científico de Combate ao Coronavírus no Consórcio Nordeste, professor Ricardo Valentim, explica que o objetivo é a transparência das informações.

“Isso é o reflexo de várias ações que têm como propósito principal a transparência. A gente entende que nesses momentos de crise um fator super importante para a população é a transparência com relação à informação. Nesse meio dessa crise existem várias questões caóticas que fragmentam a informação. Então, o objetivo do portal foi, isso a várias mãos, com vários cientistas da área da saúde, da área das tecnologias, das ciências humanas, aglutinar tudo isso em um único lugar”, explicou o professor Ricardo Valentim.

No portal, além das informações, existem vários serviços disponíveis à população.

O subcoordenador de Informação e Informática do Governo do Estado, Shander Pinheiro, explicou que o portal disponibiliza vários aplicativos para uso das secretarias e da população, boletins epidemiológicos, acesso de todas as informações de domínio público tanto para levar transparência sobre as secretarias como das finanças, entre outros recursos citados por ele.

Médica e pesquisadora Liane Ramalho explica como o ‘Orienta corona’ oferece teleatendimento – Foto: Demis Roussos

Um deles é o ‘Orienta corona’, um aplicativo construído diretamente para a população que está em casa e que precisa se manter em casa, como explicou a médica e pesquisadora do LAIS, Liane Ramalho.

O aplicativo disponibiliza espaço para tirar dúvidas sobre transmissão do coronavírus, sintomas, cuidados que devem ser tomados em casa, higienização das mãos, cuidados com os idosos que vivem na residência, entre outras questões. Além disso, o aplicativo oferece um caminho para levar o usuário a um teleatendimento.

A médica Liane Ramalho explicou que caminho deve ser preenchido quando o usuário estiver com algum tipo de sintoma relacionado a alguma síndrome gripal. “Ele foi construído pensando naquelas pessoas, inclusive, que têm comorbidade”, disse. Ao final do questionário, dependendo dos sintomas, a pessoa é encaminhada a um teleatendimento.

“Só para mostrar uma das grandes vantagens desse aplicativo que é a facilidade de acesso a um profissional de saúde”, disse Liane Ramalho.

Outro sistema destacado durante a apresentação do portal é o ‘Regula RN’, tecnologia desenvolvida junto com complexo de regulação de leitos da Sesap.

Entre os objetivos do sistema está a melhoria das informações referentes aos leitos hospitalares. “Primeiro melhorar a informação para a gestão, com relação à questão dos leitos”, explicou Ricardo Valentim.

Além disso, ele lembrou que hoje a informação é fragmentada e a ferramenta traz informações para uma única base de dados. A ideia é que até a próxima semana a tecnologia esteja funcionando. “O regula RN vai trazer para a sociedade transparência total com relação à questão dos leitos, das filas e tudo o que está acontecendo nesse contexto”, acrescentou Ricardo Valentim.

O portal traz ainda dados gerais sobre o monitoramento dos casos, comportamento social da população potiguar.

Outra ferramenta destaca por Ricardo Valentim é a trilha educativa para qualificar profissionais de saúde, através de nove cursos formulados através da colaboração de várias entidades.

Outras ferramentas devem ser integradas ao portal.

Compartilhe:

Alunos do Sesi/Mossoró criam aplicativo que torna mais ágil atendimento do Corpo de Bombeiros

Foto: arquivo pessoal

Cinco alunos de robótica da unidade do SESI de Mossoró (RN) desenvolveram um aplicativo para smartphones e computadores para reduzir o tempo de chegada do Corpo de Bombeiros ao local da ocorrência. O app “Boitatá” foi criado pela equipe Monxorós, que disputará a etapa nacional do Torneio SESI de Robótica da FIRST Lego League (FLL), no início de março, em São Paulo.

A ideia, segundo a equipe, é facilitar o trabalho de bombeiros e bombeiras. Com o aplicativo, o morador vai poder comunicar a situação de emergência para a central mais próxima, mostrando a geolocalização exata. “O bombeiro recebe o chamado já identificando o que é, se é enxame, se é incêndio, por exemplo, e recebe a localização real da pessoa, chegando mais rapidamente onde a pessoa está”, explica o técnico da equipe “Monxorós”, Leonardo Garcia.

Ainda em fase de testes, o Boitatá permitirá o cadastro de civis e bombeiros. Os civis, que são a população em geral, serão responsáveis pelas demandas que os bombeiros receberão. As ocorrências serão feitas pelo próprio celular e os bombeiros serão cadastrados pela central em que trabalham, recebendo os chamados pelo computador.

“O trabalho já foi testado com a corporação local e foi altamente elogiado”, orgulha-se Leonardo. O Boitatá foi utilizado inicialmente em celulares com o sistema operacional Android, mas já está sendo testado em aparelhos com IOS. Para os bombeiros, funcionará pelo computador.

