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Por que Ciro Gomes aposta no antipetismo?

Ciro aposta no antipetismo (FOTO: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL)

Por Glenn Greenwald*

Ao longo dos últimos seis meses, uma questão tem confundido a esquerda: o que Ciro Gomes está fazendo? Isso não significa necessariamente que discordem de suas declarações, apesar de frequentemente discordarem, mas que não entendem a lógica de sua estratégia. Não é necessário concordar com a estratégia de Ciro para entendê-la.

Para se falar das ações de Ciro devemos começar pela questão principal: Ciro Gomes quer ser presidente do Brasil. Não duvido que ele creia sinceramente ser a opção mais qualificada para superar tanto as crises estruturais de longa data quanto as novas patologias herdadas do bolsonarismo. Ele acredita que governaria o Brasil melhor do que Lula, Bolsonaro ou qualquer outro.

Ciro foi um prefeito e um governador popular e de prestígio, além de ter ocupado uma cadeira no Congresso. Foi ministro, advogado constitucionalista, professor universitário, pesquisador visitante em Harvard e autor de três livros sobre política, e comandou uma empresa no setor privado.

Parece claro que ele ainda alimenta uma última ambição: ser presidente. Não é uma ambição surpreendente para alguém que foi eleito deputado estadual aos 26 anos de idade, prefeito de uma capital aos 32 e governador aos 33. E que respira política desde então. Para alguém com essa trajetória, a Presidência é apenas o próximo destino, e todo o esforço dos últimos anos é nesse sentido.

Mas existe um obstáculo no caminho de Ciro rumo à Presidência: Lula. E, para Ciro, Lula não é apenas o maior obstáculo para o sucesso em 2022, mas é também quem o impediu de realizar essa ambição até hoje.

Na primeira candidatura de Ciro à Presidência, em 1998, ele disputou o voto anti-FHC com Lula e acabou em terceiro. Em 2002, viu Lula aglutinar a esquerda e ficou em quarto. Em 2010, depois de servir ao governo Lula em vários cargos importantes, acreditava, com bons motivos, que teria o apoio do então presidente, mas foi preterido por Dilma Rousseff. Em 2018, mesmo preso, Lula bloqueou mais uma vez o caminho de Ciro ao apoiar não o seu nome, mas o de Fernando Haddad, amargando mais uma vez o terceiro lugar.

Quando se ouvem as entrevistas de Ciro ao longo dos anos, não é difícil entender a sua visão dos últimos 20 anos: apesar de ter apoiado Lula e até mesmo o PT e criticado ferozmente o impeachment de Dilma em um momento em que essa não era uma posição popular, ele viu suas aspirações presidenciais repetidamente sabotadas. E tanto em 2010 quanto em 2018 foi preterido por candidatos que, na sua visão, eram bem menos experientes e capazes do que ele e, no caso de 2018, com menos chances de vitória.

É, portanto, perfeitamente racional que Ciro conclua que, se quer realmente ser presidente, não pode contar com o PT. Na verdade, é o oposto: ele tem de encontrar uma maneira de superar, ultrapassar ou derrotar o PT. Ele aprendeu a lição de que o Partido dos Trabalhadores não será o veículo que vai levá-lo à Presidência. Ao contrário, é um obstáculo.

Em outras palavras, Ciro não chegará à Presidência apoiando ou apoiado pelo PT ou Lula. Especialmente agora que a candidatura de Lula em 2022 está cada vez mais certa. Assim, quanto mais próximo Ciro estiver do PT, mais distante estará a sua vitória.

A esquerda ainda se surpreende com a retórica anti-PT de Ciro, cada vez mais intensa. Mas que outra escolha ele tem, se quer vencer? Por que Ciro se convenceria de que ele não deve alienar petistas? Por definição, eles não votarão nele, mesmo que gostem dele. Os petistas não votarão em Ciro. Ponto final.

