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Crônica

O policial siciliano

Por Marcelo Alves Dias de Souza*

Conheci Andrea Camilleri (1925-2019) por intermédio do meu conterrâneo e amigo Marcelo Navarro Ribeiro Dantas. Toda vez que se fala sobre literatura policial/detetivesca, o outro Marcelo cita – e muito elogia – Camilleri e o seu comissário Montalbano. O amigo tem toda razão.

Andrea Calogero Camilleri nasceu na Sicília, a famosa ilha que é “chutada” pela não menos famosa “bota” italiana. Mais precisamente em Porto Empedocle, comuna batizada em homenagem ao filósofo Empedocles (106-46 a.C.) e que foi a inspiração para a ficcional cidade de Vigata, onde estão essencialmente ambientadas as “investigações” do tal comissário. Essa mistura fez sucesso: legalmente, chegaram até a amalgamar os nomes das duas cidades, virando, a comuna verdadeira, durante um lustro, Porto Empedocle Vigata. Digo tudo isso porque essa ambientação na Sicília italiana é muito importante para a construção tanto das estórias como da linguagem dos policiais de Camilleri.

Curiosamente, Andrea Camilleri foi durante muito tempo autor, roteirista e diretor de TV (incluindo a badalada RAI) e de teatro. Viveu décadas em Roma até o seu recente encantamento (2019). A TV e o teatro eram as suas praias, pelo menos publicamente, tendo até alguns de seus romances, quando originalmente escritos (lá pelos anos 1960), sido recusados por editoras mais desavisadas. Sua ficção em prosa só ganhou espaço tardiamente. Como informam os meus guias “Tutto Letteratura Italiana” (De Agostine Editore, 2005) e “Gli spilli fissano le idee – Letteratura Italiana 3” (Edizione Alpha Test, 2016), foi com seus romances e contos de ambientação siciliana, tais como “Un filo di fumo” (1980), “Il birraio di Preston” (1995) “La concessione del telefono” (1998) e “Il re di Girgenti” (2001), e especialmente com os seus romances policiais/detetivescos, centrados na figura sanguínea do comissário de polícia Montalbano, elaborados fazendo uso de uma linguagem fictícia, uma mistura da língua nacional e do dialeto siciliano, tais como “La forma dell’acqua” (1994), “Il cane di terracota” (1996), “La voce del violino” (1997), “L’odore della notte” (2001) e “La Pazienza del Ragno” (2004).

Entretanto, embora tardio, o Camilleri romancista foi um sucesso estrondoso. Sobretudo em fins dos anos 1990 e, solidamente, nestas primeiras décadas do século XXI. Foi e é muito popular na sua Itália e fora dela. Foi naturalmente bater na TV com o seu comissário Montalbano. A RAI mesma produziu duas séries bem conhecidas: “Il commissario Montalbano” e “Il giovane Montalbano”. A BBC e outras redes menos votadas retransmitiram as temporadas. Essa mistura livro, cinema e TV é tudo.

Para vocês terem uma ideia, já no meu excelente “Giallo: poliziesco, thriller e detective story” (Editore Leonardo Arte, 1999), livro publicado sobre a direção/edição de Sergio Giuffrida e Riccardo Mazzoni, era anotado que, “para chegar à atualidade, não se pode esquecer o fenômeno Andrea Camilleri, um caso editorial sem precedentes: oito de seus livros nos primeiros doze lugares na lista dos best-sellers de 1998. Um sucesso que veio tarde para ele e para seu herói Montalbano (o primeiro romance, ele o havia escrito, sem encontrar editores dispostos a publicá-lo, nos anos sessenta), mas a espera foi mais do que recompensada”.

Bom, para terminar, tomando por mote a história do Andrea Camilleri romancista e do seu comissário Montalbano, devaneio com um sucesso tardio. Quem sabe não mudo de praia? Viro outrem: de cronista para ficcionista. Vou me inspirar anotando, página por página, o clássico “A forma da água” (numa edição da BestBolso, de 2011, que tenho em mãos). Nunca é tarde para se apreender. E, pelo visto, nunca é tarde para se fazer sucesso contando crimes, mistérios e assemelhados. E, se sucesso nas letras não for o destino do Marcelo de agora, quem sabe não o é para o outro Marcelo?

*É Procurador Regional da República é Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL.

Este texto não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema. Envie para o barreto269@hotmail.com e bruno.269@gmail.com.

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Artigo

Tou nem aí

Por Marcelo Alves Dias de Souza*

Na pandemia, afastado de certas atividades por razões sanitárias, tenho aproveitado o tempo para estudar línguas. Refiz o francês na Aliança de Natal. Comecei o alemão no SENAC e, nesta escola, agora reestudo o italiano. Esse tempo dedicado a línguas é um dos poucos efeitos colaterais positivos da peste. Ou, sendo realista, é uma forma de fazer do limão uma limonada.

O fato é que, estes dias, estudante, saí em busca de livros de italiano. Não precisei ir longe. Num dos sebos da Cidade Alta, já topei com coisas que me satisfizeram. Entre elas, uma edição do romance de aventuras “Le tigre di Mompracem” (Editrice Bosqui, 1967), de Emilio Salgari (1862-1912). Capa dura, seminovo e por 1 real. Acreditem.

Emilio Salgari, italiano de Verona, falecido em Torino, foi um autor bastante prolífico. Para lá de 200 títulos se contarmos os seus contos. Romance de aventuras era o seu forte. Coisas em terras distantes e exóticas. Os ciclos dos romances dos “Piratas da Malásia” e dos “Corsários das Antilhas” são os mais badalados. Fez sucesso em vida. Foi imitado postumamente. Inspirou aventureiros. Foi bater no cinema e na TV um sem-número de vezes. Salgari foi e é pop.

“Le tigre di Mompracem”, entre nós “O tigre da Malásia”, é um de seus romances mais cotados. O ano é 1849, está-se na Malásia, e a estória gira em torno do nobre Sandokan (o líder dos Tigres de Mompracem, piratas que lutam contra o terrível poder colonial), seu fiel amigo português Yanez de Gomera e a desejada Lady Marianna Guillonk, a pérola de Labuan. Poder, lutas e uma bela mulher se misturam. O que não faltam são aventuras.

Dito isso, aproveito para fazer algumas observações.

O primeiro livro de fôlego que li em inglês foi um romance de aventuras misturado com ficção científica (um “roman d’anticipation”, diriam os franceses): “Journey to the Center of the Earth”, tradução de “Voyage au centre de la Terre” (1864), de Jules Verne (1828-1905). Tenho certeza de que a sua linguagem simples e divertida, para jovens ou leitores casuais, ainda mais facilitada porque já traduzida para outra língua, produziu enormes ganhos para o meu inglês. Foi fundamental. E também por isso estou lendo agora “Le tigre”.

É verdade que Emilio Salgari, sucesso de público, traduzido para não sei quantas línguas, é muitas vezes esnobado pela “crítica”. No guia “Tutto Letteratura Italiana” (De Agostine Editore, 2005), não encontrei palavra sobre ele. Só fui achar no manual “Gli spilli fissano le idee – Letteratura Italiana 3” (Edizione Alpha Test, 2016), no tópico sobre a literatura para jovens logo após a Unificação italiana, com as seguintes observações – “autor de numerosos contos e romances de aventura: é célebre o ciclo dos corsários (Il corsaro nero, La regina dei Caraibi) e aquele dos piratas da Malásia (Le tigre di Mompracem, I pirati della Malesia, Sandokan alla riscossa). As narrativas, com um estilo fantasioso mas convincente, celebram os valores imortais da honra, da amizade e da defesa dos mais fracos”.

Há nesse esquecimento um bocado de inveja, por não ser ele, Salgari, um “escritor para escritores”, mas, sim, um escritor para o grande público. Ele escrevia aventuras. Romances para jovens. Vendia muito, claro. E tem preconceito, à maneira como se dá com a literatura detetivesca, do tipo Agatha Christie & Cia., por supostamente não se tratar de “alta” literatura.

“Bullshit”, diria, em inglês. Parafraseando uma ideia do nosso Geir Campos (1924-1999), em “O que é tradução” (Brasiliense, 1986), lembro, por exemplo, que uma versão do Hamlet, de Shakespeare, em versos, como era de estilo no teatro do seu tempo, com as palavras e expressões de então, mesmo com notas de pé de página, apenas será útil para “um estudo universitário do teatro ou da linguagem ou dos costumes da Inglaterra seiscentista”. De resto, ela é hoje quase ininteligível. Uma versão em prosa, com as mesmas informações adicionais, melhoraria um tiquinho a coisa. Mas só uma versão “em linguagem bastante fluente, com as indispensáveis informações adicionais inseridas nas falas dos personagens, a fim de facilitar o entendimento” de quem for ver, ouvir ou ler o Hamlet, seria a ideal, tanto para os fins teatrais de hoje como para o aprendizado da língua ora falada na Ilha Britânia. Partindo daí, afirmo que cada texto – ou literatura – tem o seu objetivo. E alguns visam apenas entreter, divertir e o fazem com grande qualidade.

Em assim sendo, tou nem aí para a crítica. Salgari e o seu Tigre cumprem muito bem as suas funções. Italiano bom e divertido de ler e aprender. E me custaram apenas 1 real.

*É Procurador Regional da República e Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL.

Este texto não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema. Envie para o barreto269@hotmail.com e bruno.269@gmail.com.