Enquanto o debate sobre os riscos financeiros e sociais das apostas online ganhou força durante a Copa do Mundo de 2026, as empresas do setor ampliaram sua presença para além das transmissões esportivas. Palcos, telões, camarotes, festas juninas e grandes eventos de forró passaram a integrar as estratégias de divulgação dessas marcas.
Nas festas populares, a presença das bets ocorre em eventos que, embora recebam patrocínios privados, também são financiados por prefeituras e governos estaduais. Além de estamparem suas marcas nos espaços das festas, algumas empresas mantêm contratos comerciais com artistas, produtoras e personalidades que figuram entre os maiores beneficiários de cachês públicos.
Esse cruzamento entre dinheiro público, entretenimento e apostas é um dos focos do relatório “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio”, publicado pelo observatório De Olho nos Ruralistas.
O estudo foi produzido a partir da análise de mais de 20 mil contratos e considera as contratações firmadas entre janeiro de 2024 e 31 de março de 2026. O chamado “top 40” não representa necessariamente os artistas com maior número de apresentações, mas o grupo formado por 40 nomes que receberam, individualmente, mais de R$ 50 milhões em contratos com prefeituras e governos estaduais. Juntos, eles acumularam R$ 3,08 bilhões no período.
Mossoró lidera ranking dos eventos patrocinados por bets
Entre os 74 eventos patrocinados por casas de apostas em 44 municípios analisados pelo relatório, o Mossoró Cidade Junina de 2025 aparece com o maior volume individual de cachês públicos pagos a artistas do top 40.
Naquela edição, os contratos com artistas integrantes do grupo somaram R$ 12,874 milhões, colocando o MCJ no topo do levantamento. Veja

A edição de 2024, denominada no relatório como “São João de Mossoró”, aparece com outros R$ 6,830 milhões. Somadas, as duas edições alcançaram R$ 19,704 milhões em cachês pagos pelo poder público a artistas do top 40 durante eventos patrocinados pela VaideBet.
O valor corresponde a aproximadamente 5,8% dos R$ 342 milhões que prefeituras e governos estaduais destinaram a esse grupo de artistas nos eventos patrocinados por bets mapeados pelo estudo.
É importante destacar que os R$ 19,704 milhões não representam o valor recebido pela VaideBet nem o montante investido pela empresa no patrocínio do MCJ. Não foi possível, através dos documentos oficiais pesquisados, desvelar quanto a casa de apostas injetou nas festas de Mossoró.
Bets avançam sobre as festas de forró
O relatório descreve uma presença cada vez mais intensa das empresas de apostas nas festas populares. A expansão ocorre em um mercado musical fortemente marcado por ritmos nordestinos. Forró, piseiro, brega e arrocha aparecem no levantamento como gêneros centrais no circuito dos shows financiados pelo poder público.
Entre os dez artistas que mais realizaram apresentações públicas no período, todos haviam divulgado empresas de apostas. Sete deles eram apresentados pelas próprias plataformas como “embaixadores” das marcas.
Em Mossoró, a VaideBet patrocinou as duas edições analisadas pelo documento. Durante a realização dos eventos a cidade recebeu inúmeras propagandas da Vai de Bet, inclusive estampando a ornamentação do camarote oficial do MCJ. Outro momento que chamou a atenção foi a projeção da marca no céu, utilizando tecnologia com drones. A reportagem também identificou algo ainda mais grave. Foram realizadas várias publicações promocionais da empresa nos canais oficiais do Mossoró Cidade Junina (que é gerenciado pela Prefeitura de Mossoró) no Instagram e facebook. Veja



Show de Xand Avião gerou investigação eleitoral
O relatório também menciona a relação entre grandes apresentações musicais e a promoção de agentes políticos. Um dos casos destacados ocorreu no Pingo da Mei Dia, abertura do Mossoró Cidade Junina, em 7 de junho de 2025.
Durante a apresentação, Xand Avião perguntou ao público quem gostaria de ver o então prefeito Allyson Bezerra como governador do Rio Grande do Norte. O contrato oficial publicado no Diário Oficial de Mossoró mostra que o artista recebeu R$ 700 mil pela apresentação, por meio da empresa Alic Participações e Entretenimentos Ltda.
O episódio levou o Ministério Público do Rio Grande do Norte a instaurar uma Notícia de Fato para apurar uma possível propaganda eleitoral antecipada patrocinada com recursos públicos. Posteriormente, o procedimento foi remetido à Procuradoria Regional Eleitoral, diante da competência para analisar possíveis irregularidades relacionadas à disputa estadual.
Em nota divulgada à época, Xand Avião negou ter cometido infração eleitoral. A defesa do cantor afirmou que a declaração ocorreu em tom de descontração e sem intenção de interferir na preferência política do público.
Patrocínio nas festas multiplicou lucro das bets
O De Olho nos Ruralistas também cruzou informações dos 44 municípios que receberam eventos patrocinados por bets com dados do Sistema de Gestão de Apostas, o Sigap, mantido pelo Ministério da Fazenda.
O Sigap é utilizado para o monitoramento e a fiscalização do mercado regulado de apostas de quota fixa no país.
Entre janeiro de 2025 e abril de 2026, o volume apostado nos municípios analisados foi equivalente a uma média de R$ 1.690 por habitante, diante de R$ 1.051 por habitante na média dos municípios brasileiros — uma diferença de 61%.
A frequência também foi superior: foram registradas, em média, 31,5 apostas por habitante nas cidades que sediaram os eventos patrocinados, contra 20,3 apostas por habitante na média nacional.
