Na noite da votação do fim da 6×1, Flávio peticionou em processo no RN que reúne Willer Tomaz e amigo de Fábio Faria

O advogado Willer Tomaz e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Foto: Reprodução X

Às 23h23 da noite de 14 de outubro, o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) protocolou uma petição no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em um processo envolvendo a Simas Industrial de Alimentos, tradicional fábrica de doces do Rio Grande do Norte. O registro ocorreu pouco mais de uma hora após o Senado concluir, por volta das 22h, a votação em segundo turno da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a jornada de trabalho 6×1.

Naquela noite, Flávio não compareceu presencialmente à sessão do Senado. O parlamentar, que cumpria agenda de campanha em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, só registrou presença no sistema por volta das 20h30, aproximadamente quatro horas após o início das discussões. Ele participou remotamente das duas votações e votou favoravelmente à proposta, aprovada por 75 votos a um.

Documento obtido pelo Blog do Barreto mostra que, enquanto o Senado discutia uma das principais pautas trabalhistas do país, Flávio também mantinha sua atuação na advocacia privada e em uma ação ligada ao empresariado potiguar.

A manifestação foi apresentada no Recurso Especial nº 1.935.056/RN, em defesa de Mário Gadelha Simas Filho, no contexto de uma longa disputa judicial entre integrantes da família proprietária da Simas Industrial. Na petição, Flávio pede a rejeição de embargos de declaração apresentados por outros familiares e a manutenção de decisão favorável ao seu cliente.

A atuação profissional do candidato à Presidência nesse caso voltou a ganhar repercussão após reportagem publicada pela Folha de S.Paulo na quinta-feira (22). O jornal revelou que Flávio e o advogado Willer Tomaz, seu amigo pessoal e atualmente investigado pela Polícia Federal, aparecem juntos como advogados em um mesmo processo envolvendo a indústria potiguar desde 2022.

A revelação contrasta com declarações dos dois, que sustentam manter apenas uma relação de amizade, sem vínculos profissionais ou societários.

Processo também envolve advogado próximo a Fábio Faria

Outro personagem de destaque nessa disputa é o advogado potiguar Erick Pereira, historicamente ligado ao ex-ministro das Comunicações Fábio Faria e ao seu pai, o ex-governador Robinson Faria.

Erick já atuava na defesa da Simas Industrial e de integrantes da família que permaneceram no comando da empresa quando Flávio Bolsonaro recebeu, em junho de 2022, uma procuração para participar da disputa no STJ. Willer Tomaz também já atuava em um dos recursos relacionados ao caso.

A proximidade de Erick Pereira com Fábio Faria é antiga. O advogado já exerceu funções de assessoria jurídica para o ex-ministro, e a relação entre ambos foi registrada em reportagens sobre os bastidores políticos e jurídicos do Rio Grande do Norte.

A disputa envolvendo a Simas começou entre 2008 e 2009, quando integrantes da família Gadelha Simas recorreram à Justiça para deixar a sociedade e receber os valores correspondentes às suas participações. O conflito se desdobrou em 13 ações judiciais, sete delas encaminhadas ao STJ.

Empresa potiguar pagou R$ 3,3 milhões ao escritório de Flávio

A ligação profissional de Flávio Bolsonaro com a Simas também envolve valores expressivos. Reportagem do UOL, publicada no último dia 20, identificou três notas fiscais emitidas pelo escritório do senador para a indústria potiguar entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024, totalizando R$ 3,3 milhões.

A Simas aparece como o segundo maior cliente identificado no levantamento, que encontrou pelo menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais emitidas pelo escritório de Flávio entre janeiro de 2023 e julho de 2026, período em que ele exercia o mandato de senador.

Segundo o UOL, duas transferências realizadas pela empresa potiguar ao escritório do parlamentar também foram mencionadas em uma comunicação bancária encaminhada pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) a investigadores.