A próxima etapa do app é tornar as demandas cada vez mais específicas. “Como ainda não temos acesso a sensores de altitude, temos uma caixa de texto para que o usuário consiga digitar o andar em que se encontra, caso esteja em um prédio. Tudo isso é baseado em estudos, mostrando que pessoas morreram devido ao curto tempo que o bombeiro tinha para encontrar o andar”, comenta o aluno Paulo Victor Barbosa dos Santos, de 16 anos, que garante que essa função trará mais agilidade às corporações.

A funcionalidade para detalhar o local do acidente de forma precisa está em desenvolvimento principalmente após estudos de casos famosos entrarem na lista de pesquisa dos alunos. Um dos mais recentes, envolvendo um incêndio fatal, é o dos jovens do centro de treinamento do Ninho do Urubu, do Clube de Regatas do Flamengo. Em fevereiro do ano passado, 10 jogadores da base, com idades entre 14 e 16 anos, morreram após um suposto curto-circuito no ar-condicionado do alojamento, localizado na cidade do Rio de Janeiro. Além das vítimas fatais, outros três adolescentes ficaram feridos.

“Nesse caso, os bombeiros demoraram cerca de 15 minutos para chegar ao local. Nesse episódio, como as crianças não sabiam que tinham que chamar os bombeiros imediatamente e só o fizeram depois de muitos já terem desmaiado, a gente baseia que o horário ideal para o salvamento é entre oito e 10 minutos, mas varia muito de caso para caso”, comenta Paulo Victor.  “A função do app é reduzir o tempo de chegada dos bombeiros ao local”, resume o estudante.

Homenagem
O nome da equipe dos alunos Paulo Victor Barbosa dos Santos (16), Evelyn Raquel Souza Bezerra (15), Hélio Valério Lima do Nascimento Filho (15), Israel de Castro Soares (16) e Mateus Gabriel de Melo Filgueira (15) faz uma referência aos índios Monxorós, que posteriormente inspiraram o nome da cidade de Mossoró. O aplicativo, batizado de Boitatá, também faz referência à cultura indígena – no folclore, Boitatá era uma cobra que apagava incêndios.

“Os nomes são homenagens para lembrar que os índios trabalham de forma sustentável e ecológica, não agredindo o meio ambiente. Dessa forma, eles já nascem em uma cidade inteligente”, contextualiza o técnico Leonardo Garcia.

A competição
O Torneio de Robótica FIRST LEGO League reúne 100 equipes formadas por estudantes de 9 a 16 anos e promove disciplinas, como ciências, engenharia e matemática, em sala de aula. Até 16 de fevereiro, haverá as disputas regionais. Os melhores times garantem vaga na etapa nacional, que ocorrerá em março, em São Paulo.

O objetivo é contribuir, de forma lúdica, para o desenvolvimento de competências e habilidades comportamentais exigidas dos jovens. Todo ano, a FLL traz uma temática diferente. Em 2020, os competidores terão que apresentar soluções inovadoras para melhorar, por exemplo, o aproveitamento energético nas cidades e a acessibilidade de casas e prédios.

O diretor de Operações do Departamento Nacional do SESI, Paulo Mol, ressalta que a elaboração dos projetos estimula a autonomia e o trabalho em equipe e contribui para a formação profissional dos alunos. “A questão do empreendedorismo é a base de todo o processo. Nesse torneio, uma das avaliações que é extremamente importante é a capacidade de empreender, de buscar coisas novas, de fazer com que o produto seja desenvolvido”, atesta.

Compartilhe:

As ‘leis tecnológicas’ do Pacote Anticrime

Por Ricardo Becker*

A pouco mais de um ano da implantação da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), sancionada no ano passado pelo então presidente Michel Temer e com início de vigência previsto para agosto de 2020, a legislação brasileira deve ganhar mais dois “itens tecnológicos” a partir da votação do Pacote Anticrime elaborado no início da nova administração federal pelo ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro.

O texto da proposta, que altera 14 leis dos Código Penal e de Processo Penal, das Leis de Execução Penal e de Crimes Hediondos, e do Código Eleitoral abrange a área da tecnologia em dois itens, cujos textos preveem facilitar o processo de coleta e armazenamento de dados em investigações criminais.

Uma das mudanças está no inciso XV do Artigo 185 do Código de Processo Penal, intitulado “Medidas para alterar o regime de interrogatório por videoconferência”. A nova redação permite “o interrogatório do réu preso por sistema de videoconferência ou outro recurso tecnológico de transmissão de sons e imagens em tempo real”.

A segunda alteração introduz os parágrafos 3º e 4º no inciso XVIII do Artigo 9-A da Lei de Execuções Penais. Basicamente, os novos textos avalizam a submissão de presos por crimes dolosos, em qualquer momento – desde a condenação, deslocamento à prisão ou durante o cumprimento da pena – à identificação de perfil genético com extração de DNA para a criação de um banco de dados, cujo conteúdo ainda incluiria “íris, face e voz, para subsidiar investigações criminais federais, estaduais ou distrital”. A sequência da redação concede, aos órgãos investigativos competentes, licença para a interceptação de comunicações em sistemas de informática com o uso de recursos pertinentes e softwares para averiguação de material suspeito armazenado eletronicamente, incluindo mensagens, e-mails, caixas postais, etc.

