Por Assis de Mestre Chico. Natal, 2025
O provincianismo tacanho tem seus atores centrais, que pode ser o estúpido arrogante, mesmo que esteja pincelado na superfície por tintas de ilustração, o pedante copista, o intelectual livresco e até mesmo os de reconhecida erudição, mas com mentalidade estratificada, engessada. E comumente, para autopromoção, autoproteção e sobrevivência, engendram as conhecidas panelinhas.
Um aspecto de contradição aparente desses atores é o cultivo concomitante do provincianismo com a necessidade de afirmação da hodiernidade, mesmo que para isso sejam levados a olvidar, e mesmo destruir, os registros memoriais da trajetória, da história do lugar. E onde mais facilmente pode-se observar o fenômeno é nas manifestações materiais do espaço urbano.
Uma cidade exibe nos seus monumentos, no casario, na arquitetura de suas construções surgidas ao longo do tempo, vestígios de elementos constitutivos de sua trajetória, deixando entrever aspectos, momentos e matizes de sua história, de marcas e marcos de sua identidade. Sim, cidades e territórios têm identidades que os diferenciam, que os tornam singulares.
Por ser material, este é o aspecto mais palpável e visível da ação deletéria promovida por tal mentalidade, essas ações estão entrelaçadas com interesses legítimos e com interesses obscuros. Se se destrói o patrimônio antigo, aqueles que são registros realmente relevantes e significativos em diversos sentidos, elos que compõem a trama são rompidos. E alguns desses patrimônios são mais vulneráveis a especulação, atrapalham os “negócios”, por motivos outros “indecifráveis” à razão, ou que não correspondem a ideia de “moderno” desses agentes do provincianismo. Se não se destrói, promove-se um apagamento deliberado e sistemático dos registros memoriais, conforme os desejos e interesses dos alcaides de plantão, seus compadres e acólitos. Nesse processo nem o moderno escapa.
Foi assim que, nesta cidade dos Reis Magos, o então nomeado prefeito Vauban Bezerra fez desaparecer a galeria de arte na Praça André de Albuquerque, na qual havia um painel de Newton Navarro na parede longitudinal. E com ela foram suprimidas a concha acústica, sua biblioteca e a fonte luminosa ali existentes, que haviam sido construídas na administração do prefeito Djalma Maranhão.
Ou como recentemente, por justificativas e motivos diversos dos que moveram Vauban Bezerra, foi a vez de ir ao chão o Hotel dos Reis Magos, um marco da arquitetura moderna em Natal, construído na gestão de Aluísio Alves, tendo como principal patrono da ação demolidora o antecessor do atual prefeito. Para isso, a principal estratégia é o abandono, aplicada pelo reles cálculo de usurários e oportunistas, o que não é privilégio desta província.
São apenas dois exemplos de fácil compreensão das ações e mentalidade dessa gente. E continuam incólumes na sua jornada, ladeados por um séquito lesto e satisfeito, importunados apenas pela luta inglória de quixotes por suas dulcineias, suas cidades e territórios, esses quixotes que são incômodos exemplares de resistência.
E mesmo quando essas testemunhas do tempo e da história não são destruídas, tais testemunhas podem ser, e são, encobertas pelo véu da mentalidade provinciana, ou sobrevivem somente num rosto sem alma e sem o espírito do tempo, ou, ainda, esses patrimônios são descaracterizados pelos adereços da tendência imitativa do circunstancial, dos modismos efêmeros, do desejo patético em reproduções cafonas do “moderno”. E o moderno dos copiadores provincianos tem como referência arranha-céus, concreto e espelhos, cujo modelo mais acabado é vislumbrado em Dubai.
Mas essa mesma elite provinciana que se deslumbra com espelhos, neon e quinquilharias da velha e da nova colonização cultural, deleitam-se e exibem-se na Champs-Élysées, no Coliseu, no Chiado ou em Alhambra.
O provincianismo de mãos dadas com o elitismo, com o compadrio, e povoado de arrivistas, manifesta-se em vários outros aspectos, inclusas as instituições culturais e espaços simbólicos nos quais se pode obter reconhecimento e distinção.
Essas ideias me levaram a pensar um lugar imaginário, onde poderia construir uma narrativa metafórica, uma fábula, que pudesse expressar e retratar de alguma maneira esse solilóquio que decidi compartilhar.
O dia que o sapo-boi se tornou imortal
Na província da Salarzilândia
é visível que nas suas cortes
pululam malta de sorrabadores
identificados por suas zumbaias
por futricas, pilhérias, rumores
da gente senhorial. Haja histórias
Não se sabe ao certo o que houvera
na eleição para a cadeira de imortal
no Instituto Provinciano das Coaxadas
se por vaidade uma intanha a comprara
talvez somente a adulação serviçal
Seria, por acaso, cavilação ou caçoada?
Sabia-se que a intanha era iniciante
porém, não mais que em um instante
o primeiro livro é “brilhante”, destarte
a volumosa escrevinhação vira arte
São seus os discursos encadernados
caderno por um imortal prefaciado
tão notável e admirável era o escritor
mesmo que de uma só obra fosse autor
de justificada honraria foi merecedor
No ano em que seria eleito, o louvor
novo livro sai do prelo, surge o historiador
Mas pândegos do vilarejo
que longe estão de ter pejo
dizem à boca pequena
ser livro por encomenda
Espalham aos quatro cantos
os contumazes boquirrotos
sobre a reforma prometida
do Instituto Provinciano
antes da consagração obtida
A saga da intanha, de sua própria autoria
ao sair da Lagoa de Sir Edo, quem diria
que louros da glória na capital alcançaria
e cria para si uma ode, coroa de egolatria
Tornado imortal, e com tanta galhardia
a intanha de tanto orgulho infla o papo
que faz sumir o seu pescoço de sapo
orgulhoso de si, dá de ombros à boataria
E das suas próprias asneiras
orgulhoso, sentindo-se pleno,
como o sapo-boi de Bandeira
fica a coaxar, repetindo sereno
— Não foi! Foi! Não foi! Foi!
Este artigo não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema.
