Pinóquios

Marcelo Alves Dias de Souza*

É sabido que a construção de uma “consciência moral” se dá com quase todos nós desde muito cedo, a partir, entre outras coisas, de histórias/estórias que nos são narradas ainda quando somos crianças, quase todas elas enaltecendo valores como a verdade, a justiça, o amor, a amizade, a solidariedade e por aí vai. Os clássicos da literatura infantil, da ficção infantil em geral, com suas belas estórias, enfrentando temas universais, às vezes até controversos, em linguagem lúdica, direta e acessível, são frequentemente as melhores aulas de moral e ética.

É nesse contexto, de literatura infantil “educativa”, que entram “As aventuras de Pinóquio” (“Le avventure di Pinocchio”), de 1883, do italiano Carlo Collodi (1826-1890).

Collodi, na verdade Carlo Lorenzini, nasceu e viveu em Florença. Foi escritor e jornalista. Lutou no exército de Giuseppe Garibaldi (1807-1882). Foi ser funcionário público. Mas a grande reviravolta na sua vida veio em 1875, quando, para o nosso deleite, ele se volta para a literatura infantil. Publica bastante nesse gênero de literatura. Em periódicos e em livros. Vem a ser diretor da revista Il Giornale dei bambini. Morre, dizem de um aneurisma, na sua cidade natal, em 1890.

Já quanto às mui afamadas estórias do burratino Pinóquio, consta do guia “Tutto Letteratura Italiana” (De Agostine Editore, 2005): “Romance deveras excepcional é obra do florentino Carlo Collodi (pseudônimo de Carlo Lorenzini, 1826-1890). Autor da afortunada série de estórias de Giannettino (1876) e Minuzzolo (1878), em 1881 Collodi começou a escrever para a recém-nascida revista ‘Il Giornale dei bambini’ um romance em capítulos, a história de um boneco, que, a pedido dos jovens leitores entusiasmados, foi sendo construído até o fim de 1883. Para concluir a estória, o autor foi obrigado a transformar o boneco Pinóquio em uma criança de carne e osso. Nesse mesmo ano, a estória completa sai em volume único com o título As aventuras de Pinóquio. Considerado indiscutivelmente uma obra-prima da literatura infantil, traduzido para uma centena de línguas, formalmente o livro repropõe, em uma linguagem simples e direta, o tema da iniciação à vida de uma criança, da sua gradual descoberta da realidade, nos aspectos positivos e negativos, e também o motivo da queda e do caminho de expiações até a ‘redenção’ final”.

O legado do boneco/fantoche Pinóquio – incluindo aí sua turma, Gepeto, o Grilo Falante, o Gato, a Raposa etc. – é indiscutível. Como dito no manual “Gli spilli fissano le idee – Letteratura Italiana 3” (Edizione Alpha Test, 2016), essa “obra de intenção pedagógica, pela vivacidade narrativa e pela clareza linguística, tornou-se um clássico da literatura universal”. De fato, como consta de uma versão (parcial) em “italiano lingua straniera” que possuo (“Pinocchio, il gato e la volpe”, Editore Hoepli, 2013), “Le avventure di Pinocchio. Storia di un burattino tornou-se a única obra-prima da literatura italiana dos anos 1800 a ter-se estabelecido a nível mundial, como testemunham as muitíssimas traduções, as numerosas imitações e sobretudo as afortunadas adaptações cinematográficas, entre as quais se destaca aquela de Walt Disney”. Pinóquio foi e é muito – aliás, muito mais do que muito – interpretado, ilustrado, representado, adaptado, reescrito, imitado e tantas coisas mais. São tantos Pinóquios…

Com o tempo, Pinóquio virou um ícone da nossa cultura. Se originalmente um boneco de madeira que, após várias aventuras, vira uma criança normal; se, na fábula, alguém que, após altos e baixos, vence a preguiça e a superficialidade; ele hoje virou, entre nós, o seu nome pelo menos, sinônimo de mentiroso. Aquele cidadão, cujo “nariz só cresce”, ele é um “Pinóquio”, diz-se.

Nestes dias em que as mentiras, as “fake news”, são talvez o maior desafio à nossa democracia, seria muito bom a releitura da obra-prima de Collodi – ou leitura, já que duvido muito que esses mentirosos já tenham lido alguma coisa na vida. O original ou alguma das suas versões. Nunca é tarde para aprender uma verdadeira “educação moral e cívica”.

Pois, para quem não sabe, se na fábula educativa do burratino, ao final, o bem ludicamente vence o mal, originalmente o seu autor pretendia que a estória do mentiroso fosse uma tragédia. A coisa não terminaria bem para o boneco boquirroto. Acredito que essa tragédia prevalecerá, após os baixos de hoje e os altos de amanhã, inexoravelmente, para os nossos Pinóquios desumanos.

*É Procurador Regional da República  Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL.

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