O acesso ao poder pela extrema-direita através das mídias digitais

Foto: Alan Santos/PR

Rogério Tadeu Romano*

Lembrem-se que Hitler assumiu o poder, em 1933, de forma democrática, pelo voto popular e depois se transformou num ditador na Alemanha que tinha um passado cultural invejável.

O fascismo propunha o fim da democracia-liberal , pois pregava que o Estado estava acima de qualquer indivíduo. O Estado fascista seria responsável pela eliminação da luta de classes, suprimindo as organizações trabalhistas por meio do corporativismo. Portanto, o fascismo também pregava o anticomunismo e o antisindicalismo. Segundo Mussolini, a forte censura e a propaganda de Estado garantiriam uma sociedade coesa em torno dos interesses comuns, ou seja, do interesse do próprio Estado. Como afirmava Mussolini, o ideal era a “(…) multidão unificada por uma ideia, que é vontade de existência e de potência: consciência de si, personalidade”.

Disse bem Carlos Andreazza(O fetiche reacionário de Carlos Bolsonaro) que “o bolsonarismo investe no estabelecimento de uma cultura plebiscitária entre nós; um fetiche por meio do qual o líder populista governaria (reinaria) – prescindindo de instituições intermediárias – em conexão direta, verdadeira, sem filtros deturpadores, com o povo.

Importante para essa comunicação é o uso de mídias digitais.

O jornalista Bob Fernandes ao comentar os impactos da tecnologia na vida contemporânea relacionou o fortalecimento das plataformas digitais à difusão de ideologias, à concentração de poder nas grandes empresas de tecnologia e à capacidade de moldar comportamentos em escala global.

Nessa atuação, destaque-se Fernando Cerimedo, um marqueteiro e influencer argentino, que começou a ter destaque no cenário político sul-americano em 2018, quando, como funcionário da agência de publicidade McCann da Argentina, teria trabalhado na campanha presidencial de Jair Bolsonaro. Na campanha presidencial de 2022, divulgou desinformação sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas brasileiras, como informou o portal WIKIPÉDIA.

Informou, outrossim, aquele portal:

“ Cerimedo era diretor criativo da agência McCann, quando foi contratado para trabalhar na campanha presidencial de Jair Bolsonaro pelo filho deste, Eduardo Bolsonaro, o qual diz ter conhecido em Harvard em 2010, numa pós-graduação em comunicação política (a universidade negou que os citados tenham sido alunos da instituição). Cerimedo diz ter feito um “trabalho paralelo” à campanha oficial, e que teria entrado nela somente nos últimos 40 dias, com o objetivo de “convencer os haters de Bolsonaro, como os homossexuais”. Também em 2018 criou o portal La Derecha Diario, administrado por sua mulher, Natalia Basil, o qual tem sido continuamente acusado de espalhar desinformação (Cerimedo minimiza as acusações e diz ser contra as “fake news”).

O argentino foi indiciado pela Polícia Federal no inquérito do golpe, mas não entrou na denúncia da Procuradoria-Geral da República.

O influencer de direita argentino Fernando Cerimpor foi detido no dia 18.08.26, na Bolívia, suspeito de envolvimento em um ataque a tiros contra sua ex-mulher, na cidade boliviana em Santa Cruz de la Sierra. Sua prisão se deu por contratar assassinos de aluguel para assassinar sua ex-parceira, Nadia Beller, que estava grávida na época, depois que ela ameaçou vir a público denunciar suas operações ilegais de fazendas de bots em larga escala para manipular eleições a favor de candidatos de extrema direita em toda a América Latina.

A prisão de Cerimedo expôs um ecossistema digital global de extrema-direita.  

Cerimedo atuou, como dito, com Eduardo Bolsonaro para tentar retirar o crédito das urnas digitais brasileiras. Seu trabalho para Jair Bolsonaro o credenciou para comandar a estratégia digital de Javier Milei, o “Bolsonaro argentino”, eleito em 2023. Atuou nas eleições na Bolívia, no Peru, em Honduras.

De importância as declarações de Beller após tentativa de assassinato, reproduzidas no WIKIPÉDIA:

“Do leito do hospital, Beller apontou Cerimedo como o responsável. Ela afirmou: “se ele mesmo não enviou os pistoleiros, sabe quem eles são”. Segundo ela, Cerimedo havia organizado um encontro naquele local com indivíduos que supostamente possuíam informações sobre um assunto relacionado a Evo Morales. Ela também acusou a família do presidente Paz de negócios escusos: “estou solicitando proteção à CIDH, por favor, pois o governo é a parte mais interessada em me silenciar. Rodrigo Paz, sua esposa e a família dela estão envolvidos em negócios vultosos com corretoras — gerenciando todos os seguros de todas as empresas estatais”. Por fim, Beller alegou que certas facções da polícia estavam sob o controle de Cerimedo e que havia o risco de tentarem “dar cabo dela”.

Em 25 de agosto de 2026, após passar por cirurgia e receber alta, a advogada concedeu entrevista por vídeo conferência à Folha ainda deitada em uma cama. Ela relatou que ao questionar Cerimedo em relação à eleição de Flávio Bolsonaro, o consultor respondeu que “estava difícil, mas que eles iriam lutar”. Beller também afirmou que Eduardo Bolsonaro é um “amigo muito querido” de Cerimedo e que eles haviam se encontrado nos Estados Unidos no início de agosto.”

A especialidade de Cerimedo, como informou o portal Agência Pública, em 18.8.26, passou a ser a operação política no ambiente digital, combinando comunicação, mobilização de públicos e estratégias para ampliar o alcance de determinadas narrativas, sendo uma figura de destaque na circulação de conteúdos da extrema direita latino-americana, inclusive de alegações classificadas como falsas ou desinformativas.

Seu papel na concepção de um controle político pela extrema-direita na América Latina, tem sido muito importante e é nele em que está inserida a campanha de Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, principal mentor das ideias dessa corrente ideológica no Brasil, que age em consonância aos interesses norte-americanos, dentro de um ideário conservador e ultra liberal na economia.

A Folha revelou, em 26.8.26, que integrantes de instituições da sociedade civil têm afirmado nos últimos meses, sob reserva, que temem que empresas israelenses de segurança, conhecidas por disseminar desinformação no meio digital em eleições estrangeiras, possam atuar no Brasil nesta campanha.

Pelo voto popular mais uma vez a extrema-direita, assim como em 1933, na Alemanha, poderá assumir o poder, sem precisar recorrer a golpes de estado. Para isso o poder de informar e desinformar é de tamanha importância, tornando a população refém

*É procurador da República aposentado com atuação no RN.

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