Os fatores nacionais que influenciam na escolha dos governadores

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Lilian Venturini

Nexo Jornal

Há muito em jogo na decisão do eleitor ao votar em seu candidato ao governo estadual, um dos cargos que estarão em disputa nas eleições de outubro de 2018. E muitos dos fatores que influenciam essa escolha vêm do cenário nacional, indo além de questões diretamente ligadas às atribuições do chefe do Executivo estadual.

A relação entre o plano nacional e as eleições regionais foi identificada no estudo “Como os brasileiros escolhem os governadores? Desvendando as razões do voto para os executivos estaduais no Brasil em 2014”, a partir de dados da mais recente disputa.

A pesquisa foi desenvolvida por Oswaldo do Amaral, professor do programa de pós-graduação em ciência política da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), e Marcela Tanaka, pesquisadora do Grupo de Estudos de Política Brasileira da Unicamp. O estudo integra um projeto mais amplo, intitulado “Organização e funcionamento da política representativa no estado de São Paulo (1994 e 2014)”, realizado nos últimos cinco anos.

Investigar o comportamento do eleitor e o que o faz optar por esse ou aquele candidato é tema corrente e ao mesmo tempo complexo, seja no campo da ciência política ou da psicologia social. Há estudos que apontam desde questões ideológicas até o passado dos candidatos como critérios de escolha.

Amaral e Tanaka observam que há poucos estudos voltados especificamente para governadores, gestores públicos que têm entre suas atribuições principais a elaboração de políticas nas áreas de segurança pública e transporte metropolitano, além de participação nas áreas de saúde, educação e moradia.

Os governadores em 2014

Para desenvolver a pesquisa, os autores partiram de hipóteses testadas em estudos semelhantes feitos anteriormente no Brasil e em países como Argentina, Estados Unidos, Canadá e Alemanha.

São pesquisas que procuraram observar se a escolha por um candidato foi influenciada, por exemplo, pela situação econômica do país, pela preferência partidária e pela escolha do nome presidencial, cuja votação ocorre no mesmo momento.

Os autores analisaram informações das eleições de 2014, em que 162 candidatos disputaram uma das 27 cadeiras para o comando de governos estaduais e do Distrito Federal.

Os autores levaram em consideração pontos relevantes tanto sobre as eleições de 2014 quanto sobre os sistemas eleitoral e partidário brasileiros.

Pontos importantes

POLARIZAÇÃO

A campanha daquele ano ficou marcada pela disputa entre PT e PSDB, partidos que protagonizam as eleições desde 1994. Em 2014, a petista Dilma Rousseff foi reeleita no segundo turno, derrotando, por margem pequena de votos, o senador tucano Aécio Neves.

MUITOS PARTIDOS

O alto número de partidos (35 atualmente) e a possibilidade de coligações entre as legendas conferem características peculiares às disputas estaduais, já que nem sempre as alianças locais são as mesmas no plano nacional. Em 2014, por exemplo, o MDB, que ocupava o posto de vice na chapa de Dilma, com Michel Temer, aliou-se a legendas opositoras ao PT em disputas estaduais.

A repartição dos votos

Os candidatos a governadores que mais receberam votos em 2014 eram filiados ao PSDB, MDB, PT e PSB. Somados, esses partidos obtiveram 80% dos votos válidos em todo o país. Foram deles também o maior número de eleitos. PT, PSDB e MDB venceram em estados mais populosos. O PT, por exemplo, saiu vitorioso em Minas e na Bahia. O PSDB em São Paulo e o MDB, no Rio.

O VOTO NOS ESTADOS

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Fatores de influência

Os pesquisadores usaram dados do Eseb (Estudo Eleitoral Brasileiro) de 2014, realizado pelo Cesop (Centro de Estudos de Opinião Pública), da Unicamp, em parceria com o instituto Ibope. A pesquisa considerou informações coletadas por meio de 2.506 entrevistas com eleitores realizadas entre 1º e 19 de novembro de 2014.

A análise se baseou entre eleitores que votaram em candidatos a governadores do PT, PSDB e MDB no primeiro turno. Esse recorte foi proposto por terem sido as legendas com mais candidatos, com mais votos e em razão do papel desempenhado no cenário nacional: PT era o partido que estava no comando da Presidência (com Dilma); PSDB era o principal opositor ao governo federal e o MDB era o principal aliado governista.

Para identificar quais fatores poderiam influenciar mais ou menos a escolha do eleitor, os pesquisadores cruzaram respostas dadas nas entrevistas a perguntas como:

– “A atual situação econômica do Brasil está melhor, igual ou pior do que há 12 meses?”

-“Nos últimos três anos, o(a) sr(a). ou alguém que vive em sua casa foi beneficiário (recebeu) do programa Bolsa Família?”