As pesquisas, e o senso comum, sugerem que será muito difícil evitar um segundo turno entre Lula e Bolsonaro. Isso se torna ainda menos provável se houver mais de um candidato se apresentando como terceira via. Essa alternativa só será viável se ela unir o antibolsonarismo de centro-direita e o antipetismo de centro-esquerda. Chave nessa equação são os chamados “centristas pró-democracia” que assinaram um manifesto recentemente, entre eles João Doria, Luiz Henrique Mandetta, Luciano Huck e Eduardo Leite.

Ciro tem um argumento convincente de que é o melhor nome para unir esse campo: todos os outros estão por demais à direita (tendo, inclusive, votado em Bolsonaro) para ser capazes de aglutinar votos da centro-esquerda, ao passo que Ciro pode alcançar esse eleitorado. Mas, se quer alcançar o eleitorado de centro-direita, Ciro precisa se distanciar de Lula e do PT, mesmo que para isso precise se recusar a reconhecer o fato de que Lula seria melhor do que Bolsonaro.

Independentemente de todo o resto, com Lula no páreo, Ciro não tem nenhuma chance de atrair o voto do PT e de seus aliados, não importa o que diga ou faça. É muito difícil imaginar um cenário em que a estratégia de se colocar como o nome de unidade do “Centrão” funcione e lhe dê a vitória, mas, diante da conjuntura, esta é a sua única opção.

*É jornalista vencedor do Prêmio Pulitzer. Texto extraído da Revista Carta Capital.

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Atos pelo impeachment indicam que divisão entre petistas e não petistas permanece

Angela Alonso*

A contar pelo primeiro mês, a rua de 2021 promete. Nem os 16 graus negativos da beira do Ártico, nem a chuva de verão paulistana, nem mesmo a pandemia arrepiou manifestantes. Teve protesto nas democracias ditas sólidas como nas tidas por capengas, em todos os lados do espectro político, a pé, de carro, trator ou caminhão, com bandeiras e com armas.

Desde que o coronavírus começou a dar as cartas, a rua encheu em, ao menos, 23 países. Na pauta, a bola da vez, políticas que enfrentam a doença e as que a negligenciam, e a jogada de costume no século, a contestação ao governante ou às regras do jogo. Daí a ser tudo a mesma coisa vai um precipício.

Carreata de partidos e movimentos de esquerda pelo impeachment de Bolsonaro teve concentração na Alesp e depois seguiu fazendo retorno no Monumento às Bandeiras, seguindo pela avenida Brigadeiro Luiz Antônio, avenida Paulista e Consolação e terminando na Praça Roosevelt Bruno Santos/ Folhapress

Putin comparou os atos na sua Rússia à invasão do Congresso dos Estados Unidos. Sempre acusado de autoritário, posou de guardião das instituições. Mas os casos distam as léguas que separam direita e esquerda. Os russos protestam por acharem demais prisão de dissidente antes envenenado, tudo indica, a mando do governo. Demandam um Estado de Direito basiquinho, mais perto de democracia que de regime autocrático. Manifestaram-se aos milhões, foram presos aos milhares.

Do outro lado do Atlântico, ignição oposta. O amálgama de movimentos supremacistas, terraplanistas, armamentistas, anticiência e antivacina, que a internet uniu e Trump não separou, contestou o resultado eleitoral e as instituições democráticas. Isso no país que se vende, desde que nasceu escravista, como a pátria da liberdade.

A tragédia política norte-americana gerou protestos contra o protesto, inclusive de Turquia e Venezuela, que devolveram o “República de bananas”. Muitos caricaturaram os ativistas armados e associaram a violência política ao autoritarismo de direita. Mas não custa lembrar que esta faca corta dos dois lados, como o demonstra a história ocidental recente, povoada por ETA, IRA, Farcs e parentes.

