Por Thiago Medeiros*
A eleição presidencial de 2022, ao que tudo indica, será marcada por uma forte polarização. Apesar da grande e assertiva frase do ex-governador de Minas, José Magalhães Pinto, “a política é como nuvem, você olha, ela está de um jeito, olha de novo e ela já mudou”, em 2022 parece que as nuvens estão carregadas de água pesada, pouco se movem em relação aos principais atores, Lula e Bolsonaro.
Para não me desviar muito do objetivo deste artigo, focarei numa frase-ação dita pelo atual presidente em um dos seus discursos inflamados para sua base fanática. A magia dos discursos político é fantástica, eles mobilizam o imaginário político e vão direto no coração da militância, nesse caso a bolsonarista.
O Messias parece apostar novamente na tônica de 2018, isto é, ao levar a disputa para o campo moral e religioso. Ao falar que a eleição de 2022 será marcada pela disputa entre o bem e o mal, Bolsonaro acerta ao mobilizar seus principais núcleos de apoio, os mais radicais. Porém, o que pouca gente percebe é o mal que isso traz para nossa democracia.
Vou explicar melhor. Primeiro, vou fazer uma pausa no presente e levar você leitor ao passado, à época da luz, o iluminismo. Éramos, antes dele, marcados pelo instinto básico humano, sem instituições sólidas e, claro, sem um caráter científico marcado por métodos e pela razão.
O princípio iluminista de que podemos aplicar a razão e a solidariedade para aprimorar o desenvolvimento humano pode parecer óbvio, banal, antiquado. Mas ele cria uma camada necessária e importante de proteção aos nossos instintos básicos, que mais se parecem com um animal irracional, marcado principalmente pelo ódio, pela individualidade.
Ao falar sobre bem e mal, Bolsonaro, e outros populistas que se aproveitam da população, querem exatamente romper com essa evolução e tornar a sociedade uma massa em condições primitivas que prefere emplacar e viver numa distopia infernal. Esse estado primitivo é marcado, de acordo o psicólogo de Harvard, Steven Pinker, pela lealdade à tribo, acato à autoridade, pensamento mágico, atribuição de infortúnio e elementos malfazejos.
Vejam que esta análise cabe perfeitamente ao bolsonarismo, ou seja, o respeito e a solidez das instituições trazidas deste. Por sua vez, o iluminismo é marcado pelo ceticismo deste grupo, que age de forma primitiva, deixando quase sempre de lado a razão. Este é um perigo real para nossa democracia. Este debate não agrega e somente favorece à condução de uma política que age na escuridão da evolução. Vejam o caso emblemático da pandemia, e como este grupo agiu de forma desconectada com a razão, inclusive deixando claro uma marca do ser primitivo: não aceitar o diálogo, preferindo o embate a briga para impor o pensamento da tribo.
Como diria Immanuel Kant, o iluminismo é a saída do ser humano da menoridade de que ele próprio é culpado, de sua submissão preguiçosa e covarde aos dogmas e fórmulas da autoridade religiosa e política. Ousem a entender o que se passa em nosso país, para não ser capturado pelo sugador que nos leva a menoridade enquanto sociedade.
Movimentos como o que acontece no Brasil estão presentes em todo o mundo. Segundo Pinker, esses movimentos foram favorecidos por uma narrativa compartilhada por muitos de seus mais ferrenhos opositores: a de que as instituições da modernidade fracassaram e todos os aspectos da vida estão em crise, e que destruir essas instituições e resgatar valores irá tornar um mundo um lugar melhor. Regredir para tomada de decisão baseada apenas nos instintos primitivos poderá significar uma alternativa perigosa para nosso futuro, precisamos intervir nesse processo trazendo luz à escuridão.
*É publicitário e sociólogo.
Este texto não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema. Envie para o barreto269@hotmail.com e bruno.269@gmail.com.