O que estamos acompanhando, nestes específicos pontos (não entrando na seara mais abrangente da reforma legislativa proposta por Moro) é uma modernização natural dos procedimentos tangentes à investigação, solução e posterior punição a crimes de qualquer natureza. Uma aprovação do inciso XV do Art. 185, por exemplo, diminuiria custos com deslocamento e escolta de presos até os locais onde devem prestar depoimentos a qualquer jurisdição.

Já a redação dos novos pontos do artigo referido na Lei de Execuções Penais traz consigo uma tentativa de oferecer, tanto à Justiça e ao Ministério Público, quanto às Polícias Civil e Federal, mais mecanismos para embasar seus critérios e fases de investigação e julgamento.

É importante salientar, porém, que a lei não tratará a nova forma de coletar dados como uma espécie de “invasão de privacidade”. A LGPD, inclusive, em seu Art. 11, Item II, deixa claro que o tratamento de dados é possível sem fornecimento de consentimento do titular em algumas hipóteses, tais como cumprimento de obrigações legais ou compartilhamento necessário à execução, pela administração pública, de políticas públicas previstas em leis ou regulamentos, entre outras possibilidades.

Para conseguir colocar em prática as novas leis, o Ministério da Justiça e da Segurança Pública precisa ser assertivo e implantar estratégias, controles e ferramentas capazes de processar e armazenar tais informações (temas também cobertos, mesmo que não detalhadamente, pela LGPD) como forma de preservar o sigilo ao qual todo cidadão tem direito. Os órgãos, porém, não podem se furtar de apresentar esclarecimentos pertinentes à população quanto à transparência das ações das instâncias envolvidas na resolução dos casos e da previsibilidade penal.

A incumbência da proteção dos dados sensíveis coletados pela nova Lei de Execuções Penais será do Poder Executivo Federal, e, em caso de vazamentos, exposição, comercialização ou qualquer outra falha (algo tangível frente aos problemas de privacidade e segurança apresentados por órgãos públicos e empresas nos últimos anos), deverá haver uma seriedade ainda maior na investigação e punição dos culpados, em todas as esferas legais possíveis.

A nós, interessados em um país melhor, fica a responsabilidade de acompanhar de perto o caminhamento e apreciação do Pacote Anticrime pelo Congresso. Se deputados e senadores acenarem positivamente, o Pacote Anticrime passa a vigorar e, então, teremos a real noção da eficiência das novas “leis tecnológicas”.

*É empresário da área de tecnologia

Compartilhe:

Os livros que sumiram do metrô de Londres, as redes sociais e a aceleração do tempo histórico com a revolução tecnológica e a internet

Pessoas trocam livros por celulares (Foto: autor não identificado)

Por Robério Paulino

Nas minhas idas diárias de Metrô até o centro de Londres para meu trabalho de pesquisa na universidade que me recebe, neste primeiro semestre de 2019, observo atenta e discretamente as pessoas, suas atitudes, seus costumes. Antes de vir para cá pela primeira vez, durante boa parte de minha vida, escutei que em um país culto como a Inglaterra as pessoas iam e voltavam do trabalho lendo livros no Metrô e nos ônibus. Era isso que esperava encontrar aqui. Que nada. Contei e contei muitas vezes e, numa média, percebi que hoje, aqui também, de cada 10 passageiros, entre 7 e 8 estão ligados em seus smartphones, até certo ponto alheios ao entorno, trocando mensagens com alguém do outro lado, lendo ou escutando notícias, vídeos, músicas. Alguns poucos leem esses jornais tabloides sensacionalistas de notícias, distribuídos gratuitamente na porta das estações, aqui muito comuns. Quero nesta carta dizer por que considero a Internet e as redes sociais uma pequena revolução, apesar de tudo que vemos também de negativo nelas.

Vi, no bairro onde estou morando temporariamente, Harlesden, um reduto de imigrantes humildes, indianos, árabes, asiáticos do leste, africanos, e muitos brasileiros, as coisas aparentemente mais contraditórias. Aqui tem de tudo, lojinhas e mercadinhos com produtos de todo o mundo, gente falando tudo que é língua. Muitas mulheres muçulmanas – e aqui existem muitas -, com seus véus ou hijabs, ativas e alegres falando em seus celulares nas suas línguas de origem, no que pode parecer um paradoxo. O centrinho comercial do bairro parece uma pequena 25 de março, em São Paulo, só que também com mercadinhos e lojas de produtos e fastfoods de tudo quanto é lugar do mundo, frutas vendidas nas calçadas, casas de jogos, com gente de tudo que nacionalidade, um pequeno mercado de Istambul. Como professor, fiz questão de procurar e visitar a escola infantil do bairro e percebi que mais de 2/3 das crianças são filhos de imigrantes, mas já inglesas.

Londres é uma cidade de fato mundial, com gente de todas as cores, raças, religiões, línguas, em todas as esquinas, especialmente na periferia. Tirando a barreira da língua, torna-se tão parecida com todas as grandes cidades do mundo e do Brasil. Do que vi no Metrô e no bairro, pensei comigo: como o mundo moderno está ficando cada vez mais igual, menor, interligado. Apesar do conservadorismo, de toda xenofobia, do fundamentalismo de direita, do racismo que vemos no continente e no mundo, com a globalização o caldeirão humano se mistura cada vez mais. E isso é bom. Fico pensando em como tudo tem mudado tão rapidamente desde que acordei para a vida consciente.

