Em uma época em que praticamente todo tipo de música cabe na tela de um celular, um objeto criado há mais de sete décadas voltou a ocupar espaço nas estantes, lojas e, principalmente, entre consumidores que sequer eram nascidos quando o LP dominava o mercado fonográfico. O disco de vinil atravessou a era do CD, do MP3 e do streaming e chega a 2026 impulsionado por um novo ciclo de crescimento.
Em Mossoró, esse movimento ganha uma expressão própria através da Feira de Vinil e Afins, que vem se consolidando como espaço de encontro entre colecionadores, vendedores, músicos e pessoas interessadas em descobrir — ou redescobrir — a experiência de consumir música em formato físico.
De acordo com Yuri Alves, de 54 anos, que é um dos organizadores da Feira de Vinil e proprietário da loja Velho Punk Discos, a Feira surgiu da iniciativa de cinco colecionadores de vinil, que cansados da dependência do mercado virtual e das grandes capitais para adquirir discos, passaram a enxergar um público novo, diverso e disperso em Mossoró e região.
“A feira surgiu da necessidade e da inconformidade de um grupo de amigos, colecionadores e amantes dessa e de outras mídias analógicas, ditas como ultrapassadas pela maioria da pessoas, que não aceitavam a dependência da aquisição de material em feiras existentes nas capitais (Natal/Fortaleza) e internet. O Clube dos 5, grupo que é responsável pela organização do evento deu amplitude à cultura vintage na cidade, fez parcerias com o Cafezal Café & Bistrô, com o Banco do Nordeste, com o Partage Shopping e diferentes setores da iniciativa privada, e vem tendo um retorno absurdo em participação e novos clientes”, destaca Yuri

Mais do que um ponto de compra e venda, a Feira passou a funcionar como um espaço de circulação da cultura musical em Mossoró. Entre capas, encartes, discos novos e usados, CDs, raridades e histórias sobre artistas e álbuns, convivem colecionadores experientes e jovens que estão começando agora suas primeiras coleções.
Outro ponto que merece destaque é o fato de que, pouco a pouco, a feira de vinil passou a agregar outros nichos de colecionáveis: retrogames, carrinhos, brinquedos e antiguidades em geral também encontraram seu público e foram apresentados a uma geração muito mais acostumada com a praticidade do mundo virtual.
A mudança no perfil de quem procura discos não é apenas uma impressão de quem frequenta eventos do gênero. Dados internacionais mostram que o renascimento do vinil já atravessa gerações. Pesquisas apontam que 41% dos compradores de vinil nos EUA em lojas independentes tinham menos de 35 anos, enquanto 24% tinham até 24 anos.
O estudante de Biologia na UERN, Marcos Guerra de 19 anos, é um exemplo da renovação da cultura vintage em Mossoró. Ele conta que nunca havia visto um disco de vinil e conheceu esse tipo de mídia na Feira de Vinil e afins à época realizada no extinta cervejaria Cabocla. Foi ali que ele iniciou sua coleção, ainda com 16 anos.
“Foi na feira que eu comprei o meu primeiro disco de vinil da minha vida. Eu tenho um afeto gigantesco por esse dia. Eu comprei na loja Velho Punk Discos e eu lembro exatamente: no dia eu ainda tava no ensino médio, não trabalhava, não ganhava nenhuma forma de renda, aí eu só tinha… não lembro se era R$ 30. Fiquei apaixonado por um disco de Chico Buarque, o mais famosão, que tem Cálice… que tem Meu Amor… Apesar de Você, né? Eu olhando assim, babando, aí chegou e ele falou assim: ‘Você quer esse disco?”, narrou Marcos.

Esse encontro de gerações ajuda a explicar um fenômeno aparentemente contraditório: quanto mais digital se torna o consumo cotidiano de música, mais valor cultural parece adquirir o objeto físico.Marcos destaca que existe uma distância muito grande entre a sensação de ouvir música digital e a experiência analógica.
“No disco, eu me imagino realmente sendo dono daquela música, sabe? Porque quando eu olho em streaming, no Spotify, YouTube Music, enfim, a obra não é realmente da pessoa… ela não tem realmente a permissão plena de ouvir aquilo, sabe? Ela tá submetida a anúncios, ela tá submetida a ter aquela música pausada e isso não é você ser dono e aproveitar a música. Isso daí está mais para aluguel da música. Além disso, ouvir em um disco de vinil, cara, é muito superior, pela qualidade sonora, pelo trabalho de arte nas capas e por nos dar a plenitude que o streaming não permite”, reflete o estudante.
Vinil cresce pelo 19º ano consecutivo no mundo
Os números ajudam a dimensionar esse fenômeno. De acordo com o Global Music Report 2026, da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), o mercado mundial de música gravada movimentou US$ 31,7 bilhões em 2025, crescimento de 6,4% em relação ao ano anterior. Embora o streaming permaneça amplamente dominante, os formatos físicos tiveram alta de 8%. No caso específico do vinil, o faturamento cresceu 13,7%, completando 19 anos consecutivos de expansão.
Os Estados Unidos, maior mercado fonográfico do planeta, oferecem uma dimensão ainda mais clara da retomada. Segundo a Recording Industry Association of America (RIAA), foram comercializados 46,8 milhões de discos de vinil em 2025, contra 43,4 milhões no ano anterior. O faturamento do formato ultrapassou US$ 1 bilhão, com crescimento de 9,3%. A entidade calcula ainda que o mercado norte-americano concentra quase metade da receita mundial gerada pelo vinil.
Há outro dado especialmente significativo para iniciativas como a Feira de Vinil de Mossoró. Levantamento da Organização Luminate indica que, entre 2016 e 2023, 45% dos discos de vinil vendidos nos Estados Unidos foram comercializados por lojas independentes, mais de 100 milhões de unidades no período. Em 2024, esses estabelecimentos continuavam sendo o principal canal físico pesquisado para a compra de LPs.
São números que mostram que o renascimento do formato não ocorre apenas através das grandes plataformas de comércio eletrônico ou dos lançamentos milionários de artistas internacionais. Ele também depende de lojas, sebos, feiras, clubes, encontros de colecionadores e pequenos vendedores — ambientes nos quais o disco deixa de ser apenas mercadoria e volta a ser motivo para conversa e convivência.
Brasil acompanha crescimento mundial
O Brasil também está inserido nesse processo. O mercado fonográfico brasileiro movimentou R$ 3,958 bilhões em 2025, crescimento de 14,1% em relação a 2024, segundo a Pró-Música Brasil. O desempenho levou o país à oitava posição entre os maiores mercados de música gravada do mundo.
O streaming responde pela maior parte desse dinheiro, mas é justamente na pequena fatia ocupada pelos formatos físicos que aparece um dos movimentos mais curiosos do setor. As vendas físicas cresceram 25,6% no Brasil em 2025, mesmo representando menos de 1% das receitas totais, e o avanço foi puxado principalmente pelo vinil.
A tendência já havia ficado evidente em 2024. Naquele ano, o mercado brasileiro de produtos físicos faturou R$ 21 milhões, alta de 31,5%. Só os discos de vinil movimentaram R$ 16 milhões, com crescimento de 45,6%, tornando-se pelo segundo ano consecutivo o formato físico de música com maior faturamento no país.
A retomada do consumo também movimentou a produção nacional. A Vinil Brasil, fábrica instalada em São Paulo, mantém sua produção desde 2017 utilizando, entre outros equipamentos, antigas prensas da gravadora Continental recuperadas e modernizadas. A própria história da fábrica simboliza o movimento atual: máquinas consideradas obsoletas voltaram à atividade para atender um mercado que novamente demanda novos lançamentos e reedições em LP.
Do streaming para a vitrola
A nova geração de colecionadores também ajuda a derrubar a ideia de que o vinil sobrevive apenas pela nostalgia de quem viveu sua época de ouro.
Muitos consumidores chegam ao formato depois de conhecer artistas através do Spotify, YouTube, TikTok ou outras plataformas digitais. O streaming apresenta a música; o disco transforma aquele conteúdo em objeto. Capa, encarte, fotografia, edição, prensagem e até a procura por determinada versão passam a fazer parte da experiência.
É justamente nesse ponto que eventos presenciais ganham importância. Ao contrário da compra feita por meio de uma tela, uma feira permite tocar os discos, comparar prensagens, conversar com outros colecionadores, pedir indicações e descobrir álbuns que muitas vezes não estavam no radar de quem chegou ao local.

