Geringonça

Por Fernando Haddad

O governo parece uma geringonça. O termo soa impróprio à luz da experiência exitosa do governo português de centro-esquerda que adotou orgulhosamente o apelido sugerido pela direita em tom pejorativo.

Mas, se ele sugere uma engrenagem frágil, montada com o parafuso de uma máquina e a porca de outra, não temos melhor termo para nos referir ao governo Bolsonaro.

Nossa geringonça tem três componentes: autoritarismo, fundamentalismo e neoliberalismo. Ainda que um ministro possa tentar conciliar as três agendas em uma, existe uma certa divisão de trabalho na Esplanada.

Cerimônia de 200 dias de governo Bolsonaro

Moro e os generais respondem pelo autoritarismo. Trabalham para intimidar os Poderes da República, aparelhar os órgãos de fiscalização, ameaçar a imprensa, armar a população, sobretudo milicianos, etc.

O grupo não tem apreço pela democracia. Informado da intenção de Eduardo Bolsonaro de reeditar o AI-5, o general Heleno limitou-se a dizer que tinha dúvidas sobre como operacionalizar a ideia.

As pastas da Educação, do Meio Ambiente, dos Direitos Humanos e das Relações Exteriores formam o núcleo fundamentalista. Ciência, cultura, formação de crianças e jovens e multilateralismo são seus alvos prediletos. As armas adotadas são as clássicas: censura, subfinanciamento e subfilosofia.

Na briga com o PSL, Bolsonaro cogitou migrar para o partido de Edir Macedo, o bilionário que controla a Record, a Igreja Universal e o Republicanos (ex-PRB). A Justiça deixou prescrever processo contra Edir Macedo, pronto para julgamento, por lavagem de dinheiro e associação criminosa, o que desimpedia o movimento. Mas a impossibilidade de Bolsonaro levar consigo o dinheiro do milionário fundo partidário inviabilizou a operação.

O núcleo neoliberal é liderado por Guedes. A política econômica se apoia em algumas premissas: corte de direitos sociais, precarização do trabalho, privatização, liberalização unilateral do comércio etc.

Deve entregar crescimento econômico medíocre e mais desigualdade social. Quando isso acontecer os governistas certamente responsabilizarão o “ritmo” das reformas, limitado pela democracia (como sugeriu Carlos Bolsonaro), e os neoliberais democratas vão colocar a culpa do insucesso na agenda obscurantista.

Se, do ponto de vista civilizatório, estamos no pior dos mundos, cabe perguntar se politicamente a situação é sustentável.

O governo, por instinto, talvez pretenda contar com o apoio das minorias apaixonadas por cada uma dessas três agendas. Isso poderia garantir sustentação para concluir o mandato e a presença em eventual segundo turno. Aí, bastaria acionar a quarta engrenagem da geringonça brasileira: a máquina de fake news.

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