Mas vamos voltar aos celulares e às redes sociais. Mesmo na Europa, um ser humano do ano 1750, pela forma como se comunicava e se locomovia, em veículos puxados por animais e barcos a vela, estava tecnologicamente muito mais próximo de um habitante do Império Romano do que do seu neto em 1850, tamanha foi a transformação iniciada pela Revolução Industrial, que ligou um botão, iniciou um frenético e pela primeira vez ininterrupto processo de transformação tecnológica que mudou a face do mundo em tão pouco tempo. Quando Abraham Lincoln morreu nos EUA, em 1865, passaram-se 13 dias para a notícia chegar à Europa e possivelmente muito mais até o Brasil, pois as informações viajavam na velocidade dos veleiros que cruzavam os mares, não havia ainda cabos submarinos. Os navios a vapor estavam apenas engatinhando.

Hoje, com centenas de cabos de comunicação estendidos nos leitos dos oceanos e 5000 satélites girando aí em cima, se acontecer agora um terremoto no Japão ou na Bolsa de Londres, em 13 minutos todo o mundo estará sabendo. Depois que o primeiro avião atingiu uma das Torres Gêmeas em Nova Iorque, ainda em 2001, boa parte dos seres humanos, informados do atentado em questão de minutos, correu para frente das TVs em suas casas, escritórios ou lojas e viu o segundo avião bater na outra torre ou visualizou em tempo real o desabamento daqueles prédios. Por vezes, não nos damos conta de como tudo muda cada vez mais rápido.

O fato é que mundo é cada vez mais um só, integrado, uma Aldeia Global, termo criado pelo filósofo canadense Herbert McLuhan na década de 1960, que tinha como objetivo sugerir que as novas tecnologias eletrônicas e o progresso tecnológico tendiam a encurtar distâncias e reduzir todo o planeta a uma mesma comunidade, um único mundo, onde todos estariam, de certa forma, interligados com todos. O cientista social espanhol Manuel Castells, ao final da década dos anos 90, já no início da Internet para todos, também disse que temos hoje uma Sociedade em Rede. Quais têm sido e serão no médio prazo as consequências estruturais na sociedade humana e nas mentes de toda essa vertiginosa mudança?

O escritor inglês Aldous Huxley, impressionado com o que via ainda na década de 1960, chamou tudo isso de um Admirável Mundo Novo, no título de seu famoso livro, que li há quase 40 anos, ainda garoto, encantado. Vendo esse turbilhão de mudanças tecnológicas, que acelera também os processos físicos, socais, históricos, que dá ao ser humano um imenso poder e ao mesmo tempo encurta o tempo de tudo, que nos exige cada vez mais, nos enche de informações até o cérebro não suportar, que a tudo liquefaz, desfaz, como disse o pensador Zigmunt Bauman, fico imaginando, sonhando, aonde iremos como espécie neste novo milênio, se não nos destruirmos antes? Aonde acabará tudo isso? Até onde irá a humanidade? Pena que nossa vida seja tão curta e não possamos acompanhar a saga humana pelos próximos séculos.

A comunicação em tempo real por aparelhos eletrônicos através da Internet e das redes sociais virou uma febre, uma tentação difícil de resistir, incorporada ao modo de vida e trabalho diário, e que está alterando o próprio ethos humano, afastando, mas ao mesmo tempo, contraditoriamente, aproximando as pessoas. Também acelera todos os processos produtivos e sociais. As empresas de todo porte as usam em todos os seus processos intrafirmas. Aparentemente, conversamos cada vez menos com quem está próximo, mas ao mesmo tempo nos ligamos cada vez mais com mais pessoas, com quem está longe ou em fontes de informação que selecionamos, através das redes sociais e aplicativos.

Há apenas 30 anos, os únicos que portavam um equipamento de comunicação portátil eram alguns soldados ou técnicos de empresas, com um aparelho pesando alguns quilogramas e uma antena imensa. Lembremos que o rádio em massa e a TV chegaram mundo e ao Brasil há apenas 60 ou 70 anos. Os primeiros computadores pessoais para o cidadão comum, que hoje parecem coisas de museu, e a Internet para grande massa das pessoas, só existem de meros 25 anos para cá. Quando surgiram, há apenas 20 anos, os celulares mais antigos só faziam ligações para outros aparelhos, pesavam quase 1 Kg, não tinham acesso à Internet, além de serem caríssimos para a maioria.

Os celulares e smartphones têm apenas 10 anos – já estamos tão acostumados com eles que às vezes esquecemos disso -, mas hoje já existem 6 bilhões deles, uma vertigem, até mesmo na mais isolada aldeia africana, na Sibéria ou na selva amazônica. Quase todas as empresas e grande parte das residências já têm um aparelho de Internet sem fio. Tais aparelhos e os computadores vêm mudando consideravelmente o modo de vida humano. Com eles, a mais simples das pessoas pode hoje acessar um site ou conversar instantaneamente com a família ou amigos do outro lado da cidade, do país ou do mundo a qualquer hora, fazer compras em lojas, operar sua conta bancária, monitorar sua casa ou seu filho na escola, receber imagens ou ver filmes, fazer reuniões eletrônicas com pessoas que estão há milhares de quilômetros etc. Um poder considerável se bem usado. E tudo em tão pouco tempo. Que diferença do tempo em que se esperava até meses por uma carta para saber notícias, há apenas meio século, quando o tempo demorava a passar. Hoje é o cérebro que mal consegue acompanhar o ritmo frenético das coisas. Quais estão sendo e serão as implicações mais profundas dessa mudança para a sociedade humana nas próximas décadas?

Bauman e especialmente o pensador italiano Humberto Eco, por exemplo, morreram pessimistas com o que viam, enxergavam em tudo isso, a meu ver, um problema, pois que tais inovações estariam também, segundo eles, liquefazendo os valores positivos que dão coesão à sociedade, o caráter, fragmentando o pensamento mais reflexivo. Há também outros autores que veem um sentido negativo em tudo isso, dizendo que, com o advento da Internet e das redes, estaríamos começando a viver em realidades paralelas, em ambientes apenas virtuais, com o ser humano perdendo sua sensorialidade, seu contato com o mundo real. Outros chegam a afirmar que o caminho das redes sociais é o da imbecilização e massificação da população mundial, que passaria a viver em uma realidade distópica, em telas e mais telas, distante do real.

Tenho cá minhas dúvidas sobre todas essas visões, que considero exageradas. Não deixo de ver esses riscos, mas quero aqui mostrar também o lado progressivo de tudo isso. Confesso que sou um entusiasta da revolução tecnológica, da Internet e das redes sociais. Vejo-as como um processo muito contraditório sim, mas ao mesmo tempo como instrumentos extremamente transformadores, pois estão dando às pessoas comuns um fenomenal poder de comunicação, informação e interação absolutamente inimagináveis para elas há algum tempo. Um poder que um ser humano do ano 1900 ou mesmo 1950, por mais rico ou visionário que fosse, sequer podia sonhar. Por isso os governos ditatoriais, como na China, sabedores desse potencial, monitoram, limitam e censuram as redes sociais, porque as veem também como um grande perigo. Mesmo nos EUA, não nos enganemos, se um dia precisarem, por se se sentirem ameaçados, desligarão o botão da Internet e das redes sociais ou bloquearão metade de seus usuários.

Avalio também que esse processo está de fato quebrando o monopólio da informação na mão dos grandes grupos de comunicação e dos governos. E isso é bom. As maiores fontes de informação continuam nas mãos de grandes empresas capitalistas de comunicação, sem dúvida, que são conservadores. Mas por outro lado, jornalistas e cidadãos comuns criam e mantém milhões de sites, páginas e blogs independentes, que vão democratizando a informação em tempo real, quebrando aqueles monopólios. É um processo incompleto, claro, porque muito recente, mas progressivo e em andamento. Não é à toa que muita coisa que vemos hoje nos grandes telejornais já vimos antes em sites e blogs de notícias e nas redes sociais e aqueles grandes meios já não podem esconder muita coisa. Os grandes telejornais, na maioria das vezes, veiculam notícias já atrasados em relação às redes.

Bilhões de pessoas seguem páginas, sites, ou estão em grupos de discussão, interagindo, se informando, recebendo mensagens e notícias dos amigos quase em tempo real, lendo mais, pensando mais, tomando contato com versões opostas, com o contraditório, sobre os distintos assuntos. Um turbilhão, que arrasta a todos para dentro, sobre todos os assuntos. E isso faz avançar o pensamento, penso. Um único fato importante é compartilhado milhões de vezes em todo país e mesmo no mundo em questão de poucas horas. Lembremos que o conservadorismo, o obscurantismo, sempre se apoiaram na escuridão, nas trevas, na ignorância das pessoas, na desinformação. E a informação cria luz, ilumina.

Hoje uma simples criança pode pesquisar e saber de qualquer assunto nos mecanismos de busca. Cegonhas já eram. Os computadores, celulares, sites e as redes sociais têm dado às pessoas a oportunidade de fugir do pensamento único, potencialmente saberem sobre tudo, se quiserem. Os retrocessos temporários no pensamento das massas que vemos nos países e nas redes não são culpa dessas tecnologias em si, mas decorrentes de outros fatores, como nosso passado de incultura e ignorância, que não conseguimos superar, da publicidade massificante das grandes empresas, cujos únicos valores são o consumo e a aparência, e da confusão política criada pelas atitudes erradas das lideranças e grupos políticos.

