O volume de recursos injetados nos municípios do Rio Grande do Norte através de emendas parlamentares atingiu patamares históricos entre 2020 e 2025. Um levantamento detalhado do Blog do Barreto, que cruza dados do Tesouro Nacional e do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN), revela que as dez cidades mais beneficiadas concentraram a maior parte de um montante que já ultrapassa a marca de R$ 1,1 bilhão.
A reportagem identificou que a distribuição desses recursos redesenhou as finanças municipais, consolidando Natal e Mossoró como as “capitais das emendas”, enquanto municípios da Região Metropolitana e polos regionais como Caicó e Pau dos Ferros garantiram fatias decisivas para a saúde e infraestrutura.
No topo da pirâmide, Natal isolou-se como a cidade que mais captou recursos, somando R$ 132,7 milhões. A capital potiguar apresenta um perfil de investimento equilibrado: cerca de R$ 58,2 milhões chegaram via “Pix” (transferências especiais), enquanto R$ 74,5 milhões foram carimbados para finalidades tradicionais, como segurança e custeio hospitalar.
Logo atrás, Mossoró rompeu a barreira dos R$ 100 milhões. A capital do Oeste destaca-se pelo alto volume de emendas tradicionais (R$ 68,1 mi), fruto de articulações para o fortalecimento da rede oncológica e obras de infraestrutura urbana que exigem projetos técnicos complexos.
O Fenômeno de São Gonçalo do Amarante
Um dos dados mais expressivos do levantamento é a situação de São Gonçalo do Amarante. O município ocupa a 4ª posição geral com R$ 46,6 milhões, mas chama a atenção pela modalidade: 60% de seus recursos federais chegaram via “Pix”.
Essa estratégia é reflexo direto da atuação de parlamentares como a senadora Zenaide Maia (PSD) e o deputado João Maia, que possuem base eleitoral no município. A preferência pelo Pix permitiu a execução rápida de obras, mas agora coloca a gestão sob a lupa do TCE-RN, que exige a rastreabilidade rigorosa desses valores.
Ranking Geral: Top 10 Cidades (Soma Total 2020-2025)
| Posição | Município | Soma Total (Pix + Tradicional) | Perfil do Investimento |
| 1º | Natal | R$ 132,7 Milhões | Equilíbrio entre Pix e Saúde |
| 2º | Mossoró | R$ 100,6 Milhões | Foco em Saúde Oncológica |
| 3º | Parnamirim | R$ 57,6 Milhões | Educação e Saneamento |
| 4º | Macaíba | R$ 46,8 Milhões | Infraestrutura e Saúde |
| 5º | São Gonçalo do Amarante | R$ 46,6 Milhões | Recordista Proporcional em Pix |
| 6º | Caicó | R$ 45,4 Milhões | Reforma Hospitalar (Seridó) |
| 7º | Pau dos Ferros | R$ 31,5 Milhões | Polo de Saúde do Alto Oeste |
| 8º | Currais Novos | R$ 26,6 Milhões | Infraestrutura Hídrica |
| 9º | Nova Cruz | R$ 23,0 Milhões | Segurança e Assistência |
| 10º | João Câmara | R$ 21,0 Milhões | Desenvolvimento Regional |
A Lupa do TCE-RN
O alto volume concentrado nessas dez cidades motivou o Tribunal de Contas do Rio Grande do Norte a endurecer as regras de fiscalização. Com a Resolução nº 034/2025, o TCE-RN encerra o ciclo de liberdade total sobre as emendas Pix.
A partir de 2026, as prefeituras devem apresentar o Plano de Trabalho detalhado de cada centavo recebido sem carimbo. O objetivo é garantir que o dinheiro tenha sido transformado em asfalto, remédios e serviços, e não apenas utilizado para cobrir rombos de folha de pagamento, prática que agora está expressamente proibida.
Para os gestores dos municípios do topo do ranking, o desafio será provar que o “bilhão” enviado pela bancada federal resultou em melhoria efetiva da qualidade de vida para a população potiguar.