Mais ideologia. Menos fisiologismo: porque é preciso conhecer o candidato antes de votar

Só não se sente representado quem vota num candidato sem conhecer suas ideias

Por Bruno Barreto

Via de regra nossos eleitores não se importam muito com eleições para o parlamento. Votam por simpatia, por sugestão de um amigo interessado na eleição do candidato, por orientação de algum líder político, etc…

Nunca se busca um candidato a deputado, vereador ou senador pelas ideias que ele defende. Na campanha eleitoral os postulantes não fazem muita questão de expor as ideias até porque quanto menos se comprometer mais liberdade terão nos respectivos mandatos.

O resultado disso é que a cada quatro anos elegemos candidatos fisiológicos, muitos deles se pautando pela compra de votos.

Aí depois reclamamos dos deputados e senadores que votaram a favor das reformas impopulares de Michel Temer, dos que livraram a cara do presidente ou deram aval ao impeachment da presidente Dilma Rousseff (para quem achou ruim a decisão, claro).

É preciso, antes de tudo o eleitor aprender a votar com consciência e desprendido de interesses pessoais ou de terceiros.

Não adianta vir com esse papo furado de que ideologia não existe. Esse argumento revela preguiça intelectual e indisponibilidade para o exercício da reflexão sobre a política.

Pessoas que são a favor de igualdades de direitos, do Estado como indutor do desenvolvimento econômico, liberalidade nos costumes ou de programas sociais tende a votar num candidato de esquerda.

Pelo menos deveria ser assim para depois não se lamuriar nas redes sociais que “perdeu o voto”.

Perdeu nada.

Foi vítima da própria desinformação e preguiça reflexiva de avaliar a postura dos candidatos e as ideias que eles defendem.

Agora se você é conservador nos costumes, entende que o Estado não deve intervir na economia e acha que as desigualdades serão reduzidas naturalmente sem a necessidade de programas sociais para isso seu caminho é votar em um candidato de direita e defensor do liberalismo econômico.

Se você não se informa e mesmo pensando assim vota num candidato com ideias opostas a culpa não é do candidato.

É da sua preguiça intelectual.

Precisamos entender que a política não se move apenas por corrupção, compra de votos ou acordos espúrios. Há ideias no meio de disso e muitas vezes os meios para se chegar aos fins ideológicos passam pelas sujeiras que nós costumamos assistir e ler no noticiário.

Se o eleitor votasse consciente ele obrigaria os candidatos a assumirem posições claras antes de chegar ao parlamento tornando mais difícil as tentações fisiológicas. Afinal de contas a política não mudará apenas com a troca de políticos, mas com o exercício do controle social sobre nossos representantes.

Um candidato ideológico tem a carreira pautada no voto de opinião que lhe deixa refém das cobranças do próprio eleitorado. O fisiológico só se importa com um exército de prefeitos de pires na mãe em busca de emendinhas chinfrins que servem como paliativos em gestões sofríveis.

Um candidato de viés fisiológico se lixa para a opinião pública. Ele vai atuar de acordo com os próprios interesses sem se importar com as cobranças porque entende que a “fatura” foi paga quando comprou seu voto nas eleições.

Só com a escolha ideológica faremos a qualidade do parlamento melhorar tirando espaço dos candidatos fisiológicos do chamado “centrão” que são sempre da base governista. O debate ficaria mais restrito ao campo das ideias com os políticos a toda tendo que se explicar sobre o que dizem e defendem.

Lembre-se: a direita privilegia a eficiência econômica. A esquerda privilegia a redução das desigualdades. Ambas as ideologias possuem muitas variáveis significativas. Não há um combo de ideias pronto e acabado como muitos radicais de lado a lado rosnam nas redes sociais.

Deem a mesma atenção as eleições proporcionais que damos aos pleitos majoritários para depois poder dizer que se sente representado num parlamento.

A política seria mais interessante com mais ideologia e menos fisiologia.

Abaixo deixo o clipe da música “Ideologia” do genial Cazuza.

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