Toda experiência religiosa é mediada política e ideologicamente

Por René Kivitz*

Quem pensa ter uma compreensão do Evangelho neutra ou pura em termos ideológicos ou é ignorante (e não há problema em ser ignorante, pois podemos aprender sempre) ou intelectualmente desonesto (isso sim, é um problema, de caráter).

O engajamento pela justiça do reino de Deus implica práxis política, isto é, ação de cidadania, diferente de comprometimentos partidários ou adesão irrestrita ao pacote completo de qualquer ideologia, seja de esquerda ou direita. O pecado não está apenas no coração do indivíduo, mas também nas estruturas da sociedade.

A cada sociedade correspondem idolatrias peculiares e respectivas expressões coletivas da maldade: racismo, escravidão, xenofobia, classismo, consumismo e outras. A práxis política é parte inerente da missão da igreja comprometida com a Missio Dei.

Os profetas nos instam a defender a causa dos pobres contra a exploração dos ricos que retém salários, praticam subornos, se beneficiam da corrupção, concentram a posse de terras e riquezas, se apropriam para fins particulares daquilo que é dádiva de Deus para benefício de todos.

A práxis política no modelo de Jesus se manifesta pelo serviço, não pelo exercício do poder. “Os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas. Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo; e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos.

Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos”, disse Jesus, que jamais encorajou seus discípulos a conquistar o trono de Roma, eleger um dos seus para o senado romano, ou mesmo converter um imperador.

Os discípulos de Jesus fazem diferença no mundo quando agem tendo nas mãos uma toalha e uma bacia para lavar os pés aos pequeninos, não quando ostentam um cetro e uma coroa para exigir para si a autoridade que pertence somente a Jesus Cristo, o legítimo e único Senhor.

*É teólogo e pastor.

Este artigo não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema.

Compartilhe:

Comments

comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *