A dimensão da UFRN exige uma resposta à sua altura

Foto: Reprodução/ Redes sociais

Por Thiago Medeiros*

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte não é apenas uma instituição de ensino. É um dos maiores patrimônios públicos do Estado, um centro de produção de conhecimento e um espaço de formação de gerações. Seu peso ultrapassa os limites dos campi e alcança a economia, a cultura, a política e o próprio imaginário da sociedade potiguar.

Por isso, comandar a UFRN exige mais do que capacidade administrativa e de chefia: exige liderança. Exige compreender a dimensão simbólica da instituição e ter clareza de que a autoridade de sua direção precisa estar à altura do colosso que representa.

Nos últimos dias, episódios de tensão envolvendo manifestações políticas e estudantes trouxeram essa discussão para o centro do debate. Quando atividades acadêmicas são interrompidas, o ambiente universitário se transforma em cenário de confronto e integrantes da comunidade são colocados em situações de risco, não basta tratar o ocorrido como mais um capítulo da disputa política nacional.

A universidade precisa se posicionar e sair da posição de omissão, marcada por um silêncio quase denunciador. E precisa fazê-lo com firmeza, dentro de suas competências, respeitando o devido processo e as garantias de todos os envolvidos.

Não se trata de impedir manifestações, censurar opiniões ou restringir a presença de correntes ideológicas no ambiente acadêmico. Uma universidade pública precisa ser plural, aberta ao contraditório e capaz de conviver com diferenças. A liberdade de expressão é parte essencial da vida democrática, inclusive quando as opiniões provocam desconforto ou contestação.

Mas pluralidade não significa ausência de regras nem de respeito. Os membros da comunidade universitária não podem ser acusados de tráfico de drogas sem que haja apuração dos fatos e esclarecimento das responsabilidades. Democracia não é autorização para interromper aulas, intimidar pessoas ou transformar espaços de aprendizagem em palcos de hostilidade e acusações difamatórias. Há uma diferença fundamental entre exercer o direito de manifestação e comprometer o direito dos demais de estudar, ensinar e trabalhar.

É justamente nesse limite que a direção da UFRN precisa demonstrar autoridade e liderança institucional.

Estamos diante de dois processos democráticos que se cruzam: a disputa política nacional, que começa a ocupar cada vez mais espaço no cotidiano, e a própria eleição para a Reitoria, um momento histórico para a universidade. Nesse cenário, a instituição precisa reafirmar seus princípios sem se deixar capturar pela polarização externa ou pelas disputas internas.

A nova gestão, assim como quem hoje exerce o comando da universidade, deve compreender que a dimensão da UFRN amplia sua responsabilidade. A omissão diante de situações que ameacem a convivência acadêmica pode transmitir a mensagem de que os limites institucionais são negociáveis. A autonomia universitária, porém, não é negociável. Por outro lado, uma resposta firme, equilibrada e transparente fortalece a confiança da comunidade e protege a própria democracia universitária.

Isso significa apurar os fatos, esclarecer responsabilidades, aplicar as normas cabíveis e garantir que eventuais medidas sejam tomadas sem seletividade política. Ser firme exige a coragem de um líder. Significa também tornar públicas as providências adotadas, para que a sociedade compreenda que a universidade não se curva à intimidação nem age movida por conveniências ideológicas.

A eleição para a Reitoria não deve discutir apenas quem vai comandar a UFRN, mas também qual concepção de autoridade, responsabilidade e compromisso público orientará essa liderança.

A universidade tem tamanho, história e representatividade suficientes para exigir uma direção que não confunda prudência com passividade ou omissão. Sua autonomia não pode ser confundida com isolamento, assim como sua pluralidade não pode servir de justificativa para tolerar excessos.

A UFRN é maior do que qualquer candidatura, partido ou disputa eleitoral. Justamente por isso, precisa demonstrar que seus princípios valem para todos.

A democracia exige liberdade. Mas também exige responsabilidade, regras e limites. E uma instituição da dimensão da UFRN não pode abrir mão de nenhum desses elementos.

*É sociólogo.

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