Humberto Eco, a quem muito admiro e nos deixou a poucos anos, chegou a dizer que as redes sociais deram voz a uma multidão de imbecis, sugerindo, pelo que se pode entender, que são um problema. Prefiro ver de outra forma. É obvio que há muita coisa de ruim nas redes, ideias equivocadas, ódio, fundamentalismo conservador, mentiras, maldade, insultos de toda ordem, banalidade. Mas as ideias conservadoras e maléficas não são criadas pelas redes sociais nem como decorrência delas. Máquinas não criam ideias. Isso tudo que vemos surgir de errado nas redes sociais hoje, o conservadorismo, o ódio, o obscurantismo, a xenofobia, o racismo, as fake news, a futilidade, já existiam, estavam ai; as redes apenas destaparam o lado mais obscuro da mente humana, ampliando sua difusão. Mas por outro lado, a tecnologia e as redes também nos dão a oportunidade de enfrentar essas ideias equivocadas, fazer o contraponto, e chegar a milhões instantaneamente, o que antes era impossível. A questão é que os setores de direita também têm sabido usar muito bem esses mecanismos, às vezes bem melhor que as esquerdas ou os movimentos progressistas.

Além disso, a proliferação de ideias conservadoras, o retorno de governos de direita em vários países, não são explicados pelo advento da Internet e das redes sociais, mas em grande medida pela decepção dos povos com governos de esquerda ou com aqueles que se esperava fossem de fato progressistas, que frustraram suas expectativas, levando as pessoas a os castigarem, elegendo seus adversários conservadores mais duros. Contra a esquerda pesa também até hoje, em todo mundo, o véu pesado do colapso das experiências socialistas no Leste Europeu, o que dá um argumento poderosíssimo ao conservadorismo, assunto que a esquerda ainda não enfrentou ou se nega a passar a limpo.

O que explica o rebaixamento da cultura hoje, o conteúdo banal das músicas que exercem fascínio sobre milhões, a superficialidade, a imensa confusão, a corrosão do caráter, o desinteresse de grande parte da juventude pela política, que vemos também nas redes, não é seu advento em si, mas a deficiência de nossa educação, a moral consumista e imediatista do capitalismo já em decadência, a desilusão com a política e também o imenso desgaste da ideia de uma sociedade alternativa ao capitalismo, para lembrar nosso velho Raul Seixas, com a consequente erosão dos valores sobre os quais ela se assenta, criado em parte pelas frustrações com as experiências que se propunham superiores.

O que levou Trump ao governo nos EUA foi de certa forma a decepção e o voto de muitos setores da população norte-americana, inclusive de trabalhadores negros e da juventude, pobres, com Obama. Toda expectativa com seu governo foi em grande medida frustrada. O que dá força ao conservadorismo no Brasil de hoje não são as redes sociais, mas a frustração de grande parte da população com os governos de esquerda recentes. Enquanto as esquerdas e movimentos progressistas não passarem tudo isso a limpo e não souberem reconhecer de forma autocrítica perante as populações onde erraram, ficará mais difícil virar o jogo.  Não basta a esquerda criticar o erro dos eleitores de direita se não sabe reconhecer os seus próprios. Novamente, portanto, devemos perceber que o problema não são a comunicação cada vez mais rápida e as redes sociais, mas o que se comunica nelas.

Evidentemente, não nego, que o vício das redes sociais são um grande risco à fragmentação do pensamento, para nos afastar de uma atitude mais reflexiva e profunda, da leitura paciente e compreensiva de um bom livro ou texto. Esse é um perigo maior, por exemplo, para as crianças, que não querem desgrudar dos jogos nos tablets. Quem tem filhos sabe do que falo. Mas o pensamento pouco reflexivo e tendente a esse vício também não é culpa das redes sociais e da tecnologia, mas de uma educação que não imponha regras.

Esse risco se resolve de outra forma, com disciplina, horários determinados para cada coisa em nossa vida, tempo certo para o trabalho, para o estudo e a leitura, para o lazer, atividade física, necessidade de informação etc., reduzindo a exposição ao vício das redes sociais. Muitas escolas obrigam os alunos a colocarem de lado os celulares na entrada da escola ou da sala de aula. Pais estabelecem horários para cada coisa às crianças. Como vemos, mais uma vez, o problema não são as redes, mas sim como nós planejamos e o que fazemos com nosso tempo. Talvez os ingleses já não leiam livros no Metrô de Londres porque podem ter concluído que é melhor ler em casa com calma do que no balanço dos trens, sendo mais eficaz aproveitar o tempo de viagem para se informar e comunicar, o que também é uma necessidade. Ou porque avaliem que podem aprender tantas coisas no que leem nas redes quanto nos livros.

A luta por uma sociedade melhor, baseada em outros valores como solidariedade social, igualdade, justiça, paz, segurança, com o que muitos de nós sonhamos, não será decidida pelas redes sociais, mas pelas ideias que propagamos nelas e especialmente pelas lutas sociais, se soubermos conquistar as mentes humanas para a melhor alternativa. As Internet e as redes sociais são, nesse sentido, apenas ferramentas poderosíssimas de informação, de acesso a muitas pessoas, de esclarecimento e empoderamento social, de integração, se soubermos usá-las a serviço das ideias e fins corretos. Hoje cada um de nós pode falar com 100, 200 ou milhares de vezes mais pessoas em um único dia do que falávamos há apenas 15 anos.

