Por João Paulo Jales dos Santos*
Fátima Bezerra (PT) sofreu uma derrota nas eleições municipais de 2020, parte expressiva de seus candidatos não conseguiram serem eleitos, seria de imaginar que 2022 despontasse para a governadora como uma dor de cabeça, mas o cenário potiguar vai pintando um tom avermelhado para sua reeleição. A governante tocou um governo de centro-esquerda, centrista na economia e esquerdista no social, distante da gritaria da direita populista, que em 2018, bradava que um governo da então senadora-candidata seria um desastre de extrema-esquerda. Bezerra optou por conduzir no campo econômico o centrismo já característico nos governos estaduais petistas, o respeito fiscal ao ordenamento liberal. Concluirá o governo entregando uma façanha, pagando 56 folhas do funcionalismo público, quitando as 4 folhas atrasadas do governo de Robinson Faria, feito que até alguns aliados chegaram a duvidar.
Pelo 2º ano consecutivo o relatório de prestação de contas, de 2021, mostra superávit no fisco estadual. A petista Fátima, carimbada por seus detratores como uma “ameaça comunista”, fez da parceria com o empresariado uma das marcas de sua gestão, a parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN) selou o endosso da elite conservadora ao governo petista. Coube a Fátima, que por muito tempo foi questionada de sua capacidade administrativa, organizar as finanças estadual. A guarda oposicionista, comandada por Fábio Faria (PP) e Rogério Marinho (PL), apoiadores diretos do governo Robinson Faria, um dos maiores responsáveis pela barafunda fiscal do estado, sem ter um programa de governo para apresentar, faz o jogo rasteiro do moralismo direitista, atacar a governadora em sua honra.
A Fátima cabe uma preocupação, há uma animosidade no eleitorado potiguar, mostrada em pesquisas, que está na casa dos 40% (brancos/nulos/indecisos/não vota em ninguém). Falta a governante uma catapulta que a alce com consistência à condição de favorita, o favoritismo que mostra até aqui se configura como leve. Será que essa animosidade a um maior endosso ao nome da governadora, se refere a falta de investimentos em obras de infraestrutura, que servissem de vitrine a gestão? A resposta precisa ser encontrada em pesquisas qualitativas. De certo, com o tímido Produto Interno Bruto (PIB) que o Rio Grande do Norte possui, numa situação que coube ao governo, primeiro focar na organização administrativa e financeira do erário, faltou recursos para investimentos em obras de médio e grande porte, aquelas que garantem maior endosso popular a um governo. No campo político, a lição deixada por Fátima, é que o saneamento fiscal que sua gestão vem executando, se deu tendo uma presidência da República hostil ao seu governo.
A pesquisa do jornal Tribuna do Norte, em parceria com o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (IPESPE), divulgada na quarta-feira (30/03), trouxe um dado interessante, os números de Fátima Bezerra em Natal (37%) estão numericamente à frente dos do interior (33%). Estaria a parceria da petista com o pedetista Carlos Eduardo começando a dar frutos na capital? Ou os 37% é do apoio do núcleo duro dos natalenses que apoiam a governadora, em torno dos 40%? E sobre o interior, até que ponto a perda de apoio de Bezerra pode impactar em sua candidatura? Já se percebia que a comandante em chefe vinha tendo um leve declínio político-eleitoral no interior, a questão é saber se esse declínio encontrou um teto ou há espaço para mais derretimento eleitoral. Em 2018 Fátima conseguiu um feito, aglutinou ao redor de si o expressivo apoio conjunto dos 10 maiores colégios eleitorais do interior.
| Tabela 1 – votação de Fátima Bezerra e Carlos Eduardo, em 2018, nos 10 maiores municípios do interior. | ||||||||
| Município | Fátima Bezerra | % | Carlos Eduardo | % | ||||
| Mossoró | 68.713 | 54,17 | 58.145 | 45,83 | ||||
| Caicó | 20.520 | 64,11 | 114.885 | 35,89 | ||||
| Assú | 23.976 | 78,06 | 6.738 | 21,94 | ||||
| Currais Novos | 14.090 | 65,04 | 7.572 | 34,96 | ||||
| Santa Cruz | 12.075 | 65,11 | 6.470 | 34,89 | ||||
| Nova Cruz | 11.355 | 61,06 | 7.230 | 38,94 | ||||
| Apodi | 14.673 | 68,01 | 6.902 | 31,99 | ||||
| João Câmara | 11.995 | 67,41 | 5.800 | 32,59 | ||||
| Canguaretama | 13.094 | 77,49 | 3.804 | 22,51 | ||||
| Touros | 10.675 | 64,14 | 5.968 | 35,86 | ||||
| Fonte: Tribunal Regional Eleitoral do RN. | ||||||||
Estaria o interior tendo uma opinião mais crítica à petista, em virtude de que mesmo tendo sido crucial para o êxito dela em 2018, os interioranos veem que a Grande Natal continua, como de praxe, atraindo mais atenção e investimento? As próximas rodadas de pesquisa irão sinalizar o tamanho que o poderio ‘Fatimista’ ainda possui RN adentro.
Há um dado curioso nas votações que Fátima obteve em Natal em 2008, última vez que foi candidata à prefeitura, e Carlos Eduardo em 2016, quando disputou seu 4º mandato. Seus números, em 2018, são semelhantes aos de 2008 e 2016.
| Tabela 2 – comparativo das votações, em Natal, de Carlos e Fátima, em 2018, com os pleitos de 2016 e 2008. | |||||||
| Eleição 2018 | Eleições 2016 e 2008 | ||||||
| Carlos Eduardo | % | Fátima Bezerra | % | Carlos Eduardo (2016) | % | Fátima Bezerra (2008) | % |
| 254.199 | 60,76 | 164.135 | 39,24 | 225.741 | 63,42 | 139.946 | 36,82 |
| Fonte: Tribunal Regional Eleitoral do RN. | |||||||
Quando se tornou, pela 2ª vez, como ocorreu em 2002, a deputada federal mais votada na corrida de 2010, uma recuperação referente a colocação que obteve em 2006, a 6ª entre os 8 eleitos, Fátima também foi 1ª colocada em Natal, conquistando expressivos 85.558 votos, 23,33%, número de uma candidatura à prefeitura, isso num cenário favorável a direita, onde Rosalba Ciarlini (que estava no Dem) vencia para o governo em 1º turno, também sendo a mais votada em Natal, e José Serra (PSDB) viraria sobre Dilma Rousseff no 2º turno. O governo de Micarla de Sousa (à época no PV), àquela altura já gozava de desgaste popular, o nome de Fátima, que há 2 anos havia se lançado à prefeitura, passou por recall eleitoral.
O provável racha do petismo no endosso à candidatura de Carlos Eduardo ao senado pode criar um imbróglio a Fátima, com parte do partido rechaçando Carlos, o núcleo do pedetista não sentirá obrigação de pedir o ‘voto casado’ nas ruas de Natal, podendo deixar Fátima parcialmente alijada. Para que não volte a ter sustos com sua competitividade eleitoral na capital, os esforços da governante terão que ser de ampliar, caso seja reeleita, sua base político-eleitoral, e diminuir a ainda alta rejeição que possui em seu berço político.
Fátima Bezerra conseguiu, já no nascedouro, debelar duas greves que lhe trariam enorme desgaste político, do professorado e da Polícia Militar (PM), findou com a greve da Polícia Civil, que perdurava dias, mas que ao contrário de uma greve da PM não tem impacto na sociedade porque é de menor alcance, o que acabou não trazendo ônus de avaliação ao seu governo. À frente do Palácio Lagoa Nova, Bezerra mostrou ser gestora capacitada e hábil articuladora política. Com uma oposição desmantelada, que durante 4 anos não soube se estruturar, apesar de contar com nomes de considerável relevância política, Fátima encontra um terreno relativamente tranquilo para dissipar a desconfiança que ronda os 40% do eleitorado. Terá como tarefa ter que ultrapassar a porcentagem que vem apresentando nas pesquisas e construir um marketing que lhe torne aquilo que é enquanto governante, gestora capacitada. Ao ultrapassar a barreira que o norte-riograndense tinha de sua figura e do Partido dos Trabalhadores (PT), Fátima demonstrou ser a política certa para o momento de profunda delicadeza que passava o estado quando assumiu a cadeira do Palácio de Lagoa Nova, naquele 1º de janeiro de 2019.
*É Graduado no curso de Ciências Sociais pela UERN.
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