-“O governo da presidente Dilma Rousseff nos últimos quatro anos foi ótimo, bom, ruim ou péssimo?”

– “Em quem o(a) sr(a). votou para presidente no primeiro turno?”

-“Qual o partido o(a) sr(a). gosta?”

Preferência partidária

Os pesquisadores identificaram que a identificação do eleitor a um partido tem influência semelhante à verificada na disputa presidencial. Quem se identifica com o PT tem chance 66% maior de escolher um petista para governador. Entre os simpatizantes do PSDB a chance de votar em um tucano é ampliada em 98%.

Igual efeito ocorre quando há preferência pelo partido de candidatos à reeleição (ou apoiados pelo atual governante). A escolha passada (no caso do estudo, a feita em 2010) também influenciou o voto em 2014, aumentando as chances do candidato da situação. Esses resultados indicam que há algum grau de coerência por parte do eleitor no momento de fazer suas escolhas.

Os dados também indicaram que o fato de o eleitor escolher Dilma como candidata à Presidência também ampliou as chances de petistas serem escolhidos para governos estaduais.

Da mesma forma, a opção por Aécio aumentou as possibilidades de tucanos. Em sentido contrário, ter votado em Aécio ou na ex-senadora e ex-ministra Marina Silva (à época no PSB, hoje na Rede) reduziu as chances da escolha a um candidato petista.

“Esses pleitos [votação para governadores] não são regidos exclusivamente por lógicas contextuais das unidades da federação. As preferências partidárias e a estruturação da competição política no nível presidencial (…) também fazem parte do jogo, demonstrando que as escolhas eleitorais no plano subnacional também estão associadas à disputa e ao desempenho dos partidos no plano nacional”

Oswaldo do Amaral e Marcela Tanaka trecho do estudo “Como os brasileiros escolhem os governadores?”

Nos locais em que houve candidatos à reeleição ou apoiados pelos governadores em exercício, as chances de votos nesses políticos aumenta entre eleitores que se identificam com a gestão em curso ou que votaram naquele governante em 2010.

De acordo com os resultados, quando há identificação com o partido do candidato da situação, as chances de voto nele quase triplicam. “Isso demonstra a existência de uma razoável estabilidade na escolha dos eleitores para os pleitos estaduais”, afirmam os pesquisadores. Desempenho do governo federal

Os dados sobre a avaliação do governo federal indicaram que o plano nacional pode exercer algum tipo de influência no plano estadual, porém de forma menos nítida do que a influência provocada pela disputa presidencial entre PT e PSDB.

Eleitores que avaliaram o governo Dilma como “regular” e “ótimo ou bom” apresentaram menos chances de votar em nomes do PSDB, quando comparados com aqueles que avaliaram como “ruim ou péssimo”.

Já os fatores de influência para escolha por nomes do MDB é menos clara. A avaliação ao governo Dilma teve efeitos tanto positivo quanto negativo para os candidatos filiados à legenda.

“Ter uma avaliação positiva do governo federal nos últimos quatro anos não apresentou resultado estatisticamente significativo nas escolhas por candidatos petistas, mas reduziu as chances de voto em candidatos do PSDB”

Oswaldo do Amaral e Marcela Tanaka trecho do estudo “Como os brasileiros escolhem os governadores?”

Ainda no aspecto nacional, os pesquisadores observaram que o Bolsa Família (programa de transferência de renda lançado no governo Lula, em 2004) pode ter beneficiado candidatos petistas. “O que poderia indicar que o programa se constituiu em uma marca do Partido dos Trabalhadores e que seus benefícios eleitorais podem ir além da disputa pela Presidência”, diz o estudo.

Economia e serviços públicos

De modo geral, os dados coletados indicaram que a situação econômica nos 12 meses anteriores à eleição influencia pouco a decisão do eleitor na escolha do governador, seja candidato à reeleição ou não, sejam eles filiados ao PT, PSDB ou MDB.

“De uma maneira geral, os resultados sobre a avaliação econômica indicam que os eleitores, ao irem às urnas para escolher os governadores, não recompensam ou punem os incumbentes [candidatos à reeleição ou apoiado pelos governadores em exercício] a partir de avaliações gerais da situação econômica”

Oswaldo do Amaral e Marcela Tanaka trecho do estudo “Como os brasileiros escolhem os governadores?”

Os pesquisadores também não encontraram relação entre o voto ao governo estadual e as avaliações das políticas públicas nas áreas de segurança, saúde e educação, todas de competência de governadores. Mas os autores ponderam que essa relação carece de análises mais detalhadas e que considerem as diferentes camadas de atribuição, já que há ações de responsabilidade da União, estados e municípios.

 

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