Manifestante invadem prédio do Congresso americano em Washington WIN MCNAMEE/Win McNamee – 6.jan.2021/AFP

Também vale para qualquer oposição o manejo da rua contra o governo. Desde que o século começou, a senhora das marchas foi pega no contrapé. Movimentos liberais, conservadores e autoritários se tornaram useiros e vezeiros das técnicas de convocar, organizar e conduzir protestos que a esquerda julgava suas por usucapião.

Mas emular é diferente de aproximar. Os protestos antigoverno do fim de semana, em vez de se encavalar, se intercalaram. Duas frentes de movimentos repetiram os estilos de ativismo, as simbologias e os líderes que os separaram em dois cercados na votação do impeachment em 2016. Mesmo uníssonos no “Fora, Bolsonaro”, os atos duplicados esclareceram que a divisão do país em uma coalizão com e outra sem petistas continua valendo. Há tanto apartados em tudo, nem o inimigo comum de agora os agrega.

Menos ainda o sistema político. Simone Tebet esclareceu: falta base parlamentar para desempacar um dos cerca de 60 pedidos para “impichar” o presidente. Para a senadora, um processo só desembestaria com pressão da sociedade. Mas cadê?

A rua está desunida e o presidente segue firme onde mais conta: 58% dos empresários o veem, atesta o último Datafolha, como apto a liderar o país, e 71% se opõem a apeá-lo do governo. Os impeachments de Collor e Dilma se consolidaram quando a nata das elites social e econômica aderiu. E se viabilizou graças a coalizões nas ruas, nas instituições e, sobretudo, entre ambas. Nada disso assoma.

Mas, se despontar, é improvável que Bolsonaro repita a descida pacífica da rampa de Collor e Dilma. O presidente, que já mandou o país à “puta que pariu”, pode bem seguir Putin e mandar bala.

*É professora de sociologia da USP e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.

Este artigo não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema.

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Rosalba aposta no antipetismo para se blindar

Rosalba tem no antipetismo um trunfo na guerra de narrativas (Foto: autor não identificado)

A situação da prefeita Rosalba Ciarlini (PP) em relação aos problemas com a covid-19 é muito cômoda. Se acontecer algo de positivo ela tenta capitalizar como na última quinta-feira quando deu entrevista ao Bom Dia RN dizendo que graças a ela saíram os leitos do Hospital São Luiz.

A declaração foi prontamente desmentida pelo promotor da saúde Rodrigo Pessoa em entrevista ao Blog do Barreto, diga-se de passagem.

Se tudo der errado a prefeita jogará a culpa na governadora Fátima Bezerra (PT). Rosalba sabe que tem um bom espantalho a seu favor: o antipetismo predominante na classe média local.

As últimas declarações e movimentos da mídia rosalbista indicam isso. A ideia é mostrar que a prefeita tem feito de tudo para proteger os mossoroenses e a governadora tem sido negligente e virado as costas para Mossoró.

A realidade mostra que nem uma coisa nem outra. As medidas tomadas por ambas gestoras são bem semelhantes, mas aposta será no antipetismo visceral.

O colapso do sistema de saúde provocado pela covid-19 é uma realidade. A prefeita sabe disso e duas movimentações dela indicam a estratégia: 1) dizer na Intertv que a cidade só terá problemas por causa dos pacientes que virão das cidades vizinhas jogando a culpa na governadora; 2) a ampliação do Cemitério Novo Tempo.

No momento em que finalizo este texto sou informado que já não existem mais vagas nos leitos do Hospital São Luiz que foi instalado graças a um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado pelo Ministério Público, Governo do Estado e Prefeitura de Mossoró. Isso mostra que o quadro de crescimento da covid-19 aqui é preocupante.

A prefeita joga com o antipetismo na manga. Sabe que qualquer versão que for espalhada contra a governadora cola e é abraçada integralmente pela classe média conservadora e barulhenta das redes sociais de Mossoró.

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Governo do RN sem voz: como o antipetismo radical conseguiu deixar o Estado sem comunicação com a sociedade diante de uma pandemia

Resultado de imagem para silêncio

Por Daniel Menezes*

Ao contrário do que o senso comum pode imaginar, informação é elemento central no combate a qualquer epidemia. Conforme pesquisa publicada pela BBC, 80% dos italianos acharam que a mídia exagerava sobre a situação do coronavírus que já se avizinhava e as correntes de whatsapp minimizadoras do problema estavam corretas. O resultado foi o empilhamento de corpos. É neste sentido que campanhas pesadas foram e continuarão a ser empreendidas contra o retorno do sarampo, da sifilis, entre outras doenças já com remédios e vacinas existentes. A possibilidade de ingressar na casa de milhões de brasileiros torna-se ainda mais relevante no momento em que o poder público enfrenta um vírus desconhecido e que precisa educar o cidadão – assustado – para inúmeras medidas.

GOVERNADORA PAUTADA PELO ANTIPETISMO RADICAL

A governadora Fátima Bezerra deixou tal obviedade de lado e foi pautada por um antipetismo radical, seletivo e com desejos políticos inconfessáveis, mas ainda assim objetivos (falarei depois a respeito deles). Uma visão extremista da disputa na arte de Maquiavel secundarizadora dos interesses da sociedade numa hora em que a união contra a pandemia do coronavírus deveria prevalecer.

Explico. O governo do RN se encontra sem a verba da publicidade licitada até o presente momento. Ou seja, nada pode gastar com propaganda. Pensando em promover campanhas de conscientização, a secretaria de comunicação abriu dispensa extraordinária de licitação para empregar 3 milhões de reais com propaganda exclusiva contra o coronavírus durante um período de seis meses. Ora, o dispêndio representa 1/3 do que normalmente o Estado canaliza para a área no mesmo prazo.

FAKE NEWS E APELO À DESINFORMAÇÃO

Após o anúncio, um movimento minoritário – mas barulhento – estabeleceu que era uma medida absurda, dando a entender que, ao invés de investir em saúde, dinheiro seria jogado pela janela.

A associação é bisonha. O governo do Estado, através de parceria com a união e em diálogo com o ministério público, já está correndo atrás dos equipamentos necessários. Uma verba não tem qualquer relação com a outra. Elas, na verdade, se complementam. O raciocínio (sic) não passou de mero jogo para a plateia. Basta acompanhar o noticiário para saber mais a respeito do que é aqui afirmado.

GOVERNO SEM VOZ E SE COMUNICANDO APENAS PELO DIÁRIO OFICIAL

Agora uma situação para lá de absurda ocorre. O governo do RN está se comunicando com a sociedade apenas através de diário oficial com a (in)consequente ausência de capilarização de seu conteúdo. Até o presente momento doze decretos com medidas de combate à epidemia foram veiculados. Porém, como o Estado não tem voz institucional, se limita a transmitir os atos em suas redes sociais e fica a mercê da boa vontade dos veículos de comunicação. A população, não informada, comete erros que depois devem ser corrigidos pela polícia militar na rua, brigando para que bares sejam fechados, para que pessoas não se aglomerem nas praias.

Vale lembrar que as ações de isolamento social estão sendo administradas pelos governadores e pelas prefeituras. Porém, o governo do RN, em especial, nada pode falar a respeito. Não tem voz própria. O custo da operação – em saúde e mortes – será muito mais elevado.

HIPOCRISIA SELETIVA

Vale observar a seletividade do ataque. Enquanto o Governo do RN é “irresponsável” por querer gastar 1/3 da verba de publicidade que normalmente executa em seis meses exclusivamente com o que vem deixando todo mundo assustado e pode colapsar o serviço de saúde, conforme declaração já dada pelo ministro Luiz Henrique Mandetta. Nada é falado contra as prefeituras que, não apenas estão gastando com ações publicitárias distantes do principal problema mundial, como também aumentaram seus orçamentos para o ano eleitoral de 2020 com propaganda. Nada também é dito contra câmara municipal do Natal e assembleia, que estão veiculando outras campanhas publicitárias, inclusive nos veículos críticos da ação governamental.

Repare, caro leitor. Não há aqui qualquer crítica contra prefeituras e legislativos que fazem suas publicidades. A ação é da democracia. Mas por qual razão a do governo, que será exclusivamente feita para a necessidade do Estado liderar a sociedade contra o coronavírus, não está correta e as dos demais não têm problema?! Por qual razão articulistas e jornalistas não vêm qualquer impedimento em seus veículos, que estão recebendo publicidade de outros órgãos, apontam o dedo para o Governo do RN?

UMA GOVERNADORA SILENCIADA

O texto aqui será finalizado com um vaticínio. Na verdade, não chega a tanto. Trata-se do desenrolar evidente. Os mesmos que lutaram para que o governo não deixasse claro quais ações estão sendo hoje tomadas, amanhã irão acusar Fátima Bezerra de leniência diante da crise. A política – perversa diante da consequência deletéria da pandemia – será essa. Eles querem apenas alguns políticos com espaco de fala para amanhã exaltá-los.

*É professor da UFRN, cientista social e edital o Blog O Potiguar

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Que anti vai dar as cartas em 2022? E a falta que faz uma rua para a turma do terceiro turno

Ciro Gomes continua encarnando uma das opções eleitorais para se contrapor ao bolsonarismo. Frentes de esquerda e opções à direita e ao centro ainda não têm contorno programático definido (Foto: Sérgio Lima/Poder360)

Por Alon Feuerwerker*

Poder 360

A máxima “é a economia, estúpido”, universalizada a partir da vitória de Bill Clinton em 1992 contra George Bush Primeiro, deve enfrentar um bom teste ano que vem. Se as previsões de recessão americana não se confirmarem, Donald Trump vai às urnas surfando crescimento sólido e pleno emprego. Restará aos democratas navegar no antitrumpismo, uma convergência de rejeições variadas, com foco comportamental e ambiental. Que bicho vai dar?

E por aqui? Se a economia continuar mal, o bolsonarismo chega a 2022 capenga. E sua melhor aposta seria o antipetismo. Mas é ingênuo imaginar que o bolsonarismo vai assistir passivamente à perenização da mediocridade econômica, e caminhar mugindo para o matadouro eleitoral. Se é verdade que Paulo Guedes resta como o último dos ministros ainda com crachá de super, a esta altura o mundo já percebeu: quem acreditou em carta branca caiu no conto do vigário.

O seguro morreu de velho e, na dúvida, o bolsonarismo e o lavajatismo continuam batendo no PT. Mas o presidente parece ter um olho no peixe e outro no gato, também abre fogo regular contra um nascente antibolsonarismo antipetista que lança raízes na direita, no autodeclarado centrismo, e até numa fatia da esquerda, esta em busca da plástica que remova as rugas de quase duas décadas de governos PT, e lhe permita aparecer como novidade.

Não será fácil vertebrar esse antitudo. Em 2018 naufragou, apesar da torcida. Talvez porque sua melhor aposta fosse o PSDB, ele próprio atingido pela marcha do lavajatismo. Mas convém não subestimar. Agora são vários candidatos “contra os extremismos”, desde o ainda tucano João Doria até a franjinha do PT ansiosa por livrar-se da liderança de Lula. Passando por Luciano Huck e por um Ciro Gomes cada vez mais disposto a bater nos outrora aliados.

Diz a sabedoria política: mais que para eleger alguém, a pessoa sai de casa no dia da eleição principalmente para derrotar alguém. Principalmente num segundo turno. Daí a importância de monitorar em tempo real a temperatura dos vários anti. Dois parâmetros são úteis aqui: a taxa de rejeição de cada nome/partido e as simulações de segundo turno. É um erro achar que a distância das eleições diminui a importância dessa medição. É o contrário.

Que anti será hegemônico daqui a três anos? O vacilo na medição dessa variável costuma ser fatal. Ano passado, a campanha de Fernando Haddad parece ter acreditado por um momento que a ida de Bolsonaro ao segundo turno desencadearia a aglutinação de um amplo movimento democrático antibolsonarista. Não rolou. O antipetismo mostrou-se bem mais forte. Pelo menos, Haddad teve um final digno. Não foi o caso do massacrado centrismo antiextremista.

Registre-se que na história do Brasil frentes da esquerda com os liberais só existiram com sucesso quando os primeiros aceitaram a liderança dos segundos. #ficaadica

É corajoso, e curioso, que as mais animadas articulações políticas opositoras apostem exatamente no que deu errado na eleição. Na esquerda, a frente ampla não programática. Na direita e no autonomeado centro, a advertência contra o risco de supostos extremismos. Talvez essa coragem se pague, mas por enquanto é visível a dificuldade de os atores concordarem em qualquer coisa que não seja a vontade de chegar ao poder só surfando na rejeição alheia.

Mas, se isso deu certo para o presidente por que não daria certo contra ele? Aliás, o fato mais vistoso da conjuntura é a agitação dos que apoiaram Bolsonaro contra o PT e agora conspiram a céu aberto para tentar se livrar dele. Exibem músculos na opinião pública, mas falta-lhes rua. Quem poderia fornecer? A esquerda. Mas esta não parece especialmente motivada, ainda, a injetar o combustível político indispensável aos algozes de tão pouco tempo atrás.

Pode ser também a Lava Jato. Daí as piscadelas cada vez mais explícitas, a pretexto de não deixar morrer a luta contra a corrupção. A dificuldade? A relação íntima do bolsonarismo com o lavajatismo. E como Bolsonaro não nasceu ontem, vetou sem medo de ser feliz um monte de coisas na Lei de Abuso de Autoridade. E seu indicado à Procuradoria Geral da República já estendeu o tapete vermelho à turma de Curitiba, lato sensu.

*É jornalista e analista político e de comunicação na FSB Comunicação.

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A maior oposição a Fátima é o antipetismo

Fátima terá de lidar com o antipetismo (Foto: Wilson Moreno)

É quase uma tradição no Rio Grande do Norte o governador ou governadora de plantão não sofrer uma oposição ferrenha. Nestes primeiros meses não tem sido diferente com a governadora Fátima Bezerra (PT).

A maioria dos projetos dela passa com facilidade na Assembleia Legislativa. As críticas são pontuais na casa. Não existe algo sistemático, talvez a exceção seja apenas do bolsonarista Coronel Azevedo (sem partido).

A bancada federal aparentemente não tem criado problemas.

O grande problema para Fátima está nas redes sociais onde o antipetismo é majoritário no debate público. Cada erro, cada recuo, cada denúncia tem uma repercussão bem maior nas redes. Os antipetistas são implacáveis e estão no direito deles, diga-se de passagem.

Esse é um problema que a governadora terá de lidar independente do seu desempenho administrativo até o fim do mandato.

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Beto vira as costas para a indústria salineira, sobe no espantalho do antipetismo e desce para se abraçar com o bolsonarismo

É inegável que a indústria salineira sempre foi uma bandeira de luta tanto do deputado federal Beto Rosado (PP) como do pai dele, Betinho Rosado. Seria uma injustiça histórica afirma o inverso.

No entanto, nesta decisão do governo Jair Bolsonaro (PSL) de prorrogar a suspensão da medida antidumping que beneficia a indústria salineira, o deputado pecou pela omissão e quando abriu a boca piorou as coisas.

Beto simplesmente culpou o PT e a esquerda por todos os problemas da indústria salineira. Uma rápida passagem pelo passado recente a gente percebe que foi no governo da então presidente Dilma Rousseff que foi assinada a medida antidumping que protegia o sal potiguar que foi suspensa por Michel Temer e mantida por Bolsonaro.

Neste caso: o PT ajudou ou prejudicou a indústria salineira?

Quer outra ação fundamental do PT para proteger a nossa indústria salineira? Em 2009, havia um lobby para o Governo Federal autorizar a exploração do sal-gema do Espírito Santo.

O então presidente Lula ficou ao lado dos potiguares e manteve a proibição. Inclusive, Betinho comemorou a decisão na época.

Vale lembrar que Betinho lutou para ser de um partido da base do governo petista com duas ações na Justiça Eleitoral para poder deixar o DEM. Ele estava satisfeito com o que os presidentes petistas fizeram pela nossa economia, claro.

Beto, numa tática padrão MBL, jogou com o emocional para se blindar através do antipetismo irracional. Jogou a culpa no PT como se o partido tivesse alguma influência nas ações do Ministério Público Federal num discurso que duela com os fatos usando uma espada de madeira.

Restou subir no espantalho do antipetismo, por sinal um ótimo guarda-chuva para se esquivar com a ajuda de setores da classe média, mas após ficar em cima do boneco de palha, Beto acaba descendo para o outro lado e se abraçando ao bolsonarismo.

As declarações de Beto foram criticadas pelo diretor executivo do Sindicato de Moagem e Refino do Sal do RN (SIMORSAL), Renato Fernandes. Para ele a postura do deputado atrapalha.

Pois é, Beto declarou que a medida não prejudica a indústria salineira. Renato aponta perda de mercados no Sul do país.

Quer abraço maior com o bolsonarismo do que questionar dados de especialistas com retórica estridente e acusando o PT?

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Fátima necessita ajustar crítica aos oligarcas do RN

Em um outro contexto o final do primeiro turno em 7 de outubro tornaria o pleito do dia 28 uma mera formalidade no Rio Grande do Norte. Foram mais de 220 mil votos de maioria para a senadora Fátima Bezerra (PT) deixando ela a poucos sufrágios de se tornar governadora.

Ainda mais em um quadro em que o adversário dela, Carlos Eduardo Alves (PDT), estava com a campanha em depressão por estar arrodeado de políticos derrotados. Sem contar que o prometido em Mossoró não foi entregue e ele só foi ao segundo turno graças ao desempenho em Natal, onde foi prefeito por quatro vezes.

Mas como se trata de uma candidata do PT a favorita ao Governo e em um contexto de antipetismo exacerbado o oponente Carlos Eduardo pode nutrir esperanças colando no bolsonaristas.

Enquanto Carlos Eduardo bate forte no PT, Fátima explora de forma cautelosa a questão das oligarquias. Somente nos dois últimos programas eleitorais que estão tocando no assunto. A falha, em minha opinião, reside na carência do discurso de causa e efeito. Tratam Carlos como Alves por ser Alves sem associar o atraso econômico do Rio Grande do Norte ao sistema oligárquico de mais de 40 anos.

O eleitor reage melhor quando enxerga base fática no discurso. Tem que mostrar que as famílias priorizaram o compadrio em vez de investir na modernização da máquina pública, mas isso não é feito. Tem que mostrar cada ex-governador de sobrenome Alves, Maia e Rosado tem responsabilidade na crise de hoje.

Também é preciso mostrar, hoje isso já apareceu, que nos nossos vizinhos o desenvolvimento veio, coincidência ou não, após a aposentadoria das famílias tradicionais.

Até aqui o que se faz vitimiza Carlos e leva o eleitor antipático ao PT a pensar: “não podemos julgar o candidato pelo sobrenome”. Isso tem sentido se não associar o atraso do Rio Grande do Norte ao modelo de gestão das últimas décadas, repito.

Carlos surfa no antipetismo sem que Fátima faça os ataques aos oligarcas pegar na veia.

Nota do Blog: Fátima já foi aliada dos Alves e Rosados em situações pontuais assim como Carlos Eduardo Alves apoiou e recebeu apoio do PT em diversas oportunidades. Mas esse é o tema colocado para as duas candidaturas no segundo turno. Carlos explora sem pudor com o passado. Fátima se contém.

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Eleitor antipetista faz migração em massa para Carlos Eduardo, mas só isso não define a eleição

A pesquisa Certus/FIERN trouxe um dado que precisa ser observado com rigor e cuidado: o eleitor antipetista que não votou em Carlos Eduardo Alves migrou de forma automática e incondicional para o candidato do PDT.

Esse fato já está consumado e era esperado antes do final do primeiro turno. Agora o trabalho de Carlos Eduardo é consolidar esse eleitorado e conquistar os indecisos.

Desde o final do primeiro turno ele apresenta viés de crescimento, com curva para cima. Entendo que a pesquisa Certus também trouxe essa situação favorável.

Mas é preciso lembrar que é muito mais antipetismo do que méritos do candidato. Quer um fato? A eleição de 7 de outubro foi desastrosa para os aliados de Carlos Eduardo. Ele tem em torno de si um palanque de derrotados, o que em outra circunstância colocaria o desempenho dele para baixo, mas ele já tinha um crescimento garantido dentro de um nicho eleitoral que estava por dentro do eleitorado de Robinson Faria e Brenno Queiroga (ver AQUI).

A junção da militância bolsonarista que se confunde com o antipetismo será o grande trunfo do ex-prefeito de Natal no segundo. Mas só isso não será suficiente para reverter o quadro.

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Confronto do Antipetismo x antioligarquia transforma segundo turno no RN em campanha de exclusão

Fátima e Carlos Eduardo representam projetos desgastados

Dois candidatos que representam as espécies políticas mais desgastadas da política atualmente: o petista e o oligarca estão na disputa pelo Governo do Rio Grande do Norte neste segundo turno. Será uma campanha de exclusão.

Fátima Bezerra (PT) flertou com a vitória no primeiro turno, mas terminou tendo 46,17% dos votos válidos e terá que enfrentar Carlos Eduardo Alves (PDT) no próximo dia 28.

Fátima montou um palanque pequeno com PHS e PC do B, colocando em risco seu êxito eleitoral para garantir espaços importantes na disputa proporcional. De uma forma ou de outra deu certo. A chapa dela elegeu Zenaide Maia (PHS) para o Senado e conquistou três vagas (sendo duas do PT) para a Assembleia e duas para a Câmara Federal.

Mas contra Fátima pesa a filiação partidária. O PT se lambuzou na lama da corrupção nos últimos anos despertando a ira popular. No entanto, é um partido em processo de recuperação política impulsionado pelos eleitores nordestinos, mas sempre sob desconfiança pelo passado recente muito embora Fátima Bezerra tenha passado ilesa no mensalão e petrolão.

Na outra ponta Carlos Eduardo, um legítimo representante da política tradicional. Membro da oligarquia Alves ele carrega consigo o peso de uma chapa distópica que reuniu as famílias Alves, Maia e Rosado desgastadas demais junto aos eleitores do Rio Grande do Norte.

Apesar dos 32,45 % de votos válidos, ele chega ao segundo turno cercado de aliados derrotados como José Agripino Maia (DEM), Garibaldi Alves Filho (MDB), Beto Rosado (PP) e Larissa Rosado (PSDB). Só um deputado federal foi eleito e a bancada da Assembleia Legislativa ficou aquém do esperado.

Carlos não é propriamente um político imune a escândalos nem sua família. Ele carrega um peso escondido representado na figura do ex-ministro Henrique Alves, seu primo.

A eleição do dia 28 será um plebiscito para saber quem é mais rejeitado no Rio Grande do Norte o petismo ou as oligarquias.