O “governo tampão” e a estabilidade

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Por Thiago Medeiros*

Começa a ganhar forma, nos bastidores da política potiguar, um processo que vem sendo chamado de “governo tampão”. A expressão nasce de um cenário hoje considerado o mais provável: a renúncia da governadora Fátima Bezerra para disputar o Senado em 2026 e a também provável renúncia do vice-governador Walter Alves, que pretende disputar outro cargo.

Antes de tudo, é preciso recolocar esse debate no seu eixo correto: o institucional. A chapa Fátima-Walter foi eleita para governar o Rio Grande do Norte durante todo o mandato, inclusive ao longo de 2026. É legítimo que a governadora renuncie para disputar outro cargo. Em condições normais, caberia ao vice assumir. A excepcionalidade surge quando essa segunda etapa também não se concretiza.

Dado esse fato, sem entrar no mérito das decisões políticas/pessoais, o Estado pode ser levado a uma solução igualmente excepcional: um governo de transição eleito através de uma eleição indireta feita pela Assembleia Legislativa. E é exatamente aí que mora o principal risco: tratar esse processo como se fosse uma disputa eleitoral tradicional, com polarização, palanques improvisados e clima de confronto.

Esse “novo governo” não pode nascer com vocação de ruptura. Sua missão central precisa ser a continuidade administrativa e a garantia da estabilidade institucional. O que está em jogo não é inaugurar um novo projeto de poder, mas assegurar que o Estado continue funcionando sem sobressaltos.

É evidente que a oposição não vai simplesmente “aceitar” esse arranjo. Seria ingênuo imaginar isso. Ao contrário: é dada a ela uma oportunidade concreta de tentar ganhar vantagem sobre o pleito de 2026. Isso faz parte do jogo político. O ponto central é outro: transformar esse curto período numa arena permanente de conflito pode gerar um custo alto demais para o Estado.

Se entrarmos nesses meses finais sob um clima de rivalidade aberta, corre-se o risco de criar descontinuidades administrativas sem sequer haver tempo hábil para avaliar os efeitos de qualquer mudança. O prejuízo pode ser direto na prestação de serviços públicos e no funcionamento da máquina estadual.

Por isso, mais do que nunca, será necessário combinar disputa com responsabilidade. Mesmo a oposição, individualmente ou institucionalmente, precisará refletir sobre a conveniência de dialogar em torno de uma agenda mínima de estabilidade. O mesmo vale para o governo: é preciso compreender que a base “governista”, em contexto eleitoral, passa a se comportar de forma diferente do período em que votava majoritariamente por alinhamento político à gestão.

O desenho atual da Assembleia e o cenário de 2026, com pelo menos três candidaturas competitivas ao governo, mostram que transformar essa escolha numa prévia eleitoral é um erro estratégico.

O grande desafio da governadora Fátima Bezerra será alinhar a necessidade de estabilidade com as pressões inevitáveis da política eleitoral. Como diz o ditado, a diferença entre o remédio e o veneno é a dose. Neste caso, errar a mão pode custar caro, não a um grupo político, mas ao próprio Rio Grande do Norte.

*É Sociólogo.

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