“Sobre o prazer do garimpo, isso não tem igual. Você tá lá cavucando caixas e caixas e, de repente, achar aquele disco daquele artista ou aquele álbum, que talvez não seja muito conhecido daquele artista, mas você gosta muito, e você achar e tá em boa condição e você levar para casa, limpar, escutar… Cara, é uma sensação única, de fato única. É basicamente você ter… literalmente você garimpou o ouro no meio da no meio da maré, no meio da da lagoa. Tirou ouro do meio da lagoa”, comenta o estudante Marcos Guerra.
Para quem organiza a Feira de Vinil e Afins de Mossoró, essa renovação do público também amplia a função cultural do evento. As edições vêm reunindo pessoas com diferentes níveis de conhecimento sobre colecionismo, desde quem procura prensagens específicas e raridades até quem está comprando o primeiro LP.
Yuri Alves celebra a chegada de novos colecionadores e destaca a importância do evento na consolidação de um novo espectro cultural em Mossoró
“O crescimento da feira e seu impacto na cultura local, é corroborado pelo crescente número de novos colecionadores que a frequentam, em sua grande maioria, jovens entre 15 e 25 anos. A feira que começou com cinco amigos e suas lojas virtuais, hoje realizam encontros de mais de 20 lojas de diversos itens de coleção, tais como: discos de vinil, fitas K7, CDs, fitas VHS, DVDs, memorabilia antigas, artesanato, botons, action figures 3D, camisetas, entre outras itens vintage”, comenta o organizador

Feira e música ao vivo
Outro caminho adotado pela Feira de Vinil e Afins de Mossoró tem sido aproximar ainda mais o colecionismo da experiência musical. Em algumas edições, a circulação dos expositores acontece simultaneamente a apresentações artísticas, fazendo com que o público possa garimpar discos enquanto acompanha música ao vivo.
A proposta estará presente na edição de agosto, marcada para este sábado (15), a partir das 18h, no Cafezal Café & Bistrô, no Memorial da Resistência, no Centro de Mossoró. Enquanto acontece a Feira de Vinil e Afins, o cantor Hugo Bessa apresenta um show cover dedicado a Michael Jackson.

A escolha dialoga diretamente com o universo do colecionismo. Michael Jackson atravessou diferentes gerações e formatos da indústria fonográfica, e seus álbuns continuam presentes nas prateleiras de colecionadores, seja em edições de época ou em novas prensagens.
Enquanto Hugo Bessa revisita no palco sucessos do Rei do Pop, os expositores estarão com seus acervos disponíveis para o público. Feira e show acontecem simultaneamente e a entrada é gratuita.
“Desde sempre nosso objetivo foi transformar a feira em um espaço de apresentação de novos artistas da cidade. A parceria com BNB Cultural nos deu o suporte e nos permitiu ter a curadoria das apresentações culturais nos dias de feira. Essa união garantiu que ampliássemos ainda mais o público visitante. Quem não vem pelos discos, vem pela boa música. Quem vem garimpar acaba assistindo a um grande show”, destaca Yuri.
