Um político 100% a favor do povo

NaniHonesto2

Raimundo Silva é conhecido como “Mundinho das Docas”. Cansado de ver o sofrimento da comunidade carente em que mora ele decidiu lançar-se na política. Primeiro atuou como líder comunitário realizando a maior operação tapa buraco já vista nas Docas.

Daí foi um pulo para se eleger vereador na cidade de Caixão do Oeste. Na campanha ele prometeu ser 100% a favor do povo. Foi eleito propondo:

Projeto de lei proibindo parentes de vereadores de trabalharem em cargos comissionados da Prefeitura;

Fiscalizar todos os atos do município e dos colegas;

Denunciar qualquer esquema de corrupção que presenciasse;

As propostas provocaram risadas dos colegas.

– Mundinho jamais fará na disso. O povo só quer que a gente pague o papel de luz e arrume ambulância.

Disse o vereador Toinho dos Galetos dando uma grande gargalhada em seguida.

Mas Mundinho das Docas era um sonhador. Queria ser o político que a sociedade cobra. Eleito pela oposição logo foi chamado para uma conversa no Palácio das Memórias, sede do poder em Caixão do Oeste. O convite era claro: dez cargos para livre escolha de Mundinho mais 10 mil mensais em dinheiro vivo. A resposta foi um sonoro não.

– Pena que eu não tinha ligado o gravador de voz do celular.

Lamentou Mundinho numa mesa de bar diante estupefatos amigos que esperavam por essa “boquinha”. Todos os parentes ficaram chateados com a decisão.

Aos poucos parentes e amigos foram se distanciando de Mundinho acusando-o de ingrato por não retribuir com cargos o apoio dado na campanha.

– Porra de ética! Eu quero o meu emprego. Desabafou um amigo.

– Todo mundo rouba, mas Mundinho quer ser certinho demais. Ele pensa que é quem? Disparou um primo revoltado.

Mas Mundinho seguia acreditando que precisava ser um mau parente/amigo para ser um bom político. A ética de Mundinho era subestimada. Tanto que foi chamado para uma reunião em que os colegas discutiam formas de chantagear o prefeito para obter mais cargos e melhorar a mesada para aprovar tudo que vinha do Palácio das Memórias.

Desta vez Mundinho não se fez de rogado. Gravou tudo e denunciou no Fantástico. O Ministério Público entrou com uma ação, mas os vereadores conseguiram ajuda de um senador influente nos meios jurídicos e a prova incontestável de corrupção terminou sendo considerada ilícita.

Mundinho terminou sendo processado por todos os colegas por calúnia e difamação. Além de ser alvo de uma advertência no conselho de ética da casa.

Mas Mundinho tinha o povo do lado dele. Após pagar do próprio bolso (ele não usava verba de gabinete) cinco carros de som chamando o povo para a sessão de Câmara Municipal, ele conseguiu lotar as galerias e fez os colegas aprovarem o Projeto de Lei que proibia vereadores de indicar parentes na Prefeitura de Caixão do Oeste.

A pressão deu certo. A proposta passou por 7×6.

– Precisamos tirar esse imbecil do nosso caminho! Vociferou o vereador Cornélio Rego.

A essa altura, Mundinho estava sem falar com todos os colegas, foi expulso do partido sob o argumento de incompatibilidade com os ideais da legenda.

Cada proposta em defesa do povo, Mundinho precisava fazer uma mobilização na cidade. Foi assim que ele conseguiu extinguir o auxílio lanche, o custeio da educação dos filhos dos vereadores com dinheiro da Câmara e a diária dobrada para vereadores fossem a eventos legislativos fora do legislativo.

Mas aos poucos o povo foi ficando com preguiça de participar das mobilizações de Mundinho. Afinal de contas, praticar a cidadania é muito trabalhoso.

– A gente tá é sendo besta para Mundinho se amostrar. Justificou Maroca das Laranjas.

Sem força e juntando inimizades e processos, Mundinho se tornou um leproso político. Nenhum colega aceitava ele por perto. Mundinho provocava rejeição em todos os partidos. Até mesmo o povo estava criando abuso por achar ele “briguento demais”.

Mundinho nem pode disputar a reeleição por falta de partido. Sequer terminou o mandado após ser cassado pelos seus colegas quebra de decoro parlamentar. A sentença foi justificada por falta de ética por constranger seguidamente os colegas expondo as vísceras corruptas da casa.

Hoje Mundinho está preso após ser condenado por corrupção. Os colegas denunciaram ele por fazer todas aquelas mobilizações para receber uma mesada maior que a deles. Mesmo sem qualquer prova ele foi denunciado por um promotor que não tinha certeza, mas convicção. O juiz condenou por entender que na nossa política essa é uma prática recorrente.

Triste fim para quem tentou apenas trabalhar pelo povo.

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4 opiniões sobre “Um político 100% a favor do povo

  • 5 de fevereiro de 2017 em 14:19
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    “…não há coisa mais difícil de se fazer, mais duvidosa de se alcançar, ou mais perigosa de se manejar do que ser o introdutor de uma nova ordem, porque quem o é tem pôr inimigos todos aqueles que se beneficiam com a antiga ordem, e como tímidos defensores todos aqueles a quem as novas instituições beneficiarão.” (Maquiavel, O principe * Capitulo VI )  

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  • 5 de fevereiro de 2017 em 15:30
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    Parabéns, Bruno Barreto, pela excelente crônica. Ainda bem que na nossa política mossoroense não existe nada, nem de longe, parecido com o que acontece na fictícia “Caixão do Oeste”…

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  • 5 de fevereiro de 2017 em 19:32
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    ENGANO SEU AMIGO: AQUI EM MOSSORÓ TEM ALGUÉM CAPAZ DE MUITO MAIS.

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  • 5 de fevereiro de 2017 em 21:46
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    Meus parabéns pela crônica, me arrisco a dizer que Mundinho das Docas – pelo idealismo – tinha como ídolo o Major Policarpo Quaresma. “Fora preso pela manhã, logo ao erguer-se da cama…Por que estava preso?…E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria, por amá-la e querê-la muito, no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade. Gastara sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora que estava na velhice, como ela o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava? Matando-o.” Lima Barreto, em ‘O Triste Fim de Policarpo Quaresma’

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