Entrevista: O que pensa Kelyane Abreu, primeira mulher a presidir a ADUFERSA

Foto: Claudio Palheta Jr.

Eleita e empossada nesta semana como a primeira mulher a assumir a presidência da Associação dos Docentes da Ufersa – ADUFERSA, a professora Kelyane Abreu inicia um novo ciclo à frente da entidade em um momento marcado por importantes desafios para a universidade pública e para a organização sindical da categoria docente.

Natural de Cajazeiras, na Paraíba, Kelyane é licenciada e mestra em Matemática pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e doutora em Geometria Algébrica pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professora da UFERSA desde 28 de julho de 2022, ela também acumula experiência na direção sindical, tendo atuado na Tesouraria da ADUFERSA durante o biênio 2024-2026.

Agora na presidência da entidade, Kelyane assume a responsabilidade de conduzir a ADUFERSA em meio a debates sobre valorização da carreira docente, condições de trabalho, financiamento das universidades federais e fortalecimento da organização coletiva. Nesta entrevista, ela fala sobre a decisão de disputar a presidência, os desafios da nova gestão, o significado político de ser a primeira mulher a ocupar o cargo e as perspectivas para a luta docente no próximo período. Neste bate papo ela conversa com o jornalista Cláudio Palheta Jr. 

CPJ: Ser a primeira mulher a presidir a ADUFERSA também possui um peso político e simbólico. Como você enxerga a presença das mulheres nos espaços de direção sindical e nas lutas da categoria?

KA:Ser a primeira mulher a presidir a ADUFERSA é uma conquista que não deve ser vista de forma individual, mas como resultado de uma trajetória coletiva de muitas mulheres que, ao longo dos anos, ocuparam espaços de luta, de organização e de construção política. A nossa chapa não apenas tem a frente uma presidenta, mas todas as pastas da diretoria também são presididas por mulheres e esse é um marco muito importante para todos nós. Demonstra um compromisso da nossa gestão na defesa da democracia e equidade de gênero. Se coloquei meu nome a disposição para ocupar a presidência da ADUFERSA é porque outras mulheres me inspiram e me encorajam. Precisamos transformar esses espaços, historicamente ocupados por homens, em ambientes cada vez mais plurais e representativos. Ao mesmo tempo, sabemos que ocupar esses espaços ainda significa enfrentar desafios. A luta por igualdade de gênero precisa estar articulada à própria luta por uma universidade pública, democrática e socialmente referenciada.

CPJ: Você assume a presidência da ADUFERSA em um momento de muitos desafios para a universidade pública e para a carreira docente. Qual é a leitura que você faz da atual conjuntura para os professores e professoras das universidades federais?

KA: Assumimos a ADUFERSA em uma conjuntura bastante desafiadora, em que a defesa da universidade pública e dos direitos da categoria docente precisa estar no centro da nossa atuação. Os debates recentes realizados no âmbito do ANDES-SN têm apontado questões que considero fundamentais para compreendermos esse momento: o subfinanciamento das universidades públicas, a precarização e a intensificação do trabalho docente, a saúde dos professores e professoras, além das ameaças representadas por propostas de reforma administrativa que podem comprometer os serviços públicos e os direitos dos servidores. O desafio é duplo: precisamos defender aquilo que já conquistamos e, ao mesmo tempo, avançar na construção de uma universidade pública que tenha financiamento adequado, condições dignas de trabalho e uma carreira docente valorizada. Por isso, um dos eixos do nosso plano de gestão é o GT Carreira, grupo de trabalho dedicado a discutir e propor encaminhamentos concretos sobre progressão, condições de trabalho e valorização da carreira docente, em diálogo direto com as pautas do ANDES-SN.

Nova diretoria da ADUFERSA (Foto: Cláudio Palheta Jr.)
CPJ: Qual deve ser, na sua avaliação, o papel da ADUFERSA na defesa da autonomia universitária e no enfrentamento de eventuais ataques à universidade pública e aos direitos da categoria?

