Quem conhece minimamente a obra do escritor conservador Nelson Rodrigues sabe que hipocrisia embutida na expressão “família tradicional brasileira”.
Como poucos Nelson soube entrar na vida privada das casas e contar as histórias mais escabrosas em que a ficção se mistura com a realidade.
A construção da “família tradicional brasileira” tem na sua gênese as relações entre a casa grande e a senzala em que os senhores de terras mantinha relações (quando não estupravam) as escravas e com elas tinham filhos.
As mulheres negras se converteram de escravas em empregadas domésticas com a abolição da escravidão, mas os abusos e exploração sexual persistiram em toda sua perversidade.
A história do homem religioso que manteve uma mulher sob a condição análoga a escravidão por 32 anos, inclusive tendo com ela relações sexuais é o puro suco da “família tradicional brasileira” tantas vezes escrachada por Nelson Rodrigues.
Existem outros Geraldos por aí com bíblia numa mão e a marca da crueldade na outra.
Quantas histórias nós não conhecemos e normalizamos da menina pobre que é levada para uma “casa de família” para servir como escrava doméstica e era apresentada como alguém da família?
O que foi descoberto em Mossoró está longe de ser um fato isolado.
A “família tradicional brasileira” é forjada por essa e tantas outras histórias que incluem traições, violência e preconceitos. É um suco de hipocrisia escondida por trás da retórica do cidadão de bem que gasta boa parte do que ganha no puteiro.

