Thiago Medeiros*
Investimentos públicos e privados ampliam os canteiros, movimentam a construção civil e criam um novo desafio: encontrar trabalhadores qualificados
Há uma cena que começa a se repetir em diferentes regiões do Rio Grande do Norte: máquinas trabalhando, estradas sendo recuperadas, casas sendo construídas e novos empreendimentos ocupando espaços nas cidades.
Por trás de cada obra existe uma cadeia econômica. Há trabalhadores contratados, empresas fornecedoras, comércio de materiais, transportadores e dinheiro circulando nos municípios.
Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Dados do Cadastro Nacional de Obras (CNO), da Receita Federal, apontam 5.199 registros de obras no Rio Grande do Norte, conforme levantamento atualizado em 26 de agosto.
O número precisa ser interpretado com cautela. O CNO reúne obras públicas e privadas, construções, reformas e ampliações. Não significa, portanto, que existam 5.199 grandes canteiros simultaneamente. Ainda assim, revela o tamanho da movimentação formal da construção civil no Estado.
E há um aspecto interessante nesse processo: o dinheiro que chega às obras tem várias origens.
São investimentos estaduais, federais e municipais, recursos de emendas parlamentares, programas habitacionais, Novo PAC, financiamentos e investimentos privados. O Minha Casa, Minha Vida é um exemplo de política que, além da habitação, movimenta uma cadeia inteira da construção.
No setor privado, habitação, mercado imobiliário, energia e serviços também ajudam a ampliar esse movimento.
Ou seja, seria simplista atribuir a um único governo a expansão dos canteiros. O fenômeno resulta da combinação de políticas públicas, recursos federais, capacidade de execução dos municípios, investimentos privados e condições do próprio mercado.
Mas o aumento das obras produz um efeito que merece atenção: começa a faltar trabalhador em alguns segmentos.
Pedreiros, eletricistas, soldadores, operadores de máquinas e profissionais técnicos passam a ser disputados por diferentes empresas.
Não necessariamente porque as pessoas não querem trabalhar. Pode ser o contrário: o mercado está criando oportunidades em uma velocidade maior do que a capacidade de formar profissionais.
Esse pode ser um dos principais desafios do próximo período.
IFRN, Sistema S, escolas técnicas e programas de qualificação profissional passam a ter importância estratégica. Não apenas para preencher vagas, mas para garantir que uma parcela maior dos empregos gerados pelos investimentos fique com trabalhadores potiguares.
Há, porém, outra questão.
Obra gera emprego, mas nem todo emprego permanece depois que a obra termina.
Por isso, o sucesso desse ciclo não deveria ser medido apenas pela quantidade de estradas recuperadas, casas construídas ou prédios entregues. O indicador mais importante será o que esses investimentos produzirão depois.
Uma estrada pode reduzir custos. Uma escola pode ampliar oportunidades. Uma casa pode movimentar o comércio. Um empreendimento pode atrair novos negócios.
É aí que investimento começa a se transformar em desenvolvimento.
O Rio Grande do Norte também aparece em uma posição melhor no Ranking de Competitividade dos Estados, do CLP: 15º colocado no país e terceiro do Nordeste em 2026. O dado não pode ser confundido com o número de obras, porque mede dimensões diferentes. Mas, observado junto a outros indicadores, ajuda a identificar um Estado em movimento.
Ainda existem gargalos importantes: infraestrutura, qualificação, situação fiscal e desigualdade.
Por isso, mais do que comemorar o número de canteiros, é preciso acompanhar o que ficará depois que as máquinas forem embora.
O RN pode estar vivendo um novo ciclo de investimentos.
O desafio é fazer com que ele não seja apenas um ciclo de obras, mas um ciclo de emprego, renda e desenvolvimento.
*Thiago Medeiros é Sociólogo
