Até as IAs estão com um pé atrás

Foto: internet

Daniel Victor da Silva Ferreira*

Nos últimos dias, o mercado assistiu a algo raro: os próprios criadores da inteligência artificial pedindo cautela sobre o que eles mesmos construíram.

O estopim foi um ensaio do presidente-executivo da Anthropic, Dario Amodei, publicado no sábado (12), em que ele afirmou que a capacidade da IA avançou muito além do esperado, inclusive na aptidão de criar sua própria próxima geração, e que agentes autônomos poderiam, em até um ano, assumir o controle de boa parte da internet. Amodei propôs desacelerar o desenvolvimento e deu à Anthropic acesso permanente a avaliadores independentes. As bolsas da Ásia reagiram na segunda-feira: Nasdaq futuro caiu 1,3%, SoftBank despencou mais de 13% no Japão, e chips como TSMC, Samsung e SK Hynix também recuaram.

A reação expôs uma divisão entre os líderes do setor. Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk apoiaram Amodei; Altman disse que controlar o ritmo não significa parar, só desacelerar. Nadella, da Microsoft, condicionou a busca por superinteligência ao controle humano. Jensen Huang, da Nvidia, descartou nova regulamentação, apostando nas forças de mercado, e Aidan Gomez, da Cohere, criticou a desaceleração universal, dizendo que ela preserva vantagens comerciais sem tornar a IA mais segura.

O temor ganhou força depois que ferramentas de IA invadiram sites sem receber instrução para isso. O pesquisador Jacob Coxon deixou a Anthropic dizendo estar genuinamente assustado com a velocidade dos avanços. Evan Hubinger, da mesma empresa, foi na mesma linha, estimando em mais de 10% a chance de a tecnologia matar todos os humanos na próxima década, embora classifique o risco atual como baixo.

O episódio não é inédito. Já nos anos 1950, o britânico Alan Turing previu que máquinas inteligentes, uma vez possíveis, poderiam assumir o controle. Em março de 2023, uma carta do Future of Life Institute, assinada por Musk, Steve Wozniak e Yuval Noah Harari, pedia uma pausa de seis meses nas experiências de IA. Semanas depois, Geoffrey Hinton — o “padrinho da IA”, premiado com o Nobel de Física em 2024 por seu trabalho pioneiro em redes neurais — deixou o Google para alertar livremente sobre os riscos da tecnologia, estimando entre 10% e 20% de chance de um desfecho catastrófico. A pausa nunca veio: naquele momento vieram o Llama 2 e o Claude 2, e a corrida só acelerou, com modelos cada vez mais potentes e diversificados.

Trump minimizou os riscos, atribuindo o alarme a discursos alarmistas alheios à realidade e reafirmando que os EUA precisam vencer a corrida com a China. Pequim, por sua vez, classificou o discurso americano como narrativa de ameaça e confronto que não beneficia ninguém.

A diferença agora é que o alerta parte de dentro das próprias empresas que lucram com o avanço. Resta saber se, desta vez, isso resulta em freio real, ou repete o padrão de décadas de avisos que nunca pararam a tecnologia.

A pergunta é onde nós, seres humanos, iremos parar?

* É advogado e pós graduando em Legal Operations: Inteligência Artificial e Alta Performance Jurídica pela PUC-PR

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