Onda de ameaças contra candidatas expõe face mais brutal da violência política no RN

Da esquerda para a direita: Natália Bonavides, Brisa Bracchi e Juliana Garcia. Fotos: Reprodução

A campanha eleitoral no Rio Grande do Norte ganhou nos últimos dias um componente assustador. Três candidatas do PT passaram a conviver com ataques e ameaças que ultrapassam qualquer fronteira do embate político e colocam a violência contra a mulher no centro da disputa eleitoral.

Juliana Garcia, Brisa Bracchi e Natália Bonavides foram alvos de episódios distintos, mas unidos por uma característica: a violência dirigida especificamente contra mulheres que decidiram ocupar e disputar espaços de poder.

No caso de Brisa e Natália, as mensagens chegaram ao nível de ameaças explícitas de estupro, morte e esquartejamento, acompanhadas, em alguns casos, da exposição de informações pessoais e de familiares. Juliana, por sua vez, voltou a ser atacada justamente a partir da violência que quase lhe custou a vida em 2025.

É um cenário que transforma misoginia em arma política.

Brisa recebe ameaças de estupro e morte

A vereadora de Natal e candidata a deputada federal Brisa Bracchi trouxe à tona toda a baixeza que vem sofrendo desde o início da campanha eleitoral.

Ela denunciou ter recebido, no dia 1º de setembro, e-mails com ameaças de morte e violência sexual. As mensagens tinham conteúdo misógino e LGBTfóbico e chegaram a mencionar “estupro corretivo”. Também foram enviados dados pessoais da parlamentar e de familiares.

As ameaças não ficaram apenas em referências genéricas à violência. Segundo as informações divulgadas sobre o caso, havia descrição de crimes e até indicação de uma suposta data para que a violência fosse praticada.

A Polícia Civil foi acionada, o caso chegou à Ouvidoria da Mulher do Tribunal Regional Eleitoral e o Ministério Público Eleitoral encaminhou a denúncia à Polícia Federal.

Apesar das ameaças, Brisa informou que seguirá normalmente com suas atividades parlamentares e com a campanha, adotando reforço nas medidas de segurança.

Natália tem dados da família expostos em ameaça

Poucos dias depois da denúncia de Brisa, a deputada federal Natália Bonavides, candidata à reeleição, também tornou pública uma grave ameaça.

Um e-mail enviado por meio de uma conta criptografada fazia referências a estupro e esquartejamento da parlamentar. A mensagem também continha informações pessoais, CPFs e endereços de pessoas ligadas à família da deputada.

O remetente se apresentou como integrante de uma denominada “Sociedade Secreta Carbonária” e fez referências à Ku Klux Klan. A autoria da mensagem e a existência de eventual vínculo entre os diferentes episódios ainda dependem de investigação.

A equipe de Natália acionou a Polícia Civil, a Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados e o Ministério Público Eleitoral.

Até agora, não há elemento público que permita afirmar que as ameaças sofridas por Brisa e Natália tenham partido da mesma pessoa ou façam parte de uma ação coordenada. A semelhança no teor e a proximidade temporal dos episódios, no entanto, ampliaram a preocupação em torno da segurança das candidatas.

Juliana volta a ser atacada pela violência que sofreu

Candidata a deputada estadual, Juliana Garcia precisou restringir os comentários em suas redes sociais diante da escalada dos ataques.

Sobrevivente da tentativa de feminicídio que ganhou repercussão nacional após ser agredida com 61 socos pelo então namorado dentro de um elevador em Natal, Juliana passou a receber mensagens celebrando a agressão e lamentando que ela tenha sobrevivido.

Entre os comentários denunciados pela candidata estavam mensagens perguntando se ela havia “ficado viva”, referências ao agressor e manifestações dizendo que os socos sofridos por ela teriam sido insuficientes.

A violência não começou agora. Quando anunciou sua filiação ao PT, em maio, Juliana recebeu uma mensagem afirmando que deveria levar o dobro de socos para “ficar sem a cabeça”, acompanhada de um insulto relacionado à sua opção partidária. Na ocasião, ela anunciou que buscaria responsabilizar judicialmente o autor.

O que era uma violência praticada contra uma mulher passou também a ser utilizado como instrumento de intimidação contra uma mulher que entrou na política.