KA: A autonomia universitária é um princípio fundamental para que a universidade possa cumprir sua função social com liberdade acadêmica, científica e administrativa. A ADUFERSA deve estar permanentemente vigilante na defesa desse princípio e dos direitos da categoria docente. Um exemplo bem atual disso é a recente aprovação, pelo Senado, do fim da lista tríplice para escolha de reitoras e reitores — uma bandeira histórica do ANDES-SN e do movimento docente, que agora segue para sanção presidencial. Passar a obrigar a nomeação de quem obteve mais votos na consulta à comunidade acadêmica é uma vitória importante para a democracia interna das universidades. Mas o próprio texto aprovado mostra que cada conquista exige vigilância: ao revogar o peso de 70% do voto docente sem garantir paridade ou universalidade nos processos eleitorais, e ao abrir a possibilidade de que entidades da sociedade civil participem da escolha de dirigentes, o projeto também traz riscos à autonomia universitária que precisam ser acompanhados de perto pelo movimento sindical. Entendo que o sindicato precisa cumprir esse papel de representação, mobilização e formação política — e é justamente para isso que criamos o GT Formação Sindical, voltado a ampliar a formação política da categoria e a preparar novas lideranças para os espaços de luta, mas também deve ser um espaço de diálogo com a comunidade universitária e com a sociedade. Precisamos fortalecer a compreensão de que a universidade pública pertence à sociedade e que sua autonomia não é um privilégio, mas uma condição para a produção livre e crítica do conhecimento.

CPJ: Como você avalia a importância da articulação da ADUFERSA com outras seções sindicais, movimentos sociais e entidades nacionais da educação para fortalecer as lutas dos docentes?

KA: Nenhuma luta sindical se faz de maneira isolada. A articulação com outras seções sindicais, entidades da educação, movimentos sociais e organizações da sociedade civil é fundamental para ampliarmos nossa capacidade de mobilização e enfrentamento. A ADUFERSA tem um papel importante nesse processo. Queremos fortalecer o diálogo com outras entidades e participar ativamente das discussões que envolvem a defesa da universidade pública, da ciência, da educação e dos direitos da categoria docente. A unidade não significa ausência de divergências, mas capacidade de construir, a partir das diferenças, diálogo e estratégias coletivas em torno de pautas que sejam fundamentais para a categoria e para a sociedade.

CPJ: Estamos às vésperas de uma eleição decisiva para a sociedade brasileira, com dois projetos bem diferentes em disputa. Qual você acha que deve ser o papel do movimento sindical neste contexto?

O movimento sindical tem uma responsabilidade muito grande em momentos como este, especialmente porque historicamente está ligado à defesa da democracia, dos direitos sociais, dos serviços públicos e dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras.

A ADUFERSA é uma seção sindical e, portanto, não é partidária. Não cabe à entidade assumir uma posição em favor de um partido político. Isso, no entanto, não significa que devemos ser neutros diante de projetos políticos que ameaçam princípios que defendemos historicamente. Para nós, a defesa da universidade pública, gratuita, democrática, inclusiva e socialmente referenciada passa necessariamente pela defesa da democracia e dos direitos sociais. Por isso, diante do avanço da extrema direita e de projetos que questionam direitos, enfraquecem os serviços públicos e atacam a própria ideia de uma universidade pública comprometida com a sociedade, precisamos nos posicionar. O papel do movimento sindical, nesse contexto, é promover o debate, informar a categoria e a sociedade e deixar claro quais são os impactos dos diferentes projetos políticos sobre a vida dos trabalhadores, sobre a educação, a ciência e os serviços públicos. Não se trata de fazer uma disputa partidária, mas de defender princípios e direitos que são fundamentais para a existência e para o fortalecimento da universidade pública.

CPJ: Que ADUFERSA você espera entregar à categoria ao final do seu mandato?

Quero que o sindicato seja percebido pelos docentes como um espaço de representação, mas também de acolhimento, diálogo e construção coletiva. Uma entidade presente nos diferentes campi, atenta às demandas específicas dos professores e professoras e capaz de transformar essas demandas em pautas de luta. Também espero avançar no fortalecimento da participação das mulheres e das diferentes vozes da nossa categoria nos espaços de decisão, ampliar o diálogo com a comunidade universitária e fortalecer a articulação da ADUFERSA com outras entidades. A ADUFERSA precisa ser um instrumento de luta, mas também de construção. E acredito que, com participação coletiva, podemos fortalecer o sindicato e contribuir para a defesa de uma universidade pública, gratuita, democrática, inclusiva e socialmente comprometida.