O problema é que tudo ainda é muito recente e não acontece no ritmo que queremos, apesar de as coisas mudarem cada vez mais rapidamente. Além disso, os donos dessas grandes redes sociais tentam limitar cada vez mais o alcance das publicações. Governos censuram as redes. Também há uma guerra de versões entre os opostos políticos. Mas com a revolução tecnológica, a Internet e as redes sociais, inexoravelmente o tempo histórico de tudo se acelera, ao contrário do que avaliam os mais pessimistas. As experiências com ideias e governos, por exemplo, serão feitas cada vez mais rapidamente. O desgaste do novo governo no Brasil, com apenas poucos meses, é um exemplo da aceleração dos processos em que as redes sociais contribuem e muito. A atual guerra nas redes politiza o país e não deixa quase ninguém de fora, envolve a quase todos. O desfecho de para onde irão os países e a humanidade, se para o bem ou para o mal, para uma sociedade melhor ou de volta para a barbárie – risco que não está afastado, não será decidido pela existência em si das redes sociais. O resultado de tudo isso está em aberto. Vai depender antes de tudo das ideias que nelas propagamos, de ousadia e das lutas sociais

Obviamente, esta profunda transformação tecnológica e do modo de vida ocorre dentro do sistema da capital, que de tudo se apropria para obter lucro. As empresas produtoras de smartphones e computadores não os produzem para o bem das pessoas e da sociedade, mas para seus ganhos. Microsoft, FACEBOOK e outras gigantes da informática são empresas capitalistas. Paralelamente a toda essa transformação tecnológica, com o capitalismo em seu regresso ao liberalismo mais radical, há também um processo de rápida reconcentração de renda e riqueza no mundo, com uma volta do crescimento da pobreza, inclusive nos países centrais. Mesmo as classes médias dos EUA e da Europa estão descendo a ladeira rapidamente em sua renda real e seu nível de vida. Eu nunca esperava encontrar tantos mendigos como vi aqui em Londres.

Não é este sistema que estou defendendo; pelo contrário somos muito críticos e lutamos contra isso. Do que falo aqui é que por dentro de todo esse sistema social avassalador, desse turbilhão estonteante, há também elementos extremamente contraditórios e progressivos que podem ser aproveitados. Em minha modesta opinião, a Revolução Tecnológica e das comunicações, com a informação sobre quase tudo em tempo real, os mecanismos de busca, as redes sociais, é um deles. Ela está ajudando a dissolver o velho mundo e seus pilares. O que vemos de ruim hoje são antes de tudo reações conservadoras a esse movimento, como foi a Inquisição em seu momento. Mas o mundo seguiu em frente. Para que lado iremos, dependerá de nós.

Os seres humanos que sofreram ou perderam a vida na Idade das Trevas, na Inquisição, nos campos nazistas ou em ditaduras sanguinárias viveram em momentos muito mais difíceis e piores que o tempo histórico que nos corresponde viver. Mesmo assim, a humanidade terminou por superar aqueles tempos obscuros e de sofrimento, achando uma saída. Com todas as contradições e confusão que ainda vemos hoje, devemos acreditar que a inteligência, a capacidade de reflexão e a bondade humanas poderão superar nosso lado bárbaro, o ódio e a irracionalidade, abandonando as ideias e sistemas sociais que geram desigualdade e sofrimento, achar um caminho certo. Já fizemos isso outras vezes. O caldeirão humano está cozinhando. Mesmo sabendo de todas as suas limitações e contradições, especificamente no que toca à Revolução Tecnológica, a Internet e às redes sociais, demos boas-vindas à nossa Aldeia Global, à Sociedade em Rede, a esse Admirável Mundo Novo.

Londres, 27/04/2019

 

Compartilhe:

Entidade lança aplicativo para coleta de lixo reciclável

O Sindicato de Reciclagem e Descartáveis do RN – Sindrecicla lança na próxima semana o aplicativo RecicleJá, voltado para aproximar empresas recicladoras de geradores de resíduos recicláveis. O lançamento acontece no Espaço Cultural Candinha Bezerra, na Casa da Indústria, no próximo dia 16, às 8h.

Serão apresentados os recursos, benefícios e diferenciais do app RecicleJá para os usuários. O objetivo do aplicativo é conectar escolas, associações, condomínios de demais geradores de resíduos recicláveis com empresas de reciclagem.

O  RecicleJá foi desenvolvido através do Programa de  Apoio à Competitividade das Micro e Pequenas Indústrias – PROCOMPI, através do IEL/RN e já está disponível para download  pelo Google Play (Android) e App Store (IOS).

Compartilhe:

O WhatsApp está nos deixando mais burros

whatsapp-montagem

Por Rodrigo Ratier

Em Desconstrução

O vídeo é caseiro e o senhor de paletó desalinhado está enfurecido. Entre um perdigoto e outro, chama os políticos de “canalhas”, “calhordas”, “desgraçados”. Diz que 200 milhões de “pessoas de bem” podem passar por cima do Congresso na hora em que quiserem.

– Quem é?

