Por Cleber Lourenço, do ICL Notícias
Publicações que comentam uma tentativa de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil ganharam centenas de milhares de visualizações nas redes sociais entre a noite desta quinta-feira (24) e a manhã desta sexta (25). No Google Trends, buscas por Nossa Senhora Aparecida chegaram ao maior patamar dos últimos 3 meses.
O assunto ganhou força depois que publicações passaram a recuperar um projeto apresentado no Congresso em 2007, relacioná-lo ao bolsonarismo e transformar. A participação da jornalista Maria Cristina Fernandes, na Globonews, comentando uma reação de católicos a uma possível retomada do projeto, turbinou o assunto nas redes. A emissora fez uma errata e desmentiu a informação.
Diante da repercussão, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) gravou um vídeo – aparentemente a bordo de um jatinho – para negar qualquer intenção de promover a mudança.

Um dos posts de maior alcance foi publicado pelo perfil Muka. Ele mostrou imagens do Projeto de Lei 2.623/2007 e afirmou: “Aqui está o projeto que tira de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil”. A publicação também dizia que Flávio estaria comprometido com a medida e acumulava cerca de 259 mil visualizações na manhã desta sexta.
O projeto exibido na publicação existe, mas foi apresentado há quase duas décadas pelo então deputado Professor Victório Galli, pastor evangélico que na época era filiado ao PMDB de Mato Grosso e que hoje é aliado da família Bolsonaro. Ele chegou a ser nomeado em 2019 para atuar como assessor especial da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro.

O texto propunha alterar a lei que instituiu 12 de outubro como feriado nacional para trocar a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta foi rejeitada na Câmara e arquivada em agosto de 2008.
De projeto antigo a argumento eleitoral
A recuperação da proposta de 2007 rapidamente passou a ser usada para estabelecer uma ligação entre o episódio e o bolsonarismo.

A passagem de Galli pelo governo Bolsonaro, porém, não transforma a proposta de 2007 em um projeto de Flávio nem comprova a existência de uma articulação atual para aprová-la.
Outras publicações avançaram diretamente sobre o terreno eleitoral.
Já o perfil Jef publicou: “Católico não vota em nenhum Bolsonaro e nem em nenhum candidato que queira retirar o título de Nossa Senhora Aparecida de Padroeira e Rainha do Brasil”. O conteúdo chegou a cerca de 54 mil visualizações e 8 mil curtidas.

A discussão ganhou ainda outras derivações. Bic Müller afirmou que, se grupos evangélicos retirassem o título de Padroeira do Brasil, “o próximo passo” poderia ser acabar com feriados católicos.
Cássio Oliveira, por sua vez, recuperou uma declaração anterior de Flávio na qual o senador afirmou que, caso eleito presidente, um de seus primeiros atos seria decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus”. O autor do post relacionou a frase à atual discussão sobre Aparecida.

A declaração recuperada pelo perfil não contém proposta de retirar o título de Nossa Senhora Aparecida. A associação foi feita pelo autor da publicação.
Post de padre
A repercussão não ficou restrita aos perfis que relacionaram diretamente o assunto à eleição.
O padre Sandro Rogério publicou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida acompanhada de uma mensagem curta: “Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, rogai por nós!”.
A publicação ultrapassou 3 mil compartilhamentos e ganhou forte repercussão justamente nas horas em que a discussão sobre o título de Padroeira do Brasil se espalhava pelas redes.
O padre não mencionou Flávio Bolsonaro nem fez referência direta ao projeto de lei. O engajamento da publicação, no entanto, ajuda a dimensionar como a discussão sobre Aparecida mobilizou as redes.
A ministra Anielle Franco (PT-RJ) também entrou no debate. Ela afirmou que Nossa Senhora Aparecida é “símbolo de fé, resistência e da própria identidade do povo brasileiro” e disse que “a fé não é moeda de troca eleitoral”.

Bispo que chutou imagem fez campanha por Bolsonaro
Entre os “indícios” citados nas redes está o fato de que o pastor Sérgio Von Helder, que ficou nacionalmente conhecido após chutar uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa de televisão, em 1995, fez campanha por Jair Bolsonaro em 2018 e chegou a chamar o 12 de outubro, Dia de Nossa Senhora Aparecida, de “feriado satânico”.
Naquele ano, Von Helder declarou apoio à candidatura de Bolsonaro e afirmou que o então presidenciável estava “revolucionando o mundo”. O apoio político continuou em 2022, quando o pastor voltou a defender Bolsonaro nas redes e publicou ataques a Lula e alegações sem provas sobre o sistema eleitoral.
Flávio reage à repercussão
Com o assunto ganhando força, Flávio Bolsonaro publicou um vídeo para negar que pretenda retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
“Não existe esse projeto”, afirmou.
Na publicação, o senador acusou adversários de espalharem uma “grande mentira” e declarou respeitar “todas as religiões e também quem não tem religião”.
A resposta de Flávio também ganhou forte repercussão e acumulava cerca de 170 mil visualizações na manhã desta sexta, além de milhares de curtidas e compartilhamentos.
Disputa pelo eleitor católico
A velocidade com que o assunto se espalhou ocorre num momento em que o voto religioso ocupa espaço importante na eleição presidencial.
Pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta mostra comportamentos distintos entre católicos e evangélicos. Entre os eleitores católicos, Lula aparece com 45% das intenções de voto contra 33% de Flávio. Entre os evangélicos, a situação se inverte: Flávio registra 47%, contra 27% do presidente.
O levantamento ouviu 2.002 eleitores nos dias 22 e 23 de setembro. A margem de erro nos segmentos religiosos é maior que a da amostra geral.
A polêmica também surge depois de manifestações recentes de bispos católicos sobre soberania, democracia e as eleições de 2026. Em 7 de setembro, por exemplo, o arcebispo emérito de Aparecida, dom Orlando Brandes, defendeu a soberania nacional durante missa no Santuário e pediu aos eleitores que votem pensando no “bem comum”.
Não há evidência de que essas manifestações estejam relacionadas à história que viralizou nesta quinta-feira ou de uma ação institucional da Igreja Católica contra Flávio.
Nas redes, porém, a discussão sobre Nossa Senhora Aparecida rapidamente deixou de se limitar ao antigo projeto de lei e passou a integrar a disputa política, com publicações de grande alcance dirigidas diretamente ao eleitorado católico.
