Por Marcelo Alves Dias de Souza*
Oscar Wilde (1854-1900), o grande conversador e dândi da Londres de fins do século XIX, está entre os mais lidos, traduzidos e encenados escritores de língua inglesa. Irlandês de Dublin, ele foi jornalista, poeta, contista, romancista e dramaturgo.
Particularmente, sempre fui fã das peças teatrais de Wilde. Morando/estudando em Londres, tive oportunidade de assistir a algumas montagens. Mas o que eu gostava – e ainda gosto, claro – era de ler as comédias do seu grande período de fertilidade artística, os anos 1890, que condensa o melhor de sua obra, sobretudo a série “Lady Windermere’s Fan” (1892), “A Woman of No Importance” (1893), “An Ideal Husband” (1895) e “The Importance of Being Earnest” (1895). São muitas tiradas. “Boutades”, como diriam os franceses. Wilde está certamente entre os maiores frasistas de todos os tempos.
Desse mesmo período também é o seu badalado romance “The Picture of Dorian Gray” (1890). Mas a coisa aqui é de outro matiz, digamos de um fim mais “sombrio”. Como registra José Roberto de Castro Neves, em “O espelho infiel: uma história humana da arte e do direito” (Nova Fronteira, 2020): “Em 1891, Wilde publica seu primeiro (e único) romance: O retrato de Dorian Gray. De pronto, vê-se que o personagem central, Dorian Gray, apresenta um nome dúbio, pois Dorian se refere a algo dourado, ou mesmo ‘de ouro’, e seu sobrenome, Gray, remete a algo cinzento. O protagonista do livro, um belo e vaidoso jovem, membro da burguesia inglesa, tem sua imagem retratada em um quadro. Ao longo do tempo, o rapaz mantém-se belo, enquanto sua pintura envelhece e se degrada. É como se tivesse trocado de lugar com a obra de arte. À medida que o tempo se vai e Dorian faz escolhas morais reprováveis, sua pintura passa a demonstrar uma figura repugnante – ao contrário do personagem, sempre lindo. A partir de determinado momento, Dorian esconde a pintura de todos. O quadro, como o protagonista bem percebe, representa a prova viva de seu deficiente caráter. Atormentado, Dorian decide destruir seu retrato. Tenta apunhalar o quadro. Gritos pavorosos vêm de seu quarto. Preocupados, os empregados conseguem arrombar a porta: Ao entrarem na sala viram na parede o magnífico retrato do amo, como eles o tinham conhecido em pleno apogeu da sua esplêndida mocidade e beleza. No chão jazia o cadáver de um homem em traje a rigor com uma faca cravada no peito. Ele estava lívido, enrugado e repugnante. Só pelos anéis é que os seus criados conseguiram identificá-lo. Ponto final. Assim termina o livro. O retrato de Dorian Gray era, claro, uma poderosa crítica à sociedade inglesa, por demais preocupada com as aparências”.
Wilde é também marcado por um outro “romance”, desta feita na vida real: iniciada em 1891, a relação homossexual com Lord Alfred Douglas (ou Bosie), segundo seus biógrafos, o grande amor de sua vida, apesar do seu casamento com Constance Lloyd, com quem teve dois filhos. Em 1895, Wilde toma a insensata decisão de processar criminalmente o pai de Bosie, o irascível Marquess of Queensberry (John Sholto Douglas), dando início a uma série de eventos que levariam ao seu próprio julgamento por homossexualismo. Kafkianamente, como resultado de tudo, Wilde é levado à prisão mais de uma vez, com fundamento, precisamente, nas provas produzidas em seu “desfavor” no julgamento do Marquess of Queensberry. Tem a insolvência civil declarada. É abandonado por Bosie. Chega à prisão de Reading, famoso porto de sua “Ballad”. Cumprida a pena, é liberto em maio de 1897, mas humilhado, falido e ceifado do contato com os filhos. Resta o autoexílio em Paris. Em 1900, aos 46 anos, convertido ao catolicismo, morre de meningite, talvez causada pela sífilis e certamente agravada pelo seu alcoolismo. Ainda hoje descansa no famoso Cemitério de Père Lachaise, na Cidade-Luz.
Os romances do Dândi, definitivamente, não terminaram bem.
*É Procurador Regional da República, Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL.
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