– Sei lá. Parece que é um empresário de Santa Catarina. Compartilhei porque é exatamente o que eu penso.

***

Áudio de suposto general convoca o “povo brasileiro” a ir para a frente do Palácio do Planalto na noite do dia 30. Quando der oito horas do dia 31, o Exército vai depor Temer (que mora no Jaburu) e fazer a intervenção militar.

– Verdade?

– Esse amigo meu só me passa coisa quente.

***

Gente, tá tendo o maior quebra-pau na Câmara! O Temer, a pedido do Rodrigo Naia [sim, Naia], decretou estado de sítio. Os deputados estão saindo na porrada. O Exército foi convocado. A TV não está passando. Assistam o vídeo [de uma briga antiga no Congresso].

– É sério?

– Isso a gente não vê na Globo!

***

Entre as coisas que a greve dos caminhoneiros nos mostrou, uma das mais evidentes foi o poder do WhatsApp. O onipresente aplicativo de troca de mensagens foi fundamental para a organização do paradão, além de funcionar como epicentro das mais variadas abobrinhas. Batalhões marchando sobre Brasília. Generais (sempre eles!) mandando estocar o que fosse possível. PCC ordenando toque de recolher – ou, em outras versões, incentivando que a criminalidade aproveitasse o caos para tocar o terror. Tudo “documentado” por áudios e vídeos que “provam” essas e outras revelações sensacionais, como as destacadas no início do texto.

O mais impressionante é que as pessoas acreditaram. Se não inteiramente, ao menos em parte. Se não em parte, ao menos para ficar com uma pulga atrás da orelha e aquela sensação de “Seráááá?”, que faz descrer de todo o resto, mesmo das informações corretas. Aconteceu na greve, mas tem sido uma constante. O popular “Zap Zap” é, cada vez mais, um monumento à burrice. Sua ação potencializa tanto caricaturas como os terraplanistas quanto interpretações equivocadas da realidade.

Exemplo recente: o aplicativo ajudou a propagar, entre grupos de caminhoneiros e na sociedade em geral, a ideia de “intervenção militar constitucional” – o Exército, amparado pela lei, tomando o controle do país por um tempinho e varrendo os corruptos até as próximas eleições, quando o poder seria devolvido aos civis. Em artigo na Folha de S. Paulo (disponível aqui para assinantes), Conrado Hübner Mendes e Rafael Mafei Rabelo Queiroz, professores da Faculdade de Direito da USP, esclarecem que a Constituição não prevê nada parecido. Qualquer atuação das Forças Armadas precisa ser requisitada por representantes eleitos. Outra rota, como a ocorrida em 1964 (intervenção “pontual” que durou 21 aninhos), é golpe. Por sua própria natureza, o WhatsApp não permite esse tipo de contraditório. Não é uma praça pública digital, como o Facebook, antes do reino do algoritmo e suas bolhas ideológicas, um dia ambicionou ser. O WhatsApp é desde o berço um condomínio fechado, um clube restrito, uma rodinha de amigos que se reforçam em suas crenças (maluquices? preconceitos?), fofocam, conspiram. Um ambiente em que a disputa por atenção privilegia o que parece espetacular, secreto, exclusivo, sensacional. Terreno fértil para boatos, distorções e mentiras de todo o tipo.

(Sim, estamos falando de notícias falsas e seus parentes. Fico pensando na primeira pessoa que teve a ideia de publicar uma notícia falsa na internet. “Vamos ver se consomem esse lixo”, pode ter dito – o risinho vilanesco fica por sua conta. Não só consomem lixo como acreditam nele. Não só acreditam como compartilham. Não só compartilham como produzem mais lixo, num moto-perpétuo de desinformação com consequências muito ruins para a sociedade.)

A informação existe para que as pessoas possam tomar decisões em suas vidas. Quando a informação é de má qualidade, as decisões também serão. Pessoas passam a agir com base no pânico, na paranoia, em perseguições, conspirações e outros tipos de sentimentos com pouco amparo na realidade. Tudo isso pode ser, e vem sendo, explorado por gente com interesses políticos e econômicos que lucram com o estado de permanente confusão.

É chocante a credulidade das pessoas em relação a esse tipo de lorota. Escancara que não fomos educados para ler notícias. Num passado recente, o grande temor era que os meios de comunicação pudessem, com suas sofisticadas estratégias discursivas, “manipular” as pessoas. Saudades desses tempos ingênuos. O que não poderíamos imaginar é que as pessoas estivessem tão desequipadas para checar rudimentos do jornalismo, como autoria, data de publicação e procedência, além de não perceberem a diferença entre informação e opinião (nota: o problema atinge ricos e pobres, jovens e velhos, homens e mulheres).

A solução passa pela educação, e tudo que segue esse caminho demora muito tempo para dar resultados. Ou seja, só teremos boas notícias lá para a frente, e isso se a gente se esforçar e começar a trabalhar desde já para reverter esse quadro. No curto prazo, seguiremos mergulhando no abismo da ignorância. Vêm eleições por aí e… Aliás, será que vêm mesmo? Porque eu li no WhatsApp que…

Compartilhe: