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Reportagem

Estudo mostra RN como Estado nordestino mais hostil aos governadores que tentam a reeleição

Que os governadores potiguares sempre encontram dificuldades para se reeleger isso todo mundo que acompanha política no Rio Grande do Norte já sabe, mas faltava um estudo que comparasse essa situação com outros estados.

A curiosidade foi encerrada com um levantamento feito pelos pesquisadores Renan Pessoa e Daniel Menezes do Observatório da Democracia/UFRN.

O trabalho mostrou que o Rio Grande do Norte é o Estado nordestino mais hostil aos governadores que tentam a reeleição com aproveitamento de apenas 33%.

Desde que a reeleição foi instituída em 1997 somente Garibaldi Alves Filho em 1998 e Wilma de Faria em 2006 conseguiram se reeleger.

Tabela 02 – A reeleição ao Governo Estadual nos Estados do Nordeste – 1998-2018
Estados AL BA CE MA* PB** PE PI RN SE
Governadores

Reeleitos

3 3 3 3 3 3 3 2 4
Governadores

Não-Reeleitos

0 1 1 1 2 2 2 4 1
Taxa de Sucesso de Reeleição dos Governadores 100% 75% 75% 75% 60% 60% 60% 33% 75%

*Levou-se em conta para a presente análise, a recandidatura de Jackson Lago, cassado pelo TSE em 2009, mas não foi levado em conta, a reeleição de Roseana Sarney (PMDB) no pleito de 2010.

** Levou-se em conta nesta tabela, a reeleição de José Maranhão (PMDB) em 1998 e a sua não reeleição em 2010.

Fonte: Elaboração própria com base em dados do TSE.

A diferença se torna ainda mais gritante quando se leva em consideração que o aproveitamento nos demais estados varia entre 60% e 75%.

Mas por que Wilma e Garibaldi conseguiram e Fernando Freire (2002), Iberê Ferreira (2010), Rosalba Ciarlini (2014) e Robinson Faria (2018) não?

A favor de Garibaldi pesaram os recursos extras advindos da privatização da Cosern que permitiu um forte investimento em adutoras que lhe rendeu altos índices de popularidade. “Garibaldi teve como importante impulsionador de sua reeleição, a privatização da COSERN, que garantiu para seu governo, vultosos recursos para investimentos em obras públicas a exemplo da construção das adutoras no interior do Estado”, analisa o estudo.

Tabela 03 – A rotatividade de poder no governo do Rio Grande do Norte – 1998-2018
Pleito Candidato à reeleição 1° Candidato  da oposição 2° Candidato da oposição O Governador em exercício foi reeleito?
1998 Garibaldi Filho José Agripino Mano SIM
Desempenho – 1° Turno 50,17% 41,36% 6,17%
PLEITO DEFINIDO NO PRIMEIRO TURNO
2002 Fernando Freire Wilma de Faria Fernando Bezerra NÃO
Desempenho – 1° Turno 30,89% 37,59% 19,93%
Desempenho – 2° Turno 38,95% 61,05%
2006 Wilma de Faria Garibaldi

Filho

Sandro Pimentel SIM
Desempenho – 1° turno 49,58% 48,60% 0,92%
Desempenho – 2° turno 52,38% 47,62%
2010 Iberê Ferreira Rosalba Ciarlini Carlos Eduardo NÃO
Desempenho – 1° turno 36,25% 52,46% 10,37%
PLEITO DEFINIDO NO PRIMEIRO TURNO
2018 Robinson Faria Fátima Bezerra Carlos Eduardo NÃO
Desempenho 11,85% 46,17% 32,04%
O GOVERNADOR EM EXERCÍCIO NÃO FOI PARA O SEGUNDO TURNO

Fonte: Elaboração própria com base em dados do TSE.

Wilma teve parcerias importantes com o governo do então presidente Lula e conseguiu fazer um efeito bumerangue com a venda da Cosern em 2006 quando enfrentou Garibaldi, apelidado de “Governador de Férias”.

“Já Vilma contou com a importante parceria político-administrativa do Governo Lula, a partir da edição de diversos programas sociais e de infraestrutura e capitalizou fortemente a sua condição de primeira mulher a governar o Rio Grande do Norte. No ataque a Garibaldi, a então campanha vilmista se utilizou da venda da companhia elétrica, feita no governo do emedebista, cujos questionamentos sobre onde foi parar o dinheiro da privatização, terminaram por desgastar a imagem do então candidato de oposição”, avalia o Estudo.

Fernando Freire e Iberê governaram por pouco tempo e, segundo o trabalho, tiveram dificuldades com a desorganização da base aliada e problemas com escândalos de corrupção.

Rosalba sequer reuniu condições de ser candidata tendo a postulação rejeitada pelo extinto DEM em convenção partidária. “Rosalba enfrentou severas limitações fiscais advindas dos governos anteriores, o que resultou em diversos obstáculos na efetivação de suas promessas de campanha. Da mesma forma, a centralização decisória do governo nas mãos da chefa do Executivo e de seu esposo resultou em constantes tensões do Governo com os partidos da sua base de apoio na Assembleia Legislativa, gerando desgastes, tanto no plano da elite política como no nível do eleitorado”, avaliaram os pesquisadores.

Enquanto Robinson atrasou folhas de pagamento e fracassou na promessa de ser o “governador da segurança”. “Robinson teve problemas em duas áreas que praticamente inviabilizaram seu projeto de continuidade no governo do Estado: a situação da segurança pública e o quadro fiscal do Estado. Os crescentes índices de criminalidade e a rebelião na Penitenciária de Alcaçuz sepultaram o slogan de ‘’o governador da segurança’’, tão propalado na campanha de 2014. Ademais, a deplorável situação das contas estaduais, com o atraso frequente da folha salarial dos servidores e o rombo previdenciário sepultaram qualquer possibilidade de captação de investimentos para obras estruturantes no Rio Grande do Norte”, avalia.

O trabalho traça uma perspectiva positiva para a governadora Fátima Bezerra (PT), que tenta quebrar a escrita dos antecessores que tentaram a reeleição, por ela ter uma média de 45% de aprovação nas pesquisas e recolar o Estado em situação de equilíbrio fiscal além de quitar quatro folhas em atraso deixada pelo antecessor Robinson Faria.

Mas  estudo pondera:

A Governadora, apesar de relativamente bem avaliada, ainda sofre problemas como as dificuldades provenientes da pandemia da COVID-19, a necessidade de ampliar sua base política para além do PT e seus tradicionais aliados e, sobretudo, pela interpretação, para não dizer errônea, de que a quitação das folhas salariais atrasadas de gestões anteriores seria mera obrigação da gestora e não, uma marca estruturante de seu Governo.

Seu desafio para a reeleição será demonstrar que a grande realização de seu governo é a recuperação do quadro fiscal no Rio Grande do Norte, com a consequente estabilidade do pagamento aos servidores estaduais e a retomada de obras importantes para o desenvolvimento do Estado.

O trabalho conclui que no Rio Grande do Norte a baixa taxa de reeleição dos governadores indica ter a máquina pública em mãos não garante êxito eleitoral.

Confira o estudo na íntegra