As eleições de 2026 no Rio Grande do Norte colocaram à prova uma equação que vem ganhando espaço na política: até que ponto grandes audiências nas redes sociais conseguem ser transformadas em votos?
Influenciadores e produtores de conteúdo com centenas de milhares de seguidores entraram na disputa por vagas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados. Os resultados mostram que o alcance digital, por si só, não foi suficiente para garantir mandato. Entre os principais nomes desse grupo, nenhum foi eleito — e um deles sequer chegou ao dia da votação.
O contraste fica ainda mais evidente quando se colocam lado a lado três números: quantidade de seguidores, recursos recebidos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e votos conquistados.
| Candidato | Seguidores no Instagram | FEFC recebido | Votos | Resultado |
|---|---|---|---|---|
| Nenel Lucas (União Brasil) | cerca de 963 mil | R$ 20 mil | 847 | Não eleito |
| Ivan Baron (PT) | cerca de 556 mil | R$ 24.275 | — | Renunciou antes da eleição |
| Dani Ribeiro (União Brasil) | cerca de 337 mil | R$ 2,513 milhões | 5.735 | Não eleita |
Nenel Lucas reunia cerca de 963 mil seguidores no Instagram, enquanto Ivan Baron estava na faixa dos 556 mil e Dani Ribeiro, dos 337 mil. Os números são retratos aproximados das contas monitoradas no período eleitoral e podem variar diariamente.
Os seguidores também não correspondem necessariamente a eleitores do Rio Grande do Norte. Uma audiência digital pode incluir pessoas de outros estados, menores de idade e usuários que não votam no estado.
Dani Ribeiro recebeu R$ 2,5 milhões do Fundo Eleitoral
Entre os influenciadores analisados, a campanha com maior volume de recursos públicos foi a de Dani Ribeiro, candidata a deputada federal pelo União Brasil.
A influenciadora de Mossoró recebeu R$ 2.513.160 da Direção Nacional do União Brasil, praticamente todo o dinheiro arrecadado pela candidatura. Os registros da prestação de contas mostram que a campanha declarou aproximadamente R$ 2,526 milhões em receitas, sendo R$ 2,513 milhões provenientes do partido.
O tamanho do repasse chama ainda mais atenção quando comparado ao financiamento de algumas das principais candidaturas majoritárias do Rio Grande do Norte.
Dani Ribeiro recebeu, sozinha, mais recursos públicos que Cadu Xavier (PT), candidato ao Governo que avançou para o segundo turno, e que Coronel Hélio (PL), um dos principais candidatos ao Senado. Os dados consolidados das prestações de contas apontam aproximadamente R$ 1,4 milhão em recursos públicos para Cadu Xavier e cerca de R$ 1,7 milhão para Coronel Hélio. Dani, portanto, recebeu aproximadamente R$ 1,1 milhão a mais que Cadu e cerca de R$ 800 mil a mais que Coronel Hélio.
Nas urnas, entretanto, Dani terminou com 5.735 votos e não foi eleita.
Apenas como comparação matemática, a divisão dos R$ 2.513.160 recebidos do fundo pela votação obtida resulta em aproximadamente R$ 438 por voto.
Quase 1 milhão de seguidores e 847 votos
Outro resultado que chama atenção é o de Nenel Lucas, candidato a deputado estadual pelo União Brasil.
Nenel reunia aproximadamente 963 mil seguidores no Instagram, a maior audiência entre os três influenciadores analisados. Apesar disso, recebeu apenas 847 votos, ou 0,04% dos válidos, e ficou na suplência.
Sua candidatura recebeu R$ 20 mil do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, repassados pela Direção Nacional do União Brasil.
A divisão simples entre o FEFC recebido e a votação representa aproximadamente R$ 23,61 em recursos do fundo para cada voto conquistado.
Ivan Baron recebeu recursos, mas não chegou à eleição
O caso de Ivan Baron é diferente porque o influenciador sequer concluiu a campanha.
Com aproximadamente 556 mil seguidores somente no Instagram, Ivan havia registrado candidatura a deputado estadual pelo PT, mas anunciou a retirada da disputa na reta final da campanha.
Antes da retirada, a candidatura havia recebido R$ 127.101 em receitas. Desse total, R$ 124.250 vieram da Direção Nacional do PT, enquanto R$ 24.275 aparecem classificados especificamente como Fundo Especial de Financiamento de Campanha.
O caso chama atenção porque Ivan recebeu recursos partidários, realizou despesas de campanha, mas sequer chegou ao dia da votação.
A situação permite uma comparação dentro do próprio PT. Enquanto Ivan Baron deixou a eleição antes da votação, Daniel Valença, então vereador de Natal, permaneceu na disputa e foi eleito deputado estadual com 52.099 votos.
A Direção Nacional do PT transferiu R$ 124.250 para a candidatura de Ivan Baron, contra R$ 112.600 para Daniel Valença. Ivan, portanto, recebeu diretamente da direção nacional cerca de R$ 11,6 mil a mais que o correligionário que terminou eleito.
