Por Marcelo Alves Dias de Souza*
Já disse aqui algumas vezes que é meu costume, antes de viajar para o exterior, ler um livro cuja história/estória esteja ambientada na cidade/país para onde eu vou. É muito bom, asseguro.
Não seria diferente neste verão, já que tinha/tenho uma viagem programada, para o período do Carnaval, com destino ao Marrocos. Portanto, em janeiro, fui para Pirangi/RN misturado na seguinte lógica: litoral, praia e calor. Marrocos: litoral, praia, deserto e, talvez, até mais calor. Mas não achei o livro ideal sobre o Marrocos. Então, escolhi um livro ambientado na Argélia. São países alegadamente com geografia e urbanização comuns, litorâneos, vizinhos, calorentos, ali no Magrebe africano. O livro escolhido: “La peste” (1947), de Albert Camus (1913-1960), nesse caso com o adendo de ser uma edição em francês (edição de poche da coleção “Folio” da editora Gallimard, 2003), o que, de quebra, ajudaria na proficiência desse idioma ainda falado por aquelas bandas. Daria certo. Afinal, como consta do primeiro parágrafo deste clássico de Camus: “Os curiosos acontecimentos que são o tema desta crônica ocorreram em 194., em Oran. (…) À primeira vista, Oran é, crucial que se diga, uma cidade comum, nada mais que uma administração francesa no litoral argelino”.
“A peste”, rivalizando com “O estrangeiro” (1942), é o mais badalado romance de Albert Camus. É muito provavelmente o mais célebre romance sobre “epidemias”. O título ajuda bastante, é verdade. É impactante. Mas o conteúdo é também excepcional. Em 1940, substituindo os horrores da 2ª Guerra Mundial, uma peste bubônica devasta a cidade de Oran, na costa argelina. A verdadeira Oran foi outrora tomada por outras pragas, a bubônica e a cólera entre elas, mas a narrativa de Camus supera os fatos. Namora com o absurdo. Romance existencialista, é a crônica de uma luta, a dos habitantes da cidade, subjugados pela natureza humana e pelo destino, contra a doença que se torna cada dia mais assustadora. E, claro, há o prestígio do autor. Camus, argelino, órfão de pai, crescido entre o mar e o sol, resistente francês, diretor da revista Combat, filósofo e ficcionista, prêmio Nobel de literatura em 1957 e falecido muito jovem, em 1960, em um acidente de carro tão absurdo como foi sua própria vida. Tudo isso junto faz de “A peste” um clássico das letras francesa e universal.
Ledo engano. A praia e o calor de Pirangi não estavam propensos à leitura, sobretudo de um livro em francês de um autor existencialista. Cansei nas primeiras páginas. Fui tomar banhos de mar com o pequeno João e, quando podia, “pernas pro ar”, que ninguém é de ferro. No mais, divaguei, xeretei, pensei e me lembrei de Casablanca, a cidade (que seria/será a primeira parada do nosso périplo pelo Marrocos) e, em especial, do filme homônimo. Fui de filme. Ingrid Bergman…
“Casablanca” é considerado um dos melhores filmes de todos os tempos, um clássico do ano de 1942 (direção de Michael Curtiz e vencedor de três Oscars), um drama romântico que busca, em tempos de guerra, traçar a saga dos que tentavam fugir da Europa e África, ocupadas pelos nazistas, para regiões livres do mundo. E talvez nada no filme chame mais atenção do que o fato de a personagem de Humphrey Bogart (Rick) abrir mão do amor de Ingrid Bergman (Ilsa), sob um aparente sentimento patriótico, que ele parecia não possuir. “Sempre teremos Paris”, disse. É um tanto revoltante. Só podiam ser tempos de guerra…
De toda sorte, pesquisando sobre “Casablanca” (o filme), descobri num curioso livro que possuo, “Film Facts” (Aurum Press, 2001), de Patrick Robertson, o seguinte: “Crédito único para uma única versão de Casablanca é o caso da violação de Copyright por João Luiz Albuquerque. O dito cineasta brasileiro recortou o filme para uma exibição privada no antigo ‘FestRio’. Na célebre cena do aeroporto, Ingrid Bergman não toma o avião que deixa Casablanca e, sim, volta para os braços de Humphrey Bogart”.
Bom, assim irei ao Rick’s Cafe Americain de Casablanca na (vã) esperança de que despedidas eternas nunca mais aconteçam.
*É Procurador Regional da República, Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL.
Este artigo não representa necessariamente a mesma opinião do blog. Se não concorda faça um rebatendo que publicaremos como uma segunda opinião sobre o tema.
